A Associação Meditar é uma sociedade civil com personalidade jurídica, sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne sempre no Espaço Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

(Atenção!!! - Em Julho, no período de recesso, estaremos com outro local de prática! O endereço é na Rua Professora Neuza Lula Rodrigues, n. 150, Casa 11 - Resid. Canachuê - B. Jardim Santa Amália.) Sempre aos sábados, das 07h às 08h! Informações: (65) 9.8143-4379 - Ivan.

quarta-feira, 31 de março de 2010

A Medicina do Altruísmo

S.S o 14º Dalai Lama

No Tibet nós dizemos que muitas doenças podem ser curadas pela medicina do amor e da compaixão. O amor e a compaixão são a base estrutural da felicidade humana e a sua necessidade se encontra no núcleo de nosso ser. Infelizmente há muito tempo o amor e a compaixão vêm sendo omitidos das esferas de interação social. Atualmente estes valores são vividos na família e no lar, e seu uso na vida pública é considerado impraticável e até ingênuo. Isto é trágico. No meu ponto de vista, a prática da compaixão não é simplesmente um sintoma de idealismo não realista, mas o caminho mais eficiente de dedicar-se com afinco aos interesses dos outros do mesmo modo como nos dedicamos aos nossos. Quanto mais nós — como uma nação, um grupo ou indivíduos — dependermos um dos outros, maior deverá ser o interesse em assegurarmos o bem estar uns dos outros.
Praticar o altruísmo é a real fonte de compromisso e cooperação; somente reconhecer a nossa necessidade de harmonia não é o suficiente. Uma mente comprometida com a compaixão é como um reservatório que está transbordando — é uma fonte constante de energia, determinação e bondade. É como uma semente; quando cultivada germina muitas outras boas qualidades, tais como o perdão, a tolerância, a força interna e a confiança para superar o medo e a insegurança. A mente de compaixão é como um elixir; é capaz de transformar uma má situação em uma situação benéfica. Conseqüentemente, nós não devemos limitar nossa expressão de amor e compaixão à nossa família e amigos. A compaixão não é somente uma responsabilidade do sacerdócio, da medicina e de trabalhadores sociais. É o empreendimento necessário em todas as esferas da comunidade humana.
Se um conflito se encontra no campo da política, negócios ou religião, a abordagem altruísta é freqüentemente o único meio de resolvê-lo. Às vezes os muitos conceitos que usamos para mediar uma disputa são os mesmos que causaram o problema. Nesse caso, quando uma resolução parece ser impossível, ambos os lados deveriam recordar da natureza humana básica que as une. Isto ajudará a quebrar o impasse e em longo prazo, ficará mais fácil para que todos alcancem seu objetivo. Embora nenhum lado possa ficar inteiramente satisfeito, se ambos fizerem concessões, no mínimo, o perigo de um conflito adicional estará prevenido. Nós sabemos que esta forma de acordo é a maneira mais eficaz de resolver problemas — por que, então, nós não a usamos mais freqüentemente?
Quando eu levo em consideração a falta da cooperação na sociedade humana, eu concluo que ela se origina na ignorância de nossa natureza interdependente. Eu sou freqüentemente comovido pelo exemplo dos pequenos insetos, como as abelhas. A lei da natureza dita que as abelhas trabalhem juntas a fim de sobreviver. Como conseqüência, elas possuem um sentido instintivo de responsabilidade social. Elas não têm nenhuma constituição, leis, polícia, religião ou treinamento moral, mas por causa de sua natureza trabalham fielmente juntas. Ocasionalmente elas lutam, mas no geral a colônia inteira sobrevive baseada na cooperação. Os seres humanos, ao contrário, têm constituições, amplos sistemas legais e forças policiais; nós temos religião, uma inteligência notável e um coração com grande capacidade de amar. Mas apesar de termos muitas qualidades extraordinárias, na prática ficamos para trás em relação àqueles insetos pequenos; de alguma forma, eu sinto que nós somos mais pobres do que as abelhas.
Por exemplo, milhões de pessoas vivem juntas em cidades grandes por todo o mundo, mas apesar desta proximidade muitos são sós. Alguns não têm nem mesmo um ser humano com quem compartilhar seus sentimentos mais profundos e vivem em um estado de perturbação perpétua. Isto é muito triste. Nós não somos animais solitários que nos envolvemos com alguém somente a fim de se reproduzir. Se fôssemos, por que construiríamos centros e cidades grandes? Mas mesmo sendo animais sociais obrigados a viver juntos, infelizmente nos falta o sentido de responsabilidade com nossos companheiros seres humanos. Será que a falha se encontra em nossa arquitetura social — a estrutura básica da família e da comunidade em que se baseiam nossa sociedade? Será que a falha está em nossas facilidades exteriores — nossas máquinas, ciência e tecnologia? Eu acho que não.
Eu acredito que apesar dos rápidos avanços feitos pela civilização neste século, a causa mais próxima de nosso dilema atual é a nossa ênfase excessiva no desenvolvimento material. Nós tornamo-nos tão absortos em sua perseguição que, mesmo sem saber, nós negligenciamos o desenvolvimento das necessidades humanas mais básicas de amor, da bondade, da cooperação e do afeto. Se não conhecemos alguém ou não nos sentimos conectados a um indivíduo ou grupo particular, nós simplesmente os ignoramos. Mas o desenvolvimento da sociedade humana é completamente baseado nas pessoas que se ajudam. Uma vez que perdemos a essência da nossa humanidade, ficamos destinados a perseguir somente o desenvolvimento material.
Para mim, está claro: um verdadeiro sentimento de responsabilidade pode originar-se somente se nós desenvolvermos a compaixão. Somente um sentimento espontâneo de empatia pelos outros pode realmente nos motivar para agirmos em favor dos interesses deles.
(Traduzido por Thilie Busato Sproesser e revisado por Sheila Busato.)

domingo, 28 de março de 2010

Cura e sanidade


Ênio Burgos

“Nós adoecemos, porque perdemos contato com a sanidade que reside no fundo de nosso coração”

O homem, essa incógnita, esse ser inefável e surpreendente, quase inescrutável... Um andarilho, um desbravador, um conquistador incansável de tantos caminhos. Nas suas andanças, escalou as montanhas e picos mais elevados da terra, navegou os sete mares, voou horizontes sem fim e penetrou até as mais densas florestas. No mundo, praticamente não há lugar onde seus pés não tenham pisado. Palmilhou cada trilha, cada canto enfim, seguiu por cada uma das direções das rosas dos ventos.
Nas últimas décadas, esse mesmo homem tem sido capaz de façanhas inimagináveis. Continua com engenho, inteligência e astúcia aperfeiçoou máquinas, criou aparelhos incríveis, produziu avanços tecnológicos que associados ao computador e à Internet, espalham-se agora por todas as áreas de atividade e conhecimento humano.
A velocidade com que o homem cria, inventa e executa seus desejos é cada vez mais alucinante. As transformações que sofremos na vida e no mundo em que vivemos são tão vertiginosas que, alguma vezes, chegam a ser difíceis de assimilar.
Talvez um dos marcos mais representativos dessa pujança tenha sido a chamada “conquista espacial”. Além da atmosfera terrestre, para dentro da imensa negritude cósmica o ser humano enviou naves tripuladas capazes de ir e voltar do espaço sideral, o andarilho, com pompa e orgulho, finalmente conseguiu tocar na lua e passear em sua superfície. Depois disso, o céu nunca mais foi o mesmo. Satélites foliados a ouro proliferam girando ao redor da terra e transmitindo dados que revolucionam as telecomunicações. Sondas interplanetárias partem em missões exploradoras para além do nosso sistema solar. Rádios telescópios, gigantescas antenas parabólicas apontadas para o céu, esquadrinham e vasculham os limites do universo recolhendo quantidades literalmente astronômicas de sinais e informações que mau damos conta de processar. Descobrimos mais planetas, estrelas, constelações, aglomerados, galáxias e novos corpos celestes. Alguns deles são objetos tão estranhos, que desafiam todo gênio das teorias vigentes.
Ao mesmo tempo em que se detinha a desbravar o macro-cosmos, o olhar humano também penetrou profundamente a estrutura da matéria. No micro-cosmo, no mundo “infinitamente pequeno” do átomo, encontramos um igualmente espantoso universo formado de partículas subatômicas. Ali, aprendemos a dominar a mesma energia nuclear que acende e faz brilhar as estrelas que, fascinados, apontamos no firmamento.
Ultimamente, esse movimento “centrífugo”, sempre interessado na investigação dos fenômenos e objetos externos, parece ter adquirido vida própria, com uma força inercial irresistível e crescente, como se não fosse mais possível ao homem para e retroceder... O caminhante, o peregrino de infinitos crepúsculos e alvoradas, eterno amante da natureza, do sol, da lua, e das madrugadas ao relento, agora quase nem caminha mais, pois agregou desmedida pressa ao seu andar... Fazendo uso de veículos de toda sorte, estamos já esquecendo das maravilhas ancestrais e atávicas (pois meio-corpo nosso é perna!) que milenarmente vivenciamos ao trilhar campos e picadas... Não é a toa que um escritor brasileiro ganhou fama mundial ao resgatar ensinamentos e falar de velhos e empoeirados caminhos, percorridos a pé.
Todavia, toda essa inquietação e busca exterior gera um questionamento, no mínimo, óbvio. Qualquer um de nós, olhando sobriamente para isso, dever estar se perguntando: Mas, afinal, onde quer chegar o homem? O que motiva tamanho espírito aventureiro? Qual tesouro o espera? O que tanto procura? O que realmente pretende e anseia encontrar lá fora? Também poderíamos nos perguntar: Será que o homem realmente sabe para onde vai? Sabe o que está fazendo?
O homem é um ser assombrado, estupefato, diante da imensidão do cosmos e da paisagem exterior que se revela a cada passo. Quanto mais lhe descortina, deslumbra e admira com seus potentes instrumentos de observação, mais adquire consciência de sua própria finitude... mais se sente apequenado, insignificante, pueril, desamparado, e só. Bem no fundo, o homem é ainda um ser em busca de si mesmo.
(Texto extraído do livro Medicina Interior – a Medicina do Coração e da Mente – Ênio Burgos / Editora Bodigaya, 2003- www.bodigaya.com.br)

sábado, 27 de março de 2010

Parinirvana

Monja Coen

Buda deitou-se entre duas árvores de troncos esbranquiçados. Lua cheia. Noite na mata estranhamente silenciosa. Ananda, seu atendente de tantos anos, lamentava-se pela despedida a seu mestre.
Ananda não estava só. Um grande número de discípulos, discípulas, monásticos e laicos cercavam seu leito de folhas. Dizem que até mesmo animais, feras e pequenos bichinhos, todos vieram se despedir de Buda em seus momentos finais.
Sereno, fez seu último ensinamento. Estava quase entrando no Parinirvana.
Não dizemos que um Buda morre. Budas entram no Parinirvana. Adentram a grande tranquilidade. Segundo pesquisadores japoneses, comparando calendários, cenários, datas, chegaram a conclusão que teria sido no dia 15 de fevereiro, cerca de dois mil e seiscentos anos atrás, quando Xaquiamuni Buda entrou em Parinirvana, em Kushinagara, ao norte da Índia.
Cito abaixo alguns trechos das palavras de despedida de Buda.
A mente desonesta é incompatível com o Caminho. Por esta razão devem cultivar a honestidade.
A pessoa de muitos desejos, que procura grandiosidde apenas para si mesma, sofre muito.
Uma pessoa de poucos desejos não manipula a mente dos outros através da desonestidade. A mente de quem tem poucos desejos é tranquila e sem preocupações.
Para se libertar de todo o sofrimento é preciso conhecer o contentamento. O contentamento é a condição da prosperidade e do bem estar.
Sintam prazer na quietude e na tranquilidade. As pessoas ávidas por companhiam sofrem dificuldades por excesso de companhia, assim como uma árvore corre o risco de murchar se muitos pássaros viverem nela.
Mantenham o esforço correto, a diligência, assim como o constante gotejar da água fura uma rocha.
Não percam a atenção correta ao procurar por um mestre ou um amigo. Se perderem a atenção correta, as paixões poderão entrar e perderão todos os méritos.
A mente devem estar concentrada, capaz de compreender o surgir e o desaparecer de todas as coisas no mundo.
Se tiverem sabedoria não terão ganância. Se possuirem o brilho da sabedoria poderão ver claramente, com seus próprios olhos.
Se quiserem obter a benção de Nirvana (paz), devem extinguir o mal de falar à toa. Não se engajem de forma leviana em conversas inúteis. Este é o ensinamento final. Não se lamentem. Não existe encontro sem despedida. Façam da Verdade o seu mestre e eu viverei para sempre.
Hoje, ao celebrar o Parinirvana de Buda deixo a vocês as seguintes questões:
Se voce soubesse que ira morrer em algumas horas, estivesse em plena lucides e cercada/cercado de seus filhos, netos, amigos, alunos, discípulos, parentes, pessoas amadas, colaboradores, o que diria a eles?
Qual é o seu ensinamento final?
Qual a mensagem de sua vida?
Reflita em si mesmo.

Mãos em prece
Monja Coen

quarta-feira, 24 de março de 2010

Prática Semanal


Queridos amigos e amigas da sangha,

lembramos a todos que haverá prática de meditação no próximo sábado, 27.03.10, apartir das 08:00 da manhã, no Espaço Ligia Prieto. Término previsto para as 09:15. Recomendamos aos iniciantes o uso de roupas leves.


Mãos unidas em prece.

Gasshô.

Ivan.
Informações (65)3052-6634 (65)9202-9925

terça-feira, 23 de março de 2010

O Nobre Caminho Óctuplo e os Cinco Poderes


Thich Nhat Hanh

Quando o Buddha tinha 80 anos e estava próximo de seu falecimento, um jovem homem chamado Subhadda veio vê-lo. Ananda, o atendente do Buddha, pensou que seria muito exaustivo para o seu mestre ver alguém, mas o Buddha ouviu o pedido de Subhadda e disse, "Ananda, por favor convide-o para entrar." Mesmo morrendo, o Buddha queria dar uma entrevista.
Subhadda perguntou, "Honrado pelo Mundo, há outros mestres religiosos em Magadha e Koshala totalmente iluminados?" O Buddha sabia ter apenas um curto período de vida e que responder essa questão seria um perda de momentos preciosos. Quando você tiver a oportunidade de perguntar a um mestre sobre o Dharma, pergunte uma questão que possa mudar sua vida.
O Buddha respondeu, "Subhadda, não é importante se eles são totalmente iluminados. A questão é se você quer liberar a você mesmo. Se quiser, pratique o nobre caminho óctuplo. Onde quer que o nobre caminho óctuplo seja praticado, a alegria, a paz e o insight estarão lá". O Buddha ofereceu o caminho óctuplo em seu primeiro sermão, continuou a ensiná-lo por 45 anos e em seu último sermão do Dharma, dito para Subhadda, ele ofereceu o nobre caminho óctuplo — visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, meio de vida correto, esforço correto, atenção correta e concentração correta.
Arya ashtangika marga ("um nobre caminho de oito ramos") sugere a natureza interexistente destes oito elementos do caminho. Cada ramo contém todos os outros sete. Por favor, use sua inteligência para aplicar os elementos dos nobre caminho óctuplo em sua vida diária.
A atenção é a energia que podemos produzir em nossas vidas diárias para trazer nosso paraíso de volta. As cinco faculdades, ou bases (sânsc. indriyani), são as usinas que podem nos ajudar a gerar esta energia em nós mesmos. Os cinco poderes (sânsc. balani) são essa energia em ação. As cinco faculdades e poderes são a fé, a energia, a atenção, a concentração e o insight. Quando praticadas como bases, são como fábricas que produzem eletricidade. Quando praticados como poderes, têm a capacidade de nos trazer todos os elementos do caminho óctuplo, assim como a eletricidade manifesta-se como luz ou calor.
O primeiro dos cinco é a fé (sânsc. shraddha). Quando tempos fé, é desatrelada uma grande energia em nós. Se nossa fé é inconfiável ou falsa em algo, não informada pelo insight, mais cedo ou mais tarde ela nos conduzirá a um estado de dúvida e suspeita. Mas quando nossa fé é feita de insight e compreensão, tocaremos as coisas que são boas, belas e confiáveis. A fé é a confiança que recebemos quando colocamos em prática um ensinamento que nos ajuda a superar as dificuldades e a obter alguma transformação. É como a confiança que um fazendeiro tem em seu modo de fazer crescer as colheitas. Não é uma fé cega. Não é uma crença em um conjunto de idéias ou dogmas.
O segundo poder é a diligência (sânsc. virya), a energia que traz felicidade para a nossa prática. A fé dá nascimento à diligência, e esta diligência continua a fortalecer nossa fé. Animados com esta energia diligente, nos tornamos verdadeiramente vivos. Nossos olhos brilham e nossos passos são sólidos.
O terceiro poder é a atenção (sânsc. smriti). Para olhar profundamente, para ter um insight profundo, usamos a energia da atenção correta. A meditação é uma usina para a atenção. Quando nos sentamos, comemos uma refeição ou lavamos pratos, podemos aprender a ser atentos. A atenção nos permite olhar profundamente e ver o que está acontecendo. A atenção é o arado, a enxada e a fonte d'água que irriga o insight. Somos o jardineiro — arando, semeando e irrigando nossas sementes benéficas.
O quarto poder é a concentração (sânsc. samadhi). Para olhar profundamente e ver claramente, precisamos de concentração, precisamos de concentração. Quando comemos, lavamos pratos, andamos, nos sentamos, deitamos, respiramos ou trabalhamos em atenção, desenvolvemos a concentração. A atenção conduz à concentração, e a concentração conduz ao insight e à fé. Com estas quatro qualidades, nossa vida é preenchida com alegria e com a energia de ser vivo, que é o segundo poder.
O quinto poder é o insight, ou sabedoria (sânsc. prajna), a habilidade de olhar profundamente e ver claramente, e também o entendimento que resulta desta prática. Quando podemos ver claramente, abandonamos o que é falso e nossa fé torna-se a fé correta.
Quando todas as cinco usinas estão trabalhando, produzindo eletricidade, não são mais faculdades apenas. Tornam-se os cinco poderes. Há uma diferença entre produzir algo e ter o poder que ele gerou. Se não houver energia suficiente em nosso corpo e mente, nossas cinco usinas precisam de reparo. Quando nossas usinas funcionam bem, somos capazes de produzir a energia que precisamos para a nossa prática e para a nossa felicidade.
(Thich Nhat Hanh. The heart of the Buddha's teaching - transforming suffering into peace, joy, and liberation:the four noble truths, the noble eightfold path and other basic Buddhist teachings. Broadway Books: New York, 1999)

Conto Zen


Por que palavras?

Um monge aproximou-se de seu mestre — que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da Lua — com uma grande dúvida:
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"
O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"
"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."
"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.
(Enviado por Tam Hao Van para a Lista Chungtao)

domingo, 21 de março de 2010

As Quatro Nobres Verdades


As Quatro Nobres Verdades, de acordo com os textos canônicos, são a Verdade do Sofrimento, a Verdade da Causa do Sofrimento, a Verdade da Extinção do Sofrimento e a Verdade do Caminho de Oito Aspectos para a Extinção do Sofrimento. Nobre aqui é usado com o sentido oposto de comum, ordinário, indicando iluminação supramundama, uma condição transcendendo a existência mundana."A básica doutrina Budista das Quatro Nobres Verdades é completamente lógica: exclui qualquer coisa que seja ilógica. A exclusão do ilógico é característica básica e única do Budismo." (Prof. Mizuno Kogen "Essentials of Buddhism"). O Sutra do Girar a Roda do Darma no Parque dos Cervos, uma das seções do Samyutta-nikaya, é onde as Quatro Nobre Verdades são descritas por Xaquiamuni Buda (cerca do século VII antes de Cristo):"Monges! Nascimento é sofrimento, velhice é sofrimento, doença é sofrimento, morte é sofrimento.""Estar unido ao que se detesta é sofrimento. Separar-se do que se ama é sofrimento. Não se obter o que se deseja é sofrimento. Resumindo, apego aos cinco agregados é sofrimento.""Esta é a Nobre Verdade do Sofrimento.""Monges! É o apego que leva ao renascimento, conectado à alegria e ganância, continuamente encontrando deleite e prazer ora aqui ora ali. É o apego por satisfações sensuais, apego à existência e apego à não-existência.""Esta é a Nobre Verdade da Causa do Sofrimento.""Monges! O apego pode ser afastado e destruído, abandonado e rejeitado. Libertar-se e livrar-se dos apegos (é possível).""Esta é a Nobre Verdade da Extinção do Sofrimento.""Monges! Esta é a Nobre Verdade sobre o Caminho de Exterminar o Sofrimento: ponto de vista correto, pensamento correto, fala correta, ação correta, meio de vida correto, esforço correto, atenção correta e concentração correta."
Sofrimento
A importância da Verdade do Sofrimento (dukkha-satya, dukkha-sacca) é a necessidade primordial de ver a realidade como é. Em termos do absoluto, o relativo é incompleto, repleto de contaminações e sofrimentos. Há oito espécies de sofrimento: nascimento, velhice, doença, morte, contato com o que detestamos, separação do que amamos, objetivos inalcançáveis e o sofrimento inerente ao apego aos cinco agregados (elementos psicofísicos: forma - rupa, sentimentos - vedana, percepção - samjna, sanna, constituintes mentais - samskara, sankhaara e consciência - vijnana, vinnana. Coletivamente são chamados de numa (nome) e rupa (forma). Assim o composto de nome-forma é um sinônimo dos cinco agregados. Tanto os agregados físicos como mentais são caracterizados pela impermanência, sofrimento e não-eu.
Causa do Sofrimento
Na Verdade da Causa do Sofrimento (samudaya-satya, samudaya-sacca) a palavra da Índia traduzida como "causa" significa "vir junto, formar-se conjuntamente e surgir, aparecer". O Sutra considera apego como a causa do sofrimento. Há três tipos de apegos: Apegos sensuais, dos cinco desejos ou seja, dos desejos resultantes dos objetos dos cinco sentidos. Apego mundano. Apego por existência se refere a existência superior, nos níveis celestiais, de renascimento nesses estados. É ainda um aspecto egoista. Apego à não-existência é o desejo pelo nada, como condição de paz interior, considerado egoísta. Alguns traduzem não existência como apego à prosperidade desde que a palavra Vibhara também pode ter esse sentido. Os comentários tradicionais interpretam como não-existência e é nesse sentido que aqui interpretamos. ("Budismo recomenda atividade positiva e uma atitude de não-eu para purificar a sociedade nesta vida." - Prof. Mizuno)
Extinção do Sofrimento
O Sutra define a Verdade da Extinção do Sofrimento (nirodha-satya, nirodha-sacca) como a eliminação dos apegos e o estado de Nirvana. Sutras primitivos descrevem Nirvana como eliminação das máculas, extinção da ganância, raiva e ignorância. Neste contexto a extinção do sofrimento é Nirvana.
O Caminho
A Verdade do Caminho (marga-satya, magga-sacca) se refere á extinção do sofrimento, ao caminho de prática e ao nirvana. Conhecido como O Caminho Nobre de Oito Aspectos ou Oito Passos (arya-astangika-marga, ariya-aatthangika-magga). Embora estudados individualmente cada aspecto faz parte de um todo orgânico e indivisível. Ponto de Vista Correto - sabedoria e compreensão das Quatro Verdades Nobres e da Origem Interdependente. Alguns consideram como Fé Correta, para os de pouca experiência que ainda não adentraram o nível da sabedoria superior. Pensamento Correto - pensamento ou determinação que precede ação ou fala. Para uma pessoa ordenada é a prática do pensamento correto através da mente cada vez mais gentil, compassionada e pura. Para os leigos é pensar corretamente sobre sua situação e agir determinadamente de acordo. Fala Correta - surge do pensamento correto. Não mentir, não usar linguagem pesada, não falar mal dos outros, não caluniar, não falar frivolamente e usar a fala beneficiando a todos e conduzindo à harmonia, pela ternura que nutre a todos os seres. Ação Correta - surge do pensamento correto. Não matar, não roubar, não cometer adultério. É praticar boas ações como a de proteger e cuidar de todos os seres, observando os valores éticos. Meio de Vida Correto - conduta correta na maneira de viver, de se manter, com hábitos regulares e saudáveis de dormir, comer, trabalhar, fazer exercícios, descansar. Viver de maneira a melhorar a saúde, ser mais eficiente e criar harmonia, eficiência e saúde para todos. Ter meios de vida que considerem outros seres, outras formas de vida, o respeito e dignidade próprios e dos outros presentes e passados, as futuras gerações, a sustentabilidade e a melhor qualidade da vida. Esforço Correto - dedicar-se constante e assíduamente ao caminho de obter os ideais de fé religiosa, ética, eduação, política, economia e saúde produzindo e aumentando o que é bom e prevenindo e eliminando o que é mal. Atenção Correta - manter-se atento garante que com a correta consciência e percepção nunca sejam esquecidos os objetivos ideais de fazer o bem a todos os seres. Na vida diária é agir com cuidado e atenção, pois qualquer momento desatento pode causar um desastre. Do ponto de vista Budista tradicional significa manter constante atenção à impermanência, sofrimento, não-eu. Concentração Correta - aqui a referência é aos Dhyanas ou estados meditativos. Manter a mente calma e concentrada para permintir a manifestação da sabedoria completa e verdadeira a partir da qual surgem os pensamentos e ações corretas. Manter a mente clara e brilhante ativa em tranquilidade, tranquila em atividade.
Bibliografia utilizada: Essentials of Buddhism - Basic Terminology and Concepts of Buddhist Philosophy and Practice (Primeira Edição 1996). Autor: Kôgen Mizuno - Autoridade em Budismo Primitivo e Pali, foi Presidente da Universidade de Komazawa, em Tóquio onde ensinava também Budismo. Editora: Kosei Publishing Co, - Tokyo - JapanTradução e Revisão de Monja Coen. Janeiro de 2003.

sábado, 20 de março de 2010

Oração no Budismo


Oração no Budismo

No Budismo, há uma frase "recitando o sutra." Um sutra é um ensinamento do Buda. Algumas vezes nós cantamos sozinhos, às vezes com uma comunidade de praticantes chamada Sangha. Algumas vezes nós recitamos silenciosamente em nosso coração, às vezes para fora. Às vezes nós recitamos com a energia de plena consciência, fé, e compaixão. Às vezes nós recitamos como um papagaio, atento ao som mas sem prestar nossa atenção ao significado das palavras.

Por que nós cantamos sutras? Primeiro para estar em contato com os ensinamentos que o Buda nos deu, estar em contato com o entendimento do Buda. Também recitando nos dá uma oportunidade para regar as sementes do que é bonito, bom, e fresco em nossa própria consciência.

Nós deveríamos recitar o sutra como uma oração? Se nós entendermos a palavra "oração" em seu significado profundo, isto é, oração sendo baseada em nossa prática de plena consciência, e concentração, nós poderíamos dizer que recitar o sutra também é oração.

Além de recitar os sutras, budistas têm também cantos que podem parecer muito com oração. (…) Você poderia chamar este canto de um desejo. Mas o ato de recitar ou cantar ou rezar não é só um desejo vazio se atrás das palavras da oração há uma prática. No Budismo, esta prática é a prática de plena atenção e de manter a concentração nas palavras do sutra. As palavras da oração estão baseadas na força que nós temos em nós mesmos. Quando nós não tivermos a força da prática em nós, então há pouca ou nenhuma força de fora que pode vir para nós.

No canto, "Oferecendo o Mérito para Acabar com Obstáculos do Karma" nós recitamos estas linhas:

Nós juramos acabar com os três obstáculos e transformar as aflições.
Nós juramos perceber a sabedoria que vê as coisas claramente como são.
Que nosso desejo de acabar com estes obstáculos possa ser percebido universalmente.
Por todas as gerações possa ser praticado o caminho de bodhisattva.

Jurar acabar com obstáculos e transformar as aflições é um desejo. Nós trazemos este desejo e dirigimos isto para o Buda, assim ele pode nos ajudar a liberar de aflições e tomar consciência da sabedoria. Mas quando nós recitarmos estas linhas, nós não estamos entregando este desejo ao Buda. Nós estamos juntando nossas forças internas e estamos combinando isto com a força que existe fora de nós.

O canto "Seu Discípulo Se curva em Respeito" simboliza o espírito da oração no Budismo. É uma oração que está baseada em nossa prática, e que depende da nossa própria força como também da força existente fora de nós. Nós sabemos que se a força dentro de nós não existir, então a força fora de nós também não existirá. Aqui é uma estrofe daquele canto:

Seu discípulo para muitas vidas, muitas eras,
Foi pego nos obstáculos de karma, desejo, raiva, arrogância, ignorância, confusão, erros,
E hoje, graças a conhecer o Buda,reconheceu os seus enganos
E sinceramente começa novamente.

Estas palavras são um modo de olhar no espelho para entender a verdade sobre o que aconteceu conosco. O praticante está trazendo a luz de plena consciência para iluminar a própria situação. Cantando, vemos como no passado podemos ter sido inábeis. Por cantar, e graças à luz de compaixão do Buda, nós podemos ver aonde nós cometemos erros. Estamos determinados a não continuar agindo mais da mesma maneira. Nós juramos evitar ações não saudáveis, juramos fazer o que é saudável. Estas palavras nos lembram que nós, depois de aprender os ensinamentos do Buda, podemos aplicar esses ensinamentos em nossas próprias vidas.

Aqui está outro canto que é uma oração tradicional no Vietnã conhecido por até mesmo crianças pequenas:

Confiando no favor do Buda
Cuja compaixão nos protegerá,
Nosso corpo possa não estar doente
E nossa mente não esteja aflita.

Prática, como oração, é para os dois aspectos de vida, nosso corpo e nossa mente, estarem com boa saúde. Por que queremos que nosso corpo não esteja doente e nossa mente não esteja aflita? Não porque queremos correr atrás de nossos desejos sensuais, mas de forma que dia após dia possamos estar contentes praticando o Buddhadharma maravilhoso, e de forma que possamos estar rapidamente livres das amarras do nascimento e morte. Praticamos para que a querida mente tenha insights da verdadeira natureza de coisas e possa liberar todas as espécies de seres vivos. Este é nosso grande voto.

Recentemente, uma praticante veio para Plum Village. Ela estava muito doente com câncer. Monja Chan Khong, um das monjas de Plum Village e uma amiga íntima de muitos anos, falou com esta praticante e descobriu que a avó e avô da mulher tinham vivido até as idades de noventa e quatro e noventa e cinco anos. Assim Monja Chan Khong sugeriu que ela rezasse aos seus avós. "Avô, avó, vem e me ajude". Nós rezamos assim porque em nossos próprios corpos estão os corpos de nossos avôs e avós. Nossos avós podem ter falecido, mas as células saudáveis deles ainda estão presentes em nós e nós podemos chamá-los a vir e nos ajudar. Quando nós chamarmos por nossos avós, vemos claramente que eles e nós somos um.

Outra noite quando eu estava praticando meditação sentada, enviei minha energia a Irmã Darn Nguyen, uma monja que estava muito doente, em Hanói, no Vietnã. Quando nós praticarmos compaixão, quando nós meditarmos com nosso foco em compaixão, então nós praticamos amor. Esta transmissão de energia é uma forma de oração. Irmã Darn Nguyen desfrutou de uma recuperação notável; mas isso não é o único ponto. Quando nosso coração estiver cheio de amor, então nós estamos criando mais amor, paz, e alegria no mundo.

Quando enviarmos a energia de amor e compaixão a outra pessoa, não importa se eles souberem que nós estamos enviando. A coisa importante é que a energia e o coração de amor estão presentes e estão sendo enviados ao mundo. Quando amor e compaixão estão presentes em nós, e os enviamos, então isso verdadeiramente é oração.

Enviando amor, nós poderemos notar uma mudança em nosso próprio coração. Aquela oração começou a ter um resultado dentro de nós. Quando a Irmã Darn Nguyen estava aqui em Plum Village, as outras monjas tomaram conta dela e lhes deram muito amor. Todo aquele amor e energia ainda estão dentro dela e dentro de cada um de nós. Se nós voltarmos a nós mesmos e estivermos em contato com aquela energia, então teremos mais energia para curar o corpo e mente do outro.

Às vezes nós rezamos para a saúde ou felicidade dos outros. Mas às vezes nós simplesmente rezamos para os outros mudarem. Havia uma mulher em Taipei que sofreu grandemente porque o marido dela jogava. Ela era uma budista e diariamente ela ia para o templo e rezava para que o marido deixasse de jogar. Diariamente a relação entre ela e o marido era de grande sofrimento. Ela sentia que estava labutando dia e noite para tomar conta da casa enquanto ele apenas perdia dinheiro e não tinha nenhuma consideração para a esposa e os filhos. Ela não estava pedindo dinheiro, sucesso, ou saúde. Ela apenas rezava para alguém vir e salvá-la de algum modo, persuadindo o marido a deixar de jogar.

Mas se esta mulher continua simplesmente indo para o templo rezar para que o marido dela deixe de jogar, isso é oração efetiva? O budismo ensina que nós precisamos ter uma prática associada à nossa oração. Na oração tem que haver plena consciência, concentração, insight, bondade, e compaixão. Raiva culpa, ciúme, e despeito não são suficientes. Nós precisamos da energia de plena consciência, concentração, compreensão, e amor para colocar corrente elétrica no fio. Caso contrário, como as palavras de nossa oração podem alcançar as orelhas da pessoa para quem estamos rezando? Se a mulher pudesse ver que ela e o marido estão conectados fortemente um ao outro, e que as ações dela e dele são conectadas, ela poderia ter algum insight no problema que a incomoda.

Como nós rezamos? Nós rezamos com nossa boca e nossos pensamentos, mas isso não é o bastante. Nós temos que rezar com nosso corpo, fala, e mente e com nossa vida diária. Com plena atenção, nosso corpo, fala, e mente podem se tornar um. No estado de unidade de corpo, fala, e mente, nós podemos produzir a energia de fé e amor necessária para mudar uma situação difícil.

Oração efetiva é composta de muitos elementos, mas há dois que parecem ser os mais importantes. O primeiro é estabelecer uma relação entre nós mesmos e a pessoa para quem estamos rezando. É o equivalente a conectar um fio elétrico quando nós queremos nos comunicar através de telefone.

Anteriormente, eu fiz a pergunta: Para quem rezamos? E eu respondi, o que reza e o que recebe a oração são duas realidades que não podem ser separadas uma da outra. Isto é básico no Budismo, e eu estou bastante seguro que em toda religião existem os que praticaram há muito tempo e têm esta compreensão. Eles podem ver que Deus está em nosso coração. Deus é nós e nós somos Deus. O gatha de visualização inteiro é assim:

O que se reverencia e o que é reverenciado são ambos, por natureza, vazios.
Então a comunicação entre eles é indizivelmente perfeita.

O primeiro elemento de um método efetivo de oração é a comunicação entre nós mesmos e o ser para quem nós estamos rezando. Como somos interconectados com o ser que estamos rezando, nossa comunicação não é dependente do tempo ou espaço. Quando nós meditarmos, a comunicação é percebida imediatamente e nós estamos unidos. Nesse ponto, há eletricidade no arame.

Nós sabemos que quando uma estação de televisão envia seu sinal até o satélite de telecomunicações e chega até nossa televisão, certo tempo é necessário para as ondas serem transmitidas pelo espaço. Mas a comunicação da oração existe completamente fora do espaço e tempo. Nós não precisamos de um satélite. Não temos que esperar um ou dois dias por um resultado; o resultado é imediato. Quando você fizer café instantâneo, embora você chame isto instante, você tem que ferver a água, precisa de tempo para fazer seu café. Só então você pode beber o café. Mas na oração, nós não precisamos esperar tempo algum, nem mesmo um momento.

O segundo elemento que precisamos para a oração é energia. Nós já conectamos o fio do telefone, agora nós precisamos enviar uma corrente elétrica por ele.

Na oração, a corrente elétrica é o amor, plena atenção, e concentração correta. Plena atenção é a real presença de nosso corpo e nossa mente. Nosso corpo e nossa mente são dirigidos para um ponto, o momento presente. Se isto estiver faltando, não somos capazes de rezar, não importa nossa fé. Se você não estiver presente, quem estará rezando?

Para rezar efetivamente, nosso corpo e mente têm que morar pacificamente no momento presente. Quando você tiver em plena atenção, então você tem concentração. Esta é a condição que conduzirá a prajña, a palavra sânscrita para insight e sabedoria transcendente. Sem isso, nossa oração é só superstição.

(Do livro “The energy of prayer” – Thich Nhat Hanh)

O Coração do Sutra Prajnaparamita


O Coração do Sutra Prajnaparamita
(O Sutra do Coração)

O Bodisatva Avalokita, quando penetrava nas profundezas da Perfeita Compreensão, lançou luz sobre os cinco agregados e constatou que eram igualmente vazios. Depois desta percepção ele sobrepujou toda dor.

"Escute Shariputra, forma é vacuidade, vacuidade é forma, forma não difere de vacuidade, vacuidade não difere de forma. O mesmo é verdade para com os sentimentos, percepções, formações mentais e consciência.

Ouça, Shariputra, todos os fenômenos trazem a marca da vacuidade. Eles não são produzidos, nem destruídos. Nem impuros, nem puros. Nem crescentes, nem decrescentes. Desta maneira, na vacuidade não há nem forma, nem sentimentos, nem percepções, nem formações mentais, nem consciência; nem olho, ou ouvido, ou nariz, ou língua, ou corpo, ou mente; nem forma, nem som, nem cheiro, nem sabor, nem tato, nem objeto da mente; nem campos de atuação (dos olhos até a consciência mental), nem originações interdependentes e nem a extinção delas (da ignorância até a velhice e morte); nem sofrimento, nem origem do sofrimento, nem extinção do sofrimento, nem caminho, nem compreensão, nem realização.

Porque não há realização, os bodisatvas, apoiados na Perfeita Compreensão, não encontram obstáculos para suas mentes. Não tendo impedimentos, eles superam o medo, libertando-se para sempre da ilusão e alcançando o perfeito Nirvana. Todos os Budas no passado, presente e futuro, graças a esta Perfeita Compreensão, atingem a Iluminação completa, perfeita e universal.

Assim, todos devem saber que a Perfeita Compreensão é um grande mantra, o mais elevado mantra, o inigualável mantra, o destruidor de todo o sofrimento, incorruptível verdade. O mantra do Prajnaparamita deve portanto ser proclamado. Este mantra:

"Gate gate paragate parasamgate bodhi svaha"

(Chegados,chegados, na outra margem, todos, iluminados, salve!)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Prática Semanal


Queridos amigos e amigas da sangha,

haverá prática de meditação no próximo sábado, 20.03.10, apartir das 08:00 da manhã, no Espaço Ligia Prieto. O encontro é distribuido em duas partes: na primeira, meditação sentada e caminhando; e, na segunda, leitura e reflexão. Término previsto para as 09:15. Recomendamos aos iniciantes roupas leves.
Um grande abraço.

Mãos unidas em prece.

Gasshô.

Ivan.

Informações (65)3052-6634 (65)9202-9925

Transformando os sentimentos


O primeiro passo ao lidar com os sentimentos é reconhecer cada sentimento no instante em que surge. O meio para isso é a plena consciência. No caso do medo, por exemplo, você recorre à plena consciência, olha para o medo e o reconhece como medo. Você sabe que o medo brotou de você mesmo e que a plena consciência também brotou de você mesmo. Os dois estão em você, não em luta, mas cuidando do outro. O segundo passo consiste em se tornar uno com o sentimento. Melhor não dizer, "Vá embora, Medo. Não gosto de você. Você não é eu. " Muito mais eficaz é dizer, "Oi, Medo. Como é que você está hoje?" Em seguida, você pode estimular esses dois aspectos, a plena consciência e o medo, a se cumprimentarem como amigos e a se unirem. Isso pode parecer assustador, mas, como você já sabe que você é mais do que seu medo, não é preciso se amedrontar. Desde que sua mente esteja alerta, ele fará companhia ao seu medo. A prática fundamental é nutrir a plena consciência com a respiração consciente, para mantê-la alerta, cheia de vida e força. Embora no início sua plena consciência possa não ser muito potente, se você a alimentar, ela se tornará mais forte. Contanto que a sua consciência esteja plena e presente, você não será submerso pelo medo. Na realidade, você começará a transformá-lo no exato instante em que dentro de si der à luz a percepção. O terceiro passo é o de acalmar o sentimento. Como a consciência plena está cuidando bem do seu medo, ele começa a acalmar-se. "Inspirando, acalmo as atividades do corpo e da mente." Você acalma seu sentimento só por estar com ele, como uma mãe segurando ternamente o filhinho que chora. Ao sentir a ternura da mãe, o neném se acalma e pára de chorar. A mãe é a sua mente alerta, nascida das profundezas da sua consciência, e ela tratará do sentimento da dor. A mãe que segura o bebê forma uma unidade com ele. Se a mãe estiver pensando em outras coisas, a criancinha não se acalmará. A mãe tem de abandonar as outras coisas e apenas segurar seu filhinho. Por isso, não evite seu sentimento. Não diga, "Você não é importante. Você é só um sentimento." Passe a formar uma unidade com ele. Você pode dizer, "Expirando, acalmo meu medo."O quarto passo é largar o sentimento, soltá-lo. Graças à sua calma, você está à vontade, mesmo em meio ao medo; e sabe que esse medo não vai crescer e se transformar em algo esmagador. Quando você se descobre capaz de tomar conta do seu medo, ele já está reduzido a um mínimo, tornando-se mais brando e menos desagradável. Agora você pode sorrir para ele e deixá-lo partir, mas por favor pare por aqui. Acalmar e largar um sentimento são apenas curas para os sintomas. Você agora tem a oportunidade de se aprofundar e trabalhar na transformação da raiz do seu medo. O quinto passo é olhar profundamente. Você examina em profundidade o seu bebê — seu sentimento de medo — para ver o que está errado, mesmo depois que o bebê parou de chorar, mesmo depois que o medo se foi. É impossível segurar uma criança no colo o tempo todo. Por isso, você deve examiná-la para ver a causa do que está errado. Com esse exame, você será o que o ajudará a começar a transformar o sentimento. Você perceberá, por exemplo, que seu sofrimento tem muitas causas, intensas e externas ao seu corpo. Se há algo de errado em volta dele, se você conserta a situação, com carinho e cuidado, ele se sentirá melhor. Ao examinar seu bebê, você verá os elementos que o estão fazendo chorar. Ao vê-los, você saberá o que fazer e o que não fazer para transformar o sentimento e se sentir livre. Esse processo é semelhante ao da psicoterapia. Em companhia do paciente, o terapeuta observa a natureza da dor. Muitas vezes, o terapeuta pode revelar causas de sofrimento que se originaram da forma pela qual o paciente encara a vida, das opiniões que ele tem sobre si mesmo, sobre a sua cultura e o mundo em geral. O terapeuta examina esses pontos de vista e essas opiniões com o paciente, e juntos eles colaboram para libertá-los daquele tipo de prisão em que estava. No entanto, o esforço do paciente é crucial. O professor deve trazer à luz o professor que existe dentro do aluno; e o psicoterapeuta deve trazer à luz o psicoterapeuta que há no íntimo do seu paciente. O "psicoterapeuta interno" do paciente poderá então trabalhar em tempo integral de uma forma muito eficaz. O terapeuta não trata do paciente simplesmente lhe repassando um outro conjunto de opiniões. Ele tenta ajudar o paciente a perceber que tipos de idéias e de crenças ao seu sofrimento. Muitos pacientes querem se ver livres dos sentimentos dolorosos, mas não querem se livrar das opiniões, dos pontos de vista que são as verdadeiras raízes dos seus sentimentos. Portanto, o terapeuta e o paciente têm que trabalhar juntos para ajudar o paciente a ver as coisas como elas são. O mesmo vale para quando recorrermos à plena consciência para transformar nossos sentimentos. Depois de reconhecermos o sentimento, de nos tornarmos unos com ele, de o acalmarmos o de o largarmos, podemos examinar suas causas em profundidade. Elas muitas vezes se baseiam em percepções incorretas. Assim que compreendemos as causas e a natureza dos nossos sentimentos, eles começam a se transformar.


(Nhat Hanh, Thich. Paz a Cada Passo: como manter a mente desperta em seu dia-a-dia)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Retiro de Meditação


Meditando Juntos Sob a Brisa de Outono


Público Alvo: Participação de Alunos da Unipaz e Interessados em Geral

DIAS 20 E 21 DE MARÇO DE 2010

LOCAL: " REFÚGIO CARPE DIEM" - http://www.refugiocarpediem.com.br/

CIDADE de PRESIDENTE LUCENA/RS próximo a PICADA SCHMIDT


Orientação: Enio Burgos


Sábado:9h:00

Orientações Gerais sobre estar em retiro. Os Fundamentos da Prática de Meditação: Meditação Silenciosa - Meditação Caminhando - Meditação na Alimentação - Meditação com Canto de Mantras. Diversas sessões de prática (aproximadamente 40 minutos cada) ao longo do retiro. Ensinamento sobre a Mente Atenta: "O Reino de Deus e As Maravilhas da Vida".

21h - Recolhimento.

Domingo: 06h - Meditação Silenciosa / 7h30 - Desjejum / 08h30 - A Visão da Verdadeira Natureza: Impermanência, Inseparabilidade, Vacuidade, Inexpectabilidade / 11h30 - Almoço de Confraternização e encerramento.

VALOR: R$ 170,00 (cento e setenta reais), incluídos estadia e alimentação.

LEVAR ROUPA DE CAMA E TOALHA.

QUEM QUISER USAR ROUPA E CAMA DO ESPAÇO O VALOR DO SEMINÁRIO SERÁ 180,00 (cento e oitenta reais). TOALHAS NÃO ESTÃO INCLUÍDAS. Sairemos na sexta-feira, da Unipaz, a combinar.

Vera Lúcia ? vlkruger@gmail.com - 99817641


"Você não pode ensinar nada a um homem, você pode apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo."Galileu Galilei

terça-feira, 16 de março de 2010

O rio dos sentimentos

Thich Nhat Hanh

Nossos sentimentos desempenham um papel muito importante por dirigirem todos os nossos pensamentos e ações. Existe em nós um rio de sentimentos, no qual cada gota d'água é um sentimento diferente e cada um depende de todos os outros para sua existência. Para observar esse rio, sentamo-nos à sua margem e identificamos cada sentimento à medida que ele vem à tona, passa por nós e desaparece. Há três tipos de sentimentos — agradáveis, desagradáveis e neutros. Quando temos um sentimento desagradável, podemos querer afastá-lo. O mais eficaz é voltar à nossa respiração consciente e apenas observá-lo, identificando-o em silêncio para nós mesmos. "Inspirando, sei que há um sentimento desagradável em mim. Expirando, sei que há um sentimento desagradável em mim." Chamar o sentimento pelo seu nome, "raiva", "tristeza", "alegria" ou "felicidade", nos ajuda a identificá-lo com clareza e reconhecê-lo em maior profundidade. Podemos usar nossa respiração para entrar em contato com nossos sentimentos e aceitá-los. Se nossa respiração for leve e tranqüila — resultado natural da respiração consciente — nossa mente e nosso corpo irão lentamente se tornando leves, tranqüilos e claros. E da mesma forma nossos sentimentos. A observação plenamente consciente se baseia no princípio da "não-dualidade"; nosso sentimento não está separado de nós nem foi causado apenas por algo externo a nós. Nosso sentimento é nosso eu, e temporariamente nós somos esse sentimento. Não submergimos nesse sentimento, nem nos aterrorizamos com ele, tampouco o rejeitamos. Nossa atitude de não nos agarrarmos aos nossos sentimentos e de tampouco rejeitá-los é a atitude de desapego, uma parte vital da prática da meditação. Se encararmos nossos sentimentos desagradáveis com cuidado, afeição e não-violência, podemos transformá-los naquele tipo de energia que é saudável e que tem a capacidade de nos nutrir. Através da observação consciente, nossos sentimentos desagradáveis podem ser muito esclarecedores para nós, proporcionando-nos revelações e compreensão a respeito de nós mesmos e da nossa sociedade.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A meditação andando

Thich Nhat Hanh

A meditação andando pode ser agradável. Caminhando lentamente, sozinhos ou com amigos, se possível num belo local. A meditação andando tem como verdadeiro objetivo o prazer em caminhar — anda-se não para se chegar a algum lugar, mas só pelo andar. O propósito é o de se estar no momento presente, tendo plena consciência da respiração e da caminhada, e de apreciar cada passo. Para isso, devemos nos livrar de todas as preocupações e ansiedades, não pensar no futuro, nem no passado, só vivendo o momento presente. Podemos andar de mãos dadas com uma criança. Caminhamos passo a passo como se fôssemos os seres mais felizes da Terra.Embora andemos o tempo todo, nosso andar se assemelha mais a uma corrida. Quando caminhamos assim, imprimimos ansiedade e tristeza na Terra. É preciso que andemos de forma tal que só deixamos paz e serenidade sobre a Terra. Podemos todos fazer isso desde que o desejemos muito. Qualquer criança consegue fazê-lo. Se podemos dar um passo assim, poderemos dar dois, três, quatro e cinco. Quando formos capazes de dar um passo cheio de paz e felicidade, estaremos trabalhando pela causa da paz e da felicidade de toda a humanidade. A meditação andando é uma prática maravilhosa.Quando fazemos meditação andando ao ar livre, caminhamos um pouco mais devagar do que nosso ritmo normal e coordenamos nossa respiração com nossos passos. Por exemplo, podemos dar três passos para cada inspiração e três passos para cada expiração. Podemos, então, dizer, "Inspirando, inspirando, inspirando. Expirando, expirando, expirando." Dizer "Inspirando" serve para nos ajudar a identificar a inspiração. Sempre que chamamos algo pelo seu próprio nome, estamos tornando-o mais real, como quando dizemos o nome de um amigo.Se os seus pulmões preferem quatro passos em vez de três, dê-lhes quatro passos, por favor. Se eles querem apenas dois, dê-lhe dois. A duração da sua inspiração e da sua expiração não tem de ser a mesma. É possível, por exemplo, que você dê três passos ao inspirar e quatro ao expirar. Se você se sentir feliz, sereno e alegre enquanto caminha, é porque está se exercitando corretamente.Esteja atento para o contato entre os seus pés e a Terra. Caminhe como se estivesse beijando a Terra com os pés. Já prejudicamos muito a Terra. Agora é a hora de cuidarmos bem dela. Trazemos nossa paz e nossa serenidade à superfície da Terra e compartilhamos a lição do amor. É tendo isso em mente que caminhamos. De quando em quando, ao ver algo bonito, podemos querer parar para contemplação — de uma árvore, uma flor, crianças brincando. Enquanto olhamos, continuamos atentos à nossa respiração, para não sermos enredados por nossos pensamentos e assim perdermos a beleza da flor. Quando quisermos voltar a nadar, é só começar de novo. Cada passo que dermos criará uma brisa fresca, renovando nosso corpo e nossa mente. Cada passo fará uma flor se abrir aos nossos pés. Isso só é possível se não pensarmos no futuro nem no passado, se soubermos que a vida só pode ser encontrada no momento presente.

domingo, 14 de março de 2010

As Três Jóias


Thich Nhat Hanh

A raiz da palavra Buda significa despertar, tomar conhecimento, compreender. E aquele que desperta e compreende é chamado de Buda. Simplesmente isso! A capacidade de despertar, de compreender e amar é chamada de natureza de Buda. Quando os budistas dizem: eu me refugio em Buda, eles estão confiando na sua própria capacidade de compreender, tornar-se despertos. No budismo existem três jóias preciosas: Buda, aquele que está desperto; Dharma, o caminho da compreensão e do amor; Sangha, a comunidade que vive em consciência e harmonia. As três são interligadas, e às vezes é difícil distinguir uma da outra. Todos nós temos a capacidade de despertar, compreender e amar. Assim, em nós mesmos encontramos Buda e também Dharma e Sangha. Buda foi aquele que desenvolveu seu entendimento e amor ao mais alto nível.
Compreensão e amor não são duas coisas, mas uma só. Para desenvolver a compreensão é necessário que se exercite olhar para todos os seres vivos com olhos de compaixão. Quando você compreende, você ama; e quando você ama, age naturalmente, de tal forma que alivia o sofrimento alheio.
Aquele que está desperto, que sabe, que compreende, é chamado de Buda. Ele existe em todos nós. Podemos nos tornar despertos, compreensivos e também amorosos.
Há 2.500 anos atrás existiu uma pessoa que praticou isso de tal forma que seu entendimento e amor tornaram-se perfeitos, e todos no mundo reconheceram isso. Seu nome era Sidarta. Ele era muito jovem ainda quando começou a ver que a vida contém muito sofrimento; que as pessoas não amam umas às outras; não se compreendem suficientemente. Deixou então o seu lar e foi para a floresta praticar meditação, respiração e sorriso. Ele se tornou monge e praticou a fim de desenvolver seu despertar, sua compreensão e amor no mais alto nível.
Quando dizemos: Eu me refugio no Buda, deveríamos entender também: o Buda se refugia em mim; porque sem a segunda parte, a primeira não é completa. Buda necessita de nós para que o despertar, o amor e a compreensão possam se tornar reais e não meros conceitos. Essas coisas devem ter efeitos concretos na vida. Sempre que eu digo: Eu me refugio em Buda, ouço: Buda se refugia em mim. Nossa tarefa é muito importante: realizar o estado desperto, realizar a compaixão, realizar o entendimento.
Todos nós somos Budas, porque só através de nós é que a compreensão e o amor se tornam tangíveis e efetivos.

Buddhakaya em sânscrito significa corpo de Buda. Para o budismo ser real é necessário que haja um buddhakaya, ou seja, uma personificação da atividade desperta. De outra forma o budismo é apenas uma palavra. Shakyamuni Buda era um buddhakaya. Ao realizar o ato de despertar, compreender e amar cada um de nós é buddhakaya.
A Segunda jóia é o Dharma, isto é, o que Buda ensinou. É o caminho da compreensão e amor: como entender, como amar, como transformar essas coisas numa realidade. Antes de morrer, Buda disse aos seus discípulos: "Meus caros, meu corpo físico não estará mais aqui amanhã, mas o corpo do meu ensinamento estará sempre aqui para ajudá-los. Considerem-no como seu mestre, um mestre que jamais se separa de vocês.”
Esse foi o nascimento do Dharmakaya. O Dharma tem um corpo, o corpo dos ensinamentos ou o corpo do Caminho. Dharmakaya significa apenas Os Ensinamentos de Buda, a forma de realizar a compreensão e o amor.
Qualquer coisa pode ajudar a despertar a natureza búdica. Quando estou só e algum pássaro me chama, retorno a mim mesmo, respiro e sorrio e, às vezes, ele volta a me chamar. Então sorrio e respondo: - Já estou ouvindo-o. Não só os sons como também as paisagens podem relembrá-los de retornar a si mesmos. Ao abrir a janela de manhã e ver a luz inundar o ambiente, você pode reconhecer isso como a voz do Dharma, e isso se torna parte do Dharmakaya. Essa é a razão por que as pessoas despertas vêem a manifestação do Dharma em todas as coisas. Num seixo, num bambu, no choro de uma criança, qualquer coisa pode ser a voz do Dharma chamando. Nós devíamos ser capazes de praticar dessa forma.
Um mestre também é parte do Dhamakaya, porque ele ou ela nos ajuda a despertar. Sua aparência, sua forma de viver o dia-a-dia, sua forma de lidar com as pessoas, animais, plantas, nos ajudam a atingir o entendimento e o amor em nossa vida. O Dharmakaya não é expresso só por palavras, por sons. Pode expressar-se simplesmente sendo. Às vezes ajudamos mais quando não fazemos nada do que quando fazemos muito. Chamamos isso de não-ação. Esse é também um dos aspectos do Dharmakaya: sem falar, sem ensinar, apenas sendo.
Sangha é a comunidade que vive consciente e em harmonia. Sanghakaya é um novo termo em sânscrito.
A Sangha também precisa de um corpo. Quando você está com sua família e pratica a respiração e o sorriso, reconhecendo o corpo de Buda em você e em seus filhos, então sua família se torna Sangha. Um amigo, nossos filhos, nosso irmão ou irmã, nosso lar, as árvores do nosso pátio, tudo isso pode ser parte do nosso Sanghakaya.
A prática do budismo, a prática da meditação é para a pessoa se tornar serena, compreensiva e amorosa.
Desta forma trabalhamos pela paz de nossa família, de nossa sociedade. Se olharmos mais de perto, veremos que as Três Jóias são, na verdade, uma. Em cada uma delas as outras duas estão presentes. Em Buda existe o estado búdico, existe o corpo de Buda. Em Buda existe o corpo do Dharma, porque sem este ele não poderia se tornar Buda. Em Buda está o corpo da Sangha, porque ele fez seu jejum junto à árvore Bodhi, a outras árvores e pássaros da região. Num centro de meditação temos um corpo de Sangha, Sanghakaya, porque ali é praticada a compreensão, a compaixão. Assim, o corpo do Dharma, o Caminho e os Ensinamentos estão presentes. Mas os ensinamentos não podem tornar-se uma realidade sem a vida e o corpo nossos. De forma que Buddhakaya também está presente. Se Buda e Dharma não estiverem presentes, não existe Sangha. Sem você, Buda não é uma realidade, mas apenas uma idéia.
Sem você, o Dharma não pode ser praticado. Precisa de alguém para poder ser praticado. A Sangha não pode existir sem cada um de vocês. Por isso, quando dizemos: Eu me refugio em Buda, ouvimos também: Buda se refugia em mim. Eu me refugio no Dharma. O Dharma se refugia em mim. Eu me refugio na Sangha. A Sangha se refugia em mim.

(Retirado do livro "Caminhos para a paz interior" de Thich Nhat Hanh)
Fonte: http://sangavirtual.blogspot.com/

sábado, 13 de março de 2010

Sem objetivo

Thich Nhat Hanh

No Ocidente, somos muito direcionados para os objetivos. Sabemos onde queremos ir e direcionamos nossas forças para chegar lá. Isso pode ser útil, mas muitas vezes nos esquecemos de apreciar também o caminho. Existe no buddhismo uma palavra que significa "ausência de desejo" ou "ausência de objetivo". A idéia consiste em você não colocar um alvo à sua frente e sair correndo atrás dele, porque tudo já está aqui em você mesmo. Enquanto praticamos a meditação andando, não tentamos chegar a lugar nenhum. Damos apenas passos felizes, serenos. Se não pararmos de pensar no futuro, no que queremos realizar, perderemos nossos passos. O mesmo vale para a meditação sentada. Nós sentamos só para apreciar o estar sentado. Não nos sentamos a fim de alcançar um objetivo. Isso é de importância vital. Cada momento da meditação sentada nos traz de volta à vida, e nós devemos nos sentar de forma tal que nos sintamos bem o tempo todo. Quer estejamos chupando uma tangerina, tomando uma xícara de chá, ou caminhando em meditação, deveríamos fazê-lo "sem objetivo". Muitas vezes dizemos a nós mesmos, "Não fique só aí sentado, faça alguma coisa!" Quando praticamos a plena consciência, porém, descobrimos algo inusitado. Descobrimos que o contrário pode ser ainda mais valioso: "Não fique aí fazendo alguma coisa. Sente-se!" Precisamos aprender a parar de vez em quando a fim de ver com nitidez. A princípio, "parar" pode parecer uma "resistência" à vida moderna, mas não se trata disso. "Parar" não é só uma reação; é um estilo de vida. A sobrevivência da humanidade depende de nossa capacidade de desacelerar. Temos mais de 50.000 bombas atômicas, e mesmo assim não conseguimos parar de fabricar mais. "Parar" não significa um basta ao que é negativo, mas também permitir que se realize uma cura positiva. É esse o propósito da nossa prática — não evitar a vida, mas experimentar e comprovar que a felicidade é possível agora e também no futuro. A base da felicidade é a plena consciência. A condição fundamental para ser feliz é ter a consciência de que se é feliz. Se não percebermos que estamos felizes, não estaremos realmente felizes. Quando estamos com dor de dente, nos damos conta de que não ter dor de dente é maravilhoso. Mas, mesmo assim, não nos sentimos felizes quando estamos sem dor de dente. Esquecemos o quanto é agradável não ter dor de dente. Há tantas coisas que são agradáveis, mas que não sabemos apreciar se não praticamos a plena consciência. Quando estamos com a mente alerta, valorizamos essas coisas e aprendemos a protegê-las. Ao cuidar bem do momento presente, estamos cuidando bem do futuro. Trabalhar pela paz do futuro é trabalhar pela paz no momento presente.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Prática Semanal


Queridos amigos e amigas da sangha,

haverá prática de meditação no próximo sábado, 13.03.10, apartir das 08:00 da manhã, no Espaço Ligia Prieto. O encontro é distribuido em duas partes: na primeira, meditação sentada e caminhando; e, na segunda, leitura e reflexão. Término previsto para as 09:15. Recomendamos aos iniciantes roupas leves.

Um grande abraço.

Mãos unidas em prece.

Gasshô.

Ivan.

Informações (65)3052-6634 (65)9202-9925

quarta-feira, 10 de março de 2010

Importante ensinamento budista

Desapego

O desapego é um dos mais importantes ensinamentos budistas. Na verdade, a vida de iluminação é o caminho do desapego. Muitos dos problemas da vida são causados pelo apego. Ficamos com raiva, preocupados, tornamo-nos ávidos, fazemos queixas infundadas e temos todos os tipos de complexos. Todas estas causas de infelicidade, tensão, teimosia e tristeza são devidas ao apego. Se você tem algum problema ou preocupação, examine a si mesmo e descobrirá que a causa é o apego.
Existe uma famosa história zen sobre um mestre e seu discípulo. Os dois estavam a caminho da aldeia vizinha quando chegaram a um rio caudaloso e viram na margem, uma bela moça tentando atravessá-lo. O mestre zen ofereceu-lhe ajuda e, erguendo-a nos braços, levou-a até a outra margem. E depois cada qual seguiu seu caminho. Mas o discípulo ficou bastante perturbado, pois o mestre sempre lhe ensinara que um monge nunca deve se aproximar de uma mulher, nunca deve tocar uma mulher. O discípulo pensou e repensou o assunto; por fim, ao voltarem para o templo, não conseguiu mais se conter e disse ao mestre:
— Mestre, o senhor me ensina dia após dia a nunca tocar uma mulher e, apesar disso, o senhor pegou aquela bela moça nos braços e atravessou o rio com ela.
— Tolo – respondeu o mestre – Eu deixei a moça na outra margem do rio. Você ainda a está carregando.
Desapego não é desinteresse, indiferença ou fuga. Não devemos nos tornar indiferentes aos problemas da vida. Não devemos fugir da vida; não se pode fugir dela quando somos sinceros. A vida e seus problemas devem ser encarados e lidados de frente, mas não são coisas às quais devamos nos apegar. É verdade que o dinheiro tem sua importância, mas a pessoa que se apega a ele torna-se avarenta e escrava do dinheiro. É muito fácil nos apegarmos à nossa beleza, às nossas aptidões ou às nossas posses, e assim nos sentirmos superiores aos outros. É igualmente fácil nos apegarmos à nossa feiúra, à nossa falta de aptidões ou à nossa pobreza, e assim nos sentirmos inferiores aos outros. O apego às condições favoráveis leva à avidez e ao falso otimismo, enquanto que o apego às condições desfavoráveis leva ao ressentimento e ao pessimismo. Sem dúvida, nosso apego às coisas, condições, sentimentos e idéias é muito mais problemático do que imaginamos.
Quando adoecemos, chegamos até mesmo a nos apegar à doença. É melhor não fazermos isso. Todas as doenças serão curadas, exceto uma, que é a morte. Quando você estiver doente, aceite a doença e faça o possível para se recuperar. Aceite a doença e a transcenda... ou melhor, aceite-transcendendo. A vida é mutável; todas as coisas são mutáveis; todas as condições são mutáveis. Por isso, “deixe ir” as coisas. Todos os abusos, a raiva, a censura – deixe que venham e que se vão. Tudo o que fazemos, devemos fazer com sinceridade, com honestidade e com todas as nossas forças; e uma vez feito, feito está. Não nos apeguemos a ele. Muitas pessoas se apegam ao passado ou ao futuro, negligenciando o importante presente. Devemos viver o melhor “agora”, com plena responsabilidade.
Quando o sol brilha, desfrute-o; quando a chuva cai, desfrute-a Todas as coisas nesta vida – deixe que venham e deixe que se vão. Este é um segredo da vida que nos impede de ficar aborrecidos ou neuróticos. Buda disse que todas as coisas na vida e no mundo estão em constante mutação; por isso, não se torne apegado a elas. (Gyomay Kubose - Budismo Essencial)

terça-feira, 9 de março de 2010

Jesus e Buda Grandes Amigos

Buda e Cristo por Monja Coen.
Buda e Cristo, sentados lado a lado, conversam sutil e profundamente. Nem todos são capazes de os ver assim amigos. Eu os vi assim.Buda e Cristo são simples e bondosos, de mantos longos, gestos suaves, voz macia e segura, guiam todos os seres para o caminho do bem, da verdade, da salvação, da liberdade responsável.
Buda e Cristo falam por analogias e metáforas, compreendem os seres, amam incondicionalmente e através da sabedoria e compaixão superiores. Procuram meios para conduzir as pessoas à verdadeira felicidade. Buda e Cristo não se opõem, nem se completam. Cada um é o que é, perfeito e completo como é.Buda e Cristo representam culturas diferentes, etnias diferentes, ensinamentos que não se limitam à linguagem de uma época, mas que passam pelos milênios, de geração a geração. Buda e Cristo vivem agora. Com mantos rasgados ou com mantos de seda, em carros blindados ou pelas calçadas. Vivem em cada momento. Em cada pensamentos. São sábios e ternos. Vivem em cada gesto de cooperação, compartilhamento, cuidado. Vivem em cada palavra de amor e compaixão, de respeito e bondade.O Buda histórico viveu na Índia seis séculos antes de Jesus. Nos textos clássicos do budismo não se mencionou a vinda de um Messias. Mas, disse dos inúmeros seres iluminados que viriam, vieram, vêm e virão. Indo, vindo, tendo ido e tendo chegado. (...)Cristo ressuscita. Buda renasce. Cada ser que desperta para a verdade e o caminho e vive em coerência com os ensinamentos sagrados é a manifestação do sagrado.Como nos tornamos Buda vivo? Como manifestar Cristo em nossas vidas?Será que são a mesma pergunta ou não? Depende de qual grupo budista ou qual grupo cristão a que estejamos ligados?Uns dirão que sim. Outros dirão que não. Será que Cristo e Buda discutem esse assunto ou se perguntam como minimizar o sofrimento do mundo?Um Buda, um ser iluminado, surge no mundo para salvar todos os seres.Por que Jesus surgiu no mundo? Para salvar todos os seres? E do que os seres devem ser salvos? Quem são os seres a serem salvos?(...)Libertando-nos das amarras da ignorância que nos separam da integridade da vida, da unicidade da existência, dessa teia de interrelacionametos que chamamos existência, que simultaneamente, todos os seres assim conosco se libertam. Não somos individualidade. Somos Inter-Ser. Um depende do outro, auxiliando, somando, construindo, descobrindo, dialogando, recebendo ou dando atenção, carinho.As instituições que se formaram, os "ismos" que se criaram, budismo, cristianismo, representam os ensinamentos, mantêm e preservam a tradição de seus fundadores originais?Quantas e quantas ordens? Quantas e quantas interpretações? Quantas e quantas mentes?Como um fio dourado a verdade vai passando e chega àquelas e àqueles que em pureza penetram a fonte pura e cristalina da verdade.Buda e Jesus pregam um mundo de seres livres e ao mesmo tempo responsáveis - co-responsáveis pela realidade em que estamos. Buda e Jesus pregam um mundo de amor, compartilhamento, ternura e cuidado. Santos, Sábios sagrados, seres puros, visionários, revolucionários, transformadores da realidade e de mentes, filhos do sagrado. Mas não somos todos filhos e filhas da sagrada vida em eterna transformação?(...)Cada ser que desperta para a verdade e vive a não-dualidade, pleno de compreensão superior e compaixão ilimitada (amor incondicional) é um Buda, é um ser iluminado em manifestação.E quantos Cristos há no mundo? Quem carrega a sua cruz? Quem se entrega e salva? Quem dá a outra face? Quem não vive em rancor e ódio? Quem vive hoje o amor?Buda e Jesus, são exemplos, são fontes, sínteses da auto-realização, do amor. Entendimento e respeito. Com ternura se cumprimentam e sorriem ao nos ver passar.
Texto extraído da revista História Viva edição especial Grandes religiões 1 Cristianismo.

domingo, 7 de março de 2010

Perspectiva de Gênero no Budismo

Monja Coen Sensei

Qual a perspectiva de gênero segundo o budismo?


Quando Mahaprajapati pediu a Xaquiamuni Buda para se tornar monja, Ele recusou. Recusou varias vezes, alegando que mulheres não deveriam abandonar as famílias para entrar na ordem religiosa e viver de esmolas. Finalmente, depois de muita insistência e da solicitação do atendente de Xaquiamuni Buda, o monge Ananda, as mulheres foram admitidas na Ordem, desde que aceitassem oito regras a mais do que os homens. Entre essas oito regras a de submissão a qualquer monge - mesmo uma monja de 100 anos deveria obedecer a um recém ordenado bhikhu (monge).


Como é isto entendido hoje pelos Budistas?

Primeiro é necessário que compreendamos a sociedade da Índia daquela época. As mulheres eram consideradas objetos de prazer, sexualidade e reprodução. Eram, em sua grande maioria, analfabetas e sofriam grande discriminação preconceituosa, a ponto de se recomendar aos homens que as tocassem apenas com a mão impura - a mão esquerda, usada para as pessoas se limparem depois de evacuar. Mulheres eram consideradas impuras, cheias de arrogância, de ciúmes e causadoras da luxúria e de desejos no sexo oposto. Para os monges recomendava-se que fossem evitadas de todas as formas, pois seriam fontes de perversidade e afastamento do verdadeiro e do sagrado.
Entretanto, quando Xaquiamuni Buda foi fazer uma palestra sobre a Verdade, Ele encontrou na entrada da casa para onde se dirigia, sua mãe adotiva, Mahaprajapati, cercada de outras mulheres, que como ela pediam permissão para entrar na ordem religiosa que ele fundara. Mahaprajapati estava cansada, pés sangrando, suja. Ananda, o atendente de Buda, se apiedando comprometeu-se a interceder junto ao seu professor.
Como sempre, Xaquaimuni Buda fez uma palestra dizendo que todos os seres igualmente podem realizar o estado iluminado desde que pratiquem o Caminho Correto, tornando-se assim o próprio Caminho. Ananda, nesse momento, interferiu perguntando:
- Mais Venerável, todos os seres, sem exceção?
Buda responde:
- Sim, Ananda.
- Então, por que o Mais Venerável do Mundo não concede a ordenação monástica a Mahaprajapati e seu grupo de mulheres?
O Buda histórico pareceu então perceber a discriminação, o preconceito que Ele mesmo carregava e as aceita na Ordem, desde que obedecessem oito regras especiais.
Elas aceitam e é o inicio da comunidade monástica feminina. Entretanto, esta comunidade está sempre subordinada à comunidade masculina da qual depende e serve. Em alguns paises budistas da Ásia, como a Tailândia, às mulheres não é permitido o uso do manto monástico colorido, sendo elas apenas aceitas como noviças entre leigas e monásticas, vestidas de branco, que renunciam ao mundo, sem entretanto se tornarem monjas completas. Conheci há alguns anos uma idosa monja na Tailândia, que se auto-ordenara monja e se permitia vestir com o manto açafrão dos renunciantes budistas. Entretanto, a maioria mantinha-se apenas de branco e consideram a discriminação que sofriam como o Caminho do Bodisatva, de aceitar posições inferiores para o bem de todos os seres. Tivemos um Encontro Budista Feminino e muitas das monjas e leigas participantes de outros países, insistiram para que elas exigissem direitos iguais, o que as fez pensar.
Na Coréia, na China e no Japão as monjas recebem a mesma ordenação dos monges e podem oficiar as mesmas cerimônias. Entretanto, a situação das mulheres na sociedade também se faz refletir na situação das monjas na comunidade budista. Geralmente os templos liderados por monjas são menores e submetidos a templos maiores e mais poderosos liderados por monges. Algumas monjas se orgulham de não participar nas questões políticas das instituições, enquanto outras se sentem excluídas e gostariam de ter igualdade de direitos.
Quando eu praticava no Japão conheci uma monja especial que, após a segunda guerra mundial, viajou por todo o país, solicitando igualdade de direitos, ou seja, que as monjas pudessem usar os mantos coloridos da transmissão - a elas só eram permitidos os hábitos negros -, que pudessem oficiar casamentos, enterros, ordenações leigas e ter seus próprios discípulos, o que era permitido apenas aos homens. Kojima Sensei teve sucesso em suas peregrinações, embora fosse muito criticada por outras monjas que achavam que ela deveria se manter quietinha e não se envolver em política. Acredito que hoje em dia todas a agradecem. Ela já faleceu. A Abadessa do Convento de Nagoia, onde pratiquei por oito anos, também tem sido criticada por colegas monjas, pela sua exposição pública, seus livros e suas palestras. Entretanto ela diz que como discípula de Buda tem a obrigação de ensinar o Darma. Ela é hoje a primeira e única monja a ter um cargo correspondente a cardeal dentro da estrutura da tradição Soto Zen do Japão.
Conclusão: o Budismo ensina a transcender a mente discriminatória, viver sem preconceitos, entendendo que todos os seres são igualmente iluminados e que esta iluminação se manifesta naqueles que assim a praticam em suas vidas, mas as monjas e as mulheres budistas em geral ainda ocupam papel relativamente secundário nas instituições, mesmo que sejam muito respeitadas e consideradas pelo clero masculino como exemplos de prática verdadeira.
Nos Estados Unidos e na Europa, em grupos formados por monges e monjas locais, a discriminação preconceituosa foi praticamente abolida e temos grandes professoras liderando os maiores centros budistas em vários paises da Europa e vários estados dos EUA.
As lideranças femininas tem características peculiares, como a do se comprometimento com a verdade, a transparência e pureza na prática - sem que isso signifique única ou especialmente voto de castidade, pois o budismo japonês permite o casamento dos monges e das monjas, quer entre si quer com leigos.
Recentemente me contaram que certa ocasião o Dalai Lama, líder religioso e político do Tibet, em exílio na Índia há mais de 50 anos, pediu a uma monja de sua tradição que liderasse a meditação. Ela, depois que todos se sentaram, começou a falar que gostaria que todos os participantes imaginassem que as imagens de Buda fossem todas femininas, que Dalai Lama fosse uma mulher, que os digníssimos e veneráveis monges superiores que o cercam fossem mulheres e que, ao contrário do que estava acontecendo, fossem servidas por homens. Ela continuou contando dos problemas das monjas, das discriminações, da falta de oportunidades de estudo e desenvolvimento. Ao terminar, o Dalai Lama chorava e pedia perdão. Nunca se conscientizara do problema e se comprometeu a trabalhar para a transformação da posição das mulheres dentro do budismo tibetano.
Eu espero que os ensinamentos do Professor Fundador Xaquiamuni Buda possam ser completamente clarificados e utilizados em nossas vidas, sem distinções de gênero - seres iluminados sendo respeitados e honrados quer sejam homens ou mulheres, quer sejam jovens ou idosos, seja qual for sua nacionalidade, etnia, cor de pele, status social e econômico e assim por diante. Um mundo sem discriminações preconceituosas, com sociedades pacificas e harmoniosas.

Eu cheguei, estou em casa...


Thich Nhat Hanh
" Eu cheguei, estou em casa. No aqui e no agora...
Estou firme, estou livre... Nesse supremo agora"

Como salvar a sua casa

Quando alguém diz ou faz alguma coisa que nos deixa com raiva, nós sofremos. Temos a tendência de dizer ou fazer de volta alguma coisa que também provoque sofrimento na outra pessoa, na esperança de assim sofrermos menos. Pensamos: Quero punir você, quero fazer você sofrer porque você me fez sofrer. E quando eu perceber que você está sofrendo bastante, eu me sentirei melhor.”

São muitos os que acreditam nessa prática infantil. O que acontece é que, quando você faz o outro também sofrer, ele tentará sentir alívio fazendo você sofrer mais ainda. Cria-se assim um processo progressivo do sofrimento de ambas as partes. Na verdade, as duas pessoas necessitam de compaixão e ajuda. Nenhuma das duas precisa ser punida.

Quando você sentir raiva, volte-se para dentro de si mesmo e cuide dela o melhor que puder. E quando alguém fizer você sofrer, cuide do seu sofrimento e da sua raiva. Não diga nem faça nada. Qualquer coisa que você diga quando está com raiva pode causar ainda mais dano ao relacionamento. No entanto, a maioria de nós não faz isso. Em vez de nos voltarmos para dentro de nós e cuidarmos da raiva, queremos ir atrás da outra pessoa para puni-la.

Se sua casa estiver pegando fogo, a coisa mais urgente que você tem a fazer é tentar apagar o incêndio e não correr atrás da pessoa que o provocou. Esta não seria uma atitude sábia. Da mesma maneira, quando você sente raiva, se continuar a discutir com a outra pessoa, se tentar puni-la, você estará agindo exatamente como aquele que corre atrás do criminoso enquanto as chamas estão devorando a casa dele.

O Buda nos deu instrumentos extremamente eficazes para apagar o fogo que arde dentro de nós: o método da respiração consciente, o método do andar consciente, o método de abraçar nossa raiva, o método de examinar profundamente a natureza das nossas percepções e o método de observar profundamente a outra pessoa para compreender que ela também sofre muito e precisa de ajuda. Esses métodos são muito práticos e procedem diretamente do Buda.

Inspirar conscientemente é saber que o ar está entrando no corpo e expirar conscientemente é saber que o corpo está permutando ar. Assim, você fica em contato com o ar e com o seu corpo, e como sua mente está atenta a tudo isso, você fica em contato com ela também. Basta apenas uma única respiração consciente para voltar a ter contato com você e com tudo em torno, e três respirações conscientes para manter esse contato.

Quando estiver andando de um lado para outro da sala, ou de um prédio para outro, permaneça consciente do contato dos seus pés com o solo e do contato do ar à medida que ele entra e sai do seu corpo. Procure descobrir o número de passos que você pode dar com conforto enquanto inspira e quantos você pode dar enquanto solta o ar dos pulmões. Enquanto inspirar, você pode dizer mentalmente "entrando", e quando expirar, "soltando". Desta forma você estará praticando a meditação sempre que andar e, com isso, poderá transformar a vida do dia-a-dia.

Não basta ler livros a respeito de diferentes tradições espirituais ou realizar seus rituais. O importante é praticar os ensinamentos dessas tradições, porque são eles que podem nos transformar, não importa a religião ou tradição espiritual a que pertencemos. Se você procurar praticar aquilo que estou lhe ensinando, deixará de ser um mar de fogo e se tornará um lago refrescante. Seu sofrimento vai diminuir e você se tornará uma fonte de alegria e felicidade para muitas pessoas à sua volta.

Sempre que surgir a raiva, pegue um espelho e olhe para seu reflexo. Quando você sente raiva, centenas de músculos do seu rosto ficam muito tensos e você deixa de ser uma pessoa bonita. Sua face parece uma bomba prestes a explodir. Olhe para alguém que está com raiva. Quando nota a tensão nessa pessoa, você leva um susto. A bomba dentro dela pode explodir a qualquer minuto. Por isso, é muito útil olhar para nós mesmos nos momentos em que estamos com raiva. Este é o sino destinado a alertar a mente, pois, quando você se vê dessa maneira, sente vontade de fazer alguma coisa para se modificar. Você sabe o que precisa fazer para melhorar sua aparência. Não são necessários cosméticos, basta respirar profunda e tranqüilamente, relaxar e sorrir conscientemente. Se você conseguir fazer isso uma ou duas vezes, sua aparência ficará mais bonita. Olhe-se simplesmente no espelho, inspire com calma, solte o ar sorrindo e você sentirá um grande bem-estar.

Como já disse, a raiva é um fenômeno psicológico, mas está estreitamente ligada a elementos biológicos e bioquímicos. Ela faz os músculos ficarem tensos, mas quando você sorri abertamente começa a relaxar e a raiva diminui. O sorriso permite que a energia da plena consciência nasça em você, deixando-o abraçar a raiva.

Antigamente, os servos dos reis e das rainhas sempre tinham consigo um espelho para verificarem sua aparência quando o monarca recebia um visitante. Experimente fazer isso. Carregue com você um espelho e mire-se nele para ver qual o seu estado. Depois de inspirar e expirar algumas vezes, sorrindo para si mesmo, a tensão será substituída pelo alívio.

A raiva é como um bebê que grita, sofre e chora. Ele precisa que a mãe o abrace. Você é a mãe do seu bebê - a sua raiva. No momento em que começa a praticar a respiração consciente, você possui a energia de uma mãe para embalar e abraçar o bebê. Abraçar a raiva, inspirar e soltar o ar já é suficiente. O bebê sentirá um alívio imediato.

Todas as plantas são nutridas pela luz do sol, e todas são sensíveis a ela. Qualquer vegetação que é abraçada pela luz do sol passa por uma transformação. De manhã, as flores ainda não se abriram, mas, quando o sol aparece, sua luz abraça as flores e tenta penetrá-las. A luz do sol é formada por minúsculas partículas chamadas fótons. Estes penetram gradualmente na flor, um por um, até que muitos conseguem chegar do lado de dentro. A flor então deixa de resistir e se abre para a luz do sol.

Do mesmo modo, todas a formações mentais e fisiológicas existentes em nós são sensíveis à plena consciência. Se esta estiver presente, abraçando seu corpo, ele se transformará. Se a plena consciência estiver presente, abraçando sua raiva ou seu desespero, estes também serão transformados. De acordo com o Buda e segundo a nossa experiência, qualquer coisa que receba o abraço da plena consciência passará por uma transformação.

A raiva é como uma flor. No início, você pode não compreender a natureza da sua raiva ou por que ela se manifestou. Mas, se você souber como abraçá-la com a energia da plena consciência, ela começará a se abrir. Para gerar a energia da plena consciência e abraçar a raiva, você pode ficar na posição sentada, acompanhando mentalmente sua respiração, ou praticar a meditação andando e concentrando-se em cada passo. Depois de dez ou vinte minutos, a raiva terá se aberto para você e, de repente, você verá sua verdadeira natureza. Ela pode ter surgido apenas por causa de uma percepção errada ou da falta de habilidade de alguém que não tinha a intenção de lhe causar sofrimento.

Para que a flor da raiva se abra, você precisa manter a plena consciência durante um certo período de tempo. É como quando se cozinha batatas: você coloca as batatas na panela, tampa a panela e a põe no fogo. Mesmo que a chama esteja muito alta, se você desligar o fogo passados cinco minutos, as batatas não estarão cozidas. Você precisa manter o fogo aceso pelo menos durante quinze ou vinte minutos para as batatas cozinharem. Depois disso, você destampa a panela e sente o delicioso aroma das batatas cozidas. A raiva é assim. Ela precisa ser cozida. No início, ela está crua. Você não pode comer batatas cruas. É muito difícil gostar da raiva, mas, se você souber cuidar dela, souber cozinhá-la, a energia negativa da raiva se transformará na energia positiva do entendimento e da compaixão.

Você é capaz de fazer isso. Não é algo que somente um Grande Ser possa fazer. Você também pode. Você é capaz de transformar o lixo da raiva na flor da compaixão. Muitos conseguem fazer isso em apenas quinze minutos. O segredo é continuar a prática da respiração consciente, a prática do andar consciente, gerando a energia da plena consciência a fim de abraçar a raiva.

Abrace a raiva com bastante ternura. Ela não é sua inimiga, ela é seu bebê. Ela é como seu estômago ou seu pulmão. Quando tem algum problema no pulmão ou no estômago, você não pensa em jogar o órgão fora. O mesmo acontece com relação à raiva. Você a aceita porque sabe que pode cuidar dela. Você é capaz de transformá-la numa energia positiva. O jardineiro orgânico não pensa em jogar fora o lixo. Ele sabe que precisa do lixo, pois é capaz de transformá-lo em adubo composto, para que este possa novamente se transformar em alface, pepino, rabanete e flores. Ao praticar os ensinamentos, você é uma espécie de jardineiro, um jardineiro orgânico.

Tanto a raiva quanto o amor possuem uma natureza orgânica, o que significa que ambos podem mudar. O amor pode se transformar em ódio. Você sabe muito bem disso. Muitos de nós começamos os relacionamentos com um amor muito intenso. Tão intenso que acreditamos que não conseguiremos sobreviver sem nosso parceiro. No entanto, se não estivermos plenamente conscientes, um ou dois anos são suficientes para que o amor se transforme em ódio. Então, na presença do nosso parceiro, nós nos sentimos muito mal. Viver juntos se torna impossível, e a única saída passa a ser o divórcio. O amor se transformou em ódio, nossa flor virou lixo. Mas, com a energia da plena consciência, você pode olhar para o lixo e afirmar: "Não estou com medo. Sou capaz de transformar o lixo novamente em amor."

Se você enxergar em si mesmo os elementos do lixo, como o medo, o desespero e o ódio, não entre em pânico. Na qualidade de um bom jardineiro orgânico, de uma pessoa que pratica bem os ensinamentos, você tem condições de enfrentar essa situação: "Reconheço que existe lixo em mim. Vou transformar esse lixo num adubo composto capaz de fazer meu amor reaparecer."

Aqueles que têm confiança na prática da plena consciência não pensam em fugir de um relacionamento difícil. Quando você conhece e pratica as técnicas da respiração consciente, do andar consciente, do sentar consciente e do comer consciente, você consegue gerar a energia da plena consciência e abraçar sua raiva ou seu desespero. O simples fato de você acolhê-los e abraçá-los já lhe trará alívio. Depois, sem afrouxar o abraço, você pode se dedicar à prática de examinar profundamente a natureza da sua raiva. A prática, portanto, encerra duas fases. A primeira envolve o abraçar e o reconhecer: "Minha querida raiva, sei que você está presente, estou cuidando muito bem de você." A segunda fase consiste em contemplar profundamente a natureza da sua raiva para ver como ela surgiu.

Você precisa ser como a mãe que presta atenção ao choro do bebê. Se a mãe está trabalhando na cozinha e ouve o bebê chorar, ela pára qualquer coisa que esteja fazendo e corre para confortar seu filho. Ela pode estar preparando uma ótima sopa, mas nada é mais importante do que o sofrimento do bebê. O surgimento da mãe no quarto do bebê é como a luz do Sol, porque ela está repleta do calor do amor, do cuidado e da ternura. A primeira coisa que ela faz é pegar o bebê e abraçá-lo com carinho. Quando a mãe abraça o bebê, sua energia penetra nele e o acalma. É exatamente isso que você precisa aprender a fazer quando a raiva começar a se manifestar. Você tem que abandonar tudo que estiver fazendo, porque a tarefa mais importante que você tem diante de si é se voltar para dentro e tomar conta do seu bebê, a raiva. Nada é mais urgente do que cuidar bem do seu neném.

Você se lembra que, quando era criança e tinha febre, mesmo que lhe dessem aspirina ou algum outro remédio, você só se sentia melhor quando sua mãe punha a mão na sua testa escaldante? A sensação era tão boa! A mão dela parecia a mão de uma deusa. Quando ela o tocava, você sentia um grande frescor, amor e compaixão entrando no seu corpo. A mão da sua mãe é a sua própria mão. A mão dela ainda estará viva na sua se você souber como inspirar e expirar, se você ficar plenamente consciente. Depois, ao tocar sua testa com sua própria mão, você perceberá que a mão da sua mãe ainda está presente, tocando sua testa. Você receberá a mesma energia de amor e ternura.

A mãe segura de forma consciente o bebê, totalmente concentrada nele. O bebê sente um certo alívio porque está sendo abraçado com ternura pela mãe, como a flor que é envolvida pela luz do sol. Ela abraça o bebê não apenas porque o ama, mas também para descobrir o que há de errado com ele. Como ela é uma verdadeira mãe, extremamente talentosa, consegue descobrir rapidamente o problema do neném. Ela é especialista em bebês.

Na qualidade de praticantes dos ensinamentos, temos que ser especialistas em raiva. Temos que cuidar da nossa raiva e praticar até compreender a sua origem e o seu funcionamento. Ao abraçar conscientemente o bebê, a mãe descobre a causa do sofrimento dele e fica muito mais fácil para ela corrigir a situação. Se o bebê está com febre, ela lhe dará um remédio para baixar a febre. Se estiver com fome, ela o alimentará, e se a fralda estiver molhada, ela a trocará.

Como praticantes, é exatamente isso que fazemos. Abraçamos conscientemente nosso bebê - a raiva - para obtermos alívio. Continuamos a praticar a respiração consciente e o andar consciente, como uma canção de ninar para a nossa raiva. A energia da plena consciência penetra na energia da raiva, exatamente como a energia da mãe penetra na energia do bebê. Não existe nenhuma diferença. Se você souber sorrir, praticar a respiração consciente e a meditação, concentrando-se nos seus passos, é certo que sentirá alívio em cinco, dez ou quinze minutos.

No momento em que você sente raiva, você tem a tendência de acreditar que seu sentimento foi criado por outra pessoa. Você culpa esta pessoa por todo o seu sofrimento. Mas, ao fazer um exame profundo, você talvez perceba que a semente da raiva que existe em você é a principal causa do seu sofrimento. Muitas outras pessoas, quando confrontadas com a mesma situação, não ficariam com a raiva com que você fica. Elas ouvem as mesmas palavras, presenciam a mesma situação, mas são capazes de permanecer mais calmas, sem se deixarem afetar tanto pelas circunstâncias. Por que você se enraivece com tanta facilidade? Talvez isso aconteça porque a semente da raiva é muito forte, e como você não praticou os métodos destinados a cuidar bem da raiva, a semente dela pode ter sido regada no passado com excessiva freqüência.

(Do livro “Aprendendo a lidar com a raiva” - Thich Nhat Than)