A Associação Meditar é uma sociedade civil sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne as 4ª feiras - 20 h - e aos sábados - 8 h - para meditar e estudar na Academia Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

sábado, 28 de maio de 2011

Jesus e Buda, irmãos



Por Thich Nhat Hanh

Entrando em contato com a origem de ser

No cristianismo e no budismo, tanto no Oriente quanto no Ocidente, existe o conceito do Todo, a realidade suprema, a origem de ser. Nossos amigos cristãos tendem a pensar que os budistas não gostam de imaginar o Todo, ou a origem de ser, como uma pessoa. É a isso que resistem mais. Alguns cristãos acreditam que, para os budistas, o Todo, ou a origem de ser, é uma não-pessoa. Mas isso não é verdade de forma alguma. Talvez vocês já tenham tido esta percepção na vida cotidiana. Todas as vezes em que contemplam uma árvore, embora saibam que aquilo não é uma pessoa, seu relacionamento com a árvore não é o de uma pessoa com uma não-pessoa.

Quando toco uma rocha, jamais a toco como inanimada. A árvore é espírito, mente; a rocha é espírito, mente; o ar, as estrelas, a lua, tudo é consciência. Eles são objeto de sua consciência. Quando vocês dizem "o vento está soprando", o que estão tentando dizer? Vocês têm a percepção de que o vento está soprando, então dizem: "Sei que o vento está soprando." Isto é uma percepção. O vento pode estar soprando, mas a pessoa perto de vocês talvez não o perceba. Como vocês o perceberam, tentam dizer-lhe isso.

Dizer "o vento está soprando" é muito estranho. O vento precisa estar soprando; caso contrário, não é o vento. Então vocês não precisam pronunciar a palavra soprando. Podem simplesmente dizer vento. O que é vento? É a sua percepção, a sua consciência. Conforme a sua percepção, assim é o vento. A única coisa da qual tem certeza é que o vento é o objeto da sua percepção. Ela consiste na substância e no objeto, naquele que percebe e no que é percebido. O vento é parte da sua consciência. É o objeto da sua percepção.

Algumas vezes vocês criam o objeto da sua percepção sem qualquer fundamento. Imaginam que outra pessoa está tentando destruí-los, quando, na verdade, tal coisa nem lhe passa pela mente. A mente cria muitas coisas. Nos ensinamentos da escola Dharmalakshana, aprende-se a olhar para as coisas como objetos da consciência e não como entidades separadas, independentes. Se olharem atentamente para o céu, não verão o céu azul como algo separado de vocês, algo inanimado. Perceberão o céu como a sua consciência. Também é o consciente coletivo.

Em Princeton há uma escola de pensamento que afirma que existe pensamento no céu azul. Existe pensamento na nuvem, nas estrelas. Vocês vêem o céu como consciência. O céu é consciência. O mesmo se pode dizer quanto às nuvens e às estrelas. Não são objetos inanimados, separados da consciência de vocês. É o objeto da sua consciência; então treinem isso para que não vejam mais os objetos da sua percepção como algo independente das percepções. A grande consciência está, ela mesma, se manifestando. Tudo é visto como consciência.

Nas esferas não-budistas é muito comum seus integrantes chegarem à mesma compreensão, como ocorreu com o Buda. Na minha experiência, quanto toco uma árvore, quando olho para um pássaro, quando contemplo a água no riacho, admiro-os, não porque foram criados por Deus, nem porque possuem a natureza do Buda. Admiro-os porque são árvores, são rochas, são água. Eu me curvo para uma rocha porque ela é uma rocha. Não me curvo perante uma rocha porque um espírito mora ali. Também não a considero uma coisa inanimada. Porque a rocha, no meu entender, nada mais é do que consciência, o próprio espírito.

Muitos dos nossos amigos cristãos se aborrecem quando os budistas dão outros nomes àquele espírito, sem usar a palavra Deus. Teilhard de Chardin ficou sentido ao ouvir o Espírito Santo sendo chamado de "o Todo", ou "espírito", e não Deus. Mas é correto empregar a palavra Deus quando muitos pensam em Deus como uma pessoa no sentido fenomenal? Se as pessoas sabem que Deus não é uma pessoa, mas também não menos do que uma pessoa, como disse Paul Tillich, então não será tão difícil usar a palavra Deus.

O Buda tem muitos corpos, Ele tem um corpo físico e também um corpo Dharma. Antes de falecer, disse aos discípulos: "Meu corpo físico não é tão importante. Toquem meu corpo Dharma. Este estará com vocês."

O que é o Dharma? Não é um grupo de leis e práticas ou uma pilha de sutras, videoteipes ou cassetes. O Dharma é compreensão, é a prática da bondade amorosa como expresso pela vida. Não se pode ver o Dharma a não ser quando se observa alguém praticando-o, tornando-o aparente a todos, como uma monja andando atentamente, tocando profundamente a terra, irradiando paz e felicidade. Esta monja não está pregando ou apresentando um videoteipe, mas expressando o Dharma ativo. Ela pode expressar o Dharma ativo porque ela é uma pessoa. Em nosso corpo físico podemos tocar o corpo de Dharma. O Buda tem um corpo de Dharma e este corpo continuará a ser visto e tocado por nós enquanto pessoas continuarem a praticar o Dharma. Tudo isso apenas é possível com não-ser, com impermanência.

Quando falamos sobre amar Buda, o que queremos dizer com isso? Precisamos amar Buda? Buda precisa ser amado por nós? Invocamos o nome de Buda e a recordação de Buda para fazê-lo presente nas nossas mentes, para torná-lo parte dos momentos da vida cotidiana. Buda precisa que o amemos, que nos lembremos dele, que o glorifiquemos? Não creio. Não penso que Buda necessite de amor. Podemos sentir amor por Buda, do mesmo modo que sentimos amor por nossos pais e mestres. Buda é nosso mestre. É claro que sentimos admiração pelo mestre, o Buda. Ele praticou bem, ele tem coragem. Tem muita compaixão, compreensão e é uma pessoa livre. Não sofre tanto quanto nós por causa do seu elevado nível de compreensão, compaixão e bondade amorosa.

Vocês amam alguém quando este alguém necessita de vocês. Quando aquele alguém sofre, o amor de vocês alivia o sofrimento. Seu amor contribui para trazer felicidade. Este é o significado do amor. É fácil entender que os seres que nos cercam, sofrendo, necessitam do nosso amor. Mas será que a salvação, a liberação de vocês depende do seu amor por Buda? Não penso assim. Se o louvarem, não é porque ele ou ela o deseja.

Contudo, enquanto o louvam, vocês estão tocando e irrigando as benfazejas sementes dentro de vocês. Segundo tal linha de conduta, Buda tem conscientização, é compreensivo e amoroso. Tocar a semente da compreensão, conscientização e bondade amorosa dentro de vocês contribui para que estas qualidades se tornem mais fortes para a sua própria felicidade e das outras pessoas e seres vivos que estão próximos. Quando queimam incenso, não é para Buda. Ele não precisa do incenso. Mas quando vocês fazem isso, curvando-se profundamente e louvando Buda, irrigam as benfazejas sementes dentro de vocês. Esta é a atitude. Quando se tornam conscientes, compreensivos e amorosos, sofrem muito menos, começam a se sentir felizes e as pessoas ao redor começam a se beneficiar por vocês estarem ali.

Quando um cristão diz que está fazendo algo de determinada maneira porque ama Deus, o que ele quer dizer com isso? Como ele ama Deus? Do mesmo modo que ama o pai, a mãe ou o professor? Todos eles devem ter problemas. Talvez estejam sofrendo e necessitem de amor e apoio. Não creio que Deus precise desse amor e apoio. No cristianismo, quando se ama Deus, é preciso amar o próximo; caso contrário, não podem dizer que amam a Deus. Então terão que ir ainda mais longe. Terão que amar os seus inimigos.

Por que temos que amar os nossos inimigos? Como você pode amar o seu inimigo? Nos ensinamentos budistas, isso está bem claro. O budismo ensina que a compreensão é a base do amor. Quando se tem consciência, compreende-se que a outra pessoa está sofrendo. Consegue-se ver aquele sofrimento e repentinamente não se quer mais que o outro sofra. Vocês sabem que podem deixar de fazer determinadas coisas para que o outro pare de sofrer e que há outras que lhe trazem alívio.

Quando vocês começam a ver o sofrimento na outra pessoa, nasce a compaixão e vocês não mais a consideram um inimigo. Vocês podem amar o seu inimigo. No momento em que compreendem que o assim considerado inimigo sofre e desejam que ele pare de sofrer, ele deixa de ser inimigo.

Quando odiamos alguém, estamos zangados com ele, porque não o entendemos ou não entendemos o seu ambiente. O hábito de olhar profundamente faz com que cheguemos à seguinte conclusão: se crescêssemos como ele, sob as suas circunstâncias e tendo vivido no seu ambiente, seríamos exatamente iguais a ele. Esta espécie de compreensão elimina a sua raiva, a sua discriminação e subitamente aquela pessoa não é mais sua inimiga. Então você consegue amá-la.

Enquanto continuar a considerá-la sua inimiga, o amor será impossível. Amar seu inimigo só é possível quando ele ou ela não for mais visto desta maneira, e o único modo de conseguir isso é praticando a observação profunda. Aquela pessoa fez com que você sofresse bastante no passado. A conduta correta é perguntar o motivo.

Quando você está infeliz, a sua infelicidade se espalha por todos à sua volta. Se tiver aprendido a arte da compreensão e tolerância, você sofrerá muito menos. Olhar para os seres vivos com olhos compassivos proporciona-lhe uma sensação maravilhosa. Você não altera coisa alguma. Apenas põe em prática olhar com os olhos da compaixão e, repentinamente, o seu sofrimento diminui. O que são os olhos da compaixão? A função dos olhos é ver e entender. "Os olhos da compaixão" são os olhos que vêem e entendem. Se existe compreensão, a compaixão chegará por uma via bastante natural. "Os olhos da compaixão" são os olhos da atenção profunda, os olhos da compreensão.

No budismo aprendemos que a compreensão é a verdadeira base do amor. Sem compreensão, independentemente de quanto você se esforce, não poderá amar. Se disser: "Tenho que tentar amá-lo", estará cometendo uma tolice. É preciso compreendê-lo e, ao fazer isso, irá amá-lo. Uma das coisas que aprendi dos ensinamentos de Buda é que sem a compreensão o amor não é possível. Se o marido e a esposa não se compreendem, não podem se amar. Se um pai e um filho não se compreendem, causarão sofrimento um ao outro. Então a compreensão é a chave que abre a porta do amor.

Compreensão é o processo de observar atentamente. Meditar significa observar atentamente as coisas, tocá-las com extrema atenção. Uma onda precisa entender que existem outras ondas à sua volta. Cada uma tem o seu próprio sofrimento. Você não é a única pessoa que sofre. Suas irmãs e seus irmãos também sofrem. No momento em que você for capaz de ver o sofrimento deles, irá parar de censurá-los e também parar com o seu próprio sofrimento. Se você está sofrendo e acredita que isto é criado pelas pessoas ao seu redor, é conveniente olhar outra vez. A maior parte do seu sofrimento vem da falta de compreensão de si mesmo e dos outros.

No budismo, não creio que a compaixão e a bondade amorosa sejam praticadas visando à salvação individual. A verdade ensinada pelo Buda é que o sofrimento existe. Com a atenta observação do sofrimento em você mesmo e na outra pessoa, advirá o entendimento. Quando isso acontecer, o amor e a aceitação também surgirão, o que levará ao término do sofrimento.

Você talvez imagine que o seu sofrimento é maior do que o de qualquer outra pessoa ou que é o único a sofrer. Não é verdade. Quando você reconhecer o sofrimento à sua volta, ajudará a si mesmo a sofrer menos. Saia de dentro de você e observe. A época do Natal é uma excelente oportunidade para isso. O sofrimento está em mim, é evidente, mas também está em você. Está no mundo.

Houve uma pessoa que nasceu há quase dois mil anos. Tinha consciência de que o sofrimento estava nela e na sua sociedade, e não se escondeu do sofrimento. Em vez disso, pôs-se a investigar atentamente a natureza do sofrimento, as suas causas. Como teve a coragem de se manifestar, tornou-se o mestre de muitas gerações. Talvez a melhor maneira de celebrar o Natal seja habituar-se a andar com atenção, a sentar com atenção e observar tudo atentamente para descobrir que o sofrimento ainda continua ali em todos nós e no mundo. Reconhecendo o sofrimento, aliviamos nossos corações daquilo que nos vem afligindo durante tantos dias e meses.

Segundo os ensinamentos budistas, quando se presta bastante atenção ao sofrimento, compreende-se a sua natureza; então, o caminho para a felicidade se revelará. No budismo, o nirvana é descrito como paz, estabilidade e liberdade. O processo é entender que paz, estabilidade e liberdade estão à nossa disposição aqui e agora, durante vinte e quatro horas por dia. Só precisamos saber como alcançá-las e termos a vontade, a determinação para consegui-lo. É como a água, sempre disponível para a onda. Nada mais é do que a onda tocando a água e compreendendo que ela está lá.

(Do livro Jesus e Buda Irmãos – Thich Nhat Hanh)

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