A Associação Meditar é uma sociedade civil sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne as 4ª feiras - 20 h - e aos sábados - 8 h - para meditar e estudar na Academia Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Reconciliação


Por Thich Nhat Hanh


Sabemos que a transformação e cura que procuramos é obtida através do insight e entendimento. Graças ao entendimento e compaixão, soltar se torna possível. O Buda disse que nossas aflições – medo, tristeza e dor – nascem da falta de entendimento. É por isso que a prática de olhar em profundidade é tão importante para ganhar insight. No budismo, salvação e emancipação são realizadas através do entendimento. Olhar em profundidade nos ajuda a entender a natureza do nosso sofrimento e também a natureza do sofrimento da pessoa a quem acreditamos ser a causa de nossa tristeza.

Cerca de quinze anos atrás, um garoto suíço de quinze anos costumava vir e ficar em Plum Village. Todos os verões, ele vinha com sua irmã mais nova e praticava conosco. Este garoto não gostava de seu pai. Ele tinha muita raiva porque seu pai não falava amavelmente. Se o garoto caía quando estava brincando, ao invés de ajudá-lo e confortá-lo, seu pai sempre gritava: “Você é estúpido! Porque você fez isso?” O garoto achava que seu pai deveria ajudá-lo com palavras educadas. Ele tinha dificuldade em entender seu pai e prometeu que se comportaria diferentemente quando fosse adulto. Se seu filho caísse algum dia e se ferisse, ele o ajudaria e o confortaria.

Um dia, este garoto estava sentado em Lower Hamlet observando sua irmã brincar em uma rede com outra menina. Elas estavam balançando e de repente a rede virou e ambas caíram no chão. Sua irmã cortou a testa. Quando o garoto viu sua irmã sangrando, ficou furioso e estava quase gritando com ela “Você é estúpida! Porque você se feriu assim?” Mas como conhecia a prática, ele voltou para sua respiração e decidiu fazer uma meditação caminhando. Durante sua meditação caminhando, descobriu algo maravilhoso: ele era exatamente como o pai. Ele tinha o mesmo tipo de energia, como ele a chamou, estupidez. Quando seus amados estão sofrendo, você deveria ser amoroso, suave e prestativo e não gritar com eles com raiva. Ele viu que estava se comportando exatamente como seu pai. Aquilo era seu insight. Imagine um garoto de 14 anos praticando assim. Ele percebeu que era a continuação de seu pai e tinha o mesmo tipo de energia, a mesma semente negativa.

Continuando a meditação caminhando, ele descobriu que não poderia transformar sua raiva sem prática e se não praticasse, transmitiria a mesma energia de hábito para seus filhos. Eu acho notável para um menino de 14 anos ter esse sucesso na meditação. Ele obteve estes dois insights em menos de quinze minutos de meditação caminhando.

Seu terceiro e último insight foi que ele deveria voltar a Suíça e conversar sobre suas descobertas com seu pai. Ele decidiu convidar seu pai para praticar com ele de forma que ambos pudessem transformar sua energia. Com esse terceiro insight, sua raiva de seu pai desapareceu porque ele entendeu que seu pai era também vítima da transmissão de uma semente negativa. Seu pai poderia ter obtido essa semente de seu próprio pai. Eu fiquei espantado com esse terceiro insight porque significava que o jovem garoto era capaz de entender que seu pai era uma vítima da transmissão.

Muitos de nós sofreram por causa de nossos pais. Muitos de nós têm uma criança ferida dentro de si. Alguns dizem: “Eu não quero ter nada a ver com meus pais.” Isto não é possível porque somos a continuação deles; nós somos nossos pais. Não há forma de escapar disso. O único caminho é buscar reconciliação conosco mesmo e com os nossos pais internos. Não há outra maneira. O caminho é claro. Fomos vítimas de comportamentos negativos, sementes negativas, mas através da prática profunda, percebemos que a outra pessoa pode também ser vítima da transmissão dessa semente. Ele nunca conheceu um professor e uma sangha e a semente não foi transformada. Depois, ela nos foi transmitida. Quando você vê seus pais como vítimas da transmissão, sua raiva desaparece. Esta prática de olhar em profundidade para ganhar entendimento e liberdade da sua raiva é muito importante.

Uma vez, todos que estavam em Upper Hamlet em Plum Village foram convidados a escrever uma carta de amor ao seu pai. Um jovem praticante dos Estados Unidos disse que nunca seria capaz de escrever essa carta. Apenas pensar sobre seu pai o fazia ficar com raiva e causava a ele muito sofrimento. Seu pai havia, na verdade, morrido, e mesmo assim não havia reconciliação entre eles. Eu propus que ele fizesse o seguinte exercício por uma semana: “Inspirando, me vejo como um garoto de cinco anos. Expirando, eu sorrio para mim mesmo como um garoto de cinco anos.” Inspirando, eu pedi que ele se visualizasse como um garoto de cinco anos muito vulnerável. Quando ele viu o quanto era vulnerável, ficou fácil para ele ter compaixão pela criança que tinha sido.

Expirando, ele sorriu para si mesmo como uma criança de cinco anos. Com cinco anos, ele já tinha experimentado problemas e sofrimentos com seu pai. Talvez ele tenha tentado dizer a seu pai alguma coisa, mas não pode encontrar as palavras. Enquanto estava procurando, seu pai, que poderia estar de mau humor, pode ter gritado, “Fique quieto!” Isto pode ter criado uma ferida no jovem coração do garoto e o fez ter medo de tentar de novo. Ele nunca foi capaz de dizer a seu pai sobre seu sofrimento e dificuldades porque não era encorajado a isso. Seu pai não tinha paciência para ouvir. Quando ele expirava, usou a compaixão que havia nascido nele para abraçar o garoto de cinco anos. “Inspirando, me vejo como um garoto de cinco anos. Expirando, sorrio para mim mesmo como um garoto de cinco anos.”

Na semana seguinte, eu dei a ele um novo exercício: “Inspirando, vejo meu pai como um garoto de cinco anos. Expirando, sorrio para meu pai como um garoto de cinco anos.” Talvez você nunca tenha pensado em seu pai como um garoto vulnerável de cinco anos. Se você puder vê-lo assim, o entenderá. Como você, ele pode ter sido uma vítima e carregou uma criança ferida dentro dele.

Você pode pedir uma foto de seu pai quando era um pequeno menino. O jovem americano pediu uma e colocou-a na sua mesa. Cada vez que saía ou entrava no seu quarto, ele parava, olhava seu pai nos olhos e praticava inspirar e expirar conscientemente três vezes. Ao mesmo tempo, ele praticava visualizar seu pai como um menino de cinco anos. Finalmente, ele descobriu que seu pai era também uma vítima que não teve a chance de praticar e realizar uma transformação. Quando foi capaz de ver seu pai como uma vítima, sua raiva começou a se dissolver. Uma noite, ele sentou e escreveu uma carta de amor para seu pai: “Papai, sei que você sofreu também muito quando era criança, e que não sabia como transformar seu sofrimento, portanto você o transmitiu para mim.” Depois de escrever a carta, ele estava transformado e sabia que a reconciliação era possível.

Quando tomamos uma ducha ou um banho temos a chance de praticar olhar em profundidade para nosso corpo. O Buda nos convida a olhar para a natureza de cada elemento e achar seu vazio de transmissão ou sua natureza interser. Os três elementos são um e interdependentes e não podem existir como entidades separadas neles mesmos. Os três elementos na transmissão são: aquele que transmite, o objeto transmitido e o recebedor da transmissão. O Buda nos convida a olhar para a natureza de cada coisa e achar o vazio da transmissão. Perguntamos: O que meu pai transmitiu para mim? A resposta é: ele transmitiu ele mesmo a mim. O objeto transmitido não é menos que ele mesmo, e eu realmente sou a continuação de meu pai. Eu sou meu pai. O objeto da transmissão é uno com o transmissor. Então perguntamos: Quem é o recebedor da transmissão? É uma entidade separada? Não. O recebedor da transmissão é o objeto da transmissão e também o transmissor.

Quando você penetra nesta verdade, a realidade do vazio da transmissão, não pode mais dizer, “Eu não quero ter nada a ver com meu pai. Eu estou com muita raiva.” Na verdade, você percebe que você é seu pai. Você é a continuação dele e a única coisa que pode fazer é se reconciliar com ele. Ele não está fora, está dentro de você. A paz é possível somente com conhecimento e reconciliação.

Se reconhecermos algo como positivo, saudável e bonito, então desenvolveremos e preservaremos isso. Se reconhecermos algo como negativo e destrutivo, então abraçaremos e a transformaremos. Quando somos capazes de adquirir essa transformação, fazemos isso não apenas por nós mesmos, mas por nossos pais, mães e nossos ancestrais. É por isso que quando eu pratico inspirar e acalmar, e expirar e sorrir, eu estou liberando meu pai, minha mãe e meus ancestrais. Estou também liberando meus filhos e seus filhos. Cada vez que dou um passo em paz e feliz, faço isso por todos os meus ancestrais. Esta prática nos ajuda a transformar e curar. Fazemos isso por todos ao mesmo tempo. Apenas através da prática que a reconciliação verdadeira é possível.

A reconciliação acontece dentro de nós, não precisamos sentar com a outra pessoa para alcançar a reconciliação. Alguém uma vez me escreveu: “Thay, sei que fiz muitos erros no passado e agora quero me reconciliar com minha filha. Mas cada vez que escrevo para ela a fim de encontrá-la, ela recusa. O que posso fazer?” Você pode acreditar que a reconciliação só é possível encontrando e falando com a outra pessoa. Isto acontece porque você não alcançou a reconciliação dentro de si mesmo e é difícil visualizá-la com outra pessoa. A verdadeira reconciliação é feita através do insight e compaixão. Quando você tem insight e compaixão, ajudar a outra pessoa se torna mais fácil. Quando a reconciliação é interna, paz e amor se tornam possíveis. Se você incorporar paz e amor, pode mudar a situação mais facilmente.

Pergunta: Não entendi como minha prática no presente – me tornar mais pacífico, calmo e viver com mais bondade e compaixão – pode ajudar meus ancestrais, mau avô, minha avó e tio. Como isso pode tornar a vida deles mais bonita quando eles morreram em campos de concentração? Eu não entendo como nossa prática se aplica aos horrores como o genocídio.

Thay: Há aflição e sofrimento dentro de nós. Nosso sofrimento representa o sofrimento individual e o sofrimento de nossos ancestrais, pais e da sociedade. Cada vez que praticamos a respiração consciente e tomamos cuidado de nossos corpos e sentimentos, aliviamos parte de nosso sofrimento. Temos o benefício da transformação e cura e nossos ancestrais e a sociedade também obtêm esse benefício. Qualquer sorriso que produzimos afetará a sociedade. Podemos tocar a sociedade dentro de nós. Cada passo que damos em plena consciência que nos traz um pouco mais de solidez, liberdade e alegria também beneficia a sociedade e nossos ancestrais.

Não pense que o que você faz para você mesmo não afeta o resto da sociedade e o mundo. Paz e liberdade sempre começam com nossa própria prática. Sabemos que o indivíduo contém o todo. A emancipação do indivíduo é também a emancipação da sociedade, do elemento coletivo em nós.

A vitória de Sidarta aos pés da árvore de Bodhi não foi a de um indivíduo sozinho. Foi para a paz, alegria e emancipação de muitos, muitos seres vivos. Se a transformação acontece em nós, ao mesmo tempo, acontece no mundo. Mesmo se você não vê, a transformação acontece. Se a paz está em você, a paz se torna possível em cada lugar do cosmos. Quando você tem paz interior, você olha para o mundo e ele é diferente. Acho que muitos de nós já tiveram essa experiência.

(Traduzido do livro “The Path of Emancipation” – Thich Nhat Hanh – por Leonardo Dobbin)
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