A Associação Meditar é uma sociedade civil sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne as 4ª feiras - 20 h - e aos sábados - 8 h - para meditar e estudar na Academia Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Voltar-se para si


Frequentemente nos sentimos cansados e tudo que fazemos e dizemos parece sair errado e criando desentendimentos. Podemos pensar, "Hoje não é meu dia". Nessas ocasiões é melhor simplesmente retornar ao nosso corpo, cortar todo o contato, e fechar as portas de nossos sentidos.

Seguindo nossa respiração, podemos juntar nossa mente, nosso corpo e respiração e eles se tornarão um só. Teremos um sentimento acolhedor, como se sentássemos perto da lareira enquanto o vento e a chuva estão agitando lá fora.

Este método pode ser praticado em qualquer lugar em qualquer hora, não apenas na sala de meditação. Nós voltamos a ficar em contato conosco mesmos e nos fazemos inteiros de novo.

- Thich Nhat Hanh

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017


Bem-vindos, bienvenidos, welcome, namastê, haribool, gasshô!


Queridos amigos, irmãos e irmãs,

destacamos abaixo o dia e horário de nossas práticas.

4ª feira - às 20:00 - Meditação e leitura

Sábado - às 08:00 - Meditação e leitura

Vale destacar que as atividades promovidas pela associação são sempre gratuitas e abertas a todos os interessados. 

Recomendamos roupas leves.

Informações:

(65)3052-6634 - Ligia
(65)98143-4379 - Ivan 

Queridos amigos, irmãos e irmãs, saúdo a todos com imensa alegria. Quero externar meu contentamento pelas inúmeras visitas, aos leitores de toda parte do país e do mundo, aos inscritos do blog. 

Ao longo desses anos venho tentando manter a periodicidade das publicações na página virtual da Associação Meditar de Cuiabá, o que não é sempre possível, como veem. Entretanto, quero propor aos companheiros de senda, amigos e interessados, para que ajudem com a manutenção do mesmo, enviando artigos sobre temas afins, como meditação, sustentabilidade, autoencontro, poesia, ética, budismo, inter-religiosidade, mente atenta e tantos outros assuntos, que  permita-nos adentrar à vida com mais amor e dedicação. 

Os textos podem ser encaminhados ao meu email prof.ivan.jus@gmail.com, que serão publicados quinzenalmente e por ordem de chegada.

Quero desejar a todos um 2017 de trabalho em todos os sentidos, bem como de colheita, e que esta seja farta, amorosa e próspera.

Um grande abraço, e que todos os seres possam se beneficiar.

Mãos unidas!

Ivan.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Abraçando a Raiva

Por Thich Nhat Hanh

Plena consciência é a capacidade de saber o que está acontecendo em cada momento, e plena consciência da raiva é ser capaz de reconhecer quando a raiva se manifestou. Se deixarmos nossa raiva sozinha, causará estrago para nosso corpo, para nossa mente e talvez para o nosso entorno. Podemos praticar a plena consciência da raiva dizendo para nós mesmos: “Inspirando, sei que a raiva está em mim. Expirando, eu sorrio para minha raiva, eu abraço minha raiva.”

A plena consciência reconhece que a raiva é raiva. Reconhecer e abraçar a raiva é uma arte, é a prática. Usualmente, lutamos contra a raiva que surge em nós. Mas na prática budista, não lutamos contra nossa raiva, nós a abraçamos tenramente.

Imagine uma mãe que está trabalhando na cozinha e ouve seu bebê chorar. Ela o ama, portanto solta o que quer que esteja na sua mão e vai ao quarto dele. Antes mesmo de saber o que está errado, ela pega o bebê e o segura tenramente em seus braços. Apenas segurá-lo carinhosamente pode ser suficiente para trazer alivio à criança e diminuir seu choro. Se a mãe continuar a segurá-lo com plena consciência, ela descobrirá o que está errado. Ele pode estar com fome, pode estar com febre, ou sua fralda pode estar apertada demais. Através da prática da plena consciência podemos abraçar nossa raiva e pacientemente descobrir porque ela surgiu.

Se a mãe descobre que seu filho está com fome, ela lhe dá leite; se a fralda está muito apertada, ela afrouxa. Portanto ao abraçar nossa raiva com carinho, podemos aliviá-la através da respiração consciente e da caminhada consciente.

Quando a energia da raiva começa a emergir, precisamos da prática da plena consciência. Podemos pensar que para liberar nossa raiva temos que fazer algo imediatamente para confrontar a pessoa que pensamos que está nos fazendo sofrer. Ao invés disso, podemos respirar e dizer: “Inspirando, sei que a raiva se manifestou em mim. Expirando, tomarei muito cuidado com a energia da raiva em mim.”

Podemos pensar que dizer ou fazer algo muito forte para punir a outra pessoa é o caminho para encontrar alívio. Mas isto apenas irá escalar o sofrimento. A outra pessoa sofrerá mais, e ela irá buscar alívio nos punindo de volta.

Se alguém nos faz sofrer, é porque esta pessoa também está sofrendo. Alguém que não sabe lidar com seu sofrimento permitirá que ele vaze, e nos tornaremos vítimas do seu sofrimento. Sabemos que alguém que sofre tanto assim precisa de ajuda e não punição. Quando começamos a ver isso, a compaixão nasce, e não sofremos mais. Compaixão é o antídoto para a raiva. Uma vez que estamos motivados pelo desejo de ajudar a outra pessoa a sofrer menos, estamos livres de nossa raiva.

Às vezes é importante comunicar nosso sofrimento para a outra pessoa. Podemos fazer isso usando a prática do “Começar de Novo”. Sentamos juntos em um momento onde possamos estar plenamente presentes. Há três estágios: no primeiro nós “regamos as flores” da outra pessoa, sinceramente expressando nossa apreciação pelas suas boas qualidades. No segundo expressamos lamento por qualquer coisa que vemos que possamos ter feito para contribuir para o conflito. No terceiro, expressamos nosso sofrimento sem culpa ou julgamento.

Quando expressamos nosso ferimento, há três frases importantes que os ensinamentos budistas sugerem. Estas frases são o antídoto para o sofrimento. A primeira é, “Querido, eu estou com raiva. Eu estou sofrendo e quero que você saiba.”. A segunda é “Querido, eu estou fazendo o melhor que posso”. A terceira é “Por favor, ajude-me”.

Quando dizemos a primeira frase - “Querido, eu estou com raiva. Eu estou sofrendo e quero que você saiba disso.” - estamos sendo abertos e dividindo o que está acontecendo conosco. É importante que não neguemos nossa própria raiva e sofrimento. Às vezes sofremos por causa da outra pessoa, e quando ela vem e pergunta, “Querido, você está bem, está com raiva de mim?” dizemos “Eu estou bem, porque estaria com raiva?”. Ou quando a outra pessoa põe a mão no nosso ombro, tentamos evitar seu toque e dizemos, ”deixe-me só, não me toque!”. Estas são formas de punir alguém, queremos dizer a esta pessoa que podemos sobreviver muito bem sozinhos.

Portanto, ao invés disso, é muito importante ser direto. Podemos também querer adicionar, “Eu não sei por que você disse tal coisa para mim, por que fez tal coisa para mim. Por favor, explique.” A coisa importante é dizer para a outra pessoa que estamos com raiva e que estamos sofrendo. Se pudermos escrever esta sentença, já sofreremos menos. É um milagre.

A segunda frase é ainda menor, “Eu estou fazendo o melhor que posso”. Isto significa que estamos praticando a respiração consciente e a caminhada consciente e tomando conta de nossa raiva. Portanto a segunda sentença é um convite indireto para a outra pessoa fazer o mesmo, voltar para reexaminar a situação, e ver o que ela possa ter feito que tenha contribuído para o conflito.

Às vezes não queremos fazer o outro sofrer. Apenas somos inábeis. Temos que aprender a falar em termos de mais ou menos hábeis ao invés de termos como bom ou mau, certo ou errado. Na tradição budista falamos de estados inábeis da mente, como a raiva ou medo.

A última sentença é “Por favor, ajude-me”.  Quando somos capazes de escrever a terceira frase, nosso sofrimento se dissipa. Mesmo se a outra pessoa ainda não leu a mensagem, já nos sentimos muito melhor. Reconhecemos nossa interdependência, não somos capturados pelo orgulho. No verdadeiro amor não há lugar para orgulho. Sabemos que precisamos da outra pessoa para nos ajudar a sair da nossa situação.

Tenho muitos amigos que pegam um pedaço de papel do tamanho de um cartão de crédito, escrevem essas três frases e guardam na carteira. Cada vez que a raiva vem, eles pegam o “cartão”, lêem enquanto inspiram e expiram, e então eles sabem exatamente o que fazer.

Quando o nosso amado nos fere, ficamos com raiva e sofremos. Estamos na margem do sofrimento. Como somos bodisatvas, queremos atravessar para a margem da paz. Não dizemos, “Outra margem, por favor, venha de forma que eu possa pisar em você.” Não, temos que atravessar! E entendimento, prajñaparamita, é uma das maneiras de atravessar. Quando entendemos a outra pessoa, vemos seu sofrimento e também que ela não sabe lidar com este sofrimento. Ela sofre, portanto faz a si mesmo e aos que estão a sua volta sofrerem. Quando somos capazes de olhar com olhos de entendimento como estes, de repente estamos na outra margem. Este entendimento traz a outra margem imediatamente.

O Buda disse que há muitas maneiras de lidar com sua raiva, e uma maneira é praticar a paramita chamada dana, que significa doação. Você dá um presente para a pessoa que você está sentindo raiva. Usualmente quando estamos com raiva de alguém, queremos puni-la. Mas o Buda nos aconselha a fazer o oposto. Faça algo que a faça feliz. Ofereça algo para ela, e de repente sua raiva desaparecerá e você se encontrará na outra margem. Você pode querer tentar isto. Você sabe de que seu amada gosta, portanto compre um lindo presente e esconda em algum lugar. E um dia quando ficar com raiva dela, lembre-se do conselho do Buda e ofereça o presente para ela. Então ambos estarão na outra margem imediatamente.

A outra pessoa precisa de amor, e se pudermos prover isso para ela, através do entendimento, nossa raiva se dissolverá. O tempo que leva para atravessar para a outra margem pode ser muito curto. É um milagre! Como um bodisatva, queremos apenas dar. E estamos dispostos a dar qualquer coisa que pudermos.

As coisas mais valiosas para dar são entendimento e compaixão. Todos no mundo anseiam por entendimento, compaixão e amor. Como um bodisatva, como um praticante, podemos produzir entendimento e compaixão. Quando olharmos profundamente para a situação, não culparemos mais, sentiremos compaixão.

(Do livro “Together we are one”– Thich Nhat Hanh)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)

terça-feira, 22 de março de 2016

Carta Aberta ao ano de 2016

         
 

Queridos amigos, irmãos e irmãs, saúdo a todos com imensa alegria. Quero externar meu contentamento pelas inúmeras visitas, aos leitores de toda parte do país e do mundo, aos inscritos do blog. 

Ao longo desses anos venho tentando manter a periodicidade das publicações na página virtual da Associação Meditar de Cuiabá, o que não é sempre possível, como veem. Entretanto, quero propor aos companheiros de senda, amigos e interessados, para que ajudem com a manutenção do mesmo, enviando artigos sobre temas afins, como meditação, sustentabilidade, autoencontro, poesia, ética, budismo, inter-religiosidade, mente atenta e tantos outros assuntos, que  permita-nos adentrar à vida com mais amor e dedicação. 

Os textos podem ser encaminhados ao meu email prof.ivan.jus@gmail.com, que serão publicados quinzenalmente e por ordem de chegada.

Quero desejar a todos um 2016 de trabalho em todos os sentidos, bem como de colheita, e que esta seja farta, amorosa e próspera.

Um grande abraço, e que todos os seres possam se beneficiar.

Mãos unidas!

Ivan.

terça-feira, 12 de maio de 2015

A Medicina do Coração - Enio Burgos - Palestra Audio

Por que orar?

 
Por Thich Nhat Hanh
 
Às vezes, a oração é bem-sucedida e, por vezes, não é. Talvez tenhamos de fazer mais perguntas. A questão que se pode fazer é: Por que a oração é bem sucedida em alguns momentos e não em outros?

Nós sabemos que quando queremos usar nosso telefone, ele precisa ter um fio e tem de haver electricidade neste o fio. A oração funciona da mesma maneira. Se a nossa oração não tem a energia da fé, compaixão e amor, é como tentar usar um telefone quando não há energia elétrica no fio. O simples fato de que nós oramos não conduz a um resultado.

Existe uma maneira de rezar que garanta resultados satisfatórios? Se alguém tivesse tal método, as pessoas ficariam felizes em comprá-lo a um preço elevado, mas até agora ninguém encontrou um.

Nós não sabemos por que a oração é eficaz em alguns momentos e não outros, mas tirando esta questão, outra surge: Se Deus ou qualquer outro poder fora de nós mesmos em que acreditamos já determinou que as coisas deveriam ser de certa forma, então qual é a razão de rezar? Algumas pessoas de fé diriam que, se Deus quer alguma coisa, então a vontade de Deus já está sendo feita.  Qual é o ponto de rezar se tudo já está pré-determinado? Se uma pessoa em uma determinada idade sofre de câncer, por que que devemos orar para a saúde dessa pessoa? Rezar não seria um desperdício de tempo?

Para os budistas, esta mesma questão se coloca em relação ao karma. Se alguém realizou ações prejudiciais no passado, e, em seguida, algum tempo depois, fica doente, alguns diriam que este é apenas um exemplo do karma funcionando; como pode a nossa oração mudar alguma coisa? Se o nosso karma é tal, então como pode o resultado do nosso karma ser mudado? O que chamamos de "vontade de Deus" no cristianismo é equivalente ao que chamamos de "retribuição do karma" no budismo.

Portanto, se um ser espiritual fez as coisas do jeito que são, por que orar? Nós poderíamos responder com outra pergunta: Por que não orar? No budismo, aprendemos que tudo é impermanente, o que significa que tudo pode mudar. Hoje estamos em boa saúde e amanhã estamos com problemas de saúde. Hoje estamos doentes e amanhã a nossa saúde pode voltar. Tudo vai de acordo com a lei de causa e efeito. Portanto, se temos uma nova energia, uma nova visão, uma nova fé, somos capazes de abrir uma nova etapa na vida do nosso corpo e da nossa mente.

Quando nos sentamos para a prática de unificação do nosso corpo e nossa mente, e trazemos a nossa energia de amor para a nossa avó, para uma irmã mais velha, ou um irmão mais novo, então nós estamos produzindo uma nova energia. Essa energia imediatamente abre o nosso coração. Quando temos o néctar da compaixão e estabelecemos a comunicação entre a pessoa que está orando e aquele para quem a oração está sendo dirigida, então, a distância entre Plum Village e Hanói não tem qualquer significado. Esta ligação não pode ser estimada ou descrita em palavras; tempo e espaço não podem apresentar quaisquer obstáculos.

Nós e Deus não somos duas existências separadas; portanto, a vontade de Deus é também a nossa própria vontade. Se queremos mudar, então Deus não irá nos impedir de mudar. O poeta Nguyen Du colocou desta maneira:

Quando necessário, os céus não vão ficar no caminho dos seres humanos.
Os resultados das ações passadas podem ser levantados,
Causas e condições futuras podem ser criadas.

A verdadeira questão é: queremos mudar ou não? Queremos continuar a manter a atração do sofrimento e deixar nossas mentes passearem em sonhos? Se em seu coração você quer mudar, então qualquer que seja o ser espiritual em que você acredita, ele também ficará feliz em você mudar.

Famílias funcionam da mesma maneira; nenhuma pessoa é completamente separada. Se o filho ou a filha mudam, então o pai e a mãe também vão mudar. Se a energia surge do filho ou da filha e os efeitos da mudança surgem neles em primeiro lugar, em seguida, isto também irá produzir uma mudança no coração do pai e da mãe algum tempo depois. As famílias não são feitas de entidades completamente separadas.

Mesmo que Deus tenha predisposto que as coisas para que sejam de certa forma, ainda podemos mudar porque, como diz a Bíblia, "somos filhos de Deus" (I João 3: 2). Qual é a relação entre o criador e a criatura? Um deles tem a capacidade de criar e o outro é o que é criado. Se eles estão ligados um ao outro, então podemos falar deles como sujeito e objeto. Se eles não estivessem conectados um ao outro, como podemos chamá-los de sujeito e objeto?

O sujeito que cria é Deus; o objeto criado é o universo em que vivemos. Entre o sujeito e o objeto, há uma estreita relação, assim como há uma estreita relação entre esquerda e direita, noite e dia, a satisfação e a fome; assim como, de acordo com a lei da reflexão, aquele que percebe e o que é percebido têm uma ligação muito próxima. Quando o ângulo de incidência muda, do ângulo de reflexão mudará imediatamente. O que chamamos a vontade de Deus está ligada à nossa própria vontade. É por isso que a retribuição de nossas ações passadas pode ser alterada.

(Do livro de Thich Nhat Hanh - "The energy of prayer” - Tradução Leonardo Dobbin)
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Você se conhece?


Por Monja Coen Sensei
 
É preciso cuidado. Buda dizia que a mente humana deve ser mais temida do que cobras venenosas e assaltantes vingadores

O carnaval passou, mas ainda continua.

Há carros alegóricos desfilando pelas ruas, com policiais e bandidos, traficantes e perdidos.

Há fantasias remendadas de plumas e brilhos nas pessoas que se emplumam para defender o indefensável.

O roto fala do rasgado.

Imaginam façanhas que se tornam vergonhosas artimanhas.

Acham-se salvadores da pátria. Mas é a pátria que nos salva a todos.

Hitler se achava um homem bom — queria a pureza da raça. Exterminador brutal, representante de uma grande parte da sociedade de sua época. Vergonha.

E muitos se calaram. Porque "não era comigo". Até que venham bater à sua porta e, então, será tarde demais.

Os homens de barbas e capuzes negros que degolam e queimam pessoas em nome da fé e do estado — será que eles se consideram errados? Será que se acham salvadores do mundo? Quebrando obras de arte, patrimônio da humanidade?

É preciso cuidado.

Cuidado de cuidar com respeito e dignidade.

Buda dizia que a mente humana deve ser mais temida do que cobras venenosas e assaltantes vingadores. 

Você observa sua própria mente? Você se conhece e reconhece as manobras da politicagem mental, física e social?

É preciso acordar, despertar. Compreender as razões pelas quais as notícias nos são passadas. Regionais, nacionais, internacionais.

Há tanta gente boa no mundo.

Há tantos projetos que deram certo, que dão certo e nunca sabemos.

Escondido o bem, o mal se revela vitorioso.

Cada pessoa procurando pelos erros e faltas alheios. Nos telhados de vidro. No grande telhado de vidro que nos cobre a todos, em todo o planeta. Jogamos fezes e lixo para o alto, caem sobre nós mesmos.

Mas há flores e fragrâncias.

Há idosos e crianças felizes.

Há pessoas comprando nas lojas alimentos, roupas, automóveis, flores, presentes, encantamentos. Há quem não apertou o gatilho.

Há o policial que ajudou o bebê a nascer e impediu um crime. Você sabia que a polícia existe para nos proteger?

Alguém noticiou as boas ações dos bombeiros, dos militares, dos policiais, dos políticos, dos líderes, dos professores, dos médicos, dos religiosos, das mulheres, dos homens, das crianças, dos adolescentes, dos idosos?

Gente. Somos gente e somos bons. Podemos ficar envenenados pela ganância, raiva e ignorância. Por outro lado, podemos nos curar com a compreensão clara e o discernimento correto.

Queremos o bem, o bem de todos os seres. Logo, temos de incluir e de nos unir — não para impedir, atrapalhar, ferir, queimar, mas para construir uma realidade que mostre todas as suas faces.

Sem fantasias, sem máscaras.

O carnaval passou.

Vamos deixar passar o carro fantasmagórico dos ódios e rancores.

Vamos cantar a possibilidade de cuidar e reparar sem parar o fluxo contínuo e puro das ações que beneficiem todos os seres.

Mãos em prece.

Texto da Monja Coen publicado no jornal O Globo de 05/03/2015.
Extraído do site: http://www.monjacoen.com.br/ 

Livro do Mês - Maio

O Caminho pelo qual pensamentos e emoções causam as doenças e as dificuldades da vida.
"Medicina Interior, A Medicina do Coração e da Mente" detalha todos os aspectos do caminho através do qual pensamentos e emoções causam as doenças e as dificuldades da vida.

As pessoas sabem que, amiúde, fortes emoções resultam no desequilíbrio da saúde física e mental. A base deste desequilíbrio, assim como a causa deste fenômeno são esclarecidas nesta obra fascinante. Ela descreve não apenas como os diferentes tipos de pensamentos e emoções atuam sobre o nosso organismo, elucidando o modo como a mente determina as escolhas e as experiências de vida, mas também como o nosso perfil mental (apegado, aversivo, indiferente, ciumento, orgulhoso, etc.) determina até mesmo a forma que nosso corpo irá assumir ao longo da sua existência.
Este livro funciona como um espelho onde vemos refletidas as sutilezas da nossa mente e as consequências do nosso estado mental sobre a nossa saúde física e psíquica. Nele, vemos como transformar pensamentos e emoções em saúde, paz, sabedoria e plenitude de vida.

Prescrevendo "remédios" ou antídotos absolutamente sutis e práticas curativas de meditação e mente atenta, podemos aprender a transformar e curar hábitos mentais negativos, alcançando um estado de maior compreensão, harmonia e felicidade.

Dotado de uma visão livre, independente de escolas, linhagens ou tradições religiosas, o Dr. Enio Burgos, além de médico e físico, tem-se destacado como pacifista, poeta, compositor e difusor de ensinamentos absolutamente universais. Facilitador da Unipaz, vem orientando inúmeras pessoas na prática de meditação e da mente atenta ao longo dos últimos vinte e cinco anos. Com o objetivo de difundir a meditação e a mente atenta, fundou a Associação Meditar, entidade voltada ao ensino da meditação e da mente atenta, tendo disseminado locais de estudo e prática por várias cidades do país. Dentre seus livros, o "Medicina Interior, A Medicina do Coração e da Mente" destaca-se pela profundidade e abrangência dos temas, sendo cada vez mais recomendado e lido tanto por profissionais da saúde, tais como médicos, terapeutas e psicólogos, como também pelo público em geral. 
"Dr. Enio Burgos é uma das principais referências da espiritualidade universalista." - Irmão Vítor Caruso Júnior, discípulo ordenado por Thich Nhat Hanh, fundador do Espaço Hermógenes e do Ciência Meditativa. Curitiba - PR

Terceira Edição revisada e ampliada pelo autor.
Capa Dura, 344 páginas, formato 16 x 23 cm. 

Mais informações: http://bodigaya.com.br/index.php/

quarta-feira, 8 de abril de 2015

EU MAIOR entrevista com Professor Hermógenes



Esse vídeo é postado em homenagem ao mestre Hermógenes.

Mãos unidas em prece.

Gassho.

Monja Coen responde sobre a morte

P - Há realmente a necessidade de uma preparação para a morte tendo como foco os doentes terminais e seus familiares?
MC - Sim e não.
De certa forma estamos todos preparados para morrer e para aceitar a morte. Faz parte de nosso processo natural. Entretanto, quanto estamos afastadas, afastados de nossa essência verdadeira?
Queremos o impossível. Nos apegamos ao que é transitório e passageiro. Criamos sofrimentos em cima de sofrimentos. Portanto se faz necessário trazer de volta a consciência de que podemos morrer bem. Por boa morte quero dizer uma morte consciente de estar morrendo e sem deixar remorsos.
É preciso lembrar aqueles que são muito apegados às formas e sons materiais, que tudo isto é passageiro, mas permanece em nós a vida dos que se vão, em nossas vidas.

P - Há uma seqüência ou uma lógica de fases do enfrentamento da morte/luto?
MC - Parece haver, dependendo evidentemente das situações. Mortes súbitas, causadas por desastres, crimes, guerras podem ter uma sequência de raiva e culpa pela incapacidade de evitá-la, tristeza e finalmente aceitação.
Contam os sutras que certa feita uma senhora desesperada carregava seu bebê morto em seus braços e pediu a ele que devolvesse a vida a seu filhinho. Buda disse que o faria se ela trouxesse a ele três sementes de sesame de uma casa onde a morte não houvesse entrado. Cheia de esperança a mãe começou a percorrer o vilarejo. E logo percebeu, que a morte havia entrado em todas as casas. Assim foi capaz de aceitar a morte de seu filho.

P - Cada pessoa tem um jeito particular de encarar a morte e o luto ou há atitudes comuns a todos, independente de sexo, idade...
MC - Somos semelhantes e não iguais. Assim sendo cada um de nós tem um relacionamento diferente com a morte e este relacionamento também se modifica conforme a situação. Alguém que esteja sofrendo muito diz que quer morrer. Assim que o sofrimento passe não se apressa mais em morrer. Todos nós, homens e mulheres, crianças e adultos, jovens e idosos, carregamos em nós o instinto da vida e o instinto da morte. Isso é comum. Como que somos educados para a morte - isso é particular, diferente, conforme culturas, etnias, e mesmo famílias ou grupos sociais.

P - Qual o significado da morte para o Budismo? Acredita-se em uma outra vida após a morte? Há linhas diferentes dentro do Budismo?
MC - "A vida é um processo em si mesma. A morte é um processo em si mesma. Assim como a cinza não volta a ser lenha, a morte não volta a ser vida." Essas palavras foram escritas pelo Mestre Zen Eihei Dogen Daiosho, fundador da tradição Soto Zen Budista no Japão do século XIII.
Há várioas linhas budistas - desde as que crêem na reencarnação como as que negam alguma coisa eterna e permanente que pudesse reencarnar.
Nada é fixo ou permanente. A vida é transitória e a morte é transitória.

P - Como a morte é encarada por seus seguidores?
MC - Eu não sei. Poderia falar de alguns alunos, algumas alunas, algumas pessoas. Um idoso, com quase noventa anos, durante o enterro de sua irmã, me confessou: "todos dizem que foi uma boa morte, pois morreu dormindo. Eu quero ver a morte. Quero morrer acordado, consciente. É a grande aventura de minha vida."

P - Para o Budismo morre é apenas um momento de transição ou é um ponto final?
MC - Não há ponto final. Não há ponto inicial. Há o Interser.
Se acreditamos na Lei da Causalidade, a morte não anula todas as causas e condições criadas durante a vida. Cada instante de vida é transição.
Como dizia nosso poeta paulistano, Cassiano Ricardo, "cada instante de vida não é mais, é sempre menos. Desde o instante em que se nasce, já se começa a morrr". Cada célula viva, cada molécula, cada partícula e sub partícula - tudo está em constante movimento e transformação. Onde começa a vida? Onde termina? Nem mesmo a Biologia moderna consegue definir. Somos vida e somos morte.

P - Como lidar com o sentimento de culpa e revolta com a perda de um filho? E dos pais? Quais as diferenças e semelhanças sob o ponto de vista do Budismo?
MC - Tudo que começa, termina. A vida é um processo terminal. Morrem bebês, morrem idosos. Meu mestre, Yogo Suigan Roshi, costumava dizer às pessoas "seja qual for a idade em que morrerem - já era tempo. Geralmente as pessoas dizem isso quando alguém morre com mais de noventa anos. Eu digo a qualquer idade."
Não podemos controlar nem a vida nem a morte. É preciso ter humildade e fazer sempre o que for mais adequado ás circunstâncias. Assim não há culpa. Assim não há revolta. Há tristeza, há saudade, há ternura. Não devemos cultivar vinganças, rancores, revoltas, culpas. Se formos éticos, éticas e cultivarmos as virtudes aceitamos a realidade e ao mesmo tempo nos tornamos transformadores, transformadoras da realidade através de nossos gestos, pensamentos e palavras.

P - Segue rituais antes e depois da morte ? Quais?
MC - Sim. No Zen Budismo da Soto Shu, ordem à qual pertenço, oramos pelas pessoas doentes, oramos pelos moribundos, oramos pelos mortos. Oramos no travesseiro onde morreram, oramos ao prepará-los para o caixão, para o velório. Oramos no velório, oramos no crematório, oramos no enterro, oramos depois do enterro, das cinzas. Oramos nos sétimos dias. Sete vezes sete. Quarenta e nove dias. Tempo em que se completa um ciclo de vida-morte. Então outro ciclo se inicia. Como ondas no mar são nossas vidas. Mas tudo é água. Causas e condições formam as ondas e cada onda é responsável e coadjuvante de outras ondas. Incessante e luminoso processo de vida,de morte, de vida, de morte, devida...

P - Como ajudar uma criança a enfrentar a proximidade da morte? O que dizer? E um adolescente?
MC - Que a flor fenece, que tudo se transforma, que morrer é bom, que todos nossos ancestrais já morreram.
Que não é preciso ter medo, mas ir, ir, sempre ir com alegria para a luz infinita, sem se lastimar, pois viveu o que tinha a ser vivido - e o que é uma vida, em meio a tantas vidas?
É preciso tirar o estigma da morte - nossa amiga e companheira, que nos acolhe, sem distinção, sem discriminação. E´é secreta, misteriosa.

P - É mais fácil aceitar a morte de idosos? É verdade que o paciente sempre sabe que irá morrer?
MC - De certa forma todos sabemos o que está acontecendo com nosso corpo, pois somos este corpo.
A questão é que nos enganamos ou gostamos de ser enganados. Claro que é mais fácil aceitar a morte de idosos - como se houvessem, com o longo tempo de vida, "aproveitado a vida". Entretanto temos um sutra que diz valer mais viver um dia corretamente do que cem anos em ilusão.
Não é o tempo (conforme nós o compreendemos) que torna a morte melhor ou pior. É a qualidade da vida que vivemos e a qualidade da morte que morremos.

P - Até que ponto vale investir na extensão da vida sem qualidade em casos terminais? É preciso viver a doença e a morte com dignidade? Como a religião e a fé contribuem para isso?
MC - Cada religião e cada grupo tem pareceres diferentes sobre casos terminais. Tenho uma amiga, a Dra. Glória Brunetti do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, com um projeto maravilhoso de construir um centro para pacientes terminais. Pacientes pobres, carentes. Porque pobres ou ricos, todos temos o direito de morrer com dignidade. Ela ainda encontra muita dificuldade em conseguir realizar seu projeto. As pessoas pensam apenas em encontrar remédios e curas para doenças. Mas a vida é um processo terminal e precisamos morrer bem, bem cuidados, bem amados, bem tratados.
Há várias pesquisas sobre a força da oração, da meditação nos processos de cura e de morte. Ajudam sim. Mas há também os ateus, as atéias, que morrem bem. Não é apenas a religião institucionalizada. É a espiritualidade e a confiança em si e na própria vida, na própria morte. Quem até hoje deixou de morrer?

P - No passado a morte envolvia maior proximidade/envolvimento da família, acontecia geralmente em casa. Hoje há um maior distanciamento, em geral acontece nos hospitais. É uma forma mais fácil de enfrentá-la?
MC - É uma forma asséptica e distante. Não queremos lidar com a dor. Nos hospitais o local para onde são levados os mortos é pequeno e escondido, nos fundos. Ninguém quer falar muito sobre os que morreram, como se fosse feio, como se fosse uma perda. Por que não temos locais lindos e públicos para acolher os mortos, para lamentar sim essa despedida, mas para reafirmar a vida em nossas vidas.
Antigamente e ainda nos locais carentes e simples, as pessoas morrem em casa, cercados de seus parentes, amigos. Pode ser mais agradável. Ou não? Será que no momento da morte isso importa muito? Talvez não. Mas, importa antes. E talvez importe muito para os que ficam - saber que cuidaram, que acompanharam, que compreenderam seus últimos desejos, que perceberam os sinais da morte e que fecharam seus olhos, amarraram seu maxilar e cobriram seu corpo de flores, amores.
Rituais são importantes para nós humanos. Rituais de passagem. Nós gostamos de fazê-los. Por que evitá-los? Talvez as doenças contagiosas tenham dado origem ao que temos hoje em dia. Também as dificuldades de alguém morrer em casa e a necessidade legal da verificação da morte do Instituto Médico Legal. O que é interessante é procurar manter a ternura, mesmo nas instituições hospitalares.
Muitos já fazem isso. Muitos ainda carecem disso.

P - A nossa dificuldade de aceitar a morte hoje dificulta seu enfrentamento?
MC - Independentemente de aceitarmos ou não, a morte é.
Não precisa ser enfrentada, precisa ser experimentada. E apenas a experiência da morte pode nos dizer o que é morrer.

P - Há uma tendência para os próximos anos diminuir a negação da morte? Por quê?
MC - Porque percebemos que a morte é necessária, é importante e não é má. Todos morreremos. Há um obstetra, que também é pastor, que costuma dizer ao fazer um parto "sei que nasceu e sei que morrerá, posso apenas orar por aquilo que fará durante sua vida"

P - É possível ensinar sobre como encarar a morte? Fale da sua experiência com pacientes oncológicos e terminais.
MC - É preciso falar da morte. Algumas pacientes e alguns pacientes não querem falar sobre a morte. Querem se auto-enganar, que vão se recuperar. Mas, sabem que não.
É uma oportunidade preciosa poder rever sua própria vida e saber se compreender, se amar e se perdoar. A si mesma e aos outros. Todas as experiências de nossa vida e de nossa morte são a tapeçaria do universo - hoje até chamado de multiverso. Múltiplos universos convergentes e divergentes.
É preciso fazer o arrependimento. Temos um verso:
"Todo o carma prejudicial alguma vez cometido por mim
Devido á minha ganância, raiva e ignorância
Nascido de meu corpo, boca e mente
Agora, de tudo, eu me arrependo"
Este arrependimento, quase como um "mea culpa" cristão, purifica, liberta, transforma.
Arrepender-se é esforçar-se por se transformar. Nesta vida e em vidas subseqüentes a esta. Que possamos sempre nos refugiar nas Três Jóias: Buda, Darma e Sanga.
Buda - a pessoa iluminada, sábia, que tudo compreende e atua adequadamente a cada circunstância para minimizar a dor e o sofrimento do mundo - para libertar todos os seres dos medos e sofrimentos
Darma - a lei verdadeira, os ensinamentos superiores que nos levam à libertação
Sanga - a comunidade de praticantes, de seres que se propõem a viver com sabedoria e compaixão, uma vida ética e poder viver e morrer com tranquilidade.
Uma de minhas alunas, paciente oncológica terminal, só morreu depois que eu a visitei e murmurei em seus ouvidos o poema do arrependimento e o refúgio nos Três Tesouros, acima mencionados.
Parece que precisamos desse ritual, desse conforto, desse carinho.
Alguém que nos acompanhe até o final, acompanhe com respeito, não apenas com lástimas, não com o egocentrismo de "eu estou perdendo alguém", mas sem esse "eu", apenas acompanhar e se despedir.
Quando Xaquiamuni Buda estava morrendo, aos oitenta anos de idade, doente, disse a seus alunos e suas alunas:
"Não se lamentem. Tudo que começa termina. Não é meu corpo que vocês amam, mas o Darma, a Lei Verdadeira - esta sim, que liberta e salva.
Assim sendo, façam do Darma o seu Mestre e eu viverei para sempre."
(Parinirvana Sutra)

Mãos em prece,
 
Monja Coen.

Impermanência

Impermanência
 
A prática e entendimento da impermanência não é apenas outra descrição de realidade. É uma ferramenta que ajuda-nos em nossa transformação, cura e emancipação. Impermanência significa que tudo muda e que nada permanece o mesmo em dois momentos sucessivos. E embora as coisas mudem a todo momento, elas ainda não podem ser descritas com precisão como as mesmas ou como diferente do que eles eram a um momento atrás.

Quando hoje nós tomamos banho em um rio que nos banhamos ontem, é o mesmo rio? Heráclito disse que nós não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Ele tinha razão. A água no rio hoje é completamente diferente da água que nós tomamos banho ontem. Ainda é o mesmo rio. Quando Confúcio estava na margem de um rio assistindo seu fluxo, ele disse: "Oh, flui assim dia e noite, sem fim". 

O insight da impermanência ajuda-nos a ir além de todos os conceitos. Ajuda-nos a ir além de mesmo e diferente, vindo e indo. Ajuda-nos a ver que o rio não é o mesmo rio mas também não é diferente. Nos mostra  que a chama que acendemos na vela antes de dormir não é a mesma chama queimando na manhã seguinte. A chama não é duas chamas diferentes, mas também não é a mesma chama. 
 
Nós estamos freqüentemente tristes e sofremos muito quando as coisas mudam, mas a mudança e a impermanência têm um lado positivo. Graças à impermanência, tudo é possível. A própria vida é possível. Se um grão de milho não for impermanente, nunca pode ser transformado em um talo de milho. Se o talo não fosse impermanente, nunca poderia nos proporcionar a espiga de milho que nós comemos. Se sua filha não for impermanente, ela não pode crescer se tornando uma mulher. Então seus netos nunca vão se manifestar. Portanto em vez de se queixar da impermanência, nós deveríamos dizer, "Acolhida calorosa e vida longa a impermanência." Nós deveríamos estar contentes. Quando nós pudermos ver o milagre da impermanência, nossa tristeza e sofrimento passarão. 
 
A impermanência também deveria ser entendida a luz do inter-ser. Porque todas as coisas inter-são, elas constantemente estão influenciando umas as outras. É dito que as asas de uma borboleta que agitam em um lado do planeta podem afetar o tempo no outro lado. As coisas não podem ficar do mesmo modo porque elas são influenciadas por tudo mais. 
    
Todos nós podemos entender a impermanência com nosso intelecto, mas isto não é, contudo a verdadeira compreensão. Apenas nosso intelecto não nos conduzirá a liberdade. Não nos conduzirá ao esclarecimento. Quando somos sólidos e concentramos, nós podemos praticar o olhar em profundidade. E quando nós olhamos profundamente e vemos a natureza da impermanência, nós podemos ficar concentrados neste insight profundo. Isto é como o insight da impermanência se torna parte de nosso ser. Se torna nossa experiência diária. Nós temos que manter o insight da impermanência para poder ver e viver a impermanência todo o tempo. Se nós pudermos usar impermanência como um objeto de nossa meditação, nós nutriremos a compreensão da impermanência de tal modo que ela viverá diariamente em nós. Com esta prática, a impermanência se torna uma chave que abre a porta de realidade. 
 
Nós também não podemos descobrir o insight da impermanência por só um momento e depois encobri-lo e ver tudo novamente como permanente. A maior parte do tempo nós nos comportamos como se nossos filhos sempre fossem estar em casa conosco. Nós nunca pensamos que em três ou quatro anos eles nos deixarão para se casar e ter as próprias famílias. Assim nós não valorizamos os momentos que nossos filhos estão conosco. 
 
Eu conheço muitos pais cujos filhos aos dezoito ou dezenove anos deixam a casa e vão morar sozinhos. Os pais perdem os seus filhos e se sentem muito arrependidos. Os pais não valorizaram os momentos que eles tiveram com os seus filhos. O mesmo é verdade para maridos e esposas. Você pensa que seu cônjuge estará lá por toda sua vida, mas como você pode estar tão seguro? Nós realmente não temos nenhuma idéia de onde nossos parceiros estarão em vinte ou trinta anos ou mesmo amanhã. É muito importante se lembrar da prática da impermanência diariamente. 
 
Quando alguém diz algo que te dá raiva e você deseja que ele fosse embora, por favor olhe profundamente com os olhos da impermanência. Se ele ou ela tivesse ido, o que você sentiria realmente? Você estaria contente ou se lamentaria? Praticando este insight pode ser muito útil. Há um gatha, ou poema que nós podemos usar para nos ajudar:
 
Com raiva na última dimensão
Eu fecho meus olhos e olho profundamente. 
Trezentos anos no futuro
Onde você estará e onde eu estarei? 
 
Quando nós estamos bravos, o que fazemos normalmente? Nós gritamos, e tentamos culpar a outra pessoa por nossos problemas. Mas olhando para raiva com os olhos da impermanência, nós podemos parar e podemos respirar. Com raiva do outro na dimensão última, nós fechamos nossos olhos e olhamos profundamente. Nós tentamos ver trezentos anos no futuro. Como estará você? Como estarei eu? Onde você estará? Onde eu estarei? Nós só precisamos inspirar e expirar, olhar para nosso futuro e o da outra pessoa. Nós não precisamos olhar para trezentos anos a frente. Poderia ser agora, cinqüenta ou sessenta anos no futuro quando nós estaremos falecidos. 

Olhando para o futuro, nós vemos que a outra pessoa é muito preciosa para nós. Quando nós sabemos que nós podemos a perder a qualquer momento, nós não ficamos mais bravos. Nós queremos abraçar o outro e dizer: "Como é maravilhoso você ainda estar vivo. Eu estou tão contente. Como eu poderia estar bravo com você? Nós dois vamos morrer em algum dia, e enquanto nós ainda estamos vivos e juntos é bobagem ficar bravo um com o outro.”
 
A razão pela qual nós somos tolos o bastante para nos fazer sofrer e fazermos a outra pessoa sofrer é que nós esquecemos que nós e a outra pessoa somos impermanentes. Em algum dia quando nós morrermos, perderemos todas nossas posses, nosso poder, nossa família, tudo. Nossa liberdade, paz e alegria no momento presente são as coisas mais importantes que nós temos. Mas sem um entendimento desperto da impermanência, não é possível estar contente. 
 
Algumas pessoas nem mesmo querem olhar para uma outra pessoa quando a pessoa está viva, mas quando a pessoa morre, eles escrevem obituários eloqüentes e fazem oferecimentos de flores. Naquele momento a pessoa morreu e não pode mais desfrutar da fragrância das flores. Se nós realmente entendemos e nos lembramos que aquela vida era impermanente, nós faríamos tudo o que podíamos para fazer a outra pessoa feliz aqui mesmo e agora mesmo. Se nós passamos vinte e quatro horas com raiva de nosso amado, é porque nós somos ignorantes sobre a impermanência. 

"Com raiva na dimensão última/ Eu fecho meus olhos." Eu fecho meus olhos para praticar visualização do meu amado cem ou trezentos anos no futuro. Quando você se visualiza e ao seu amado trezentos anos no futuro, se sente muito feliz de vocês estarem vivos hoje. Você abre seus olhos e toda sua raiva se foi. Você abre seus braços para abraçar a outra pessoa e você pratica: "Inspirando você está vivo, expirando eu estou tão contente." Quando você fechar seus olhos para visualizar a outra pessoa trezentos anos no futuro, você está praticando a meditação na impermanência. Na dimensão última, não existe raiva. 
 
Ódio também é impermanente. Embora nós possamos ser consumidos pelo ódio neste momento, se nós soubermos que o ódio é impermanente, nós podemos fazer algo para mudar essa situação. Da mesma forma que com a raiva, nós fechamos nossos olhos e pensamos, onde nós estaremos em trezentos anos? Com a compreensão do ódio na dimensão última, ele pode evaporar em um momento. 
 
Porque somos ignorantes e nos esquecemos de impermanência, nós não nutrimos nosso amor corretamente. Quando nos casamos, nosso amor era grande. Nós pensávamos que se nós não tivéssemos um ao outro não poderíamos viver nem mais um dia. Porque não soubemos praticar a impermanência, depois de um ou dois anos nosso amor se tornou frustração e raiva. Agora desejamos saber como poderemos sobreviver mais um dia tendo que conviver com a pessoa que amamos tanto no passado. Nós decidimos que não há nenhuma alternativa: queremos o divórcio. Se nós vivermos com a compreensão da impermanência, cultivaremos e nutriremos nosso amor. Só assim ele durará. Você tem que nutrir e cuidar seu amor para ele crescer. 
 
(Do livro “No death, no fear” – Thich Nhat Hanh)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Livro do Mês - Fevereiro

Detalhes

“Se você for um poeta, verá claramente que há uma nuvem flutuando nesta folha de papel. Sem uma nuvem, não haverá chuva; sem chuva, as árvores não podem crescer e, sem árvores, não podemos fazer papel. (...) Se olharmos mais profundamente ainda, poderemos ver os raios do sol, o lenhador que cortou a árvore, o trigo que o alimentou na forma de pão e o pai e a mãe do lenhador. Sem todas estas coisas, esta folha de papel não pode existir. Na verdade, não podemos apontar para nada que não esteja aqui – o tempo, o espaço, a terra, a chuva, os minerais e o solo, os raios de sol, a nuvem, o rio, o calor e a mente. Todas as coisas coexistem nesta folha de papel. Assim podemos afirmar que a nuvem e a folha de papel "intersão". Nós não podemos ser apenas nós mesmos; nós temos de interser com todas as demais coisas."
O "Sutra do Coração" ou "Prajnaparamita Sutra"* é considerado a essência do ensinamento budista. Ele é recitado diariamente nos templos Mahayana e centros de prática ao redor do mundo inteiro. Esta tradução e comentários são fruto de mais de 40 anos de prática e estudo monástico. Em seu inigualável estilo suave e lúcido, Thich Nhat Hanh desvenda, neste livro único e histórico, o coração da compreensão da espiritualidade e de uma vida verdadeiramente desperta e significativa.
"Thich Nhat Hanh nos mostra a interconexão entre a nossa paz pessoal, íntima, e a paz na Terra."
S.S. Dalai Lama *

* O Sutra está incluído no livro traduzido para o português, juntamente com o poderoso mantra transmitido por Avalokitesvara (O Buda da Compaixão).

Outras informações e adquirir: http://www.bodigaya.com.br/index.php/


EU MAIOR - entrevista com Mário Sérgio Cortella

Ensinamento para as crianças


Sidarta quietamente fez um gesto para que as crianças sentassem e disse: “Vocês todas são crianças inteligentes e eu estou certo que serão capazes de entender e praticar as coisas que eu partilharei com vocês. O Grande Caminho que eu descobri é profundo e sutil, mas qualquer um desejando aplicar seu coração e mente pode entendê-lo e segui-lo.”

“Quando você, criança, descasca uma tangerina, pode comê-la com consciência ou sem consciência. O que significa comer uma tangerina com consciência? Quando você está comendo uma tangerina está consciente que está comendo uma tangerina. Você experimenta totalmente sua adorável fragrância e gosto doce. Quando você descasca a tangerina, sabe que está descascando a tangerina; quando remove um gomo e o coloca em sua boca, sabe que está removendo um gomo e o colocando na boca. Quando experimenta sua adorável fragrância e gosto doce, está consciente que está experimentando seu gosto doce e adorável fragrância.”

“A tangerina que Nandabala me ofereceu tem nove gomos. Eu comi cada gomo em plena consciência e vi o quão preciosos e maravilhosos eram. Eu não esqueci a tangerina, e portanto a tangerina era real, a pessoa comendo a tangerina era real. Isto é que é comer uma tangerina de forma consciente.”

“Crianças o que significa comer uma tangerina sem plena consciência? Quando você está comendo uma tangerina, não sabe que está comendo uma tangerina. Não experimenta a adorável fragrância e o gosto doce da tangerina. Quando você descasca a tangerina, não sabe que está descascando uma tangerina. Quando remove um gomo e põe na sua boca, não sabe que está removendo um gomo e o colocando em sua boca. Quando sente o cheiro da fragrância ou o gosto de uma tangerina, não sabe que está sentindo o cheiro da fragrância ou o gosto da tangerina. Ao comer uma tangerina deste modo, você não pode apreciar sua preciosa e maravilhosa natureza. Se você não está consciente que está comendo uma tangerina, a tangerina não é real. Se a tangerina não é real, a pessoa que a está comendo também não é real. Crianças, isto é comer uma tangerina sem plena consciência.”

“Crianças, comer uma tangerina em plena consciência significa que enquanto você come está verdadeiramente em contato com ela. Sua mente não está correndo atrás dos pensamentos de ontem ou de amanhã, mas está habitando totalmente no momento presente. A tangerina está verdadeiramente presente. Vivendo com plena consciência da mente significa morar no momento presente, sua mente e corpo habitando realmente no aqui e agora.”

“Uma pessoa que pratica a plena atenção pode ver coisas na tangerina que outros não são capazes de ver. Uma pessoa consciente pode ver a árvore de tangerina, o florescer da tangerina na primavera, os raios de sol e chuva que nutriram a tangerina. Olhando profundamente, a pessoa pode ver dez mil coisas que fizeram a tangerina possível. Olhando para a tangerina, uma pessoa que pratica plena atenção pode ver as maravilhas do universo e como todas as coisas interagem umas com as outras. “

“Crianças, nossa vida diária é justamente como a tangerina. Como a tangerina é dividida em gomos, cada dia é dividido em 24 h. Uma hora é como um gomo da tangerina. Viver todas as 24hs do dia é como comer todos os gomos da tangerina. O caminho que eu encontrei, é o caminho de viver cada hora do dia em plena atenção, mente e corpo sempre habitando no momento presente. O oposto é viver no esquecimento, não saber que estamos vivos. Não experimentamos totalmente a vida porque nossa mente e corpo não estão habitando no aqui e agora.”

Gautama olhou para Sujata e disse seu nome.

“Sim, Mestre?” Sujata juntou as palmas das mãos.

“Você acha que uma pessoa que vive em plena atenção fará muitos erros ou poucos?”

“Respeitável Mestre, uma pessoa que vive em plena atenção fará menos erros. Minha mãe sempre me diz que uma menina deveria prestar atenção à maneira como anda, fica em pé, fala, ri e trabalha de forma a evitar pensamentos, palavras e ações que possam causar lamento para ela mesma e para os outros.”

“Isso mesmo, Sujata. Uma pessoa que vive em plena atenção sabe o que está pensando, dizendo e fazendo. Tal pessoa pode evitar pensamentos, palavras e ações que causam sofrimento para ela mesma e para os outros.”

“Crianças, viver em plena atenção significa viver no momento presente. Uma pessoa é consciente do que está acontecendo dentro dela e ao seu redor. A pessoa está em contato direto com a vida. Se a pessoa continua a viver desse modo, será capaz de profundamente entender a si mesma e ao que está a sua volta. Entendimento leva à tolerância e ao amor. Quando todos os seres se entenderem, eles se aceitarão e se amarão. Então não haverá tanto sofrimento no mundo. O que você pensa Svasti? As pessoas podem amar se elas são incapazes de se entender?”

“Respeitável Mestre, sem entendimento, o amor é bem difícil. Me lembra algo que aconteceu com minha irmã Bhima. Uma vez ela chorou a noite toda até que minha irmã Bala perdeu a paciência e deu umas palmadas nela. Isso apenas fez Bhima chorar mais. Eu peguei Bhima e percebi que ela estava com febre. Tinha certeza que sua cabeça deveria estar doendo por causa da febre. Chamei Bala e disse a ela que colocasse a mão na testa de Bhima. Quando ela fez isso entendeu de uma vez porque Bhima estava chorando.Seu olhos amoleceram e ela pegou Bhima nos seus braços e cantou para ela com amor. Bhima parou de chorar mesmo ainda com febre. Respeitável mestre, penso que isto aconteceu porque Bala entendeu o porque de Bhima estar chateada. E assim penso que sem entendimento, o amor não é possível.”

“Isso mesmo Svasti! O amor só é possível quando há entendimento. E somente com amor pode haver aceitação. Pratiquem viver em plena atenção crianças e vocês aprofundarão seu entendimento. Serão capazes de entender a vocês mesmos, às outras pessoas e todas as coisas. E vocês terão corações de amor. Este é o caminho que eu descobri.”

Svasti juntou as palmas das mãos. “Respeitável Mestre, podemos chamar este caminho do ‘Caminho da Plena Atenção’?”

Sidarta sorriu “Claro. Podemos chamá-lo de o Caminho da Plena Atenção. Eu gosto muito. O Caminho da Plena Atenção leva ao perfeito Despertar.”

Sujata juntou as palmas das mãos e pediu permissão para falar. “Você é aquele que despertou, aquele que mostra como viver em plena atenção. Podemos chama-lo de ‘O Desperto’?”

Sidarta fez que sim com a cabeça. “Isto me agradaria muito.”

Os olhos de Sujata brilharam. Ela continuou “Desperto em Magadhi é pronunciado como budh. Uma pessoa desperta deveria ser chamada Buda em Magadhi. Podemos chamá-lo de Buda?”

Sidarta fez que sim com a cabeça. Todas as crianças estavam extasiadas. Nalaka, um menino de 14 anos, o mais velho do grupo falou: “Respeitável Buda, estamos muito felizes de receber seus ensinamentos sobre o Caminho da Plena Atenção. Sujata me disse como você meditou sobre esta árvore nos últimos 6 meses e como na última noite obteve o Grande Despertar. Respeitável Buda, esta árvore é a mais bonita da floresta. Podemos chama-la de ‘Árvore do Despertar’, a ‘Árvore Bodhi’? A palavra bodhi divide a mesma raiz da palavra Buda e também significa despertar.”

Gautama fez que sim com a cabeça. Ele também estava deleitado. Ele não tinha adivinhado que durante seu encontro com as crianças o caminho e mesmo a grande árvore receberiam nomes especiais.

(Traduzido do livro “Old Path White Clouds” sobre a vida do Buda – Thich Nhat Hanh)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Livro do Mês - Janeiro

Guia da Prática de Meditação e Mente Atenta (Mindfulness) - Enio Burgos

Detalhes

A ciência vem comprovando a ampla gama de benefícios que a meditação traz aos seus adeptos. Redução do estresse e da depressão, incremento da produtividade e eficiência, melhora da concentração e do humor, prevenção e cura de doenças ou maior equilíbrio da saúde, estão entre os frutos desta prática milenar.
A mais sublime consequência da meditação, porém, traduz-se através da paz emocional, dos vislumbres de compreensão, do desenvolvimento da sabedoria e, sobretudo, do chamado “estado desperto” alcançado por seu intermédio. O ápice da evolução interior do ser humano, portanto, estaria intimamente associado à constante consecução da prática da meditação. Nesse sentido, nas palavras dos grandes sábios budistas, ela é denominada de “A Grande Mãe dos Budas de todos os tempos”.
“O Guia da Prática de Meditação e Mente Atenta (Mindfulness)” desvenda o caminho da meditação conforme palmilhado por todos os mestres da humanidade. Nesta obraextremamente oportuna, fundamentada em ensinamentos universais, aprendemos a acessar a essência natural da mente, repleta de harmonia, bem-estar e felicidade. 
Meditação silenciosa, caminhando, com canto de mantras, sorrindo, abraçando, bem como a maravilhosa prática de Mente Atenta ou Mindfulness, a qual nos instiga a “viver o momento presente”, são explicadas em detalhes, tornando tais atividades acessíveis a todos os interessados, quer sejam iniciantes ou veteranos.  

“O banho purifica o corpo. A meditação purifica a mente. Quando uma pessoa atinge esse estado de integridade, de inteireza mente-corpo-coração juntos no momento presente, ela se conecta a todos os seres... ela restabelece, conscientemente, uma real irmandade cósmica, desde os átomos até as galáxias.” – Dr. Enio Burgos.

  Livro adotado pela Associação Meditar: www.associacaomeditar.org

Os meios são o fim

Tempos atrás nós discutimos sobre meios e fins e aprendemos que na prática do Budismo não há nenhuma distinção entre meios e fins, e que os meios deveriam ser considerados como os fins por si mesmos. Esta é uma prática muito intensa e nós deveríamos nos apoiar no Sangha para fazer isto.

Quando você vai para o Salão de Buda ou para o Salão de Dharma sabe que tem algo a fazer lá: meditação sentada, ouvir uma palestra de Dharma ou limpar o salão, mas ir para lá também é uma prática. É solicitado que vocês limpem o salão de meditação com consciência, é esperado que vocês se sentem belamente enquanto escutam a uma palestra de Dharma, é esperado que vocês se concentrem, estejam atentos durante sua meditação sentada, e assim a prática acontece no salão de meditação, mas deveríamos saber que a prática também acontece durante sua caminhada até ali.

Eis por que deveríamos tentar estar praticando durante o tempo em que caminhamos para o salão de meditação, e se você for bem sucedido em todo passo que você der, a meditação sentada, a palestra de Dharma ou a limpeza do salão de meditação serão também um sucesso.  Como temos o hábito de fazer as coisas sem eficiência, tendemos a negligenciar, menosprezar o valor dos meios.

Nesta época no Outono, eu normalmente limpo as folhas do eremitério. Eu faço isto a cada três dias mais ou menos e uso um ancinho. Eu sei que limpar as folhas significa ter um caminho limpo para caminhar, fazer meditação caminhando e assim por diante. Eu corro diariamente pelo menos duas vezes - eu pratico a meditação correndo e limpo as folhas deste modo, conscientemente. Limpar as folhas não significa apenas ter um caminho limpo para correr ou caminhar, mas também significa simplesmente gostar de limpar as folhas. Assim, eu seguro o ancinho de tal modo que possa estar contente e sólido durante o tempo de usar o ancinho. E todo movimento que faço, quero fazê-lo como um ato de iluminação, um ato de alegria, um ato de paz, assim eu não tenho pressa, porque vejo que o ato de limpar é tão maravilhoso quanto ter um caminho limpo. Eu não estaria satisfeito com menos do que isso. Todo golpe que eu dou deve trazer alegria, solidez e liberdade para mim. Devo ser completamente eu mesmo durante o ato de limpar as folhas, e limpar as folhas, deste modo não será mais um meio para se chegar a um fim chamado "ter um caminho limpo".

E você não precisa esperar por muito tempo; se puder dar um golpe assim, um movimento assim, investindo completamente você mesmo no ato de limpar as folhas, então imediatamente será recompensado. Essa é uma obra de arte perfeita que você faz porque cada movimento é uma obra de arte.

O mesmo é verdade quando você pratica a caminhada. Cada passo que dá deveria ser uma obra de arte perfeita, cada passo pode lhe trazer solidez, soberania, pois você não caminha como um escravo, caminha como uma pessoa livre. Caminha como um Buda porque quis ser um discípulo, uma filha ou um filho do Iluminado. Você quer ser a sua continuação, eis por que é capaz de dar um passo com soberania, estando completamente no controle si mesmo. Você está completamente presente no aqui e agora, e desfruta daquele passo. Assim, a meditação andando não é chegar ao salão de meditação. Chegar ao salão de meditação é o que você quer, mas você quer mais do que isso, porque alcança o salão de meditação várias vezes ao dia e às vezes dez ou vinte chegadas como esta não fazem nenhuma diferença. Assim, um passo é o bastante para você chegar. Eu cheguei! Com um passo.

Essa é a nossa prática, mas há uma energia de hábito que lhe impede de fazer assim. Você está acostumado a correr por acreditar que a felicidade não é possível aqui e agora, a felicidade só é possível no futuro. Este tipo de convicção, este tipo de energia de hábito tem estado presente por muito tempo, transmitido por muitas gerações de antepassados e vir à Plum Village é ter uma chance de perceber isto; que você é governado por sua energia de hábito, pela tendência de correr todo o tempo. Você não é capaz de estar no aqui e no agora para tocar as maravilhas da vida que estão disponíveis.

Nós temos muitas chances para praticar. Sabemos que lavamos roupas, lavamos pratos, varremos o solo, cuidamos do jardim, há muitas coisas que vocês podem fazer, mas não façam isto do modo como fazem isto no mundo. Façam como uma prática, uma boa prática, e vocês serão recompensados imediatamente, saberão que estão lidando com sua energia de hábito. A energia de hábito nos diz: "rápido, rápido, vá, rápido, rápido, termine logo! O prazo final está próximo!", mas a prática está lhe dizendo o oposto: "não corra, desfrute, o aqui e o agora é a única coisa que você possui, a felicidade não pode ser possível fora do aqui e do agora", assim você tem duas coisas que contradizem uma à outra. Eis por que a palavra "treinamento" significa superar a energia de hábito lentamente e cultivar outra energia de hábito, que é boa. A energia de hábito que você quer cultivar é a capacidade de estar no aqui e agora, e viver todos os momentos de sua vida diária profundamente. Limpe as folhas, desfrute! Faça o café da manhã! Desfrute completamente deste ato de arte culinária. Lave os pratos! Desfrute completamente o ato de lavá-los.

Diariamente no Mosteiro eu lavo os pratos, diariamente eu fervo o arroz e cuido das flores, das plantas, e minha prática é de desfrutar todos os minutos enquanto estou fazendo estas coisas. Sim, escrever um poema é maravilhoso, escrever um artigo é maravilhoso, dar uma palestra de Dharma é maravilhoso, mas é igualmente maravilhoso cuidar do arbusto, cuidar das plantas, lavar os pratos e assim por diante. Por ser muito enriquecedor, muito recompensador, isto pode trazer muita paz, alegria e solidez para você.

Nós sabemos que a felicidade não seria possível se não tivéssemos nenhuma estabilidade e solidez, porque sem o solo da estabilidade e solidez nenhuma paz real, nenhuma felicidade real poderia ser possível. Eis porque aprender a limpar as folhas, aprender a varrer o solo, aprender a lavar os pratos é muito importante. Não diga que a meditação sentada é mais importante ou que a meditação caminhando é mais importante, ou ouvir uma palestra de Dharma é mais importante. Você escuta a palestra de Dharma para poder limpar as folhas. Você escuta a palestra de Dharma para poder lavar os pratos, corretamente e sabendo desfrutar isto.

Em Plum Village nós temos a vantagem de ter muitos irmãos e irmãs que fazem o mesmo e quando vemos um deles praticando nos sentimos apoiados. Eles não fazem nada demais. Eles apenas praticam, não dizem nada a nós; eles simplesmente fazem. E quando nós os vemos agir, temos uma chance de nos voltar para nós mesmos e fazer isto também.

A comunidade de prática é um grande presente, como o raio de sol. Muitos franceses talvez tenham um dia de sol hoje mas talvez porque muitos não tenham a capacidade de habitar no aqui e agora, o raio de sol não significa muito para eles. Mas se você sabe como inspirar e ficar consciente do raio de sol, terá um tipo diferente de sol. O sol existe para você mas não para esses que estão tão ocupados, e que perdem tanto tempo nas suas preocupações, no passado, no futuro. Pressupomos que a lua exista para todos mas há alguns de nós que jamais vêem a lua, nunca obtêm algo da lua, nunca desfrutam a lua.

Nós vivemos juntos em Plum Village durante uma semana, durante um mês ou três meses, durante um ano, e praticamos juntos. Existem alguns de nós que estão bastante contentes, contudo existem alguns de nós que não estão tão contentes; o mesmo ambiente, a mesmo Sangha, a mesma prática e ainda assim recebemos diferentemente o volume de felicidade, paz, estabilidade e alegria. E o que faz esta diferença? A diferença é nossa capacidade de pôr em prática o ensinamento que nos é dado. O Buda foi bastante claro nisto, a vida só está disponível no aqui e agora, com todas suas maravilhas. Se você continuar correndo, estas maravilhas da vida não serão suas. Assim, pare! Sorria ao sol, sorria à lua, sorria para seus irmãos ou irmãs e especialmente, sorria para você.

Reconheça que você está presente. Você precisa ser nutrido pela paz, pela alegria. Você tem se privado destes elementos. É você mesmo que se privou da paz, alegria, nutrição e cura. Agora o Dharma existe para lhe ajudar a parar este curso de vida. Olhe-se, sorria para você, seja amável com você, trate-se com a prática. Aprenda a caminhar, aprenda como respirar e sorrir, aprenda a limpar as folhas no jardim do pátio. É muito importante. O Reino de Deus, a Terra do Buda está aqui mesmo para você tocar.

Se você observou os monges e as monjas, se os observou em Plum Village, notará que enquanto eles caminham não falam, quando falam eles param para falar e escutar, e depois de falar e escutar, eles retornam ao seu andar. Por que eles fazem assim? Porque quando eles falam e escutam, querem investir 100% de si no ato de falar e escutar. Eis porque eles não falam enquanto estão caminhando; eles querem investir 100% de si no ato de andar. Eles querem dar passos reais, passos que podem trazer estabilidade para eles, solidez, liberdade porque sabem que a estabilidade, a solidez é o solo da felicidade, assim eles caminham para ao mesmo tempo cultivar e desfrutar disto.

Eis porque, se você vier a Plum Village e seguir este tipo de exemplo, se unirá à prática. Não falar durante o caminhar não é uma regra porque nós não queremos ser vítimas de regras, não queremos absolutamente nenhuma regra, simplesmente queremos praticar. Se não falamos, é porque queremos praticar. Não é que falar seja um crime. Mas se você falar durante a prática, estará destruindo-a.

Nos ensinamentos do Buda, estar preso a regras é algo que vocês não são encorajados a fazer. Deveríamos olhar para isto como uma prática e não como regras, como os dez preceitos do noviciado que nós temos aqui e que vocês ouviram ontem. Eles não são regras para o noviço. Elas não existem para restringir a liberdade e a felicidade dele. Elas existem para ajudá-lo a levar uma vida de noviço feliz. Porque estes preceitos devem ser considerados como sendo a prática da consciência plena e se vocês praticarem adequadamente preservarão sua liberdade, sua beleza, sua felicidade. Se vocês pensam que estas dez coisas são regras às quais tem que se submeter, tem que se render, vocês não entenderam, vocês não perceberam o sentido real; eis porque o Buda disse: não seja escravo de regras e rituais. Rituais e regras, nós não precisamos deles; precisamos apenas da prática.

Quando entramos no salão de Dharma todo o mundo se levanta e une as palmas. Isso não é uma regra, é a prática. Quando o professor entra no salão, não é afetado pelo respeito que é mostrado a ele. Ele também pratica caminhando, conscientemente, a prática do andar atento é a sua prática. Andar conscientemente é a sua prática, e o levantar-se, respirar e mostrar respeito são as práticas de vocês. Estas duas coisas são igualmente importantes. E se vocês olharem isto como um ritual, estarão errados. Se olharem isto como uma regra, estarão errados, vocês devem ver isto como sua prática, e a boa prática sempre pode ser reconhecida. Quando o professor caminha, ele deveria ser uma pessoa livre, não é afetado pelo orgulho, complexo de arrogância, esta é sua prática. Sua prática é ser respeitoso com o professor, gostar de se levantar desta forma, inspirar, expirar, sorrir e tocar as muitas gerações de professores na história. Quando você está em contato com seu professor, você está em contato com o professor de seu professor, o professor de sua professora, e você está em contato com muitas gerações de professores, está em contato com o Buda, portanto esta é sua prática.

Eis porque você não reclama que deve se levantar muito cedo e que o professor está caminhando muito lentamente. O professor vive a prática dele e você a sua, todo o mundo está usufruindo disto, e você saberá se sua prática está correta ou não. Você sabe por si se a prática o está fazendo feliz, calmo, sólido. Você sabe que o professor cuida da prática dele e você da sua, e nós não deveríamos olhar isto como uma regra ou um ritual, caso contrário, estaremos presos a formas de rituais e regras, e o Buda é contra rituais, meros rituais e regras.

Quando você segura um copo de água e a bebe conscientemente, o ato é tão bonito e se parece com um ritual, certo? Mas aquele que está segurando o copo e está bebendo não tem qualquer intenção de fazer disto um ritual, uma performance. Ele simplesmente gosta de segurar o copo e beber. Mas porque a plena consciência está lá, muito profunda, muito forte, assim o ato se parece um ritual, mas não é ritual, é a prática.

Quando você se curva assim e sente que sua mente e seu corpo estão unidos em concentração, em plena consciência, e sente que está totalmente presente orientado para algo bom, verdadeiro e bonito, a natureza da iluminação, a natureza do despertar em si, você recebe algo, usufrui disto e não pensa nisto como um ritual. Mas se você faz isto como uma máquina e quando vê pessoas simplesmente as imita sem entender, isso é um ritual, é uma coisa ridícula de fazer, completamente vazia. Este tipo de ritual está completamente vazio e nós não deveríamos fazer assim.

Assim em grandes retiros na América Norte temos sempre pessoas novas, às vezes 50 ou 60% das pessoas que se juntam ao retiro são pessoas novas e elas ficam envergonhadas, elas pensam nisto como um ritual, elas não estão confortáveis. Eis porque eu sempre começo dizendo, se curvar ou não se curvar, esta não é a questão! Curvar-se é um ritual, assim não fique preso pelo ritual. Prática. Se você pensar que fazer isto lhe trará concentração, insight e reverência, isso então irá lhe fazer bem, isso o fará feliz e então você fará isto e estará livre de rituais, livre de regras.

Assim os dez preceitos do noviciado são práticas que se direcionam para ajudar o noviço a ser livre, estar contente, ser sólido e se você considerar os preceitos como algo que limita sua liberdade, está errado, estará preso a rituais, será preso a regras e isso é contra o espírito budista.

(Discussão de Dharma ministrada por Thich Nhat Hanh em Plum Village em 5 de dezembro de 1999)
(Transcrito e editado por Carol Fegan, Chan An Cu, Traduzido ao Português por Claudio Miklos)