A Associação MEDITAR é uma sociedade civil sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá. A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros MEDITAR) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza; Orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa,escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria. A Associação Meditar de Cuiabá se reúne as 3ª feiras para meditar e estudar na Academia Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo telefone (65)3052-6634.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Reconhecimento

Por Thich Nhat Hanh

Alguém poderá perguntar: é então o relaxamento o único objetivo da meditação? Na verdade a meditação vai muito mais além. O relaxamento, entretanto, é necessário como ponto de partida, já que só após obtê-lo é que a pessoa consegue tranqüilizar o coração e clarear a mente. Ter o coração tranqüilo e mente clara já é avançar bastante no caminho da meditação.

Não devemos nos esquecer de que alertar a mente para a respiração é um método maravilhoso que pode ser usado sempre e não apenas no início da prática. No século III, assim escreveu o mestre zen Tang Hoi em seu comentário sobre o Sutra Anapanasati: "Manter a mente alerta à respiração é o grande veículo usado por Buda para salvar todos os seres presos no ciclo de nascimento e morte". Medir, seguir e controlar a respiração são, portanto, instrumentos poderosos que nos habilitam ao controle da mente.

E, para obter controle da mente e aquietá-la, temos que estar alertas também para os nossos sentimentos e percepções, observando e reconhecendo cada sentimento ou pensamento que surge. Assim se referiu a respeito o mestre zen Thoung Chien, ao fim da dinastia de Ly. "Se o praticante for capaz de enxergar claramente como funciona sua mente, poderá obter resultados com pouco esforço. Do contrário, todo seu esforço será perdido". Só há uma forma de se conhecer a mente: observar e reconhecer tudo sobre ela. E isto deve ser feito todo o tempo, não só nos momentos de meditação como também no dia-a-dia.

Inúmeros pensamentos e sentimentos surgem durante a meditação. E se não estivermos atentos à respiração, seremos arrastados por eles. Mas a respiração não é apenas um meio através do qual podemos nos tomar imunes a tais pensamentos e sentimentos. A meditação é o veículo que, unindo o corpo à mente, abre as portas da sabedoria.

Nossa intenção, ao surgir um sentimento ou pensamento, não deve ser de afugentá-los, pois, continuando nós concentrados na respiração, eles se afastarão naturalmente. Tampouco deve ser de odiá-los, espantar-se ou preocupar-se com eles. O que deve então ser feito? Simplesmente reconhecer a presença deles. Se surge, por exemplo, um sentimento de tristeza, reconheça-o imediatamente: "Um sentimento de tristeza está surgindo em mim". Se o mesmo sentimento continuar, continue a reconhecê-lo: "Um sentimento de tristeza continua existindo em mim". Se surge um pensamento como: "É tarde, mas os vizinhos ainda estão fazendo barulho", reconheça-o da mesma forma e se o mesmo continuar, reconheça que ele está continuando a existir. Reconheço, enfim, qualquer espécie de sentimento ou pensamento que surja. O essencial é não deixar que eles surjam sem que os reconheça prontamente, tal como a sentinela que, à porta do palácio, observa cada fisionomia que entra ou sai.

Não havendo nenhum sentimento ou pensamento, reconheça não estar havendo nem um nem outro. Esse treino nos faz tomar consciência dos nossos sentimentos e pensamentos. E, através dele, você poderá manter o controle da mente. Pode-se, pois, juntar o método de alertar a mente à respiração ao de tomar consciência dos pensamentos e sentimentos ao mesmo tempo.  

Sem ilusões, a mente torna-se verdadeira. Ao praticar o exercício de alertar a mente, não se deixe dominar pela distinção entre bom e mau, criando assim uma luta em seu interior. Sempre que um pensamento positivo surja, reconheça isso: "Um pensamento positivo acaba de surgir". Não se apegue ao pensamento, mesmo que este lhe seja agradável, assim como não tente repeli-Ia mesmo que ele lhe seja desagradável. Reconhecê-lo é o suficiente. Se você tiver se distraído, deve saber que se distraiu, e, se estiver presente, deve reconhecer que está presente. Uma vez alcançada essa consciência, nada mais o perturbará.  

Quando me referi à sentinela do palácio, você deve ter imaginado um corredor com duas portas, uma de entrada e outra de saída e sua mente qual sentinela registrando cada sentimento ou pensamento que entra ou sai. Mas a imagem tem uma falha, isto é, a idéia de que o que entra e sai é diferente da sentinela, pois os nossos pensamentos e sentimentos são nós mesmos. São partes de nós. Existe a tentação de considerá-los todos ou alguns deles como forças inimigas que tentam perturbar-nos.

Mas, na verdade, quando estamos com raiva, nós mesmos somos a raiva. Quando estamos felizes, nós mesmos somos a felicidade! Nós somos a sentinela e o visitante ao mesmo tempo. Somos ambos: o observador da mente e a mente ao mesmo tempo. Por conseguinte, tentar segurar ou repelir qualquer pensamento não é o importante. O importante é estar consciente dele. Esta observação não é uma objetificação da mente, não estabelece distinção entre sujeito e objeto. A mente não segura a mente, a mente não repele a mente, a mente pode apenas observar-se a si mesma. Esta observação não é a observação de um objeto exterior, independente do observador.

O koan do mestre zen Bach An ilustra bem isso:

"Qual o som de uma mão batendo palma?" Ou, outro exemplo: "O que separa o paladar e a papila gustativa?" A mente percebe a si própria, em si própria. Isto é de grande importância, tanto que, no Surra da Mente Desperta, Buda usa várias vezes a frase: "Conscientizar-se do sentimento no próprio sentimento, conscientizar-se da consciência na própria consciência". A consciência do sentimento no próprio sentimento é a consciência direta do sentimento enquanto ele está sendo experimentado e não a contemplação de uma imagem do sentimento, criada para objetificá-lo como existência externa separada daquele que contempla.

A consciência do sentimento no sentimento é a mente experimentando a consciência da mente na mente. A objetificação de um observador de fora para examinar algo é método da ciência, não da meditação. Por isso, a imagem da sentinela e dos visitantes (pensamentos e sentimentos) entrando e saindo pelo portão da mente é falha para ilustrar adequadamente a observação da mente na mente.

A mente, diz o Sutra, é como um macaco na floresta, saltando de galho em galho. Para não perder o macaco de vista, em algum rápido movimento, temos que observá-lo constantemente e nos tornarmos unos com ele. Mente contemplando a mente, é como um objeto e sua sombra - o objeto não pode afastar sua sombra. Os dois são um só. Onde quer que vá, a mente está sempre subordinada a si própria. O Sutra usa, algumas vezes, a expressão "Amarre o macaco" para significar "Tenha controle da mente". Mas a imagem do macaco é apenas um meio de expressão. Não há duas mentes, uma que pula de galho em galho e outra que segue atrás para amarrá-lo com uma corda.

Geralmente, a pessoa que medita espera "ver dentro de sua própria natureza" e, assim, poder despertar. Mas, se você está apenas começando, não espere "ver dentro de sua própria natureza". Ou melhor, não espere nada. Não espere especialmente ver Buda ou qualquer versão da "realidade última" enquanto está meditando.

Nos primeiros seis meses, procure apenas estabelecer e desenvolver seu poder de concentração, criar calma interior e contentamento sereno. Você afastará a ansiedade, terá real descanso e aquietará sua mente. Você se renovará e adquirirá uma ampla, clara visão das coisas, aprofundando e reforçando o amor existente em si.

Meditar é alimento para o espírito e para o corpo. Através da meditação nosso corpo adquire harmonia, leveza e paz. O caminho a percorrer entre observar sua mente e "ver dentro de sua própria natureza" não será muito áspero. Uma vez capaz de acalmar sua mente, uma vez que seus sentimentos e pensamentos não mais o perturbem, terá chegado ao ponto em que sua mente se estabelecerá na mente. Ela terá controle direto de si mesma, não mais diferenciando o sujeito do objeto.

Ao tomar uma xícara de chá, a aparente distinção entre o que toma o chá e o chá desaparece. O simples ato de tomar uma xícara de chá, então, pode-se tomar uma experiência direta e maravilhosa, na qual a separação entre sujeito e objeto não mais existe.

A mente dispersa também é mente, da mesma forma que as ondas que se movem na água também são água. Quando a mente tiver obtido controle de si própria, quando ela não mais se alimentar de ilusões se , tomará mente verdadeira. Mente verdadeira é o nosso verdadeiro eu, é unidade absoluta que não pode ser dividida pela ilusória separatividade das coisas, criadas pelos conceitos e pela linguagem.

(Do livro “Para Viver em Paz” – Thich Nhat Hanh)
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segunda-feira, 21 de maio de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A tartaruga e o coelho


Por Monja Coen Sensei
A versão japonesa da fábula da tartaruga e do coelho é um tanto quanto diferente daquele da minha infância brasileira. Eu a ouvi há poucos dias do Reverendo Miura, que veio do Japão nos visitar.

Conta-se que a tartaruga e o coelho foram apostar uma corrida. O coelho saiu na frente e quando estava no topo de um morro olhou para trás e viu a tartaruga lá longe, tão longe que ele resolveu deitar e dormir.
Passo a passo a tartaruga passou pelo coelho adormecido e chegou em primeiro lugar.

No Japão essa fábula é ensinada para enfatizar a importância da persistência, paciência, continuidade.
No entanto, quando essa história foi contada na Índia houve quem dissesse:

“A tartaruga foi má. Sabe por que? Porque ela não acordou o coelho.”

São maneiras diferentes de se interpretar a mesma história. Talvez a tartaruga devesse ter parado e verificado se o coelho estava bem antes de continuar caminhando lenta e continuamente.

A história do Brasil era diferente. A tartaruga enganava o coelho e chegava primeiro.
Talvez por isso temos tantas pessoas envolvidas na corrupção. Não paramos para ajudar como na Índia, país pobre e sofredor. Nem vamos passo a passo até nossos objetivos, como no Japão, país próspero.

Como seria a versão de Buda?
Saíram juntos o coelho e a tartaruga.

Não se preocupariam em ganhar, mas em criar harmonia com sua passagem. Ofereceriam o prêmio um ao outro, pois não haveria perdedor. Um ganharia pela velocidade. Outro pela persistência.

A tartaruga veria o coelho sair rapidamente. Da poeira levantada onde nem suas patinhas poderiam ser encontradas, a tartaruga apreciando, cada passo, flor, estrada se apiedaria do amigo que na grande correria se esquecia de ver cada detalhe sagrado.

O coelho por sua vez, pernas fortes e longas, se preocupava com a amiga tartaruga, de casco pesado e pernas curtas. Estaria sendo absurda essa competição?

Olhava para trás e a via caminhando, lenta e decididamente. Parava o coelho e a esperava. Perguntava como estava. Juntos descansavam na sombra das árvores. E o melhor é que não havia gol a obter, não havia corrida a ganhar. Tudo que havia era o prazer de viver. Cada um com seu passo, seu estilo, sem competir, caminhando o Caminho, sendo o Caminho iluminado.

E nessa caminhada iam encontrando pessoas e animais, árvores e minerais, água, terra, ar, fogo, tudo que existe e sempre se prontificando a ajudar e a procurar a maneira correta de fazer com que todos percebessem a beleza de caminhar o caminho sem começo e sem fim.

No budismo ambos seriam bodisatvas, seres iluminados disfarçados a mostrar o Caminho verdadeiro a todos os seres.

Essa versão me apetece e se parece sonho, fantasia, ilusão, utopia – é dessa matéria prima sagrada que a vida é celebrada.

Somos um com o mundo. O mundo é uno em nós.

Quando inspiramos o mundo inspira. Além da dualidade o que resta é a unidade.
A diversidade não é rival da unidade. Pelo contrário: no uno tudo está incluído. Cada parte, como um corpo de coração e pulmões, rins e fígado.

Outro monge, Reverendo Saikawa, bebeu de um copo de água. Era a água e eu. Agora a água sou eu. Eu sou a água .

Interconectados. Intersendo.

Olhar capaz de ver com clareza luminosa como espelho de cristal.
Audição de ouvir com clareza sonora como
Espelho de cristal

Assim com todos os sentidos. Tudo vendo, tudo ouvindo, todos os odores sentindo, todos os sabores, na pele o frio, o calor, as texturas.

Mas a mente precisa estar luminosa e aberta, pois se estiver cheia de si mesma não é capaz de se tornar flexível e sensível.

Tartaruga e coelho não se opõem. São. Intersendo.

Cada um é como é. Tem sua função e ação. Se tartaruga quiser ser coelho terá problemas dores, sofrimentos. Não aceitará a si mesma. Estará o tempo todo reclamando, se rejeitando, julgando, se rebaixando. Triste sina.

Se o coelho pensasse ser tartaruga, com uma casa nas costas a se proteger dos caçadores, seria triste seu fim.

Cada um é cada um. Tem valor e tem lugar. Nada é fixo. Não há melhor nem pior. Há o que é correto em sua função e posição.

Ser humano, estrela, cão.

Somos todos apenas você.

E você sou eu.

Texto extraído do site: http://www.monjacoen.com.br/inicio

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Atletas da Mente


Os incríveis efeitos da meditação no cérebro e na psique


Pesquisas científicas estão comprovando aquilo que os iogues e monges já sabiam há milênios – a meditação é muito mais do que uma simples técnica de relaxamento; a prática regular da meditação altera as estruturas neuronais do cérebro, estimulando as emoções e sentimentos positivos e incrementando as capacidades da mente.



Por Inês Castilho

A meditação é objeto de interesse crescente na medicina. Sua indicação está se tornando cada vez mais comum no tratamento e prevenção de doenças imunológicas, do sistema cardiorrespiratório, dos distúrbios do sono, do estresse, da dor. Médicos começam a adotá-la como técnica complementar no controle da hipertensão e arritmias cardíacas. Desde que foi capa da Time, em 2003, o assunto tem sido freqüentemente veiculado pela mídia – como o recente Globo Repórter que mostrou a prática de meditação por médicos e enfermeiros do Hospital de Apoio de Brasília.

A monja Coen Sensei, da tradição zen-budista, diz ter perdido a conta de quantas pessoas ensinou a meditar, no Japão e no Brasil. “Foram centenas, talvez milhares. O interesse pela meditação é internacional e cresce também entre empresários”, diz ela, que começou a praticar durante o boom da meditação nos Estados Unidos pós-guerra do Vietnã. Foi assim também com Susan Andrews, monja do tantra ioga que fundou o Instituto Visão Futuro em Porangaba (SP) e calcula já ter treinado mais de dez mil pessoas em seus 35 anos como instrutora de meditação, em vários países.

Mais de cinco mil pessoas já passaram pelos cursos ministrados por Lia Diskin na Associação Palas Athena, em São Paulo. A psicopedagoga Vivi Tuppy, formada pela Palas, levou para Araçatuba e Birigüi (SP) o programa Educadores da Paz, com práticas de atenção com foco na respiração que já alcançaram cerca de 17 mil alunos e professores das redes estadual e municipal de ensino. O resultado foi o aumento nos índices de aprendizagem e redução da violência na escola e comunidade. Essas são apenas algumas experiências.

Neuroplasticidade

Os estudos publicados em revistas científicas também se multiplicaram nas últimas décadas. Particularmente nos Estados Unidos, mas também no Brasil – em instituições respeitadas como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do Hospital Albert Einstein e a Universidade de São Paulo (USP).

Neuroplasticidade é palavra-chave das pesquisas mais atuais. O termo refere-se
à capacidade de o cérebro mudar sua estrutura e função – os circuitos neuronais mais usados se expandem e fortalecem, ao passo que aqueles não usados, ou usados raramente, se encurtam e enfraquecem. “Espera-se que, aprendendo a fomentar e controlar a neuroplasticidade, ela possa trazer benefícios em casos de doenças degenerativas e imunológicas, e lesões por trauma e vasculares”, observa João Radvany,neurologista, psiquiatra e neurorradiologista do Hospital Albert Einstein.

Radvany prepara-se para dar início a uma pesquisa, financiada pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do Einstein, que tem como objetivo verificar os efeitos da meditação na atenção e concentração de um grupo de médicos. O estudo será feito em colaboração com Edson Amaro Jr., coordenador de pesquisa em neuroimagem no IEP, e Elisa Kozasa, pesquisadora em técnicas de meditação da Unidade de Medicina Comportamental da Unifesp, com o uso da técnica de ressonância magnética funcional, que permite verificar as áreas ativadas no cérebro durante a prática.

Diálogos Mind and Life

O impulso para o desenvolvimento dessas pesquisas deve-se principalmente à associação entre o líder espiritual tibetano Dalai Lama e o biólogo chileno Francisco Varela (1950-2001), então chefe da Unidade de Neurodinâmica do Hospital Salpetrière, em Paris. Nasceu daí o Mind and Life Institute, que desde 1987 realiza encontros anuais – um ano no Ocidente, e outro, informal, em Dharamsala, na Índia, onde Sua Santidade vive exilado – para um diálogo entre homens e mulheres de ciência e monges budistas sobre a natureza do universo e da mente.

Os encontros do Mind and Life reúnem cientistas dos mais respeitados centros de pesquisa dos Estados Unidos, tais como Harvard, Princeton, Duke, Califórnia. Com o objetivo de responder a um desafio – Como criar e manter uma mente saudável? –, a partir de 1990 cientistas filiados à instituição começaram a investigar os efeitos neurobiológicos da meditação.

Embora divulgados, eles só foram abertos ao público em 2003. O segundo diálogo aberto aconteceu em novembro passado em Washington (EUA), com o tema Investigando a Mente 2005: Aplicações Clínicas e Científicas da Meditação. Em sua passagem por São Paulo, Sua Santidade falou sobre essas experiências no seminário Compaixão e Sabedoria– a construção da saúde pessoal e coletiva, realizado dia 28 de abril no Palácio de Convenções do Anhembi, com a participação da Unifesp/Escola Paulista de Medicina.

Participação brasileira

Em 2004, o Mind and Life deu início a um programa de verão anual de uma semana, o Summer Research Institute, em que a apresentação e debate dos temas científicos eram alternados com períodos de meditação que somavam cerca de três horas diárias. Entre os pesquisadores selecionados encontrava-se a bióloga e pesquisadora brasileira Elisa Kozasa, que participou também do Summer Research de 2005.

Autora de uma tese de doutorado sobre os efeitos – positivos – da meditação e da respiração da ioga na ansiedade, depressão e atenção, Kozasa é co-orientadora de vários projetos de mestrado em meditação na Unifesp e se prepara para fazer pós-doutorado avaliando as áreas cerebrais relacionadas à meditação, através da técnica de neuroimagem funcional. Seu interesse foi despertado aos 12 anos pela prática de aikidô, e mais tarde pela leitura de livros como Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda, e Diálogos Entre Cientistas e Sábios, de René Weber.

Também o interesse do neurologista João Radvany pela meditação, estranhamente, foi despertado por um esporte – a natação. Hoje, além de nadar ele pratica tai chi chuan e meditação zen. “Todos os estímulos do mundo externo e interno são levados ao tronco cerebral, onde uma rede de neurônios mantém o estado acordado e de atenção como se fosse uma luz, de intensidade variável e direção itinerante, para iluminar a experiência que a gerou”, explica Radvany. “As áreas frontais do cérebro fixam o foco dessa luz, gerando concentração no estímulo que a consciência escolhe. A meditação orienta o farol para que incida num determinado aspecto da experiência, excluindo todo o resto.”

Estudos do cérebro

Tanto Radvany como Kozasa ressaltam, entre os estudos realizados por pesquisadores que participam do Mind and Life, os experimentos de Sara Lazar, doutora em biologia molecular pela Universidade de Harvard e praticante de ioga e meditação por aproximadamente dez anos. Em um trabalho publicado em 2000, ela e sua equipe de pesquisadores mostraram que é possível verificar variações da atividade cerebral mesmo em pessoas com pouca prática de meditação, com o uso de ressonância magnética funcional.

Outro estudo de imagem da mesma pesquisadora, publicado em 2005, mostrou que áreas específicas do córtex cerebral, a camada externa do cérebro, eram mais espessas em praticantes pouco experientes de um tipo de meditação conhecida como mindfulness, comumente praticada nos Estados Unidos. “Ela mostrou que não é preciso meditar o dia inteiro para produzir alterações estruturais no cérebro. E que é possível retardar a atrofia de certas áreas cerebrais relacionadas à idade”, observa Radvany.

O neurocientista Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, em Madison, colaborador do Dalai Lama desde 1992, é um dos principais pesquisadores da neuroplasticidade. “Os neurocientistas acreditavam que nascemos com determinado número de neurônios, e que as mudanças ocorridas com o desenvolvimento seriam apenas nas conexões entre essas células e as células moribundas. Nos últimos dois anos, descobrimos que isso não é verdade. Já foi demonstrado nos humanos que crescem neurônios novos durante a vida inteira. É uma descoberta fantástica” – disse ele no diálogo ocorrido em 2000 em Dharamsala, relatado no livro Como Lidar com Emoções Destrutivas – Para Viver em Paz com Você e os Outros (Editora Campus), de autoria do Dalai Lama e de Daniel Goleman.

Outro pesquisador importante é Jon Kabat-Zinn, diretor da Clínica de Redução do Estresse, professor de medicina da Universidade de Massachusetts e um dos autores do livro A Mente Alerta (Editora Objetiva). Para Radvany, o mérito de Kabat-Zinn, criador do método de meditação conhecido como mindfulness behavior stress reduction (MBSR), ”foi chamar a atenção para o fato de que é possível transformar todas as atividades diárias em meditação, no sentido de baixar o tônus vegetativo – que é o antídoto do estresse”.

Em outras palavras: “Como você pensa, você se torna. Se diariamente, durante a profunda concentração da meditação, redirecionamos o nosso estado mental para longe dos estreitos e negativos padrões de pensamento, em direção a um sentimento de compaixão e tranqüilidade interior, nossas mentes gradualmente se tornam repletas de amor e paz” – como diz Susan Andrews e, na qualidade de aprendiz, posso testemunhar.

Extraído do site: http://www.terra.com.br/revistaplaneta/mat_405.htm

terça-feira, 6 de março de 2012

A participação das religiões na construção da paz


Por Monja Coen Sensei

ZEN BUDISMO


Como podem as religiões contribuir para a construção da Paz? E que Paz estamos conceituando? Definitivamente não é apenas a ausência de guerras declaradas - quer seja entre gangs, grupos, regiões e/ou países. Há a guerra da fome, da miséria, da injustiça social, do analfabetismo, das grandes ignorâncias, maldosas, ruidosas, distorcendo ensinamentos e doutrinas para dar vazão à ganância e a raiva. A Paz, o bem estar, a tranqüilidade só são possíveis se incluir todos os seres com igualdade de direito à boa qualidade de vida.


Como podem as religiões participar da construção de sociedades mais igualitárias e com capacidade de compreender e incluir todas as formas de vida? Como podem encorajar e desenvolver o respeito entre todos e incentivar os corações de ternura e amor a que proporcionem condições melhores para todos os co autores da vida na terra?


O que é a construção da Paz? Quais são os alicerces da Paz? Será que as religiões fornecem o material básico para o fortalecimento desses alicerces de sustentação? Será que os religiosos vivenciam os ensinamentos que pregam?


No passado as religiões eram as pontas de flecha das grandes transformações sociais. Com o correr dos anos algumas delas cresceram e se institucionalizaram de tal forma que parecem ter perdido seu propósito inicial de fazer o bem a todos os seres. Mas não foram as religiões que se transformaram. Não foram os ensinamentos e sim a ganância, a raiva e a ignorância que desviaram pessoas e grupos, fazendo-os esquecer a transcendência, o Iluminar e o Ser Iluminado.


Vieram as críticas, as desconfianças, o abandono, o descaso pelas religiões estabelecidas e a procura por novas e "puras" fontes de conforto e claridade. Se as religiões aprenderem com a História da Humanidade poderão se redimir de seus erros do passado construindo uma linguagem de inclusão e respeito a diferentes tradições e expressões do Sagrado.


A Paz é construída a cada momento com nossas vidas através de gestos, ações, frases, palavras, idéias e pensamentos. É a vivência da Paz. É a nossa ternura e o nosso cuidar dos próximos e dos distantes, do conhecido e do desconhecido. É nosso respeito ao outro. É nosso respeito e carinho a nós mesmos - vida cósmica.


A Paz, em termos budistas, pode ser entendida como a Maravilhosa Mente de Nirvana. Mas, será que é possível um Nirvana pessoal e individual, independente do coletivo? Se o coletivo está doente e faminto, se o coletivo está em violência e tristeza, como pode o indivíduo - partícula do coletivo - estar separado do mesmo?


Há pessoas que se referem a algumas pessoas como "religiosos engajados" em movimentos de transformação político-sociais. Entretanto, toda pessoa verdadeiramente religiosa está envolvida nos movimentos de transformação sócio-econômicos do mundo, porque faz parte do mundo, porque é uma partícula deste mundo que sofre e se debate em fome, em dor; que se alegra e ri em esperança e renascimento de fé.


Será que existe alguma religião que não se proponha a amenizar o sofrimento do mundo e criar comunidades de seres responsáveis e ativos, que percebem como o todo inter age, como tudo está inter conectado? O que cada um de nós está fazendo para amenizar a fome no mundo? Isto é construir a Paz. O que cada um de nós está fazendo para melhor saneamento, melhores condições de saúde a todos os seres em todas as esferas de vida? O que cada um está fazendo para a preservação da natureza, das águas, das terras, dos ares, dos minerais, dos seres vivos? Que responsabilidade estamos tomando frente às dificuldades de milhões de seres humanos em se completarem, em serem felizes, verdadeiramente felizes? Quais valores estamos transmitindo às nossas crianças? ( Entendo por nossas crianças todas as crianças- ricas e pobres, animais, vegetais e minerais) A família é a Família da Vida. Esta a nossa verdadeira família. Inclui todos os humanos e por conseqüência todos os outros seres, visto que somos todos feitos de elementos não-eu, constantemente inter agindo, inter sendo.


Como podem as religiões contribuir para a construção da Paz? Educando seres de paz, em paz, na paz. Renovando os valores éticos básicos de nosso pequeno mundo globalizado. Para tanto será necessário renovar a maneira de falar e de ser de seus praticantes. Foi-se o tempo de dizer que a "minha opção religiosa é a única e a melhor para todas as pessoas". Há diferentes tradições, algumas antigas, outras mais recentes. Todas aquelas que se dirigem a dar melhores condições de vida à própria vida, sem criar barreiras separatistas, discriminatórias e de conflito, mas criando ambientes de harmonia e respeito devem ser consideradas como parceiros na construção de uma Cultura de Paz.


Uma Cultura de Paz, de Não Violência Ativa, a ser vivenciada em cada relacionamento, nas escolas, nas artes, no trabalho, nas casas, nas ruas das grandes, médias e pequenas cidades, nas áreas rurais, nos mares, montanhas e nos céus.


Podemos sim transformar os infernos de dores e sofrimentos nos paraísos de tranqüilidade e abundância dando um salto quântico no infinito e crendo no processo de desenvolvimento da própria vida.


Unidas, as várias religiões e tradições religiosas poderão trabalhar para o bem comum procurando abrir a todos, de par em par, os portais sem portas do Caminho Correto.

Para que trabalhem unidas, lado a lado, sem julgamentos de superioridade ou inferioridade nas suas opções e número de adeptos é preciso que seus líderes, seus dirigentes encontrem a flexibilidade e a humildade para se reverenciar ao Sagrado em cada ser e desenvolver a Grande Mente de Compaixão, Compreensão e Sabedoria. Só quando os seres humanos forem capazes de perceber sua posição cósmica de inter ação poderemos iniciar a caminhada pela Cultura da Paz. Esta caminhada já se iniciou para alguns, poucos ainda, que tateiam nas várias tentativas de encontrar os meios expedientes rápidos e benfazejos de apressar o processo de transformação para que todos se beneficiem. Para tanto não podem estar presos às suas tradições, conceitos e dogmas, mas livres através de suas tradições, conceitos e dogmas para a experimentação do Sagrado, que tudo une, tudo inclui, tudo abençoa, compreende e abrange.


As religiões poderão participar ativamente da construção da Paz quando seus adeptos verdadeiramente se tornarem agentes de Paz.


* * *


O fundador histórico do Budismo, Xaquiamuni Buda (cerca de 600 anos anterior ao nascimento de Jesus Cristo), em seu primeiro sermão após obter a Iluminação, deixou um legado precioso de como obter o estado de profunda e verdadeira Paz Iluminada - o Nirvana. O Caminho de Oito Aspectos é o próprio Nirvana, Ele dizia. Esse Caminho afasta, impede os Três Venenos da Ganância, Raiva e Ignorância de controlarem os seres humanos.


Os oito aspectos são na verdade um círculo de interação, sem que um seja primeiro e os outros depois, mas agindo simultaneamente. Quando a luz surge formas e cores surgem, da mesma forma o Caminho.


Os Oito Aspectos do Caminho tem grande importância dentro do Budismo dos Antigos, tradição hoje comumente chamada de Theravada. São os seguintes: Ponto de Vista Correto, Pensamento Correto, Fala Correta, Ação Correta, Meio de Vida Correto, Esforço Correto, Atenção Correta e Meditação Correta. Dentro da Tradição Mahayana Budista (O Grande Veículo) costuma-se dar mais ênfases nos Seis Paramitas, como sendo esses Paramitas o próprio Caminho do Bodhisatva. São os seguintes: Doação, Manter os Preceitos, Paciência, Esforço, Meditação e Sabedoria. Seu objetivo é conduzir os seres à "outra margem", ao plano da Sabedoria Iluminada, da Perfeição, da Compleição do ser.


Há uma clara correlação entre os Oito Aspectos e os Seis Paramitas: Observar os Preceitos corresponde a Fala Correta, Ação Correta e Meio de Vida Correto. Esforço é o mesmo que Esforço Correto. Meditação corresponde a atenção correta e meditação correta.

Doação e Paciência não aparecem nos Oito Aspectos. Doação é o primeiro dos Paramitas demonstrando a importância do Caminho do Bodhisatva - aquele que se doa para salvar outros seres. É o doar que caracteriza um Buda ou um Bodhisatva.


É preciso lembrar que Buda significa ser Iluminado e que Xaquiamuni Buda dizia haver tantos Budas quanto grãos de areia no Ganges. Bodhisatvas são aqueles que declinam até de sua própria Iluminação Suprema a fim de auxiliar todos os seres a alcançar o Caminho Verdadeiro. Os Sutras budistas estão repletos de contos sobre seres que se doaram para o bem de outros seres.


Se o Caminho de Oito Aspectos pode aparentar ser apenas de auto desenvolvimento, os Seis Paramitas claramente apontam para o outro indicando a mudança altruísta, de foco social, que caracteriza a Tradição Mahayana. É claro, entretanto, que o Caminho dos Antigos também é o caminho altruísta de amor e compaixão por todos os seres. Mas o outro fica implícito e não explicito como na Mahayana.


Estas duas formas de pratica do Caminho, a sua divulgação e preservação corretas são algumas das contribuições que o Budismo, em suas várias vertentes, tem para a Construção de Culturas de Paz.


Que todos os Budas e Bodhisatvas através do espaço e do tempo nos protejam e nos guiem na Grande Sabedoria Perfeita e Completa, Maha Prajna Paramita.

*Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo com sede no Japão e é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, com sede em Pacaembu-SP.

Texto extraído do site: http://www.monjacoen.com.br/inicio