A Associação Meditar é uma sociedade civil sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne as 4ª feiras - 20 h - e aos sábados - 8 h - para meditar e estudar na Academia Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

sábado, 25 de setembro de 2010

Entrevista com Thich Nhat Hanh (Thay)


Paciência, Tolerância e Continuação

Pergunta: Tenho tentado praticar a fala e escuta amorosa no trabalho, mas meus colegas respondem com muito cinismo.

Thay: Paciência é parte da compaixão. Quando somos verdadeiramente compassivos, temos a capacidade de esperar e de sermos pacientes. As pessoas respondem com cinismo e suspeita porque encontraram situações negativas no passado. Eles não acreditam facilmente. Eles não receberam amor e entendimento suficientes. Suspeitam que o que temos a oferecer a eles não sejam amor e compaixão autênticos. Mesmo se realmente temos amor e entendimento a oferecer, eles ainda assim têm suspeitas.

Há muitos jovens que não receberam entendimento e amor das suas famílias, pais, professores ou da sociedade. Eles não vêem nada bonito, verdadeiro ou bom. Eles vagam a procura de algo em que acreditar. Eles são como fantasmas famintos. Na tradição budista, descrevemos fantasmas famintos tendo uma barriga grande e uma garganta muito fina, fina como uma agulha. Eles têm muita fome, mas sua habilidade de engolir comida é limitada. Fantasmas famintos são famintos por amor e entendimento, mas sua capacidade de receber é pequena. Você tem que ajudar a trazer o tamanho de sua garganta de volta para o normal antes que eles possam digerir a comida que você oferece.

Isto requer a prática da paciência, contínua bondade amorosa e entendimento. Leva tempo para ganhar a confiança deles. Enquanto isso você não pode ajudá-los. Mesmo quando encarando o cinismo e a suspeita, você tem que continuar com sua prática. Você tem que ser paciente.

Pergunta: Eu estudo em uma escola católica e alguns de meus amigos dizem que o catolicismo é a única religião verdadeira. Como posso mostrar-lhes que ser católico não é o único modo de preenchimento espiritual?

Thay: Há muitas tradições espirituais no mundo. Uma tradição não tem que excluir as outras. Cada tradição pertence à herança espiritual da humanidade. Temos que ficar felizes com todas elas. É como uma cesta com frutas. Se você ama laranjas, tem a liberdade de comer laranjas, mas ninguém te proíbe de desfrutar das maçãs, peras e ameixas também. Seria muito triste se você comesse apenas laranjas.

Muitos de nós gostam dos ensinamentos e da prática do budismo, mas também desfrutamos dos ensinamentos e das práticas do islã, do cristianismo, do judaísmo e assim por diante. Podemos aprender de outras tradições.

Aqueles que dizem que a sua é a única tradição são como pessoas que comem apenas um tipo de fruta. Eles não têm a capacidade de desfrutar de outras tradições, outras frutas. Eles estão perdendo muito. Ficamos tristes por eles. Tentamos fazê-los ver que eles podem aproveitar mais se eles tiverem uma atitude de abertura. Devagar, pacientemente e com bondade amorosa você pode ajudar as pessoas a se abrir.

Pergunta: O que pode nos dar o conforto de que nossos amados irão continuar em outras formas após morrerem?

Thay: Quando você olha para um pé de laranja, vê que a árvore está produzindo lindas folhas verdes, brotos perfumados e doces laranjas. Estas são as coisas que o pé de laranja pode oferecer ao mundo. Um ser humano é assim também. Na sua vida diária produz pensamentos, palavras e ações. Nossos pensamentos podem ser bonitos, compassivos e amorosos. Nossa fala também pode ser compassiva, inspiradora, cheia de amor e entendimento. E nossas ações também podem ser compassivas, protetoras, curadoras e que apóiem aos outros e a nós mesmos.

Olhando em profundidade no momento presente, podemos ver que estamos produzindo pensamentos, palavras e ações. Na tradição budista, nossos pensamentos, fala e ações são nossa continuação verdadeira. Uma vez que produzimos um pensamento ele estará presente por um bom tempo. Uma vez que tenhamos dito algo, nossas palavras permanecerão por um longo tempo. Uma vez que tenhamos feito alguma ação, ela pode ter um efeito duradouro no futuro.

Suponha que você produza um pensamento de compaixão e perdão. Imediatamente este pensamento tem um efeito curador no seu corpo e na sua mente. Também tem um efeito curador no mundo e continuará a ter efeito curativo no futuro. Portanto é muito importante ser capaz de produzir um pensamento de compaixão, não discriminação e perdão.

Muitas pessoas acreditam que depois da desintegração do corpo não fica nada. Até mesmo muitos cientistas acreditam nisso. Mas nossos pensamentos, palavras e ações são energias que produzimos e elas continuarão por um bom tempo. Podemos garantir uma boa continuação produzindo bons pensamentos, palavras e ações. Você não pode destruir um ser humano. Você não pode reduzi-lo a não-ser. Assim como é impossível para uma nuvem morrer, é impossível para um ser humano se tornar nada.

Portanto, olhando profundamente para a natureza das outras pessoas ao seu redor, você poderá ter o tipo de insight que te libera da tristeza, do medo e da raiva. Não-medo, o insight que não há nascimento nem morte, é o grande dom dado a nós pela prática de olhar em profundidade.

Pergunta: O que acontecerá aos outros monges e monjas e à Sangha quando você se for?

Thay: Eu sempre estarei aqui. Eu fiz meu melhor para transmitir a mim mesmo para todos. Eu não estou fora de você, estou dentro de você. Uma verdadeira Sangha, uma Sangha que pratica bem, tem sempre o Buda, o Dharma e seu professor dentro dela. Portanto onde quer que você vá, se você sentir que a Sangha, o Buda e o Dharma estão dentro de você, não há separação.

Quando continuamos a praticar, percebemos que eles estão todos no nosso coração. Leva um pouco de tempo e prática para perceber esta verdade. Quando reverenciamos o Buda, podemos pensar que o Buda está sentado no altar. Mas o Buda não está no altar, o Buda está nos nossos corações. Como o Buda é a capacidade de ser plenamente consciente, de ser desperto, de ser amoroso de ter aceitação, e sabemos que no nosso coração há também essas capacidades, se praticarmos bem, essas capacidades irão se desenvolver.

Portanto a idéia de fora e dentro ficará mais clara. Temos que olhar em profundidade para ver que aquele a que amamos e respeitamos está realmente dentro de nós.

Pergunta: Há um caminho espiritual para aqueles que estão lutando contra doenças incuráveis?

Thay: Uma doença séria pode ser um tipo de sino de plena consciência que inicia nossa prática e dá a luz à nossa prática espiritual. Portanto nossa doença pode conter um elemento positivo que nos ajudará a crescer. É um sino de plena consciência para nós e para todos a nosso redor. As práticas da aceitação, de não se preocupar sobre as coisas e desfrutar o momento presente têm o poder de curar todos nós. Muitos que tiveram câncer foram capazes de sobreviver por muito tempo.

Um senhor do Canadá me disse quando nos conhecemos que seu médico tinha dado a ele dois meses de vida. Eu disse, “Você pode desfrutar desta xícara de chá comigo? Esqueça tudo mais, apenas fique consciente que você ainda está vivo e sentando com os membros da sua Sangha. Apenas foque sua atenção no chá e desfrute desse momento.” Ele foi capaz de fazer isso. Depois de receber os Cinco Treinamentos de Atenção Plena e a prática, ele ainda viveu por treze anos. Portanto nunca sabemos. Desfrute de seus dias, seus meses, seus anos e do ensinamento e da prática.

Enquanto estiver vivo, desfrute de cada momento e olhe em profundidade para tocar sua verdadeira natureza de não nascimento e não morte. Esta nuvem no céu – ela não pode morrer, ela apenas pode se transformar em neve ou chuva. Ser uma nuvem flutuando no céu é bonito, mas se tornar chuva caindo no chão também é bonito. Com este insight, você continuará sem medo. E se na sua vida diária você puder produzir bonitos pensamentos, bonitas palavras e ações compassivas, você continuará lindamente no futuro de várias maneiras. A dissolução desse corpo não é o fim de nada. Este insight é crucial para a verdadeira felicidade e não-medo.

Tudo pode ser um sino de plena consciência, incluindo o sofrimento. O sofrimento da velhice, doença e da morte podem ser um forte sino de plena consciência. Eles são mensageiros poderosos. Portanto vamos ficar sintonizados com esses sinos e nos mover na direção que a humanidade deveria ir. Vamos segurar as mãos uns dos outros e ir juntos, porque a menos que façamos isso não teremos esperança.

(Thich Nhat Hanh – do livro “Answers from the heart”)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)
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