A Associação Meditar é uma sociedade civil com personalidade jurídica, sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne sempre aos Sábados, às 08h00, no Espaço Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Livro do Mês - Janeiro

Guia da Prática de Meditação e Mente Atenta (Mindfulness) - Enio Burgos

Detalhes

A ciência vem comprovando a ampla gama de benefícios que a meditação traz aos seus adeptos. Redução do estresse e da depressão, incremento da produtividade e eficiência, melhora da concentração e do humor, prevenção e cura de doenças ou maior equilíbrio da saúde, estão entre os frutos desta prática milenar.
A mais sublime consequência da meditação, porém, traduz-se através da paz emocional, dos vislumbres de compreensão, do desenvolvimento da sabedoria e, sobretudo, do chamado “estado desperto” alcançado por seu intermédio. O ápice da evolução interior do ser humano, portanto, estaria intimamente associado à constante consecução da prática da meditação. Nesse sentido, nas palavras dos grandes sábios budistas, ela é denominada de “A Grande Mãe dos Budas de todos os tempos”.
“O Guia da Prática de Meditação e Mente Atenta (Mindfulness)” desvenda o caminho da meditação conforme palmilhado por todos os mestres da humanidade. Nesta obraextremamente oportuna, fundamentada em ensinamentos universais, aprendemos a acessar a essência natural da mente, repleta de harmonia, bem-estar e felicidade. 
Meditação silenciosa, caminhando, com canto de mantras, sorrindo, abraçando, bem como a maravilhosa prática de Mente Atenta ou Mindfulness, a qual nos instiga a “viver o momento presente”, são explicadas em detalhes, tornando tais atividades acessíveis a todos os interessados, quer sejam iniciantes ou veteranos.  

“O banho purifica o corpo. A meditação purifica a mente. Quando uma pessoa atinge esse estado de integridade, de inteireza mente-corpo-coração juntos no momento presente, ela se conecta a todos os seres... ela restabelece, conscientemente, uma real irmandade cósmica, desde os átomos até as galáxias.” – Dr. Enio Burgos.

  Livro adotado pela Associação Meditar: www.associacaomeditar.org

Os meios são o fim

Tempos atrás nós discutimos sobre meios e fins e aprendemos que na prática do Budismo não há nenhuma distinção entre meios e fins, e que os meios deveriam ser considerados como os fins por si mesmos. Esta é uma prática muito intensa e nós deveríamos nos apoiar no Sangha para fazer isto.

Quando você vai para o Salão de Buda ou para o Salão de Dharma sabe que tem algo a fazer lá: meditação sentada, ouvir uma palestra de Dharma ou limpar o salão, mas ir para lá também é uma prática. É solicitado que vocês limpem o salão de meditação com consciência, é esperado que vocês se sentem belamente enquanto escutam a uma palestra de Dharma, é esperado que vocês se concentrem, estejam atentos durante sua meditação sentada, e assim a prática acontece no salão de meditação, mas deveríamos saber que a prática também acontece durante sua caminhada até ali.

Eis por que deveríamos tentar estar praticando durante o tempo em que caminhamos para o salão de meditação, e se você for bem sucedido em todo passo que você der, a meditação sentada, a palestra de Dharma ou a limpeza do salão de meditação serão também um sucesso.  Como temos o hábito de fazer as coisas sem eficiência, tendemos a negligenciar, menosprezar o valor dos meios.

Nesta época no Outono, eu normalmente limpo as folhas do eremitério. Eu faço isto a cada três dias mais ou menos e uso um ancinho. Eu sei que limpar as folhas significa ter um caminho limpo para caminhar, fazer meditação caminhando e assim por diante. Eu corro diariamente pelo menos duas vezes - eu pratico a meditação correndo e limpo as folhas deste modo, conscientemente. Limpar as folhas não significa apenas ter um caminho limpo para correr ou caminhar, mas também significa simplesmente gostar de limpar as folhas. Assim, eu seguro o ancinho de tal modo que possa estar contente e sólido durante o tempo de usar o ancinho. E todo movimento que faço, quero fazê-lo como um ato de iluminação, um ato de alegria, um ato de paz, assim eu não tenho pressa, porque vejo que o ato de limpar é tão maravilhoso quanto ter um caminho limpo. Eu não estaria satisfeito com menos do que isso. Todo golpe que eu dou deve trazer alegria, solidez e liberdade para mim. Devo ser completamente eu mesmo durante o ato de limpar as folhas, e limpar as folhas, deste modo não será mais um meio para se chegar a um fim chamado "ter um caminho limpo".

E você não precisa esperar por muito tempo; se puder dar um golpe assim, um movimento assim, investindo completamente você mesmo no ato de limpar as folhas, então imediatamente será recompensado. Essa é uma obra de arte perfeita que você faz porque cada movimento é uma obra de arte.

O mesmo é verdade quando você pratica a caminhada. Cada passo que dá deveria ser uma obra de arte perfeita, cada passo pode lhe trazer solidez, soberania, pois você não caminha como um escravo, caminha como uma pessoa livre. Caminha como um Buda porque quis ser um discípulo, uma filha ou um filho do Iluminado. Você quer ser a sua continuação, eis por que é capaz de dar um passo com soberania, estando completamente no controle si mesmo. Você está completamente presente no aqui e agora, e desfruta daquele passo. Assim, a meditação andando não é chegar ao salão de meditação. Chegar ao salão de meditação é o que você quer, mas você quer mais do que isso, porque alcança o salão de meditação várias vezes ao dia e às vezes dez ou vinte chegadas como esta não fazem nenhuma diferença. Assim, um passo é o bastante para você chegar. Eu cheguei! Com um passo.

Essa é a nossa prática, mas há uma energia de hábito que lhe impede de fazer assim. Você está acostumado a correr por acreditar que a felicidade não é possível aqui e agora, a felicidade só é possível no futuro. Este tipo de convicção, este tipo de energia de hábito tem estado presente por muito tempo, transmitido por muitas gerações de antepassados e vir à Plum Village é ter uma chance de perceber isto; que você é governado por sua energia de hábito, pela tendência de correr todo o tempo. Você não é capaz de estar no aqui e no agora para tocar as maravilhas da vida que estão disponíveis.

Nós temos muitas chances para praticar. Sabemos que lavamos roupas, lavamos pratos, varremos o solo, cuidamos do jardim, há muitas coisas que vocês podem fazer, mas não façam isto do modo como fazem isto no mundo. Façam como uma prática, uma boa prática, e vocês serão recompensados imediatamente, saberão que estão lidando com sua energia de hábito. A energia de hábito nos diz: "rápido, rápido, vá, rápido, rápido, termine logo! O prazo final está próximo!", mas a prática está lhe dizendo o oposto: "não corra, desfrute, o aqui e o agora é a única coisa que você possui, a felicidade não pode ser possível fora do aqui e do agora", assim você tem duas coisas que contradizem uma à outra. Eis por que a palavra "treinamento" significa superar a energia de hábito lentamente e cultivar outra energia de hábito, que é boa. A energia de hábito que você quer cultivar é a capacidade de estar no aqui e agora, e viver todos os momentos de sua vida diária profundamente. Limpe as folhas, desfrute! Faça o café da manhã! Desfrute completamente deste ato de arte culinária. Lave os pratos! Desfrute completamente o ato de lavá-los.

Diariamente no Mosteiro eu lavo os pratos, diariamente eu fervo o arroz e cuido das flores, das plantas, e minha prática é de desfrutar todos os minutos enquanto estou fazendo estas coisas. Sim, escrever um poema é maravilhoso, escrever um artigo é maravilhoso, dar uma palestra de Dharma é maravilhoso, mas é igualmente maravilhoso cuidar do arbusto, cuidar das plantas, lavar os pratos e assim por diante. Por ser muito enriquecedor, muito recompensador, isto pode trazer muita paz, alegria e solidez para você.

Nós sabemos que a felicidade não seria possível se não tivéssemos nenhuma estabilidade e solidez, porque sem o solo da estabilidade e solidez nenhuma paz real, nenhuma felicidade real poderia ser possível. Eis porque aprender a limpar as folhas, aprender a varrer o solo, aprender a lavar os pratos é muito importante. Não diga que a meditação sentada é mais importante ou que a meditação caminhando é mais importante, ou ouvir uma palestra de Dharma é mais importante. Você escuta a palestra de Dharma para poder limpar as folhas. Você escuta a palestra de Dharma para poder lavar os pratos, corretamente e sabendo desfrutar isto.

Em Plum Village nós temos a vantagem de ter muitos irmãos e irmãs que fazem o mesmo e quando vemos um deles praticando nos sentimos apoiados. Eles não fazem nada demais. Eles apenas praticam, não dizem nada a nós; eles simplesmente fazem. E quando nós os vemos agir, temos uma chance de nos voltar para nós mesmos e fazer isto também.

A comunidade de prática é um grande presente, como o raio de sol. Muitos franceses talvez tenham um dia de sol hoje mas talvez porque muitos não tenham a capacidade de habitar no aqui e agora, o raio de sol não significa muito para eles. Mas se você sabe como inspirar e ficar consciente do raio de sol, terá um tipo diferente de sol. O sol existe para você mas não para esses que estão tão ocupados, e que perdem tanto tempo nas suas preocupações, no passado, no futuro. Pressupomos que a lua exista para todos mas há alguns de nós que jamais vêem a lua, nunca obtêm algo da lua, nunca desfrutam a lua.

Nós vivemos juntos em Plum Village durante uma semana, durante um mês ou três meses, durante um ano, e praticamos juntos. Existem alguns de nós que estão bastante contentes, contudo existem alguns de nós que não estão tão contentes; o mesmo ambiente, a mesmo Sangha, a mesma prática e ainda assim recebemos diferentemente o volume de felicidade, paz, estabilidade e alegria. E o que faz esta diferença? A diferença é nossa capacidade de pôr em prática o ensinamento que nos é dado. O Buda foi bastante claro nisto, a vida só está disponível no aqui e agora, com todas suas maravilhas. Se você continuar correndo, estas maravilhas da vida não serão suas. Assim, pare! Sorria ao sol, sorria à lua, sorria para seus irmãos ou irmãs e especialmente, sorria para você.

Reconheça que você está presente. Você precisa ser nutrido pela paz, pela alegria. Você tem se privado destes elementos. É você mesmo que se privou da paz, alegria, nutrição e cura. Agora o Dharma existe para lhe ajudar a parar este curso de vida. Olhe-se, sorria para você, seja amável com você, trate-se com a prática. Aprenda a caminhar, aprenda como respirar e sorrir, aprenda a limpar as folhas no jardim do pátio. É muito importante. O Reino de Deus, a Terra do Buda está aqui mesmo para você tocar.

Se você observou os monges e as monjas, se os observou em Plum Village, notará que enquanto eles caminham não falam, quando falam eles param para falar e escutar, e depois de falar e escutar, eles retornam ao seu andar. Por que eles fazem assim? Porque quando eles falam e escutam, querem investir 100% de si no ato de falar e escutar. Eis porque eles não falam enquanto estão caminhando; eles querem investir 100% de si no ato de andar. Eles querem dar passos reais, passos que podem trazer estabilidade para eles, solidez, liberdade porque sabem que a estabilidade, a solidez é o solo da felicidade, assim eles caminham para ao mesmo tempo cultivar e desfrutar disto.

Eis porque, se você vier a Plum Village e seguir este tipo de exemplo, se unirá à prática. Não falar durante o caminhar não é uma regra porque nós não queremos ser vítimas de regras, não queremos absolutamente nenhuma regra, simplesmente queremos praticar. Se não falamos, é porque queremos praticar. Não é que falar seja um crime. Mas se você falar durante a prática, estará destruindo-a.

Nos ensinamentos do Buda, estar preso a regras é algo que vocês não são encorajados a fazer. Deveríamos olhar para isto como uma prática e não como regras, como os dez preceitos do noviciado que nós temos aqui e que vocês ouviram ontem. Eles não são regras para o noviço. Elas não existem para restringir a liberdade e a felicidade dele. Elas existem para ajudá-lo a levar uma vida de noviço feliz. Porque estes preceitos devem ser considerados como sendo a prática da consciência plena e se vocês praticarem adequadamente preservarão sua liberdade, sua beleza, sua felicidade. Se vocês pensam que estas dez coisas são regras às quais tem que se submeter, tem que se render, vocês não entenderam, vocês não perceberam o sentido real; eis porque o Buda disse: não seja escravo de regras e rituais. Rituais e regras, nós não precisamos deles; precisamos apenas da prática.

Quando entramos no salão de Dharma todo o mundo se levanta e une as palmas. Isso não é uma regra, é a prática. Quando o professor entra no salão, não é afetado pelo respeito que é mostrado a ele. Ele também pratica caminhando, conscientemente, a prática do andar atento é a sua prática. Andar conscientemente é a sua prática, e o levantar-se, respirar e mostrar respeito são as práticas de vocês. Estas duas coisas são igualmente importantes. E se vocês olharem isto como um ritual, estarão errados. Se olharem isto como uma regra, estarão errados, vocês devem ver isto como sua prática, e a boa prática sempre pode ser reconhecida. Quando o professor caminha, ele deveria ser uma pessoa livre, não é afetado pelo orgulho, complexo de arrogância, esta é sua prática. Sua prática é ser respeitoso com o professor, gostar de se levantar desta forma, inspirar, expirar, sorrir e tocar as muitas gerações de professores na história. Quando você está em contato com seu professor, você está em contato com o professor de seu professor, o professor de sua professora, e você está em contato com muitas gerações de professores, está em contato com o Buda, portanto esta é sua prática.

Eis porque você não reclama que deve se levantar muito cedo e que o professor está caminhando muito lentamente. O professor vive a prática dele e você a sua, todo o mundo está usufruindo disto, e você saberá se sua prática está correta ou não. Você sabe por si se a prática o está fazendo feliz, calmo, sólido. Você sabe que o professor cuida da prática dele e você da sua, e nós não deveríamos olhar isto como uma regra ou um ritual, caso contrário, estaremos presos a formas de rituais e regras, e o Buda é contra rituais, meros rituais e regras.

Quando você segura um copo de água e a bebe conscientemente, o ato é tão bonito e se parece com um ritual, certo? Mas aquele que está segurando o copo e está bebendo não tem qualquer intenção de fazer disto um ritual, uma performance. Ele simplesmente gosta de segurar o copo e beber. Mas porque a plena consciência está lá, muito profunda, muito forte, assim o ato se parece um ritual, mas não é ritual, é a prática.

Quando você se curva assim e sente que sua mente e seu corpo estão unidos em concentração, em plena consciência, e sente que está totalmente presente orientado para algo bom, verdadeiro e bonito, a natureza da iluminação, a natureza do despertar em si, você recebe algo, usufrui disto e não pensa nisto como um ritual. Mas se você faz isto como uma máquina e quando vê pessoas simplesmente as imita sem entender, isso é um ritual, é uma coisa ridícula de fazer, completamente vazia. Este tipo de ritual está completamente vazio e nós não deveríamos fazer assim.

Assim em grandes retiros na América Norte temos sempre pessoas novas, às vezes 50 ou 60% das pessoas que se juntam ao retiro são pessoas novas e elas ficam envergonhadas, elas pensam nisto como um ritual, elas não estão confortáveis. Eis porque eu sempre começo dizendo, se curvar ou não se curvar, esta não é a questão! Curvar-se é um ritual, assim não fique preso pelo ritual. Prática. Se você pensar que fazer isto lhe trará concentração, insight e reverência, isso então irá lhe fazer bem, isso o fará feliz e então você fará isto e estará livre de rituais, livre de regras.

Assim os dez preceitos do noviciado são práticas que se direcionam para ajudar o noviço a ser livre, estar contente, ser sólido e se você considerar os preceitos como algo que limita sua liberdade, está errado, estará preso a rituais, será preso a regras e isso é contra o espírito budista.

(Discussão de Dharma ministrada por Thich Nhat Hanh em Plum Village em 5 de dezembro de 1999)
(Transcrito e editado por Carol Fegan, Chan An Cu, Traduzido ao Português por Claudio Miklos)

sábado, 29 de novembro de 2014

Leoni e Herbert Vianna - Canção pra quando você voltar (DVD)

Feliz Continuação

Por Thich Nhat Hanh

“Ouça Shariputra, todos os dharmas são marcados com a vacuidade. Eles não podem ser produzidos nem destruídos.” (Sutra do Coração)

Dharmas aqui, significam coisas. Um ser humano é um dharma. Uma árvore é um dharma. Uma nuvem é um dharma. O brilho do sol é um dharma. Tudo que pode ser concebido é um dharma. Portanto, quando dizemos, “Todos os dharmas são marcados com a vacuidade,” estamos dizendo, tudo tem a vacuidade como sua natureza. E é por isso que tudo pode existir. Há muita alegria nessa declaração. Significa que nada pode nascer, nada pode morrer. Avalokita disse algo extremamente importante.

Em cada dia na nossa vida vemos nascimento e morte. Quando uma pessoa nasce, uma certidão de nascimento é impressa para ele. Depois que morre, de forma a enterrá-lo, um certificado de óbito é feito. Essas certidões confirmam a existência do nascimento e da morte. Mas Avalokita disse, “Não, não há nascimento e morte.” Temos que olhar, mais profundamente de forma a ver se essa declaração é verdadeira.

Qual é a data na qual você nasceu, sua data de nascimento? Antes dessa data, você já existia? Você já estava presente antes de nascer? Deixe-me ajudá-lo. Nascer significa que de nada você se tornou algo. Minha pergunta é, antes de  nascer, você já estava presente?

Suponha que uma galinha está prestes a colocar um ovo. Antes de ela colocá-lo, você acha que o ovo já estava presente? Sim, é claro. Está dentro dela. Você também estava dentro antes que saísse. Isto significa que antes de nascer, você já existia – dentro de sua mãe. O fato é que se algo já está presente, não necessita nascer. Nascer significa que do nada, você se tornou algo. Se você já é algo, qual o sentido de nascer?

Portanto, o chamado, dia do aniversário é na realidade seu dia de Continuação. Na próxima vez que celebrar, pode dizer, “Feliz dia de Continuação.” Acho que podemos ter uma idéia melhor de quando nascemos. Se voltarmos nove meses antes, para o momento da concepção, teremos uma data melhor para colocar em nossa certidão de nascimento. Na China e também no Vietnã, quando nasce, já se considera que você tenha um ano de idade. Portanto dizemos que nosso início se dá no momento da concepção no útero de nossa mãe, e escrevemos essa data na nossa certidão de nascimento.

Mas a questão permanece: Antes mesmo desta data você existia ou não? Se você disser, “Sim”, acho que está correto. Antes da sua concepção, você já estava presente, talvez metade na sua mãe, metade no seu pai. Porque do nada, não podemos nos tornar algo. Você pode citar uma coisa que uma vez tenha sido nada? Uma nuvem? Você acha que uma nuvem pode nascer do nada? Antes de ser uma nuvem, era água, talvez flutuando em um rio. Ela não era um nada. Você concorda?

Não podemos conceber o nascimento do nada. Há apenas continuação. Por favor, olhar ainda mais para trás e você verá que você não apenas existia no seu pai e mãe, mas também nos seus avôs e avós. Ao olhar mais profundamente, posso ver que numa vida anterior eu era uma nuvem. Isto não é poesia, é ciência.

Porque eu digo que numa vida anterior eu era uma nuvem? Porque eu ainda sou uma nuvem. Sem a nuvem, eu não poderia estar aqui. Eu sou a nuvem, eu sou o rio, e o ar neste exato momento, portanto eu sei que no passado eu fui uma nuvem, um rio e o ar. E eu era uma pedra. Eu era os minerais na água. Isto não é uma questão de crença em reencarnação. Esta é a história da vida na Terra. Fomos gás, brilho do sol, água, fungos e plantas. Fomos seres unicelulares. O Buda disse que em suas vidas passadas ele era uma árvore. Ele foi um peixe, Ele foi um cervo. Estas não são coisas supersticiosas. Todos fomos uma nuvem, um cervo, um pássaro, um peixe e continuamos a ser essas coisas, não apenas em vidas passadas.

E não é apenas assim com o nascimento. Nada pode nascer e também nada pode morrer. Isto foi o que Avalokita disse. Você acha que uma nuvem pode morrer? Morrer significa que de algo você se tornou nada. Você acha que podemos transformar alguma coisa em nada? Vamos voltar à nossa folha de papel. Podemos ter a ilusão que para destruir toda a folha tudo o que temos que fazer é acender um fósforo e queimá-la. Mas se queimarmos uma folha de papel, parte dela se tornará fumaça e a fumaça subirá e continuará a existir.

O calor resultante da queima do papel entrará no cosmos e penetrará nas outras coisas, porque o calor é a vida seguinte do papel. A cinza que é formada se tornará parte do solo e a folha de papel, na sua vida seguinte, poderá ser uma nuvem e uma rosa ao mesmo tempo. Temos que ser muito cuidadosos e atentos de forma a perceber que esta folha de papel nunca nasceu e nunca morrerá. Ela pode passar a ser outras formas de vida, mas não somos capazes de transformar uma folha de papel em nada.

Tudo é assim, mesmo você e eu. Não somos sujeitos ao nascimento e morte. Um mestre Zen poderia dar a seu aluno um tema de meditação como esse, “Como era seu rosto antes que seus pais nascessem?” Este é um convite para ir em uma viagem de forma a se reconhecer. Se você fizer bem feito, poderá ver suas vidas passadas assim como as vidas futuras.

Lembre-se, por favor, que não estamos falando sobre filosofia, estamos falando da realidade. Olhe para a sua mão e se pergunte, “Desde quando minha mão tem estado por aí?” Se eu olhar profundamente para minha mão, poderei ver que ela tem estado por aí há um longo tempo, mais de 300.000 anos. Vejo muitas gerações de ancestrais nela, não apenas no passado mas no momento presente, ainda vivas. Eu sou apenas uma continuação. Eu nunca morri nenhuma vez. Se eu tivesse morrido uma vez ao menos, como minha mão ainda estaria aqui?

O cientista francês Lavoisier disse, “Nada é criado e nada é destruído.” Isto é o mesmo que está no Sutra do Coração. Mesmo os melhores cientistas contemporâneos não podem reduzir algo como uma partícula de poeira ou um elétron a nada. Uma forma de energia pode apenas se tornar outra forma de energia. Uma coisa nunca pode se tornar nada e isso inclui uma partícula de poeira.

Usualmente dizemos que humanos vêm do pó e voltaremos ao pó e isto não soa muito alegre. Não queremos retornar ao pó. Há uma discriminação aqui achando que humanos valem mais e que a poeira não tem valor nenhum. Mas cientistas não sabem ao menos o que é um grão de poeira! Ainda é um mistério. Imagine um átomo desse grão de poeira, com elétrons viajando em torno do núcleo a 180.000 milhas por segundo. É muito excitante. Voltar a ser um grão de poeira será uma aventura muito excitante!

Às vezes temos a impressão que entendemos o que é um grão de poeira. Até mesmo fingimos que entendemos um ser humano – um ser humano que dizemos que voltará a ser um grão de poeira. Como vivemos com uma pessoa por 20 ou 30 anos, temos a impressão que sabemos tudo sobre ela. Portanto, ao dirigir o carro com a pessoa ao nosso lado, pensamos em outras coisas. Não estamos mais interessados nela. Que arrogância! A pessoa sentada ali ao nosso lado é realmente um mistério! Apenas temos a impressão que a conhecemos, mas não sabemos nada ainda.

Se olharmos com os olhos de Avalokita, veremos que mesmo um fio de cabelo da pessoa é o cosmos inteiro. Um fio de cabelo na sua cabeça pode ser uma porta se abrindo para a realidade última. Um grão de poeira pode ser o Reino dos Céus, a Terra Pura. Quando você vir que você, o grão de poeira e todas as coisas intersão, você entenderá que as coisas são dessa forma. Precisamos ser humildes. “Dizer que não sabe é o começo do conhecimento”, é um provérbio chinês.

Um outono, eu estava em um parque, absorvido na contemplação de uma  bonita folha muito pequena, na forma de coração. Sua cor era quase vermelha, e estava por pouco pendurada no galho, quase pronta para cair. Eu fiquei um bom tempo com ela e perguntei à folha muitas questões. Eu descobri que a folha tinha sido uma mãe para a árvore. Usualmente pensamos que a árvore é a mãe da folha. A seiva que as raízes captam é apenas água e minerais, e não é boa o suficiente para nutrir a árvore, portanto a árvore distribui a seiva para as folhas. E as folhas assumem a responsabilidade de transformar a seiva bruta na seiva elaborada e com a ajuda do sol e gás, a devolvem de forma a nutrir a árvore. Portanto as folhas são também a mãe da árvore. E como a folha é ligada à árvore por um talo, a comunicação entre elas é fácil de ver.

Não temos mais um talo nos ligando à nossa mãe, mas quando estávamos no seu útero tínhamos um longo talo, um cordão umbilical. O oxigênio e os nutrientes que precisávamos vinham para nós através desse talo. Infelizmente, no dia que chamamos de dia do aniversário, ele foi cortado e recebemos a ilusão que éramos independentes. Isto é um erro. Continuamos a depender de nossa mãe por um longo tempo, e temos muitas outras mães também. A Terra é nossa mãe. Temos muitos grandes talos nos ligando à nossa mãe Terra.

Há um talo nos ligando com a nuvem. Se não houvesse nuvem, não haveria água para bebermos. Somos feitos de pelo menos setenta porcento de água e o talo entre a nuvem e nós está realmente presente. Há também a mesma situação com o rio, a floresta, o lenhador e o fazendeiro. Há centenas de milhares de talos nos ligando a tudo no cosmos de forma que possamos existir. Você vê a ligação entre você e eu? Se você não estiver aí, eu não estaria aqui. Isto é certo. Se você não vê isso ainda, olhe mais profundamente e tenho certeza que verá. Como disse, não é filosofia. Você realmente tem que ver.

Eu perguntei para a folha se ela tinha medo porque era outono e as outras folhas estavamm caindo. A folha me disse, “Não. Durante toda a primavera e verão eu estava viva. Trabalhei duro e ajudei a nutrir a árvore, e muito de mim está na árvore. Por favor, não diga que eu sou apenas esta forma, porque a forma da folha é apenas uma pequena parte de mim. Eu sou a árvore inteira. Sei que já estou dentro da árvore e quando eu for de volta ao solo, continuarei a nutrir a árvore. É por isso que não me preocupo. Assim que eu deixar o galho e flutuar ao solo, acenarei para a árvore e direi a ela, `Te verei novamente em muito em breve`” .

Logo eu vi um tipo de sabedoria muito parecido com a contida no Sutra do Coração. Você tem que ver a vida. Não deveria dizer a vida da folha, deveria apenas falar na vida na folha, na vida na árvore. Minha vida é apenas Vida, e você pode vê-la em mim e na árvore. Naquele dia havia um vento soprando e depois de um tempo via a folha deixar o galho e flutuar para o solo, dançando alegremente, porque enquanto flutuava olhava para si mesmo já na árvore. Ela estava muito feliz. Curvei minha cabeça e sabia que havia muito a aprender da folha porque ela não tinha medo – ela sabia que nada pode nascer e nada pode morrer.

(...) Amanhã eu continuarei a ser. Mas você terá que ser muito atencioso para me ver. Eu serei uma flor ou uma folha. Eu estarei nessas formas e direi alô para você. Se você tiver atenção suficiente me reconhecerá e poderá me cumprimentar. Eu ficarei muito feliz.

(Do livro “The heart of undestanding” – Thich Nhat Hanh)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)
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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Aulas NAMU: Monja Coen ensina a meditação zen-budista

Treinamentos - Ética e Espiritualidade

A ética e espiritualidade estão conectadas

Recentemente, fui entrevistado por um teólogo cristão que me perguntou: "Como podemos tornar realidade uma espiritualidade global?" Mas a espiritualidade não pode ser separada da ética. É preciso haver uma relação entre o espiritual e o ético. Se praticarmos os Cinco Treinamentos da Plena Atenção, teremos uma prática que é ao mesmo tempo espiritual e ética e que pode nos guiar coletivamente em direção a uma forma de vida mais sustentável.

Há uma ligação profunda entre o ético e o espiritual. Se você não pode ver o espiritual na formação ética, a sua ética pode estar vazia. Você pode estar fazendo as coisas sem saber o porquê e pode não haver nenhuma alegria em suas ações. Por exemplo, inspirado pelo Quinto Treinamento de Plena Atenção, você pode decidir não mais beber álcool ou usar drogas. Mas se você se ressente do Treinamento e sofre com isso, porque ainda quer beber álcool ou usar drogas, a ética que você segue é vazia, porque realmente não vê o valor nela.

Os Treinamentos da Plena Atenção são baseados em discernimento e amor e não em proibição e recusa. Isto é válido para qualquer um dos treinamentos. Se você é vegetariano porque acha que deveria ser, mas deseja que pudesse comer carne, então você não está realmente seguindo os treinamentos. Mas se você sentir que tem sorte de ser capaz de comer principalmente verduras e legumes e não causar sofrimento a outros seres vivos, então há alegria, compreensão, compaixão e espiritualidade em sua alimentação. Comer se torna uma coisa muito espiritual. Não há nenhuma barreira que divida o ético e o espiritual.

Os Cinco Treinamentos da Plena Atenção não contém dogma, religião ou sectarismo. Cada um de nós pode usar os treinamentos como princípios éticos práticos para a nossa vida, sem ser parte de qualquer fé ou tradição particular. Você pode ser apenas você mesmo ao tentar fazer sua vida bonita, seguindo a sabedoria desses treinamentos. Os Cinco Treinamentos são, para cada um de nós, o resultado do nosso próprio olhar profundo e do olhar profundo coletivo.

O objetivo dos treinamentos não é segui-los perfeitamente e, em seguida, se sentir superior porque os seguimos. Os treinamentos são um guia; não é possível praticá-los tão perfeitamente que evite qualquer sofrimento para todos. Por exemplo, não é possível evitar a matança. O cultivo de hortaliças, a purificação da água que bebemos e outras atividades humanas necessárias causam a morte de pequenos seres vivos. Os vegetais também são seres vivos. Comparado com o sofrimento dos animais, parece que o sofrimento das plantas é menor; mas não significa que não haja sofrimento. Nós não podemos abolir o sofrimento por completo, mas vamos tentar reduzi-lo. Podemos tentar reduzir o sofrimento um pouco de cada vez, todos os dias.

Os Cinco Treinamentos existem para serem estudados, aprendidos, recitados e praticados para que possamos aprofundar as nossas experiências e compreensão, e para que possamos compartilhar isso com outras pessoas. Se fizermos isso como uma grande comunidade, nossa visão vai crescer e isso vai beneficiar muitas pessoas. Se durante a prática dos Cinco Treinamentos você sentir que sua compaixão e bondade amorosa tornaram-se maiores, que o seu entendimento tem crescido, que você pode compartilhar o seu conhecimento e fazer as coisas melhores, então você estará no caminho certo.

Nossa ética deve ser uma ética sem dogmas, sem pontos de vista. Ninguém impõe os treinamentos sobre nós, ninguém está nos pedindo para praticar. Nós mesmos podemos ver com base em nosso próprio insight e experiência que o nosso caminho é de alegria, compaixão e amor. Os Cinco Treinamentos incluem a prática de não sermos capturados em uma forma dualista de ver as coisas.

O dualismo é a visão de que o bem e o mal, o sagrado e o profano, a felicidade e o sofrimento se opõem uns aos outros e que é só por destruir o mal que temos o bem e destruindo o profano que temos o sagrado. De acordo com a visão da interexistência, o bem e o mal intersão. Bem é uma maneira hábil de lidar com o mal e que leva à sua transformação. Não lutamos contra. O bem e o mal são orgânicos e estão presentes juntos. Essa percepção é a única maneira de podermos remover todas as discriminações e medo. É o fundamento da prática dos treinamentos. Em seguida, os treinamentos, muito naturalmente, tornam-se a forma como vivemos e a fonte de nossa felicidade.

No Budismo existe a noção de karma, que significa ação. Isso inclui o ato de pensar, o ato de falar, e o ato de realizar a ação física. Cada pensamento que você produz é a sua continuação. Cada palavra que você fala é a sua continuação. Tudo que você faz com o seu corpo é o seu prosseguimento. Até nossos pensamentos são um tipo de energia que produzimos. Nós produzimos energia da mesma forma que uma nuvem produz chuva. A chuva é uma ação realizada pela nuvem; a nuvem é transformada na chuva. Somos muito parecidos com a nuvem. Assim como a nuvem produz chuva, nós produzimos pensamentos, palavras e ações que nos continuam para sempre. Quando este corpo se desintegrar, você continuará para sempre pelo seu karma.

Você não precisa esperar a desintegração do seu corpo para renascer em novas formas de vida. Uma nuvem não precisa desaparecer completamente, a fim de se tornar a chuva. É maravilhoso ser uma nuvem flutuante, mas também é muito maravilhoso ser a chuva caindo. Quando eu olho em volta de mim, me vejo em muitas direções. Eu já estou reencarnado em muitas formas. Se você acha que eu estou apenas aqui neste corpo, isto é uma visão errada; você realmente não tem me visto. Nós somos mais do que aquilo que podemos ver. Nós produzimos muitos pensamentos, palavras e ações que nos continuam um pouco por toda parte.

Com a prática dos Cinco Treinamentos, podemos assegurar que a nossa continuação estará contribuindo para um mundo mais sustentável e pacífico. Os Treinamentos não são só para a nossa própria sobrevivência, mas para a sobrevivência das futuras gerações e do planeta, hoje e depois de nossos corpos sumirem.

Nós podemos começar a praticar a qualquer momento. Ontem, nós podemos ter produzido um pensamento cruel. Hoje, nós podemos produzir outro pensamento que pode modificar e transformar o pensamento produzido ontem. Tão logo o pensamento de hoje de compreensão e compaixão seja produzido, pode contrabalançar o pensamento de ontem. Com atenção plena, temos a liberdade de mudar a nós mesmos e ajudar a mudar o mundo. A prática dos Cinco Treinamentos não é apenas um caminho individual, mas parte de uma ética global maior que pode mudar a direção que estamos indo atualmente como pessoas e como um planeta. Os Treinamentos estão lá para todos nós, aonde quer que vivamos, quaisquer que sejam as nossas tradições culturais e espirituais. Se cada um de nós puder praticar estes treinamentos, individualmente e em conjunto, vamos nos encontrar de mãos dadas, percorrendo o caminho juntos em direção a um futuro sustentável e mais alegre.


(Do livro “The mindfulness survival kit”– Thich Nhat Hanh)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)
Texto extraído em http://sangavirtual.blogspot.com