A Associação Meditar é uma sociedade civil com personalidade jurídica, sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne sempre no Espaço Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

(Atenção!!! - Em Julho, no período de recesso, estaremos com outro local de prática! O endereço é na Rua Professora Neuza Lula Rodrigues, n. 150, Casa 11 - Resid. Canachuê - B. Jardim Santa Amália.) Sempre aos sábados, das 07h às 08h! Informações: (65) 9.8143-4379 - Ivan.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Travessia de Primavera




Texto da Monja Coen publicado no jornal O Globo de 18/09/2014

As eleições também se dão em casa, onde ficamos nos exibindo para ganhar os corações daqueles com quem nos relacionamos.

Equinócio de equidade. Dia e noite com a mesma duração. Equidade mental — os opostos têm o mesmo valor.

Eleições na primavera — opositores se equivalem? Travessia de ir e vir, de atravessar sem que uma pessoa atravesse o caminho da outra ou mostre o avesso, o revés.

Eleições de avessos que se avessam.

Como ainda estamos distante de um ideal civilizatório de equidade e respeito!

O equinócio de setembro marca o início da primavera no Hemisfério Sul e o início do outono no Norte. É um momento em que nós, budistas, celebramos a equidade entre dia e noite, o que nos facilita a travessia do caudaloso (confuso, cheio de entulhos, lixo, poluição — algumas vezes seco, rachado, furado, fétido, outras vezes molhado, coberto, cheiroso, ardiloso com redemoinhos e pedras submersas, escondidas, que podem furar o barco) rio da vida-morte.

Atravessar o rio é simbólico de perceber que estamos na margem do sofrimento, da ignorância, envenenados pela ganância e pela raiva.

Reconhecemos essa margem? Aflições, ansiedades, medos, desgraças? Os venenos que impedem a mente de ter sensações, percepções, conexões neurais e consciência leves e claras. Como águas poluídas, a mente fica turva, confusa, capaz de improbidades para obter sucesso, ganhar votos, eleger-se.

As eleições não são apenas presidenciais, de senado, assembleias, governos estaduais. As eleições se dão em casa — pessoas lutando pelos votos das famílias. Tanto um querendo ganhar o voto do outro, como também dos filhos, dos amigos, dos vizinhos, dos avós. Incessante.
Ficamos nos exibindo, contando vantagens (ou contando desvantagens — outra forma de se vangloriar) para obter aplausos, votos, para sermos eleitos aos corações e atenções das outras pessoas com quem nos relacionamos.

Funciona no trabalho, na rua, no trânsito, no Facebook, no Twitter. Funciona tanto na terra como nos céus. Queremos os votos de confiança, respeito e apoio de Budas, Bodisatvas, Santos, Santas, Profetas, Pastores, Divindades.

Queremos o apoio dos filósofos e dos sábios, bem com dos incultos e dos tolos. Queremos até os mornos.
Nossa carência e insuficiência se revelam no insulto, no rebaixar os outros, no ataque raivoso, dedo em riste.
Que triste.

Quisera poder viver um tempo de anistia, um tempo de alegria, um tempo de paz.
Tempo de atravessar desta margem confusa e agressiva, de tanta falsidade que duvidamos da dúvida — pois ninguém mais é confiável. Nem mesmo a mídia, nem mesmo eu.

Atravessar para a margem da tranquilidade, pegar o barco seguro da verdade e da ética. Chegar lá — que é aqui. Chegar onde se chega com ternura, com respeito, com brandura, sem luta, sem nenhuma luta.

Chega-se de manso, de leve, com trabalho, perseverança. Chega-se pensando no bem maior do grande Eu. Inclusão, alimentos, escolaridade, saúde.

Sem pilhérias, sem misérias.

Aqui e acolá. No planeta, nosso corpo comum.

Sem mais guerras, sem decapitações, sem ataques, sem mutilações.

Quero ver o mundo despertar dessa dormência tola e se unir em projetos que beneficiem a todos.

Isso é travessia.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Informe - Encontro de Meditação

Queridos Amigos e Amigas,

informamos que conseguimos agendar uma nova data para vinda Dr. Ênio Burgos, agora no mês de novembro, nos dias 28 e 29. Na sexta-feira, no período noturno; e, no sábado, o dia todo.

Estão todos convidados! Serão dois dias de mente atenta!

Maiores informações e inscrição: (65) 3052-6634.


Dúvidas sobre a prática

Por Thich Nhat Hanh

Pergunta: Por que praticar a plena consciência é tão importante?

Thich Nhat Hanh: Todo mundo é capaz de estar atento. Todos são conscientes em certa medida. A questão é como ser mais consciente. Muitas pessoas se perdem na preocupação com o futuro e arrependimentos sobre o passado. Eles são apanhados em seus projetos e fantasias e suas mentes não estão ligadas a seus corpos. Se o corpo não está unido com a mente, não estamos realmente vivos. O andar atento e o respirar conscientemente ajudam a trazer a mente de volta para o corpo, para que possamos estar verdadeiramente presente no aqui e agora e nos tornarmos realmente vivos.

Praticar a consciência pode ser uma espécie de ressurreição, de repente, você se torna vivo novamente. Plena consciência (mindfulness) aumenta a concentração e permite-nos ver as coisas mais profundamente e deixamos de ser vítimas de percepções erradas. Nós vamos criar menos sofrimento para nós e para outras pessoas. Vamos começar a saborear a alegria de viver e ajudar os outros a desfrutar de suas vidas diárias. Não podemos forçar as pessoas a praticar a atenção plena, mas se praticarmos e nos tornarmos felizes, poderemos inspirar outras pessoas para a prática.

P: Um dos termos mais usados em ensinamentos budistas é "olhar profundamente." O que significa olhar profundamente?

Thay: Olhar profundamente significa estar profundamente consciente do objeto de nossa concentração. Nós usamos a energia da consciência para abraçar o objeto e nos concentrarmos nele. Podemos usar não só os nossos olhos, mas também os nossos ouvidos para olhar profundamente. Olhar e escutar em profundidade são essencialmente a mesma coisa. Nós podemos ouvir a nós mesmos e aos outros com os nossos ouvidos e isso vai resultar numa melhor compreensão e discernimento. Todos nós temos olhos e ouvidos, mas sem a energia da consciência para capacitá-los, não poderemos praticar o olhar e o ouvir em profundidade Podemos olhar profundamente, mesmo com nossos olhos e ouvidos fechados. Para olhar profundamente a natureza da nossa inspiração, nós não precisamos de olhos ou ouvidos; quando plena consciência (mindfulness) está presente na nossa consciência mental, ela faz o trabalho de olhar profundamente.

Às vezes podemos até usar o pensamento. Em muitos casos, o pensamento pode nos desviar do caminho e podemos nos perder. Mas se soubermos lidar com nossos pensamentos, ele pode nos ajudar a ver mais profundamente. Todos nós já tivemos a experiência de ler algo e nos enganarmos a nós mesmos ou ter a ilusão de que havíamos entendido. Mas, ao relê-lo ou referindo-nos a aquilo, descobrimos que não  absorvemos ou entendemos realmente.

A mesma coisa é verdadeira ao olhar profundamente. Podemos pensar que é fácil perceber que uma flor é impermanente. Nós aceitamos a impermanência da flor. Mas não é através do uso de seu intelecto que você toca na raiz da impermanência. Você tem que tocar a natureza da impermanência de uma forma profunda, a fim de ir além de sua noção de impermanência e também da raiz dessa noção. Este é o núcleo da prática chamada de meditação de insight ou olhar profundamente (vipashyana). A fim de fazer isso com sucesso, você deve cultivar a sua atenção e concentração, que são os poderes que lhe permitem aprofundar a natureza das coisas.

P. Eu venho praticando sozinho por muitos anos, mas eu continuo a achar que é difícil estar atento. Eu posso manter a concentração por algumas semanas, mas minha mente é facilmente agitada e algo vem sempre para me distrair. Quais são seus pensamentos sobre isso?

Thay: É porque nossas mentes são agitadas que temos que praticar. Todos os praticantes têm os seus altos e baixos. Isso é natural. Mas se você tem uma comunidade de companheiros praticantes, a Sangha, para se refugiar, você será apoiado nestes momentos em que você se sente por baixo. A Sangha vai encorajá-lo e ajustá-lo em seu caminho.

Refugiar-se na Sangha é uma tarefa crítica. Sem uma Sangha, não podemos continuar nossa prática por muito tempo. Se você deixou sua Sangha, tem que voltar imediatamente. Se você não esteve em contato com uma Sangha, tente o seu melhor para encontrar uma. Todos nós podemos construir Sanghas onde quer que estejamos. Pessoas em todos os lugares precisam de estabilidade, calma e atenção. O obstáculo pode ser que queiramos usar termos budistas. Há muitas pessoas que querem apenas sentar e não fazer nada, tornarem-se pacíficas e calmas, estarem atentas a cada momento de suas vidas diárias.

Se necessário, você pode abster-se de usar termos budistas, basta incorporar o Dharma em sua vida consciente, ter frescor e ser comunicativo. Se você usar uma linguagem budista, no início, você vai afastar as pessoas e não vai ser bem sucedido. Ouça as pessoas profundamente, usando o discurso amoroso. Então você vai fazer amigos. Você também pode ter árvores, rios e rochas como os membros de sua Sangha. O ar que você respira é um elemento de sua Sangha. O caminho que você usar para a meditação andando é um elemento de sua Sangha. As pessoas não precisam se ajoelhar e receber os Cinco Treinamentos de Consciência, a fim de ser membros de sua Sangha. A criança com quem você fala, o vizinho com quem você faz amizade podem ser membros de sua Sangha. Todo mundo que você encontra, todos com quem você faz negócios, podem ser um membro de sua Sangha.

Apenas ter um grupo de pessoas para conversar, para se conectar, pode ser uma espécie de Sangha. Você não tem que usar a palavra "Sangha". Se convidar as pessoas para o chá, não diga: "Vamos ter a meditação do chá." Diga: "Vamos tomar um chá em paz e estar cientes de que temos algum tempo para passar juntos, apreciando o nosso chá e nossa união." Se você aprender a usar esse tipo de linguagem, em breve vai ser capaz de construir uma Sangha.

P: É muito difícil para mim relaxar. Sou inquieto e tenho dificuldade de ficar parado quando medito. Como posso me tornar menos agitado?

Thay: Muitos de nós têm uma forte energia nos empurrando para seguir em frente. É por isso que são oferecidas as práticas de sentar, andar, comer e respirar. Enquanto comemos, aproveitamos cada pedaço de comida que mastigamos. Se formos bem sucedidos com a primeira mordida, pode ser que sejamos bem sucedidos com a segunda e a terceira. A prática da alimentação nos ajuda a relaxar. A prática da caminhada também nos ajuda a relaxar. Se você sente que não pode relaxar, pratique a meditação andando, dando um passo de cada vez. Se você puder dar um passo que traz solidez e descanso, então você poderá dar um outro passo.

Se estiver agitado ou inquieto e não sabe como lidar com essa energia, você deve reconhecer e nomear essa energia como "inquietude" ou "agitação". Inspirando, você diz: "Eu te conheço, energia de inquietação." Use sua inspiração e expiração para reconhecê-la e sorrir para ela. Tenha fé na prática. Comece com um pedaço de comida, uma inspiração e um passo. Tudo o que você estiver fazendo, esfregando o chão ou dando um passo, respire e recupere a liberdade para se tornar você mesmo. Então você não será mais uma vítima da energia da inquietação.

P. Como podemos aprofundar a nossa prática?

Thay: Aprofundar a nossa prática significa ter uma prática genuína, praticando não apenas na forma. Quando sua prática é genuína, ela vai trazer alegria, paz e estabilidade para você mesmo e para as pessoas ao seu redor. Eu prefiro a expressão "verdadeira prática." Para mim, a prática deve ser agradável. A verdadeira prática pode trazer-nos a vida de imediato. Ao praticar a respiração consciente, você se torna vivo, se torna real e não apenas quando você sentar ou andar, mas quando está preparando o café da manhã ou realizando qualquer atividade. Se você sabe como inspirar e expirar conscientemente ao preparar o café da manhã com um sorriso, vai cultivar a vivacidade, a alegria e a compaixão e a liberdade de pensar sobre o passado ou de se preocupar com o futuro. Isso é a verdadeira prática, e seu efeito pode ser visto imediatamente.

P: Eu fico ocupado desde o início da manhã até tarde da noite. Eu raramente estou sozinho. Onde posso encontrar um tempo e lugar para contemplar em silêncio?

Thay: O silêncio é algo que vem de seu coração, não de fora. O silêncio não significa  deixar de falar e não fazer as coisas, significa que você não está perturbado por dentro, não existe fala dentro de você. Se você é realmente silencioso, então não importa em que situação se encontre, poderá desfrutar do silêncio. Há momentos em que você acha que está em silêncio e tudo está em silêncio, mas a fala está acontecendo o tempo todo dentro de sua cabeça. Isso não é silêncio.

A prática é encontrar o silêncio em todas as suas atividades. Vamos mudar a nossa maneira de pensar e a nossa maneira de olhar. Temos de perceber que o silêncio vem do nosso coração e não da ausência de conversa. Sentar-se para comer o seu almoço pode ser uma oportunidade para que você possa desfrutar de silêncio, embora os outros possam estar falando, é possível que você seja muito silencioso por dentro. O Buda foi cercado por milhares de monges. Embora andasse, sentasse e comesse entre os monges e as monjas, ele sempre habitou em seu silêncio. O Buda deixou bem claro que, ficar sozinho, ficar quieto, não significa que ter que ir para a floresta. Você pode viver na Sangha, pode estar no mercado, mas ainda desfrutar do silêncio e da solidão.

Estar sozinho não significa que não há ninguém ao seu redor. Estar sozinho significa que você está firmemente estabelecido no aqui e no agora e se torna consciente do que está acontecendo no momento presente. Você usa sua consciência para tornar-se consciente de cada sentimento, cada percepção que você tem. Está ciente do que está acontecendo ao seu redor na Sangha, mas você está sempre com você, e não se perde. Essa é a definição da prática ideal da solidão do Buda: não ser capturado pelo passado ou levado pelo futuro, mas sempre estar aqui, com corpo e mente unidos, conscientes do que está acontecendo no momento presente. Essa é a solidão real.

(Do livro de Thich Nhat Hanh - "Answers from the heart” - Tradução Leonardo Dobbin)