A Associação Meditar é uma sociedade civil com personalidade jurídica, sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne sempre no Espaço Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

(Atenção!!! - Em Julho, no período de recesso, estaremos com outro local de prática! O endereço é na Rua Professora Neuza Lula Rodrigues, n. 150, Casa 11 - Resid. Canachuê - B. Jardim Santa Amália.) Sempre aos sábados, das 07h às 08h! Informações: (65) 9.8143-4379 - Ivan.

sábado, 29 de novembro de 2014

Leoni e Herbert Vianna - Canção pra quando você voltar (DVD)

Feliz Continuação

Por Thich Nhat Hanh

Ouça Shariputra, todos os dharmas são marcados com a vacuidade. Eles não podem ser produzidos nem destruídos. (Sutra do Coração)

Dharmas aqui, significam coisas. Um ser humano é um dharma. Uma árvore é um dharma. Uma nuvem é um dharma. O brilho do sol é um dharma. Tudo que pode ser concebido é um dharma. Portanto, quando dizemos, Todos os dharmas são marcados com a vacuidade, estamos dizendo, tudo tem a vacuidade como sua natureza. E é por isso que tudo pode existir. Há muita alegria nessa declaração. Significa que nada pode nascer, nada pode morrer. Avalokita disse algo extremamente importante.

Em cada dia na nossa vida vemos nascimento e morte. Quando uma pessoa nasce, uma certidão de nascimento é impressa para ele. Depois que morre, de forma a enterrá-lo, um certificado de óbito é feito. Essas certidões confirmam a existência do nascimento e da morte. Mas Avalokita disse, Não, não há nascimento e morte. Temos que olhar, mais profundamente de forma a ver se essa declaração é verdadeira.

Qual é a data na qual você nasceu, sua data de nascimento? Antes dessa data, você já existia? Você já estava presente antes de nascer? Deixe-me ajudá-lo. Nascer significa que de nada você se tornou algo. Minha pergunta é, antes de  nascer, você já estava presente?

Suponha que uma galinha está prestes a colocar um ovo. Antes de ela colocá-lo, você acha que o ovo já estava presente? Sim, é claro. Está dentro dela. Você também estava dentro antes que saísse. Isto significa que antes de nascer, você já existia dentro de sua mãe. O fato é que se algo já está presente, não necessita nascer. Nascer significa que do nada, você se tornou algo. Se você já é algo, qual o sentido de nascer?

Portanto, o chamado, dia do aniversário é na realidade seu dia de Continuação. Na próxima vez que celebrar, pode dizer, Feliz dia de Continuação. Acho que podemos ter uma idéia melhor de quando nascemos. Se voltarmos nove meses antes, para o momento da concepção, teremos uma data melhor para colocar em nossa certidão de nascimento. Na China e também no Vietnã, quando nasce, já se considera que você tenha um ano de idade. Portanto dizemos que nosso início se dá no momento da concepção no útero de nossa mãe, e escrevemos essa data na nossa certidão de nascimento.

Mas a questão permanece: Antes mesmo desta data você existia ou não? Se você disser, Sim, acho que está correto. Antes da sua concepção, você já estava presente, talvez metade na sua mãe, metade no seu pai. Porque do nada, não podemos nos tornar algo. Você pode citar uma coisa que uma vez tenha sido nada? Uma nuvem? Você acha que uma nuvem pode nascer do nada? Antes de ser uma nuvem, era água, talvez flutuando em um rio. Ela não era um nada. Você concorda?

Não podemos conceber o nascimento do nada. Há apenas continuação. Por favor, olhar ainda mais para trás e você verá que você não apenas existia no seu pai e mãe, mas também nos seus avôs e avós. Ao olhar mais profundamente, posso ver que numa vida anterior eu era uma nuvem. Isto não é poesia, é ciência.

Porque eu digo que numa vida anterior eu era uma nuvem? Porque eu ainda sou uma nuvem. Sem a nuvem, eu não poderia estar aqui. Eu sou a nuvem, eu sou o rio, e o ar neste exato momento, portanto eu sei que no passado eu fui uma nuvem, um rio e o ar. E eu era uma pedra. Eu era os minerais na água. Isto não é uma questão de crença em reencarnação. Esta é a história da vida na Terra. Fomos gás, brilho do sol, água, fungos e plantas. Fomos seres unicelulares. O Buda disse que em suas vidas passadas ele era uma árvore. Ele foi um peixe, Ele foi um cervo. Estas não são coisas supersticiosas. Todos fomos uma nuvem, um cervo, um pássaro, um peixe e continuamos a ser essas coisas, não apenas em vidas passadas.

E não é apenas assim com o nascimento. Nada pode nascer e também nada pode morrer. Isto foi o que Avalokita disse. Você acha que uma nuvem pode morrer? Morrer significa que de algo você se tornou nada. Você acha que podemos transformar alguma coisa em nada? Vamos voltar à nossa folha de papel. Podemos ter a ilusão que para destruir toda a folha tudo o que temos que fazer é acender um fósforo e queimá-la. Mas se queimarmos uma folha de papel, parte dela se tornará fumaça e a fumaça subirá e continuará a existir.

O calor resultante da queima do papel entrará no cosmos e penetrará nas outras coisas, porque o calor é a vida seguinte do papel. A cinza que é formada se tornará parte do solo e a folha de papel, na sua vida seguinte, poderá ser uma nuvem e uma rosa ao mesmo tempo. Temos que ser muito cuidadosos e atentos de forma a perceber que esta folha de papel nunca nasceu e nunca morrerá. Ela pode passar a ser outras formas de vida, mas não somos capazes de transformar uma folha de papel em nada.

Tudo é assim, mesmo você e eu. Não somos sujeitos ao nascimento e morte. Um mestre Zen poderia dar a seu aluno um tema de meditação como esse, Como era seu rosto antes que seus pais nascessem? Este é um convite para ir em uma viagem de forma a se reconhecer. Se você fizer bem feito, poderá ver suas vidas passadas assim como as vidas futuras.

Lembre-se, por favor, que não estamos falando sobre filosofia, estamos falando da realidade. Olhe para a sua mão e se pergunte, Desde quando minha mão tem estado por aí? Se eu olhar profundamente para minha mão, poderei ver que ela tem estado por aí há um longo tempo, mais de 300.000 anos. Vejo muitas gerações de ancestrais nela, não apenas no passado mas no momento presente, ainda vivas. Eu sou apenas uma continuação. Eu nunca morri nenhuma vez. Se eu tivesse morrido uma vez ao menos, como minha mão ainda estaria aqui?

O cientista francês Lavoisier disse, Nada é criado e nada é destruído. Isto é o mesmo que está no Sutra do Coração. Mesmo os melhores cientistas contemporâneos não podem reduzir algo como uma partícula de poeira ou um elétron a nada. Uma forma de energia pode apenas se tornar outra forma de energia. Uma coisa nunca pode se tornar nada e isso inclui uma partícula de poeira.

Usualmente dizemos que humanos vêm do pó e voltaremos ao pó e isto não soa muito alegre. Não queremos retornar ao pó. Há uma discriminação aqui achando que humanos valem mais e que a poeira não tem valor nenhum. Mas cientistas não sabem ao menos o que é um grão de poeira! Ainda é um mistério. Imagine um átomo desse grão de poeira, com elétrons viajando em torno do núcleo a 180.000 milhas por segundo. É muito excitante. Voltar a ser um grão de poeira será uma aventura muito excitante!

Às vezes temos a impressão que entendemos o que é um grão de poeira. Até mesmo fingimos que entendemos um ser humano um ser humano que dizemos que voltará a ser um grão de poeira. Como vivemos com uma pessoa por 20 ou 30 anos, temos a impressão que sabemos tudo sobre ela. Portanto, ao dirigir o carro com a pessoa ao nosso lado, pensamos em outras coisas. Não estamos mais interessados nela. Que arrogância! A pessoa sentada ali ao nosso lado é realmente um mistério! Apenas temos a impressão que a conhecemos, mas não sabemos nada ainda.

Se olharmos com os olhos de Avalokita, veremos que mesmo um fio de cabelo da pessoa é o cosmos inteiro. Um fio de cabelo na sua cabeça pode ser uma porta se abrindo para a realidade última. Um grão de poeira pode ser o Reino dos Céus, a Terra Pura. Quando você vir que você, o grão de poeira e todas as coisas intersão, você entenderá que as coisas são dessa forma. Precisamos ser humildes. Dizer que não sabe é o começo do conhecimento, é um provérbio chinês.

Um outono, eu estava em um parque, absorvido na contemplação de uma  bonita folha muito pequena, na forma de coração. Sua cor era quase vermelha, e estava por pouco pendurada no galho, quase pronta para cair. Eu fiquei um bom tempo com ela e perguntei à folha muitas questões. Eu descobri que a folha tinha sido uma mãe para a árvore. Usualmente pensamos que a árvore é a mãe da folha. A seiva que as raízes captam é apenas água e minerais, e não é boa o suficiente para nutrir a árvore, portanto a árvore distribui a seiva para as folhas. E as folhas assumem a responsabilidade de transformar a seiva bruta na seiva elaborada e com a ajuda do sol e gás, a devolvem de forma a nutrir a árvore. Portanto as folhas são também a mãe da árvore. E como a folha é ligada à árvore por um talo, a comunicação entre elas é fácil de ver.

Não temos mais um talo nos ligando à nossa mãe, mas quando estávamos no seu útero tínhamos um longo talo, um cordão umbilical. O oxigênio e os nutrientes que precisávamos vinham para nós através desse talo. Infelizmente, no dia que chamamos de dia do aniversário, ele foi cortado e recebemos a ilusão que éramos independentes. Isto é um erro. Continuamos a depender de nossa mãe por um longo tempo, e temos muitas outras mães também. A Terra é nossa mãe. Temos muitos grandes talos nos ligando à nossa mãe Terra.

Há um talo nos ligando com a nuvem. Se não houvesse nuvem, não haveria água para bebermos. Somos feitos de pelo menos setenta porcento de água e o talo entre a nuvem e nós está realmente presente. Há também a mesma situação com o rio, a floresta, o lenhador e o fazendeiro. Há centenas de milhares de talos nos ligando a tudo no cosmos de forma que possamos existir. Você vê a ligação entre você e eu? Se você não estiver aí, eu não estaria aqui. Isto é certo. Se você não vê isso ainda, olhe mais profundamente e tenho certeza que verá. Como disse, não é filosofia. Você realmente tem que ver.

Eu perguntei para a folha se ela tinha medo porque era outono e as outras folhas estavamm caindo. A folha me disse, Não. Durante toda a primavera e verão eu estava viva. Trabalhei duro e ajudei a nutrir a árvore, e muito de mim está na árvore. Por favor, não diga que eu sou apenas esta forma, porque a forma da folha é apenas uma pequena parte de mim. Eu sou a árvore inteira. Sei que já estou dentro da árvore e quando eu for de volta ao solo, continuarei a nutrir a árvore. É por isso que não me preocupo. Assim que eu deixar o galho e flutuar ao solo, acenarei para a árvore e direi a ela, `Te verei novamente em muito em breve` .

Logo eu vi um tipo de sabedoria muito parecido com a contida no Sutra do Coração. Você tem que ver a vida. Não deveria dizer a vida da folha, deveria apenas falar na vida na folha, na vida na árvore. Minha vida é apenas Vida, e você pode vê-la em mim e na árvore. Naquele dia havia um vento soprando e depois de um tempo via a folha deixar o galho e flutuar para o solo, dançando alegremente, porque enquanto flutuava olhava para si mesmo já na árvore. Ela estava muito feliz. Curvei minha cabeça e sabia que havia muito a aprender da folha porque ela não tinha medo ela sabia que nada pode nascer e nada pode morrer.

(...) Amanhã eu continuarei a ser. Mas você terá que ser muito atencioso para me ver. Eu serei uma flor ou uma folha. Eu estarei nessas formas e direi alô para você. Se você tiver atenção suficiente me reconhecerá e poderá me cumprimentar. Eu ficarei muito feliz.

(Do livro The heart of undestanding Thich Nhat Hanh)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)
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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Aulas NAMU: Monja Coen ensina a meditação zen-budista

Treinamentos - Ética e Espiritualidade

A ética e espiritualidade estão conectadas

Recentemente, fui entrevistado por um teólogo cristão que me perguntou: "Como podemos tornar realidade uma espiritualidade global?" Mas a espiritualidade não pode ser separada da ética. É preciso haver uma relação entre o espiritual e o ético. Se praticarmos os Cinco Treinamentos da Plena Atenção, teremos uma prática que é ao mesmo tempo espiritual e ética e que pode nos guiar coletivamente em direção a uma forma de vida mais sustentável.

Há uma ligação profunda entre o ético e o espiritual. Se você não pode ver o espiritual na formação ética, a sua ética pode estar vazia. Você pode estar fazendo as coisas sem saber o porquê e pode não haver nenhuma alegria em suas ações. Por exemplo, inspirado pelo Quinto Treinamento de Plena Atenção, você pode decidir não mais beber álcool ou usar drogas. Mas se você se ressente do Treinamento e sofre com isso, porque ainda quer beber álcool ou usar drogas, a ética que você segue é vazia, porque realmente não vê o valor nela.

Os Treinamentos da Plena Atenção são baseados em discernimento e amor e não em proibição e recusa. Isto é válido para qualquer um dos treinamentos. Se você é vegetariano porque acha que deveria ser, mas deseja que pudesse comer carne, então você não está realmente seguindo os treinamentos. Mas se você sentir que tem sorte de ser capaz de comer principalmente verduras e legumes e não causar sofrimento a outros seres vivos, então há alegria, compreensão, compaixão e espiritualidade em sua alimentação. Comer se torna uma coisa muito espiritual. Não há nenhuma barreira que divida o ético e o espiritual.

Os Cinco Treinamentos da Plena Atenção não contém dogma, religião ou sectarismo. Cada um de nós pode usar os treinamentos como princípios éticos práticos para a nossa vida, sem ser parte de qualquer fé ou tradição particular. Você pode ser apenas você mesmo ao tentar fazer sua vida bonita, seguindo a sabedoria desses treinamentos. Os Cinco Treinamentos são, para cada um de nós, o resultado do nosso próprio olhar profundo e do olhar profundo coletivo.

O objetivo dos treinamentos não é segui-los perfeitamente e, em seguida, se sentir superior porque os seguimos. Os treinamentos são um guia; não é possível praticá-los tão perfeitamente que evite qualquer sofrimento para todos. Por exemplo, não é possível evitar a matança. O cultivo de hortaliças, a purificação da água que bebemos e outras atividades humanas necessárias causam a morte de pequenos seres vivos. Os vegetais também são seres vivos. Comparado com o sofrimento dos animais, parece que o sofrimento das plantas é menor; mas não significa que não haja sofrimento. Nós não podemos abolir o sofrimento por completo, mas vamos tentar reduzi-lo. Podemos tentar reduzir o sofrimento um pouco de cada vez, todos os dias.

Os Cinco Treinamentos existem para serem estudados, aprendidos, recitados e praticados para que possamos aprofundar as nossas experiências e compreensão, e para que possamos compartilhar isso com outras pessoas. Se fizermos isso como uma grande comunidade, nossa visão vai crescer e isso vai beneficiar muitas pessoas. Se durante a prática dos Cinco Treinamentos você sentir que sua compaixão e bondade amorosa tornaram-se maiores, que o seu entendimento tem crescido, que você pode compartilhar o seu conhecimento e fazer as coisas melhores, então você estará no caminho certo.

Nossa ética deve ser uma ética sem dogmas, sem pontos de vista. Ninguém impõe os treinamentos sobre nós, ninguém está nos pedindo para praticar. Nós mesmos podemos ver com base em nosso próprio insight e experiência que o nosso caminho é de alegria, compaixão e amor. Os Cinco Treinamentos incluem a prática de não sermos capturados em uma forma dualista de ver as coisas.

O dualismo é a visão de que o bem e o mal, o sagrado e o profano, a felicidade e o sofrimento se opõem uns aos outros e que é só por destruir o mal que temos o bem e destruindo o profano que temos o sagrado. De acordo com a visão da interexistência, o bem e o mal intersão. Bem é uma maneira hábil de lidar com o mal e que leva à sua transformação. Não lutamos contra. O bem e o mal são orgânicos e estão presentes juntos. Essa percepção é a única maneira de podermos remover todas as discriminações e medo. É o fundamento da prática dos treinamentos. Em seguida, os treinamentos, muito naturalmente, tornam-se a forma como vivemos e a fonte de nossa felicidade.

No Budismo existe a noção de karma, que significa ação. Isso inclui o ato de pensar, o ato de falar, e o ato de realizar a ação física. Cada pensamento que você produz é a sua continuação. Cada palavra que você fala é a sua continuação. Tudo que você faz com o seu corpo é o seu prosseguimento. Até nossos pensamentos são um tipo de energia que produzimos. Nós produzimos energia da mesma forma que uma nuvem produz chuva. A chuva é uma ação realizada pela nuvem; a nuvem é transformada na chuva. Somos muito parecidos com a nuvem. Assim como a nuvem produz chuva, nós produzimos pensamentos, palavras e ações que nos continuam para sempre. Quando este corpo se desintegrar, você continuará para sempre pelo seu karma.

Você não precisa esperar a desintegração do seu corpo para renascer em novas formas de vida. Uma nuvem não precisa desaparecer completamente, a fim de se tornar a chuva. É maravilhoso ser uma nuvem flutuante, mas também é muito maravilhoso ser a chuva caindo. Quando eu olho em volta de mim, me vejo em muitas direções. Eu já estou reencarnado em muitas formas. Se você acha que eu estou apenas aqui neste corpo, isto é uma visão errada; você realmente não tem me visto. Nós somos mais do que aquilo que podemos ver. Nós produzimos muitos pensamentos, palavras e ações que nos continuam um pouco por toda parte.

Com a prática dos Cinco Treinamentos, podemos assegurar que a nossa continuação estará contribuindo para um mundo mais sustentável e pacífico. Os Treinamentos não são só para a nossa própria sobrevivência, mas para a sobrevivência das futuras gerações e do planeta, hoje e depois de nossos corpos sumirem.

Nós podemos começar a praticar a qualquer momento. Ontem, nós podemos ter produzido um pensamento cruel. Hoje, nós podemos produzir outro pensamento que pode modificar e transformar o pensamento produzido ontem. Tão logo o pensamento de hoje de compreensão e compaixão seja produzido, pode contrabalançar o pensamento de ontem. Com atenção plena, temos a liberdade de mudar a nós mesmos e ajudar a mudar o mundo. A prática dos Cinco Treinamentos não é apenas um caminho individual, mas parte de uma ética global maior que pode mudar a direção que estamos indo atualmente como pessoas e como um planeta. Os Treinamentos estão lá para todos nós, aonde quer que vivamos, quaisquer que sejam as nossas tradições culturais e espirituais. Se cada um de nós puder praticar estes treinamentos, individualmente e em conjunto, vamos nos encontrar de mãos dadas, percorrendo o caminho juntos em direção a um futuro sustentável e mais alegre.


(Do livro “The mindfulness survival kit”– Thich Nhat Hanh)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)
Texto extraído em http://sangavirtual.blogspot.com

domingo, 12 de outubro de 2014

Ensinamento para crianças

Sidarta quietamente fez um gesto para que as crianças sentassem e disse: “Vocês todas são crianças inteligentes e eu estou certo que serão capazes de entender e praticar as coisas que eu partilharei com vocês. O Grande Caminho que eu descobri é profundo e sutil, mas qualquer um desejando aplicar seu coração e mente pode entendê-lo e segui-lo.”

“Quando você, criança, descasca uma tangerina, pode comê-la com consciência ou sem consciência. O que significa comer uma tangerina com consciência? Quando você está comendo uma tangerina está consciente que está comendo uma tangerina. Você experimenta totalmente sua adorável fragrância e gosto doce. Quando você descasca a tangerina, sabe que está descascando a tangerina; quando remove um gomo e o coloca em sua boca, sabe que está removendo um gomo e o colocando na boca. Quando experimenta sua adorável fragrância e gosto doce, está consciente que está experimentando seu gosto doce e adorável fragrância.”

“A tangerina que Nandabala me ofereceu tem nove gomos. Eu comi cada gomo em plena consciência e vi o quão preciosos e maravilhosos eram. Eu não esqueci a tangerina, e portanto a tangerina era real, a pessoa comendo a tangerina era real. Isto é que é comer uma tangerina de forma consciente.”

“Crianças o que significa comer uma tangerina sem plena consciência? Quando você está comendo uma tangerina, não sabe que está comendo uma tangerina. Não experimenta a adorável fragrância e o gosto doce da tangerina. Quando você descasca a tangerina, não sabe que está descascando uma tangerina. Quando remove um gomo e põe na sua boca, não sabe que está removendo um gomo e o colocando em sua boca. Quando sente o cheiro da fragrância ou o gosto de uma tangerina, não sabe que está sentindo o cheiro da fragrância ou o gosto da tangerina. Ao comer uma tangerina deste modo, você não pode apreciar sua preciosa e maravilhosa natureza. Se você não está consciente que está comendo uma tangerina, a tangerina não é real. Se a tangerina não é real, a pessoa que a está comendo também não é real. Crianças, isto é comer uma tangerina sem plena consciência.”

“Crianças, comer uma tangerina em plena consciência significa que enquanto você come está verdadeiramente em contato com ela. Sua mente não está correndo atrás dos pensamentos de ontem ou de amanhã, mas está habitando totalmente no momento presente. A tangerina está verdadeiramente presente. Vivendo com plena consciência da mente significa morar no momento presente, sua mente e corpo habitando realmente no aqui e agora.”

“Uma pessoa que pratica a plena atenção pode ver coisas na tangerina que outros não são capazes de ver. Uma pessoa consciente pode ver a árvore de tangerina, o florescer da tangerina na primavera, os raios de sol e chuva que nutriram a tangerina. Olhando profundamente, a pessoa pode ver dez mil coisas que fizeram a tangerina possível. Olhando para a tangerina, uma pessoa que pratica plena atenção pode ver as maravilhas do universo e como todas as coisas interagem umas com as outras. “

“Crianças, nossa vida diária é justamente como a tangerina. Como a tangerina é dividida em gomos, cada dia é dividido em 24 h. Uma hora é como um gomo da tangerina. Viver todas as 24hs do dia é como comer todos os gomos da tangerina. O caminho que eu encontrei, é o caminho de viver cada hora do dia em plena atenção, mente e corpo sempre habitando no momento presente. O oposto é viver no esquecimento, não saber que estamos vivos. Não experimentamos totalmente a vida porque nossa mente e corpo não estão habitando no aqui e agora.”

Gautama olhou para Sujata e disse seu nome.

“Sim, Mestre?” Sujata juntou as palmas das mãos.

“Você acha que uma pessoa que vive em plena atenção fará muitos erros ou poucos?”

“Respeitável Mestre, uma pessoa que vive em plena atenção fará menos erros. Minha mãe sempre me diz que uma menina deveria prestar atenção à maneira como anda, fica em pé, fala, ri e trabalha de forma a evitar pensamentos, palavras e ações que possam causar lamento para ela mesma e para os outros.”

“Isso mesmo, Sujata. Uma pessoa que vive em plena atenção sabe o que está pensando, dizendo e fazendo. Tal pessoa pode evitar pensamentos, palavras e ações que causam sofrimento para ela mesma e para os outros.”

“Crianças, viver em plena atenção significa viver no momento presente. Uma pessoa é consciente do que está acontecendo dentro dela e ao seu redor. A pessoa está em contato direto com a vida. Se a pessoa continua a viver desse modo, será capaz de profundamente entender a si mesma e ao que está a sua volta. Entendimento leva à tolerância e ao amor. Quando todos os seres se entenderem, eles se aceitarão e se amarão. Então não haverá tanto sofrimento no mundo. O que você pensa Svasti? As pessoas podem amar se elas são incapazes de se entender?”

“Respeitável Mestre, sem entendimento, o amor é bem difícil. Me lembra algo que aconteceu com minha irmã Bhima. Uma vez ela chorou a noite toda até que minha irmã Bala perdeu a paciência e deu umas palmadas nela. Isso apenas fez Bhima chorar mais. Eu peguei Bhima e percebi que ela estava com febre. Tinha certeza que sua cabeça deveria estar doendo por causa da febre. Chamei Bala e disse a ela que colocasse a mão na testa de Bhima. Quando ela fez isso entendeu de uma vez porque Bhima estava chorando.Seu olhos amoleceram e ela pegou Bhima nos seus braços e cantou para ela com amor. Bhima parou de chorar mesmo ainda com febre. Respeitável mestre, penso que isto aconteceu porque Bala entendeu o porque de Bhima estar chateada. E assim penso que sem entendimento, o amor não é possível.”

“Isso mesmo Svasti! O amor só é possível quando há entendimento. E somente com amor pode haver aceitação. Pratiquem viver em plena atenção crianças e vocês aprofundarão seu entendimento. Serão capazes de entender a vocês mesmos, às outras pessoas e todas as coisas. E vocês terão corações de amor. Este é o caminho que eu descobri.”

Svasti juntou as palmas das mãos. “Respeitável Mestre, podemos chamar este caminho do ‘Caminho da Plena Atenção’?”

Sidarta sorriu “Claro. Podemos chamá-lo de o Caminho da Plena Atenção. Eu gosto muito. O Caminho da Plena Atenção leva ao perfeito Despertar.”

Sujata juntou as palmas das mãos e pediu permissão para falar. “Você é aquele que despertou, aquele que mostra como viver em plena atenção. Podemos chama-lo de ‘O Desperto’?”

Sidarta fez que sim com a cabeça. “Isto me agradaria muito.”

Os olhos de Sujata brilharam. Ela continuou “Desperto em Magadhi é pronunciado como budh. Uma pessoa desperta deveria ser chamada Buda em Magadhi. Podemos chamá-lo de Buda?”

Sidarta fez que sim com a cabeça. Todas as crianças estavam extasiadas. Nalaka, um menino de 14 anos, o mais velho do grupo falou: “Respeitável Buda, estamos muito felizes de receber seus ensinamentos sobre o Caminho da Plena Atenção. Sujata me disse como você meditou sobre esta árvore nos últimos 6 meses e como na última noite obteve o Grande Despertar. Respeitável Buda, esta árvore é a mais bonita da floresta. Podemos chama-la de ‘Árvore do Despertar’, a ‘Árvore Bodhi’? A palavra bodhi divide a mesma raiz da palavra Buda e também significa despertar.”

Gautama fez que sim com a cabeça. Ele também estava deleitado. Ele não tinha adivinhado que durante seu encontro com as crianças o caminho e mesmo a grande árvore receberiam nomes especiais.

(Traduzido do livro “Old Path White Clouds” sobre a vida do Buda – Thich Nhat Hanh)


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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Travessia de Primavera




Texto da Monja Coen publicado no jornal O Globo de 18/09/2014

As eleições também se dão em casa, onde ficamos nos exibindo para ganhar os corações daqueles com quem nos relacionamos.

Equinócio de equidade. Dia e noite com a mesma duração. Equidade mental — os opostos têm o mesmo valor.

Eleições na primavera — opositores se equivalem? Travessia de ir e vir, de atravessar sem que uma pessoa atravesse o caminho da outra ou mostre o avesso, o revés.

Eleições de avessos que se avessam.

Como ainda estamos distante de um ideal civilizatório de equidade e respeito!

O equinócio de setembro marca o início da primavera no Hemisfério Sul e o início do outono no Norte. É um momento em que nós, budistas, celebramos a equidade entre dia e noite, o que nos facilita a travessia do caudaloso (confuso, cheio de entulhos, lixo, poluição — algumas vezes seco, rachado, furado, fétido, outras vezes molhado, coberto, cheiroso, ardiloso com redemoinhos e pedras submersas, escondidas, que podem furar o barco) rio da vida-morte.

Atravessar o rio é simbólico de perceber que estamos na margem do sofrimento, da ignorância, envenenados pela ganância e pela raiva.

Reconhecemos essa margem? Aflições, ansiedades, medos, desgraças? Os venenos que impedem a mente de ter sensações, percepções, conexões neurais e consciência leves e claras. Como águas poluídas, a mente fica turva, confusa, capaz de improbidades para obter sucesso, ganhar votos, eleger-se.

As eleições não são apenas presidenciais, de senado, assembleias, governos estaduais. As eleições se dão em casa — pessoas lutando pelos votos das famílias. Tanto um querendo ganhar o voto do outro, como também dos filhos, dos amigos, dos vizinhos, dos avós. Incessante.
Ficamos nos exibindo, contando vantagens (ou contando desvantagens — outra forma de se vangloriar) para obter aplausos, votos, para sermos eleitos aos corações e atenções das outras pessoas com quem nos relacionamos.

Funciona no trabalho, na rua, no trânsito, no Facebook, no Twitter. Funciona tanto na terra como nos céus. Queremos os votos de confiança, respeito e apoio de Budas, Bodisatvas, Santos, Santas, Profetas, Pastores, Divindades.

Queremos o apoio dos filósofos e dos sábios, bem com dos incultos e dos tolos. Queremos até os mornos.
Nossa carência e insuficiência se revelam no insulto, no rebaixar os outros, no ataque raivoso, dedo em riste.
Que triste.

Quisera poder viver um tempo de anistia, um tempo de alegria, um tempo de paz.
Tempo de atravessar desta margem confusa e agressiva, de tanta falsidade que duvidamos da dúvida — pois ninguém mais é confiável. Nem mesmo a mídia, nem mesmo eu.

Atravessar para a margem da tranquilidade, pegar o barco seguro da verdade e da ética. Chegar lá — que é aqui. Chegar onde se chega com ternura, com respeito, com brandura, sem luta, sem nenhuma luta.

Chega-se de manso, de leve, com trabalho, perseverança. Chega-se pensando no bem maior do grande Eu. Inclusão, alimentos, escolaridade, saúde.

Sem pilhérias, sem misérias.

Aqui e acolá. No planeta, nosso corpo comum.

Sem mais guerras, sem decapitações, sem ataques, sem mutilações.

Quero ver o mundo despertar dessa dormência tola e se unir em projetos que beneficiem a todos.

Isso é travessia.