A Associação Meditar é uma sociedade civil com personalidade jurídica, sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne sempre aos Sábados, às 08h00, no Espaço Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

terça-feira, 6 de março de 2012

A participação das religiões na construção da paz


Por Monja Coen Sensei

ZEN BUDISMO


Como podem as religiões contribuir para a construção da Paz? E que Paz estamos conceituando? Definitivamente não é apenas a ausência de guerras declaradas - quer seja entre gangs, grupos, regiões e/ou países. Há a guerra da fome, da miséria, da injustiça social, do analfabetismo, das grandes ignorâncias, maldosas, ruidosas, distorcendo ensinamentos e doutrinas para dar vazão à ganância e a raiva. A Paz, o bem estar, a tranqüilidade só são possíveis se incluir todos os seres com igualdade de direito à boa qualidade de vida.


Como podem as religiões participar da construção de sociedades mais igualitárias e com capacidade de compreender e incluir todas as formas de vida? Como podem encorajar e desenvolver o respeito entre todos e incentivar os corações de ternura e amor a que proporcionem condições melhores para todos os co autores da vida na terra?


O que é a construção da Paz? Quais são os alicerces da Paz? Será que as religiões fornecem o material básico para o fortalecimento desses alicerces de sustentação? Será que os religiosos vivenciam os ensinamentos que pregam?


No passado as religiões eram as pontas de flecha das grandes transformações sociais. Com o correr dos anos algumas delas cresceram e se institucionalizaram de tal forma que parecem ter perdido seu propósito inicial de fazer o bem a todos os seres. Mas não foram as religiões que se transformaram. Não foram os ensinamentos e sim a ganância, a raiva e a ignorância que desviaram pessoas e grupos, fazendo-os esquecer a transcendência, o Iluminar e o Ser Iluminado.


Vieram as críticas, as desconfianças, o abandono, o descaso pelas religiões estabelecidas e a procura por novas e "puras" fontes de conforto e claridade. Se as religiões aprenderem com a História da Humanidade poderão se redimir de seus erros do passado construindo uma linguagem de inclusão e respeito a diferentes tradições e expressões do Sagrado.


A Paz é construída a cada momento com nossas vidas através de gestos, ações, frases, palavras, idéias e pensamentos. É a vivência da Paz. É a nossa ternura e o nosso cuidar dos próximos e dos distantes, do conhecido e do desconhecido. É nosso respeito ao outro. É nosso respeito e carinho a nós mesmos - vida cósmica.


A Paz, em termos budistas, pode ser entendida como a Maravilhosa Mente de Nirvana. Mas, será que é possível um Nirvana pessoal e individual, independente do coletivo? Se o coletivo está doente e faminto, se o coletivo está em violência e tristeza, como pode o indivíduo - partícula do coletivo - estar separado do mesmo?


Há pessoas que se referem a algumas pessoas como "religiosos engajados" em movimentos de transformação político-sociais. Entretanto, toda pessoa verdadeiramente religiosa está envolvida nos movimentos de transformação sócio-econômicos do mundo, porque faz parte do mundo, porque é uma partícula deste mundo que sofre e se debate em fome, em dor; que se alegra e ri em esperança e renascimento de fé.


Será que existe alguma religião que não se proponha a amenizar o sofrimento do mundo e criar comunidades de seres responsáveis e ativos, que percebem como o todo inter age, como tudo está inter conectado? O que cada um de nós está fazendo para amenizar a fome no mundo? Isto é construir a Paz. O que cada um de nós está fazendo para melhor saneamento, melhores condições de saúde a todos os seres em todas as esferas de vida? O que cada um está fazendo para a preservação da natureza, das águas, das terras, dos ares, dos minerais, dos seres vivos? Que responsabilidade estamos tomando frente às dificuldades de milhões de seres humanos em se completarem, em serem felizes, verdadeiramente felizes? Quais valores estamos transmitindo às nossas crianças? ( Entendo por nossas crianças todas as crianças- ricas e pobres, animais, vegetais e minerais) A família é a Família da Vida. Esta a nossa verdadeira família. Inclui todos os humanos e por conseqüência todos os outros seres, visto que somos todos feitos de elementos não-eu, constantemente inter agindo, inter sendo.


Como podem as religiões contribuir para a construção da Paz? Educando seres de paz, em paz, na paz. Renovando os valores éticos básicos de nosso pequeno mundo globalizado. Para tanto será necessário renovar a maneira de falar e de ser de seus praticantes. Foi-se o tempo de dizer que a "minha opção religiosa é a única e a melhor para todas as pessoas". Há diferentes tradições, algumas antigas, outras mais recentes. Todas aquelas que se dirigem a dar melhores condições de vida à própria vida, sem criar barreiras separatistas, discriminatórias e de conflito, mas criando ambientes de harmonia e respeito devem ser consideradas como parceiros na construção de uma Cultura de Paz.


Uma Cultura de Paz, de Não Violência Ativa, a ser vivenciada em cada relacionamento, nas escolas, nas artes, no trabalho, nas casas, nas ruas das grandes, médias e pequenas cidades, nas áreas rurais, nos mares, montanhas e nos céus.


Podemos sim transformar os infernos de dores e sofrimentos nos paraísos de tranqüilidade e abundância dando um salto quântico no infinito e crendo no processo de desenvolvimento da própria vida.


Unidas, as várias religiões e tradições religiosas poderão trabalhar para o bem comum procurando abrir a todos, de par em par, os portais sem portas do Caminho Correto.

Para que trabalhem unidas, lado a lado, sem julgamentos de superioridade ou inferioridade nas suas opções e número de adeptos é preciso que seus líderes, seus dirigentes encontrem a flexibilidade e a humildade para se reverenciar ao Sagrado em cada ser e desenvolver a Grande Mente de Compaixão, Compreensão e Sabedoria. Só quando os seres humanos forem capazes de perceber sua posição cósmica de inter ação poderemos iniciar a caminhada pela Cultura da Paz. Esta caminhada já se iniciou para alguns, poucos ainda, que tateiam nas várias tentativas de encontrar os meios expedientes rápidos e benfazejos de apressar o processo de transformação para que todos se beneficiem. Para tanto não podem estar presos às suas tradições, conceitos e dogmas, mas livres através de suas tradições, conceitos e dogmas para a experimentação do Sagrado, que tudo une, tudo inclui, tudo abençoa, compreende e abrange.


As religiões poderão participar ativamente da construção da Paz quando seus adeptos verdadeiramente se tornarem agentes de Paz.


* * *


O fundador histórico do Budismo, Xaquiamuni Buda (cerca de 600 anos anterior ao nascimento de Jesus Cristo), em seu primeiro sermão após obter a Iluminação, deixou um legado precioso de como obter o estado de profunda e verdadeira Paz Iluminada - o Nirvana. O Caminho de Oito Aspectos é o próprio Nirvana, Ele dizia. Esse Caminho afasta, impede os Três Venenos da Ganância, Raiva e Ignorância de controlarem os seres humanos.


Os oito aspectos são na verdade um círculo de interação, sem que um seja primeiro e os outros depois, mas agindo simultaneamente. Quando a luz surge formas e cores surgem, da mesma forma o Caminho.


Os Oito Aspectos do Caminho tem grande importância dentro do Budismo dos Antigos, tradição hoje comumente chamada de Theravada. São os seguintes: Ponto de Vista Correto, Pensamento Correto, Fala Correta, Ação Correta, Meio de Vida Correto, Esforço Correto, Atenção Correta e Meditação Correta. Dentro da Tradição Mahayana Budista (O Grande Veículo) costuma-se dar mais ênfases nos Seis Paramitas, como sendo esses Paramitas o próprio Caminho do Bodhisatva. São os seguintes: Doação, Manter os Preceitos, Paciência, Esforço, Meditação e Sabedoria. Seu objetivo é conduzir os seres à "outra margem", ao plano da Sabedoria Iluminada, da Perfeição, da Compleição do ser.


Há uma clara correlação entre os Oito Aspectos e os Seis Paramitas: Observar os Preceitos corresponde a Fala Correta, Ação Correta e Meio de Vida Correto. Esforço é o mesmo que Esforço Correto. Meditação corresponde a atenção correta e meditação correta.

Doação e Paciência não aparecem nos Oito Aspectos. Doação é o primeiro dos Paramitas demonstrando a importância do Caminho do Bodhisatva - aquele que se doa para salvar outros seres. É o doar que caracteriza um Buda ou um Bodhisatva.


É preciso lembrar que Buda significa ser Iluminado e que Xaquiamuni Buda dizia haver tantos Budas quanto grãos de areia no Ganges. Bodhisatvas são aqueles que declinam até de sua própria Iluminação Suprema a fim de auxiliar todos os seres a alcançar o Caminho Verdadeiro. Os Sutras budistas estão repletos de contos sobre seres que se doaram para o bem de outros seres.


Se o Caminho de Oito Aspectos pode aparentar ser apenas de auto desenvolvimento, os Seis Paramitas claramente apontam para o outro indicando a mudança altruísta, de foco social, que caracteriza a Tradição Mahayana. É claro, entretanto, que o Caminho dos Antigos também é o caminho altruísta de amor e compaixão por todos os seres. Mas o outro fica implícito e não explicito como na Mahayana.


Estas duas formas de pratica do Caminho, a sua divulgação e preservação corretas são algumas das contribuições que o Budismo, em suas várias vertentes, tem para a Construção de Culturas de Paz.


Que todos os Budas e Bodhisatvas através do espaço e do tempo nos protejam e nos guiem na Grande Sabedoria Perfeita e Completa, Maha Prajna Paramita.

*Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo com sede no Japão e é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, com sede em Pacaembu-SP.

Texto extraído do site: http://www.monjacoen.com.br/inicio

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Meditar


Por Ivan Deus Ribas

Vivemos em uma sociedade cada vez mais atarefada, onde falta tempo para tudo, inclusive para nós. Nesse sentido, voltar-se para si e parar para ouvir nosso coração, pode representar uma revolução, um momento único.

Existe uma história no Zen que compara o nosso estado mental com a de um cavaleiro que sentado sobre um animal em disparada é indagado sobre onde está indo, e responde: “Não sei. Pergunte ao cavalo!”. Assim, da mesma forma, nossa mente incerta vagueia sobre o que é realmente importante para sermos felizes.

Existem na atualidade estudos que demonstram, por meio de ressonância magnética, que a meditação traz efetiva melhoria nas funções cerebrais. E que a sua prática diária pode reduzir sintomas como da esclerose múltipla, pressão arterial, depressão, estress, entre outras doenças.

Determinadas pesquisas apontam inclusive que certas práticas de meditação são capazes de promover excelentes resultados em pacientes com distúrbios mentais, considerados graves. A prática com foco na compaixão, por exemplo, realizada entre dois grupos de pacientes depressivos, evidenciou uma curva extremamente positiva naqueles que a realizaram, diferentemente dos que não meditaram.

A meditação é uma arte milenar e, embora tenha no budismo grande representação, pode ser encontrada em várias outras religiões, significando, similarmente, aquietar-se, a fim de proporcionar o contato com o sagrado presente dentro de nós.

Enfim, de um modo geral, o que se percebe, é que reservar um momento do dia para cuidar da nossa mente, do nosso coração, representa além dos benefícios à saúde, um momento para cultivarmos valores universais, como: amor, respeito, tolerância, simplicidade, união, paz e tantos outros, que são, verdadeiramente, alicerce para a felicidade que almejamos.

Ivan Deus Ribas, um dos amigos da Associação Meditar.

www.associacaomeditardecuiaba.blogspot.com

www.associacaomeditar.org

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Idéias como obstáculos à verdadeira felicidade

O grande silêncio e a paz interior

Prof. Fernando Altemeyer Junior

O Grande Silêncio é o nome de um documentário de 160 minutos, lançado em 2005, que retrata a vida da comunidade dos monges cartuxos em Isère, França, produzido por Phillipe Gröning. É uma meditação silenciosa sobre a vida monástica. Sem música à exceção dos cânticos do mosteiro, sem entrevistas ou quaisquer comentários. Evoca a passagem do tempo, das estações, o dia dos monges e as orações. É um filme sobre a presença do absoluto na vida de homens que dedicam a sua existência a Deus, no grande silêncio. O próprio cineasta diz que saiu mudado depois dos seis meses vividos no mosteiro. Que acontece quando mergulhamos no silêncio? O que muda em nós?

O silêncio como experiência e lugar de encontro é algo de revolucionário, e nunca reacionário. É preciso silenciar para ouvir. É preciso silenciar para recuperar a saúde física e mental. O mundo anda doente, pois vive um exagero de decibéis que ensurdecem e atordoam. Apatia ou resignação são os sinais da alienação de onde estamos e de quem somos. Isso tudo é fruto do barulho e da dispersão. A pessoa silenciosa ou taciturna é alguém que está além ou aquém das palavras. Tem um fio de prumo sobre sua cabeça. É alguém que vive em paz e transmite paz em palavras e atitudes. Dizem os árabes em um famoso ditado: "não abra a boca se o que tens a dizer não for mais belo que o silêncio". Essa é a mesma percepção de São Bento ao afirmar em sua Regra aos monges que: "... raras vezes se deve conceder, até aos discípulos mais perfeitos, licença para entreterem conversações, embora sobre assuntos bons, santos e edificantes, tão importante é o silêncio; porquanto está escrito: Falando muito não evitarás o pecado (Pr 10,19). E em outro lugar: A morte e a vida estão em poder da língua (Pr 18,21) (Regra de São Bento, capítulo VI, O espírito de Silêncio)".

Se lembrarmos das vidas de quatro personagens das religiões, vemos que se apresentaram como homens de Deus vivenciando largos momentos de fecundo silêncio e se puseram a falar o que lhes fora revelado no silêncio. Do judaísmo, Moisés e profetas como Oséias ou Elias fizeram a experiência do silêncio. No mundo islâmico, o profeta Muhammad nas grutas da Arábia Saudita ouve a fala do arcanjo Gabriel. No budismo os mestres espirituais, das escolas da China e do zen-budismo japonês encontraram o caminho da sabedoria. O próprio Jesus Cristo, filho de Deus Altíssimo é um primoroso exemplo de quem soube viver o silêncio em frequentes, longas e profundas experiências de oração, como descritas pelos evangelistas (Lc 6,12; Mt 14,23; Mc 1,35; Jo 17).

O silêncio está vinculado à proximidade do mistério e da intimidade com Deus. As coisas mais íntimas são sempre pronunciadas aos sussurros e murmúrios. Talvez seja por essa razão que o salmista diga na versão hebraica: "O louvor, para Vós, ó Deus, é silêncio (Salmo 65,2)". A louvação mais alta e mais verdadeira acontece quando suprimimos ou esgotamos as palavras. Penetramos o vasto universo do recolhimento interior e da contemplação de tudo o que existe. Nesse lugar e espaço de silêncio é que o Espírito pode fazer ressoar a Palavra Eterna e nos despertar de um sono que nos dispersava ou escondia nossa essência interior e a conexão com Deus.

Um caminho promissor que se abre, depois de um grande silêncio, é o caminho da oração. O monge João Cassiano (360-435) afirma de maneira sucinta: "é perfeita oração aquela onde o que está orando não se lembra de que orando está" ou ainda que a boa oração seja breve e silenciosa e manifeste-se por uma tensão ardente da alma, por um transbordar inefável do coração e por um entusiasmo insaciável do espírito (João Cassiano, Da oração, Vozes, 2008, p. 97). A prece cristã é um movimento interior que se realiza em etapas sucessivas e complementares: em um primeiro momento é sempre uma inspiração advinda do coração e da vida. Depois se torna respiração e conexão com a transcendência feita em um exercício leve e ao mesmo tempo vigoroso. Depois vem a transpiração e a expiração em que nos apresentamos para Deus com nossos anseios, dificuldades, necessidades e palavras para enfim atingirmos o ápice do caminho que é a surpresa que emudece e extasia. Nesse momento ouvimos as melodias celestes e os sons inefáveis que plenificam e reverberam em nosso coração e em nossa vida.

A oração cristã parte e nos leva ao silêncio. Santo Agostinho dizia que a oração é puro silêncio (Santo Agostinho, O Mestre XII, 39). Não é posse de Deus, mas um estar em Cristo para viver no seu Espírito e segundo as suas palavras. A oração cristã é a fé que fala. Não é um estar em si somente, embora necessite de um momento introspectivo. Não é um estilo meditativo, ainda que não se realize sem um caráter reflexivo e atento aos sinais que nos chegam pelos sentidos e pelo corpo. Não é só intelectual e cerebral, ainda que não possamos dizer que se reduza ao irracional ou inconsciente. Passa por momentos de duvidas e de incertezas, vividos como aridez e ausência de iluminação. É necessário que aconteça a abertura para a fidelidade que confia na esperança. E esse portal pessoal poderá abrir-nos ao Outro, aos outros e à natureza.

O silêncio é um estado de espírito bem como uma profunda atividade de amor. Caminhar de forma progressiva na escola do silêncio pede que estejamos sintonizados com Deus e sua revelação. Esse percurso é difícil, mas realizável. Foi chamado pelos místicos como o ascetismo do silêncio. Existem obstáculos no caminho que devem ser identificados. Estão fora e dentro de cada um de nós. Os obstáculos externos são aqueles superficiais que nos desviam do reto caminho. São como ruídos que prejudicam o foco e a comunicação verdadeira. Distraem e enervam, levando-nos ao estresse ou à repressão de medos e fantasmas. Exigem um olhar arguto e persistência mesmo depois de quedas. Os internos são aqueles obscuros e muitas vezes desconhecidos. É preciso contar com a graça de Deus para enfrentá-los e resistir. Exigem conversão e misericórdia, pois o silêncio interior favorece a comunicação e sua identidade veraz. Vencidos os obstáculos podemos penetrar em um estado agudo de felicidade, tal como o silêncio foi definido por Clarice Lispector. Dizia a poetisa: "Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras".

A Igreja cristã sempre cultivou o silêncio e faz recomendações constantes para que cuidemos dele em nossas celebrações e na vida cotidiana de nossos fieis. Assim a introdução geral da Liturgia das Horas proposta pelo Papa Paulo VI, em 01/11/1970 orienta que: "Nas ações litúrgicas deve-se procurar em geral que se guarde também, há seu tempo, um silêncio sagrado (SC 30); por isso, haja ocasião de silêncio também na celebração da Liturgia das Horas. Por conseguinte, se parecer oportuno e prudente, para facilitar a plena ressonância da voz do Espírito Santo nos corações e unir mais estreitamente a oração pessoal com a Palavra de Deus e com a voz pública da Igreja, pode-se intercalar uma pausa de silêncio, após cada salmo, depois de repetida sua antífona, de acordo com antiga tradição, sobretudo se depois do silêncio se acrescentar a coleta do salmo; ou também após as leituras tanto breves como longas, antes ou depois do responsório (Liturgia das Horas, CNBB, 1984, n. 201 e 202, p.56)".

O silêncio sempre foi muito apreciado pelos monges cenobitas ou pelos anacoretas (eremitas), não porque tivesse valor em si mesmo, mas porque permite uma abertura para a plenitude que se esconde por detrás das palavras. O silêncio amado e buscado pelos monges e pelos místicos é feito de preparação e de expectativa. É um reconhecimento explícito de que somos incapazes de falar sobre o que é fundamental ou dramático. O povo simples sempre diz quando está diante de uma grande felicidade ou diante de uma grande perda ou fraqueza: não tenho palavras para explicar ou dizer. Quando alguém fala de algo que mudou sua vida fala das espumas, mas nunca das correntes submarinas. Fala do que sentiu, mas pouco pode dizer do que de fato viveu. O não dito é muito mais poderoso que a palavra. Assim quando precisamos estar com alguém que tem uma grande dor, as palavras desvanecem e se atrofiam. O melhor é calar para compreender. O silêncio, nestes momentos, exprime melhor a adoração, o abandono e o fascinante que cada ser humano busca ardentemente. E nesta "noite do Espírito", que é hora de amor, decisiva e irrevogável, perceberemos que não fomos nem seremos abandonados. Descobriremos que "depois da hora do meu amor, envolta no Vosso silêncio, chegará o dia do Vosso amor, a visão beatífica. Por consequência, agora que não sei quando chegará a minha hora, nem sequer se ela já começou, preciso esperar no limiar do Vosso santuário e do meu; preciso libertar este lugar dos ruídos do mundo (Karl Rahner, Apelos ao Deus do silêncio, Lisboa: Ed. Paulistas, 1968, p. 40)".

Em todos os povos e culturas o tema do silêncio como porta para Deus, se fez presente. O poeta, músico e filosofo indiano Rabindranath Tagore (1861-1941), ganhador do prêmio Nobel da literatura em 1913, tornou-se mundialmente famoso por seu livro Oferenda Lírica. Nele temos um belo poema sobre o silêncio que preenche o coração: "Se não falas, como vou encher o meu coração com o teu silêncio, e aguentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vigília estrelada, com a cabeça pacientemente inclinada. A manhã certamente virá, a escuridão se dissipará, e a tua voz se derramará em torrentes douradas por todo o céu. Então as tuas palavras voarão em canções de cada ninho dos meus pássaros e as tuas melodias brotarão em flores por todos os recantos da minha floresta (Gitanjali, Paulus, 1991, p. 19)".

Os monges do Oriente propuseram um caminho de oração fascinante chamado de hesicasmo, que é um estado de silêncio orante. O hesicasta é alguém que vive um estado de silêncio interior acompanhado pela memória constante de Deus. Isso exigirá uma qualidade fundamental que é a pureza de coração (Como água na fonte, Monges beneditinos camaldolenses, Loyola, 2009, p.187). Um dos maiores místicos da Igreja grega, São Simeão, o novo teólogo (949-1022) do mosteiro de Mamas, recomendava: "Sente-se sozinho e em silêncio. Incline a cabeça, feche os olhos, respire suavemente e imagine que está olhando para dentro do seu coração. Faça sua mente, ou seja, seus pensamentos, passar da sua cabeça ao seu coração. Respire e diga: Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim! Pronuncie essas palavras em voz baixa, movendo suavemente os lábios, ou pronuncie-as, simplesmente, em espírito. Tente afastar todos os outros pensamentos. Esteja tranquilo, seja paciente e repita essa frase tanto quanto puder (Relatos de um peregrino russo, Vozes, 2008, p. 42)".

Uma religiosa carmelita de Paris, irmã Maria-Amada de Jesus (1839-1874), compreendeu claramente o papel central que o silêncio interior deve exercer em nossas vidas para a vida feliz e íntegra. Ela dizia que a vida interior pode ser resumida em uma só palavra: silêncio! E ainda falar pouco às criaturas e muito a Deus, pois o silêncio com Ele é um silêncio da eternidade, da plena união da alma com Deus. Ela divide os degraus dessa subida espiritual em doze, que podem ser comparados aos dozes graus de humildade da regra de São Bento. Aqui estão esses passos pedagógicos de uma vida silenciosa: 1. Silêncio das palavras; 2. Silêncio de movimentos ou ações; 3. Silêncio da imaginação; 4. Silêncio da memória; 5. Silêncio diante das criaturas; 6. Silêncio do coração e dos sentimentos; 7. Silêncio da humildade ou do amor-próprio; 8. Silêncio da inteligência; 9. Silêncio do julgamento; 10. Silêncio da vontade; 11. Silêncio consigo mesmo; 12. Silêncio com Deus!

Cultivando o grande silêncio ouviremos o vento tocando rochedos, o mar atingindo a praia, pássaros cantando maravilhosas melodias, crianças balbuciando, amigos celebrando, pobres pedindo amor, doentes sofrendo, florestas crescendo e, sobretudo seremos capazes de escutar a voz interior proclamando que o amor de Deus existe em nós, suave e inefável. Na voz da monja Maria-Amada de Jesus, poderemos então dizer: "Eu sou semelhante a um pequeno grão de areia, que espera na praia a onda que o fará mergulhar no oceano".

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Agenda da Semana


Queridos amigos e amigas,

informamos que a prática de meditação e estudo que acontece as terças-feiras está com novo horário, sendo, agora, as 20:00. Destacamos ainda, que as atividades são gratuitas e abertas a todos os interessados.

Terça-feira - 20:00

Sábado - 08 h (Especialmente no Dia 11.02 - Meditação no Parque: paz a cada passo)
Loca: Parque Mãe Bonifácia
Ponto de encontro: entrada principal, no estacionamento de pedrinhas
Obs.: Em caso de chuva meditaremos normalmente, portanto, levem guarda-chuva!

Informações:
Ligia (65) 3052-6634
Ivan (65) 8143-4379

domingo, 29 de janeiro de 2012

Meditação no Parque: paz a cada passo


Queridos amigos e amigas, irmãos e irmãs,

é com grande alegria que informamos que estaremos retornando com a prática de meditação andando no parque Mãe Bonifácia. Neste ano o projeto "Meditação Andando: paz a cada passo", acontecerá sempre no 2o (segundo) sábado de cada mês, com início às 08 h (pontualmente). Destacamos que esta atividade é aberta a todos os interessados.

Local: Parque Mãe Bonifácia
Horário: 08:00
Dia: 11.02.12
Ponto de encontro: entrada principal (estacionamento de pedrinhas)
Percurso: trilha interativa - 40 min.
Atenção: Se chover, haverá prática normalmente. Então, recomendamos, levem guarda-chuva!

** A atividade é gratuita e aberta a todos os interessados!

Muita paz.

Informações:
Ligia - (65) 3052-6634
Ivan - (65) 8143-4379

A Meditação Andando


Por Thich Nhat Hanh

A meditação andando pode ser agradável. Caminhando lentamente, sozinhos ou com amigos, se possível num belo local. A meditação andando tem como verdadeiro objetivo o prazer em caminhar — anda-se não para se chegar a algum lugar, mas só pelo andar. O propósito é o de se estar no momento presente, tendo plena consciência da respiração e da caminhada, e de apreciar cada passo. Para isso, devemos nos livrar de todas as preocupações e ansiedades, não pensar no futuro, nem no passado, só vivendo o momento presente. Podemos andar de mãos dadas com uma criança. Caminhamos passo a passo como se fôssemos os seres mais felizes da Terra.Embora andemos o tempo todo, nosso andar se assemelha mais a uma corrida. Quando caminhamos assim, imprimimos ansiedade e tristeza na Terra. É preciso que andemos de forma tal que só deixamos paz e serenidade sobre a Terra. Podemos todos fazer isso desde que o desejemos muito. Qualquer criança consegue fazê-lo. Se podemos dar um passo assim, poderemos dar dois, três, quatro e cinco. Quando formos capazes de dar um passo cheio de paz e felicidade, estaremos trabalhando pela causa da paz e da felicidade de toda a humanidade. A meditação andando é uma prática maravilhosa.Quando fazemos meditação andando ao ar livre, caminhamos um pouco mais devagar do que nosso ritmo normal e coordenamos nossa respiração com nossos passos. Por exemplo, podemos dar três passos para cada inspiração e três passos para cada expiração. Podemos, então, dizer, "Inspirando, inspirando, inspirando. Expirando, expirando, expirando." Dizer "Inspirando" serve para nos ajudar a identificar a inspiração. Sempre que chamamos algo pelo seu próprio nome, estamos tornando-o mais real, como quando dizemos o nome de um amigo.Se os seus pulmões preferem quatro passos em vez de três, dê-lhes quatro passos, por favor. Se eles querem apenas dois, dê-lhe dois. A duração da sua inspiração e da sua expiração não tem de ser a mesma. É possível, por exemplo, que você dê três passos ao inspirar e quatro ao expirar. Se você se sentir feliz, sereno e alegre enquanto caminha, é porque está se exercitando corretamente.Esteja atento para o contato entre os seus pés e a Terra. Caminhe como se estivesse beijando a Terra com os pés. Já prejudicamos muito a Terra. Agora é a hora de cuidarmos bem dela. Trazemos nossa paz e nossa serenidade à superfície da Terra e compartilhamos a lição do amor. É tendo isso em mente que caminhamos. De quando em quando, ao ver algo bonito, podemos querer parar para contemplação — de uma árvore, uma flor, crianças brincando. Enquanto olhamos, continuamos atentos à nossa respiração, para não sermos enredados por nossos pensamentos e assim perdermos a beleza da flor. Quando quisermos voltar a nadar, é só começar de novo. Cada passo que dermos criará uma brisa fresca, renovando nosso corpo e nossa mente. Cada passo fará uma flor se abrir aos nossos pés. Isso só é possível se não pensarmos no futuro nem no passado, se soubermos que a vida só pode ser encontrada no momento presente.

A Arte de Viver em Plena Consciência


Por Thich Nhat Hanh

A natureza é nossa mãe. Por vivermos isolados dela, adoecemos. Alguns de nós vivem em caixas chamadas apartamentos, bem no alto, longe do chão. À nossa volta só cimento, metal e objetos de dureza semelhante. Nossos dedos não tem oportunidade de tocar o solo; já não plantamos mais alface. Por estarmos tão distantes da nossa Mãe Terra, adoecemos. É por isso que precisamos sair para voltar ao seio da natureza. Isso é muito importante. Nós e nossos filhos deveríamos voltar a ter contato com a Mãe Terra. Em muitas cidades não conseguimos ver árvores - a cor verde se encontra inteiramente de nosso campo visual.

Um dia imaginei uma cidade em que restasse apenas uma árvore. A árvore ainda era bonita, mas muito solitária, cercada de prédios, no centro da cidade. Muitas pessoas adoeciam, e a maioria dos médicos não sabia como tratar a doença. Um médico muito bom, no entanto, conhecia as causas da doença e dava a seguinte receita para cada paciente. "Todos os dias, pegue o ônibus e vá ao centro da cidade para olhar para a árvore. À medida em que você for se aproximando dela, pratique a inspiração e a expiração e , quando chegar até ela, abrace-a, inspirando e expirando pr quinze minutos, enquanto olha para a árvore tão verde e sente o cheiro de sua casca tão perfumada. Se fizer isso, em algumas semanas estará se sentindo muito melhor".

As pessoas começaram a melhorar, mas logo havia tanta gente querendo chegar até a árvore que as filas se estendiam por quilômetros. Sabe-se que as pessoas, hoje em dia, não são muito pacientes. Esperar três ou quatro horas para abraçar a árvore era demais, e o povo se rebelou. Organizaram manifestações com o objetivo de criar uma nova lei que permitisse a cada pessoa um abraço de cinco minutos, mas é claro que isso reduziu o efeito da cura. E logo em seguida, o tempo foi limitado a um minuto, perdendo-se assim a oportunidade de cura através da Mãe. Nós podemos estar nessa situação muito em breve se não agirmos de forma consciente. Temos que estar com a mente alerta em tudo que fizermos se quisermos salvar nossa Mãe Terra, a nós mesmos e a nossos filhos. Por exemplo, ao olharmos nosso lixo, podemos ver alface, pepinos, tomates e flores. Quando jogamos no lixo uma casca de banana, temos consciência de que se trata de uma casca de banana que estamos jogando fora e que se transformará numa flor ou num legume em breve. É exatamente essa a prática da meditação.

Quando jogamos um saco plástico no lixo, sabemos que ele é diferente de uma casca de banana. Ele levará muito tempo para se transformar numa flor. " Ao jogar um saco plástico no lixo, sei que estou jogando um saco plástico no lixo". Essa percepção, por si só, já nos ajuda a proteger a Terra, a criar a paz e a cuidar da vida no momento presente e no futuro. Se tivermos a mente alerta, tentaremos naturalmente usar menos sacos plásticos. Esse é um ato de paz, uma forma básica de ação pela paz.

Quando jogamos uma fralda plástica descartável no lixo,sabemos que ela leva muito mais tempo para se transformar numa flor, uns quatrocentos anos mais. Tendo conhecimento de que o uso dessas fraldas não contribui para a paz, procuramos outros meios para cuidar do nosso filhinho. Praticando a respiração e contemplando nosso corpo, nossos sentimentos, nossa mente e objetos, estamos praticando a paz no momento presente. Isso e viver em plena consciência.

O lixo nuclear é o pior tipo de lixo. Ele leva cerca de 250.000 anos para se transformar em flores. Quarenta dos cinquenta estados norte-americanos já estão poluídos pelo lixo nuclear. estamos tornando a Terra um lugar impossível para a vida por muitas e muitas gerações. Se vivermos o momento presente com a mente alerta, saberemos o que fazer e o que não fazer, e tentaremos agir contribuindo para a paz.

(Extraído do livro: Paz a cada passo)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Ameixas e passarinhos


Por Paulo Wagner Oliveira

Aqueles dias foram marcados pela ansiedade, não sei se devido o excesso de café ou a urgência dos compromissos que me envolviam, os pensamentos vinham como turbilhão, tudo parecia tão automático que às vezes tinha que voltar em casa para saber se realmente tinha fechado devidamente o portão. Mas naquela manhã nublada a alegria dos passarinhos, propiciada pela chegada das chuvas de dezembro, instalou em mim um estado inexplicável que me fez sentir, como nunca, a doçura da ameixa que acabara de levar a boca - o paraíso estava ali bem em frente de mim e eu não percebera – que milagre era saborear compassadamente cada fio daquela polpa macia que contrastava perfeitamente com azedinho leve da casca.

Comecei a pensar que antes daquela ameixa estar ali, ela tinha se feito flor e crescera devagar sol a sol, lua a lua, sob os cuidados de alguém que com paciência esperou seu crescimento e o dia da colheita, e que, apesar de única, ela era o resultado da conjunção de todos os elementos: o fogo, a terra, a água e o ar estavam ali como o tenro fruto de uma alquimia inigualável e simples.

Há algum tempo um amigo havia me dito que Deus está nos detalhes, mas nunca pensei que a simples alegria dos passarinhos com a chegada das chuvas e aquela humilde ameixa que chegara a minha mesa, fosse capaz de revelar a grandeza que existe nas coisas simples. Daquele dia em diante passei a olhar tudo a minha volta com mais atenção e descobri que o tão falado Reino de Deus é algo tão simples, próximo e óbvio que termina por passar despercebido aos olhos apressados do dia a dia.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Agenda Semanal


Queridos amigos, irmãos e irmãs,

lembramos a todos que nesta semana haverá prática de meditação. Destacamos que as atividades são gratuitas e abertas a todos os interessados. Assim, sejam todos bem-vindos, bienvenidos, welcome, namastê, haribool, gasshô!

3ª feira - Meditação e leitura - 19:00

Sábado
- Meditação e leitura - 08:00

Recomendamos roupas leves.

Informações:
(65)3052-6634 - Ligia
(65)8143-4379 - Ivan

Quando a vida se torna oração


Texto de Shinkai

Depois de alguns anos de vai não vai, este ano finalmente fui com Coen Sensei e monge Yuho para o retiro de Nazaré UNILUZ.

Nazaré é uma comunidade onde as pessoas praticam todos os dias a convivência, a meditação, as artes, o pão, o servir.

Logo que chegamos para a primeira reunião entre os praticantes, tanto dos residentes como dos inscritos para nosso retiro, já se percebia a amorosidade e eficácia no tratamento e na atitude daqueles que nos proporcionariam durante todo o retiro tudo que fosse necessário para que nossa prática se tornasse a mais harmoniosa possível.

Depois dessa reunião inicial, silêncio. Três lindos dias de silêncio e zazen. Foi onde comecei a perceber que a própria vida pode tornar-se oração.

Revezamos-nos, Monge Yuho e eu nos trabalhos de jisha (assistente) de Coen Sensei, de shinrei, de tocar os sinos. Nunca antes tinha percebido com tanta intensidade a beleza dessas funções, a oportunidade maravilhosa que estas práticas proporcionam para servir a nossa Mestra Coen Sensei, àquelas pessoas tão abnegadas, convictas e determinadas a irem até o final do retiro, mesmo com seu corpo, mente, plexo, doendo e servirmos a nós mesmos.

No primeiro dia que fui shinrei (despertar os praticantes às 5h20m tocando um pequeno sino) pude sentir toda a energia do amanhecer, do despertar: como num renascimento contínuo cheio de alegria e gratidão. Despertar. Todos que ali estávamos. De quarto em quarto, de caminho em caminho, de uma construção a outra.

Coen Sensei com sua incrível rapidez sem pressa nenhuma, ali estava no raiar do dia para o Yoga, com todos nós, junto, presente, sempre, em todas as ocasiões. Fortalecendo cada coração, orientando a prática de todos, com sua presença estimulante e sincera.

Depois do Yoga, o primeiro zazen do dia, com dia clareando, os pássaros cantando, a vela e o incenso queimando. Silêncio. Alegria.

Uma enorme mesa para as refeições. Mãos em prece. Todos sentando juntos, comendo juntos, terminando juntos. Lavamos nossos pratos, xícaras, talheres. E a grande mesa em ordem outra vez para a próxima refeição.

Compartilhando com os residentes da Comunidade UNILUZ a meditação no jardim, em sua sala com vários círculos de almofadas, com a sanga em harmonia.

No toque do último sino, anunciando o último zazen do dia. Com o corpo cansado, mas o coração leve, hora de dormir até novamente a chegada do shinrei avisando que chegou a hora de despertar.

Choveu muito, fez sol, frio, calor, vento. Dentro e fora de nós. E nos tornamos por três dias o caminho. Tornamos-nos oração.

Quantas vezes pedimos aos Budas e Bodisatwas por nós, por nossa vida, por nossas resoluções de problemas difíceis. Fazemos oração todos os dias. Pedimos pela paz mundial, pela cessão do sofrimento, pela não violência.

Mas descobri nestes três dias de retiro e silêncio que podemos fazer de nossa vida a oração que fazemos, que podemos nos tornar oração e silêncio. O próprio servir.

*Texto extraído do site: http://www.monjacoen.com.br/inicio

sábado, 7 de janeiro de 2012

Agenda 2012 - Retorno das Atividades


Queridos amigos e amigas,

é com plena atenção e contentamento que informamos que no próximo dia 09.01.12 (terça-feira) estaremos reiniciando as atividades de estudo e prática de meditação. Destacamos que este grupo é aberto a todos os interessados, sem qualquer custo ou pré-requisito para participar.

Informamos ainda, que retornaremos com a meditação aos sábados, das 08:00 as 09:00, sendo igualmente aberto a todos os velhos e novos amigos e amigas.

Agenda:

Terça-feira - 19:00 (meditação e estudo)

Sábado - 08:00 (meditação estudo)

Desde já um grande abraço a todos.

Muita paz.

Informações:
Ivan - (65) 8143-4379
Ligia - (65) 3052-6634

Local: Academia Ligia Prieto
Rua Ministro João Alberto, 137 - Araés - Cuiabá/Mato Grosso - Brasil

domingo, 1 de janeiro de 2012

A paz é o caminho


Não há um caminho para a paz. A paz é o caminho.
Não há um caminho para a liberdade. A liberdade é o caminho.
Não há um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

A paz está no aqui e agora. A paz é o caminho.
Em cada respiração, em cada passo, a paz é o caminho.
Quando eu acordo, está bem ali esperando. A paz é o caminho.
Sorrindo, dizendo, "Pegue minha mão." A paz é o caminho.
"Não me procure no futuro. Você pode me ter exatamente agora, bem aqui."

Eu quero cantar sobre felicidade. A felicidade é o caminho.
Não espere pelo amanhã, criança. A felicidade é hoje.
Felicidade para mim e para você. A felicidade está brilhando através,
brilhando através das nuvens do esquecimento.
Abra as nuvens, e deixe que a felicidade venha.
Você sabe que ela quer, então não fique no caminho.
Deixe a felicidade presente hoje.

Não há um caminho para a paz. A paz é o caminho.
Não há um caminho para a liberdade. A liberdade é o caminho.
Não há um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

Não tem que ir para o céu, agora. Não tem que ir a Terra Pura.
Não tem que ligar a tv, agora. Não tem que ir ver um filme.
Escute aqui, ouça agora: tudo que você tem a fazer é inspirar e expirar,
desfrutar da sua inspiração, desfrutar da sua expiração ... e sorrir.
Sinta seus pulmões. Sinta seu corpo inteiro. Você está vivo, o que é uma bênção!
Não precisa ir às Bahamas. Não precisa tirar férias.
Não precisa comprar um carro novo, agora. Não precisa de um novo parceiro.
Você pode encontrar a felicidade no momento presente.
Se você sair por aí procurando, você só pode perdê-la.
Se você sair por aí procurando, você só pode perdê-la porque ela está aqui para você.
Então pare. Ponha a mão no bolso.
Basta parar. Ponha a mão no bolso.
A felicidade está aqui. A paz é agora. A liberdade é um direito em suas mãos, pois ...

Não há um caminho para a paz. A paz é o caminho.
Não há um caminho para a liberdade. A liberdade é o caminho.
Não há um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

Sinta as solas dos seus pés.
Tudo que você tem a fazer é tocar a terra com todo o seu ser.
Primeiro o pé direito, então o esquerdo. Beije a Mãe Terra. (Yeah)
Beije-a com os pés. Aproveite o seu suporte. Sua força sólida sob você.
Ela está lá para você, agora, sempre te amando.
Eu disse, isto é a paz bem aí. Você não tem nenhum outro lugar.
Inspirando, você dá um passo. Expirando, você dá outro passo, gostando de estar vivo. Sinta a brisa, agora. Sinta a luz do sol.
É tão simples e é gratuito. A paz está aqui para você e para mim.
Por favor, acredite. Você pode tocá-la. Juntos, nós podemos torná-la realidade.

Não há um caminho para a paz. A paz é o caminho.
Não há um caminho para a liberdade. A liberdade é o caminho.
Não há um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

E juntos nós podemos torná-la realidade. Então ...
bata palmas e bata os pés.
Celebre a paz, a liberdade e a felicidade para todos nós, aqui e agora.
Dance ao ritmo da paz.
Cante com a melodia da liberdade.
Ria, oh, ria, ria ao abraçar a felicidade.

Não precisa negar a sua dor e seu sofrimento.
Só não faça isso parte integral da sua casa do amanhã.
Porque a maioria gasta muito tempo vendo o que está errado,
e não nos damos conta que tudo o que precisamos,
já temos.
E há sempre muito mais coisas dando certo do que errado.
No nosso jardim existem muitas árvores em flor.
No entanto, optamos por sentar e chorar ao pé de uma que está morrendo.
Então, se você correr ao redor procurando, você só pode perdê-la.
Se você correr por aí procurando, você só pode perdê-la.
Então, ponha a mão em seu bolso. Você vai encontrá-la onde ela sempre esteve.
É isso mesmo a felicidade no seu bolso, ao espalhar o seu sorriso,
no relaxamento de seus ombros, na sua respiração consciente. Isso é tudo o que precisa, porque...

Não há um caminho para a paz. A paz é o caminho.
Não há um caminho para a liberdade. A liberdade é o caminho.
Não há um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

Não há caminho para a paz. A paz é o caminho.
Liberdade e felicidade, elas são o nosso hoje.
A paz é o caminho. Liberdade e felicidade são o caminho.
A paz é o caminho, a liberdade e a felicidade são o caminho.
Porque não há caminho para a paz. A paz é o caminho.
Não há nenhuma maneira, jeito nenhum para a felicidade. A felicidade é o caminho, o caminho hoje.
Não olhe para a liberdade no futuro. Liberdade é hoje.
Apreciá-la, irmão, agora. Desfrute, irmã, irmã.
Juntos, nós podemos torná-la realidade. Juntos, nós podemos torná-la realidade, agora.
Juntos, podemos fazer isso se tornar verdade ... eu e você, em realidade, realidade.

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There is no way to peace. Peace is the way.
There is no way to freedom. Freedom is the way.
There is no way to happiness. Happiness is the way.

Peace is in the here and now. Peace is the way.
In every breath, in every step, peace is the way.
When I wake up, it’s right there waiting. Peace is the way.
Smiling, saying, “Take my hand.” Peace is the way.
“Don’t look for me in the future. You can have me right now, right now.”

Chorus

I wanna sing about happiness. Happiness is the way.
Don’t wait for tomorrow, children. Happiness is today.
Happiness for me and you. Happiness is shining right through,
shining right through the clouds of forgetfulness.
Open up them clouds, and let that happiness come through.
You know it wants to, so don’t stand in the way. (hey, hey)
Let happiness be today.

Chorus

Don’t have to go to heaven, now. Don’t have to go the Pure Land.
Don’t have to turn on the tv, now. Don’t have to go see a movie.
Listen here, listen now: all you have to do is breathe in and breathe out,
enjoy your in-breath, enjoy your out-breath… and smile.
Feel your lungs. Feel your whole body. You are alive, what a blessing!
Don’t need to go the Bahamas. Don’t need to take a vacation.
Don’t need to get a new car, now. Don’t need a new partner.
You can find happiness in the present moment.
If you go around lookin’, you just might lose it (ah-hah)
If you go around searchin’, you just might lose it ‘cause it’s right here for you.
So just stop. Put your hand in your pocket.
Just stop. Put your hand in your pocket.
Happiness is right here. Peace is right now. Freedom is right in your hands, ‘cause…

Chorus

Feel the soles of your feet. (2x)
All you have to do is touch the Earth (oh) with all your being.
First the right one, then the left one. Kiss Mother Earth. (yeah)
Kiss her with your feet. Enjoy her support. Her solid strength under you.
She’s there for you, now, always loving you (yeah).
I said, that is peace right there. You don’t have to anywhere else.
Breathing in, you take one step. Breathing out, you take another, enjoying being alive. Feel the breeze, now. Feel the sunshine.
It’s so simple, and it’s free. Peace is here for you and me.
Please believe it. You can touch it. Together, we can make it come true.

Chorus
And together we can make it come true. So…
clap your hands and stomp your feet, hm-mm-mm-yeah (2x)
Celebrate peace, freedom, and happiness for all of us, right here and now.
Dance to the rhythm of peace, downt-downt-downt.
Sing to the tune of freedom, downt-da-downt.
Laugh, oh, laugh, laugh in the embrace of happiness, mm-mm-mm.

Don’t need to deny your pain and your sorrow.
Just don’t build it into your house of tomorrow.
‘Cause most of spend too much time seeing what’s wrong,
and we don’t realize (oh, no) that everything we need,
we already have it (yeah, we do).
And there’s always far more going right than there is going wrong.
In our garden, there are many trees in blossom.
Yet, we choose to sit and cry at the foot of one that’s dyin’.
So, if you run around searchin’, you just might lose it (oh).
If you run around searchin’, you just might lose it.
So, put your hand in your pocket. You’ll find it where it’s always been.
That’s happiness right in your pocket, in the spreading of your smile,
the relaxing of your shoulders, your breathing in awareness. That’s all it takes, ‘cause

Chorus
Yeah, mm-mm-mm.

There is no way to peace. Peace is the way.
Freedom and happiness, they are ours today.
Peace is the way. Freedom and happiness are the way (yeah).
Peace is the way (yeah, yeah) and freedom and happiness are the way.
‘Cause there is no way to peace. Peace is the way.
There is no way, no way to happiness. Happiness is the way, the way today.
Don’t look for freedom in the future. Freedom is today.
Enjoy it, Brother, now. Live it up, Sister, Sister.
Together, we can make it come true. Together, we can make it come true, now.
Together, we can make it come true… me and you, come true, come true.


Para ouvir a música clique aqui .

sábado, 31 de dezembro de 2011

sábado, 24 de dezembro de 2011

A oração do Pai Nosso: um paralelo entre budismo e cristianismo



Por Thich Nhat Hanh


A doutrina da Igreja Ortodoxa afirma claramente que todo ser humano tem a natureza divina de Deus e partilha da bondade divina de Deus. É o mesmo conceito budista sobre a nossa natureza de Buda. Ainda que pareçam diferentes, os ensinamentos cristãos e budistas têm muito em comum.

O canto budista "Teu discípulo se inclina com respeito".

Teu discípulo por várias existências, por muitos kalpas, ficou preso nos obstáculos do carma, ânsia, raiva, arrogância, ignorância, confusão e erros, e hoje, graças ao conhecimento que tem do Buda, reconhece seus erros e começa sinceramente outra vez.

Agora, vejamos a oração do Pai Nosso, uma oração bem conhecida na tradição cristã:

Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.


Se olharmos em maior profundidade, veremos que com esta oração estamos praticando também o estar em contato com a dimensão última. O que estamos procurando? Estamos procurando algo muito grande. Não estamos pedindo a Deus para que o sol brilhe no dia de nosso piquenique. Não estamos pedindo coisinhas, estamos pedindo o reinado de Deus. Nosso primeiro objetivo na oração é o reino de Deus. Vamos examinar cada um dos incisos desta oração.

Pai nosso que estais nos céus.

Nos céus significa "não no mundo histórico e fenomênico. Ainda que Deus esteja em todas as coisas, não podemos compará-lo com as criaturas que vivem sobre a terra, assim como não podemos comparar a água do mar com a onda, porque uma é a natureza última e a outra é o fenômeno. Podemos comparar uma onda com a outra, mas não podemos comparar a água com a onda. Ele é a natureza última, e não há palavras para nomeá-lo ou descrevê-lo. Podemos chamá-lo de Deus, de Alá, o criador, mas são apenas maneiras de chamá-la. Todas essas expressões e idéias são a nossa tentativa infrutífera de definir Deus. Por isso, quer digamos Deus, Dieu (francês), God (inglês), Thuong De (vietnamita), ou Alá, tudo não passa de nomes, e esses nomes não são fortes o suficiente para conter a realidade maravilhosa que é a dimensão última.

Deus não precisa ser famoso na sociedade humana, como um astro de cinema ou um presidente. Deus não é um saquinho de amendoim a ser disputado. E Deus não quer competir conosco para ser mais famoso do que nós. Para estar em contato com a realidade maravilhosa da dimensão última, temos de ir para além do nome, e só então poderemos encontrar sua verdadeira natureza sagrada. O sutra do Caminho da Virtude diz: "O caminho que ainda pode ser discutido não é ainda o verdadeiro caminho eterno. O nome que pode ser chamado não é ainda o verdadeiro nome eterno".

Santificado seja o vosso nome.

Isto se refere ao tipo de nome, ao nome que não pode ser dito, que não pode ser expresso, sobre o qual não se pode deliberar, não se pode falar, e este é o Deus de verdade.

Venha a nós o vosso reino

A palavra "reino", que empregamos na expressão "o reino de Deus", o reino que Deus Pai preside, é tradução da palavra grega basileia, que tem três significados diferentes. O primeiro é "domínio" ou os "domínios", ou seja, o território sobre o qual Deus governa ou exerce seu reinado. O primeiro sentido é do ponto de vista do sinal. O segundo sentido é "real". Significa a natureza do domínio, sua "reinidade". Este domínio tem a natureza da felicidade, da eternidade, da paz e da alegria. Real é a natureza, e domínio é o sinal. Reino é o sinal e "reinidade" é a natureza. A natureza é nirvana, o sinal é o sinal do não-nascimento da não-morte.

Nisto temos as duas coisas: o sinal e a natureza. O terceiro sentido é "reinado", o ato de reinar, que é a maneira como o domínio e a vida neste domínio podem ser descritos. O domínio pertence à ação. Por isso o domínio pertence à dimensão histórica, a realeza pertence à dimensão última e reinado pertence à dimensão da ação.

A dimensão última é o fundamento do ser. A dimensão histórica é o reino de Deus, ou o mundo fenomênico, o mundo do nascimento e da morte. No mundo do nascimento e da morte, há a presença do nirvana. E finalmente, há a dimensão da ação, a função do reino, que é reinar, governar. A terra que Deus Pai governa. Como pode o povo viver nesta terra de maneira a ter paz, alegria e felicidade? Isto é ação. Seja qual for nossa tradição religiosa, quando rezamos nossa prioridade é chegar à dimensão última, à natureza ainda não nascida ou imorredoura da vida - isto é o reino de Deus, isto é Deus.

Quando praticamos a meditação andando ou tomamos uma refeição com mente alerta, queremos que o nirvana esteja presente, queremos que o nirvana venha a nós no momento atual. Os cristãos rezam, cantam salmos e hinos, recebem os sacramentos - tudo isto são orações dirigidas ao desejo Venha a nós o vosso reino, o desejo de que o reino de Deus esteja presente neste exato momento. Se formos capazes de trazer para a dimensão histórica a dimensão última, podemos viver as duas dimensões ao mesmo tempo. Não há razão de não podermos contactar a dimensão última enquanto vivemos na dimensão histórica.

Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu

A natureza não nascida e imorredoura do céu, a felicidade, solidez e a liberdade do céu não estão apenas na dimensão última, mas também na dimensão histórica. Graças às chaves dos Três Selos do Darma, somos capazes de ver que a solidez, a liberdade, o ainda não-nascido e o imorredouro não precisam ser procurados no nirvana, mas podem ser encontrados aqui no mundo do nascimento e da morte; assim na terra como no céu. No Vietnã, um discípulo perguntou a um mestre zen: "Onde devo procurar o ainda não-nascido e o imorredouro?" O mestre respondeu com muita clareza: "Você deve procurar o ainda não-nascido e o imorredouro precisamente no meio do nascimento e da morte". Você deve procurar a água na onda. Está muito claro. Por isso dizemos: "Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu". Este é o maior desejo que temos ao rezar.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.

Outra maneira de traduzir é: "Dai-nos hoje nosso pão deste dia". Nosso pão deste dia não é o pão de todo dia, mas apenas o pão deste dia. A palavra hoje não é muito boa, mas as palavras deste dia são melhores. Esta frase é uma prática de confiança. Não precisamos pedir nossa comida para amanhã, para depois de amanhã, para o próximo mês e para os próximos anos. Precisamos apenas ter comida para o dia de hoje. Eu quero viver profundamente o momento atual. Isto se parece com o ensinamento de Buda no Coração do Prajnaparamita. "A forma é o vazio", diz Buda, mas isto não é o bastante em si, de modo que temos de acrescentar "... e o vazio é a forma", para então o ensinamento ser completo.

Em nossa vida diária temos muitas ansiedades. Temos nossos desejos e tendemos a querer acumular coisas. Não sabemos que o momento atual é o importante. A vida só pode existir no momento atual. Se nossa intenção é apenas investir no amanhã, então será fácil esquecer completamente as maravilhas da vida no momento atual. Temos de voltar ao momento atual para vivê-lo profunda e convenientemente. Temos de viver de tal forma que o reino de Deus esteja presente aqui e agora. Esta é uma oração que deve ser praticada vinte e quatro horas por dia, porque queremos viver o momento atual profundamente todos os segundos. As palavras da oração não devem ser ditas apenas antes de irmos dormir, devem ser recitadas ao longo de todo o dia.

Já temos condições suficientes para ser felizes hoje. Temos de rezar de tal forma que possamos estar em contato com as condições de felicidade que estão em nós e ao redor de nós. Elas estão todas ali, ao alcance. Não devemos ser gananciosos. Não devemos exigir que a vida continue por centenas e centenas de anos. Como pode a vida continuar por centenas de anos se neste momento atual não somos capazes de estar ativos?

(Do livro “A energia da oração” – Thich Nhat Hanh)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011