"Nenhum homem pode pacificar o mundo inteiro, mas cada um pode pacificar a si mesmo." Enio Burgos
A Associação Meditar é uma sociedade civil com personalidade jurídica, sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.
A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.
Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.
A Associação Meditar de Cuiabá se reúne sempre aos Sábados, às 08h00, no Espaço Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.
A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.
Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.
A Associação Meditar de Cuiabá se reúne sempre aos Sábados, às 08h00, no Espaço Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Informe - Encontro de Meditação
Queridos Amigos e Amigas,
informamos que conseguimos agendar uma nova data para vinda Dr. Ênio Burgos, agora no mês de novembro, nos dias 28 e 29. Na sexta-feira, no período noturno; e, no sábado, o dia todo.
Estão todos convidados! Serão dois dias de mente atenta!
Maiores informações e inscrição: (65) 3052-6634.
Dúvidas sobre a prática
Por Thich Nhat Hanh
Pergunta:
Por que praticar a plena consciência é tão importante?
Thich
Nhat Hanh: Todo mundo é capaz de estar atento. Todos são conscientes em certa
medida. A questão é como ser mais consciente. Muitas pessoas se perdem na
preocupação com o futuro e arrependimentos sobre o passado. Eles são apanhados
em seus projetos e fantasias e suas mentes não estão ligadas a seus corpos. Se
o corpo não está unido com a mente, não estamos realmente vivos. O andar atento
e o respirar conscientemente ajudam a trazer a mente de volta para o corpo,
para que possamos estar verdadeiramente presente no aqui e agora e nos
tornarmos realmente vivos.
Praticar
a consciência pode ser uma espécie de ressurreição, de repente, você se torna
vivo novamente. Plena consciência (mindfulness) aumenta a concentração e
permite-nos ver as coisas mais profundamente e deixamos de ser vítimas de
percepções erradas. Nós vamos criar menos sofrimento para nós e para outras
pessoas. Vamos começar a saborear a alegria de viver e ajudar os outros a
desfrutar de suas vidas diárias. Não podemos forçar as pessoas a praticar a
atenção plena, mas se praticarmos e nos tornarmos felizes, poderemos inspirar
outras pessoas para a prática.
P:
Um dos termos mais usados em ensinamentos budistas é "olhar
profundamente." O que significa olhar profundamente?
Thay:
Olhar profundamente significa estar profundamente consciente do objeto de nossa
concentração. Nós usamos a energia da consciência para abraçar o objeto e nos
concentrarmos nele. Podemos usar não só os nossos olhos, mas também os nossos
ouvidos para olhar profundamente. Olhar e escutar em profundidade são
essencialmente a mesma coisa. Nós podemos ouvir a nós mesmos e aos outros com
os nossos ouvidos e isso vai resultar numa melhor compreensão e discernimento.
Todos nós temos olhos e ouvidos, mas sem a energia da consciência para
capacitá-los, não poderemos praticar o olhar e o ouvir em profundidade Podemos
olhar profundamente, mesmo com nossos olhos e ouvidos fechados. Para olhar profundamente
a natureza da nossa inspiração, nós não precisamos de olhos ou ouvidos; quando
plena consciência (mindfulness) está presente na nossa consciência
mental, ela faz o trabalho de olhar profundamente.
Às
vezes podemos até usar o pensamento. Em muitos casos, o pensamento pode nos
desviar do caminho e podemos nos perder. Mas se soubermos lidar com nossos
pensamentos, ele pode nos ajudar a ver mais profundamente. Todos nós já tivemos
a experiência de ler algo e nos enganarmos a nós mesmos ou ter a ilusão de que
havíamos entendido. Mas, ao relê-lo ou referindo-nos a aquilo, descobrimos que
não absorvemos ou entendemos realmente.
A
mesma coisa é verdadeira ao olhar profundamente. Podemos pensar que é fácil
perceber que uma flor é impermanente. Nós aceitamos a impermanência da flor.
Mas não é através do uso de seu intelecto que você toca na raiz da
impermanência. Você tem que tocar a natureza da impermanência de uma forma
profunda, a fim de ir além de sua noção de impermanência e também da raiz dessa
noção. Este é o núcleo da prática chamada de meditação de insight ou olhar
profundamente (vipashyana). A fim de fazer isso com sucesso, você deve
cultivar a sua atenção e concentração, que são os poderes que lhe permitem
aprofundar a natureza das coisas.
P.
Eu venho praticando sozinho por muitos anos, mas eu continuo a achar que é
difícil estar atento. Eu posso manter a concentração por algumas semanas, mas
minha mente é facilmente agitada e algo vem sempre para me distrair. Quais são
seus pensamentos sobre isso?
Thay:
É porque nossas mentes são agitadas que temos que praticar. Todos os
praticantes têm os seus altos e baixos. Isso é natural. Mas se você tem uma
comunidade de companheiros praticantes, a Sangha, para se refugiar, você será
apoiado nestes momentos em que você se sente por baixo. A Sangha vai
encorajá-lo e ajustá-lo em seu caminho.
Refugiar-se
na Sangha é uma tarefa crítica. Sem uma Sangha, não podemos continuar nossa
prática por muito tempo. Se você deixou sua Sangha, tem que voltar imediatamente.
Se você não esteve em contato com uma Sangha, tente o seu melhor para encontrar
uma. Todos nós podemos construir Sanghas onde quer que estejamos. Pessoas em
todos os lugares precisam de estabilidade, calma e atenção. O obstáculo pode
ser que queiramos usar termos budistas. Há muitas pessoas que querem apenas
sentar e não fazer nada, tornarem-se pacíficas e calmas, estarem atentas a cada
momento de suas vidas diárias.
Se
necessário, você pode abster-se de usar termos budistas, basta incorporar o Dharma
em sua vida consciente, ter frescor e ser comunicativo. Se você usar uma
linguagem budista, no início, você vai afastar as pessoas e não vai ser bem
sucedido. Ouça as pessoas profundamente, usando o discurso amoroso. Então você
vai fazer amigos. Você também pode ter árvores, rios e rochas como os membros
de sua Sangha. O ar que você respira é um elemento de sua Sangha. O caminho que
você usar para a meditação andando é um elemento de sua Sangha. As pessoas não
precisam se ajoelhar e receber os Cinco Treinamentos de Consciência, a fim de
ser membros de sua Sangha. A criança com quem você fala, o vizinho com quem
você faz amizade podem ser membros de sua Sangha. Todo mundo que você encontra,
todos com quem você faz negócios, podem ser um membro de sua Sangha.
Apenas
ter um grupo de pessoas para conversar, para se conectar, pode ser uma espécie
de Sangha. Você não tem que usar a palavra "Sangha". Se convidar as
pessoas para o chá, não diga: "Vamos ter a meditação do chá." Diga:
"Vamos tomar um chá em paz e estar cientes de que temos algum tempo para
passar juntos, apreciando o nosso chá e nossa união." Se você aprender a
usar esse tipo de linguagem, em breve vai ser capaz de construir uma Sangha.
P:
É muito difícil para mim relaxar. Sou inquieto e tenho dificuldade de ficar
parado quando medito. Como posso me tornar menos agitado?
Thay:
Muitos de nós têm uma forte energia nos empurrando para seguir em frente. É por
isso que são oferecidas as práticas de sentar, andar, comer e respirar.
Enquanto comemos, aproveitamos cada pedaço de comida que mastigamos. Se formos
bem sucedidos com a primeira mordida, pode ser que sejamos bem sucedidos com a
segunda e a terceira. A prática da alimentação nos ajuda a relaxar. A prática
da caminhada também nos ajuda a relaxar. Se você sente que não pode relaxar,
pratique a meditação andando, dando um passo de cada vez. Se você puder dar um
passo que traz solidez e descanso, então você poderá dar um outro passo.
Se
estiver agitado ou inquieto e não sabe como lidar com essa energia, você deve
reconhecer e nomear essa energia como "inquietude" ou
"agitação". Inspirando, você diz: "Eu te conheço, energia de
inquietação." Use sua inspiração e expiração para reconhecê-la e sorrir
para ela. Tenha fé na prática. Comece com um pedaço de comida, uma inspiração e
um passo. Tudo o que você estiver fazendo, esfregando o chão ou dando um passo,
respire e recupere a liberdade para se tornar você mesmo. Então você não será
mais uma vítima da energia da inquietação.
P.
Como podemos aprofundar a nossa prática?
Thay:
Aprofundar a nossa prática significa ter uma prática genuína, praticando não
apenas na forma. Quando sua prática é genuína, ela vai trazer alegria, paz e
estabilidade para você mesmo e para as pessoas ao seu redor. Eu prefiro a expressão
"verdadeira prática." Para mim, a prática deve ser agradável. A
verdadeira prática pode trazer-nos a vida de imediato. Ao praticar a respiração
consciente, você se torna vivo, se torna real e não apenas quando você sentar
ou andar, mas quando está preparando o café da manhã ou realizando qualquer
atividade. Se você sabe como inspirar e expirar conscientemente ao preparar o
café da manhã com um sorriso, vai cultivar a vivacidade, a alegria e a
compaixão e a liberdade de pensar sobre o passado ou de se preocupar com o
futuro. Isso é a verdadeira prática, e seu efeito pode ser visto imediatamente.
P:
Eu fico ocupado desde o início da manhã até tarde da noite. Eu raramente estou
sozinho. Onde posso encontrar um tempo e lugar para contemplar em silêncio?
Thay:
O silêncio é algo que vem de seu coração, não de fora. O silêncio não
significa deixar de falar e não fazer as coisas, significa que você não está
perturbado por dentro, não existe fala dentro de você. Se você é realmente
silencioso, então não importa em que situação se encontre, poderá desfrutar do
silêncio. Há momentos em que você acha que está em silêncio e tudo está em
silêncio, mas a fala está acontecendo o tempo todo dentro de sua cabeça. Isso
não é silêncio.
A
prática é encontrar o silêncio em todas as suas atividades. Vamos mudar a nossa
maneira de pensar e a nossa maneira de olhar. Temos de perceber que o silêncio
vem do nosso coração e não da ausência de conversa. Sentar-se para comer o seu
almoço pode ser uma oportunidade para que você possa desfrutar de silêncio,
embora os outros possam estar falando, é possível que você seja muito
silencioso por dentro. O Buda foi cercado por milhares de monges. Embora
andasse, sentasse e comesse entre os monges e as monjas, ele sempre habitou em seu
silêncio. O Buda deixou bem claro que, ficar sozinho, ficar quieto, não
significa que ter que ir para a floresta. Você pode viver na Sangha, pode estar
no mercado, mas ainda desfrutar do silêncio e da solidão.
Estar
sozinho não significa que não há ninguém ao seu redor. Estar sozinho significa
que você está firmemente estabelecido no aqui e no agora e se torna consciente
do que está acontecendo no momento presente. Você usa sua consciência para
tornar-se consciente de cada sentimento, cada percepção que você tem. Está
ciente do que está acontecendo ao seu redor na Sangha, mas você está sempre com
você, e não se perde. Essa é a definição da prática ideal da solidão do Buda:
não ser capturado pelo passado ou levado pelo futuro, mas sempre estar aqui,
com corpo e mente unidos, conscientes do que está acontecendo no momento
presente. Essa é a solidão real.
(Do
livro de Thich Nhat Hanh - "Answers from the heart” - Tradução Leonardo
Dobbin)
Extraído do blog: http://sangavirtual.blogspot.com
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Informe - Retiro da Primavera (cancelado)
Queridos amigos, irmãos e irmãs,
infelizmente teremos de remarcar nosso encontro com o amigo Dr. Ênio Burgos. Assim que tivermos nova data para o retiro urbano, divulgaremos por meio do blog e facebook. Fiquem atentos!
Muita paz a todos.
Mãos unidas, sempre.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Retiro com Ênio Burgos - 13 e 14 de Setembro
Boa tarde amigos (as),
é com imensa alegria que informamos que nos dias 13 e 14 de setembro receberemos a visita do querido amigo Dr. Ênio Burgos, que nos conduzirá em dois dias de mente atenta.
Nosso "retiro" urbano será no Espaço Ligia Prieto.
Para maiores informações e inscrição, basta entrar contato pelo telefone abaixo.
(65) 3052-6634 - Ligia.
Muita paz.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Livro do Mês
Obra-prima
da literatura universal e um dos livros mais lidos de todos os tempos, o
Dhammapada é a mais famosa obra clássica do budismo. Na Ásia antiga,
seu texto foi preservado na memória dos monges como um longo mantra,
recitado sem dificuldade do início ao fim. Sua beleza simples e
profunda, emociona o leitor sensível ao que é elevado e transcendente. A
sabedoria, a força e expressividade dos seus 423 versos tocam
diretamente o coração e são capazes de desarmar o espírito mais
resistente.
Não existe algo como uma “bíblia budista”, pois os ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda, não cabem em um único volume. Reunidos todos juntos, seus discursos ou sutras formariam, na verdade, uma verdadeira biblioteca. Esta versão absolutamente completa do Dhammapada, acrescida, porém, de um extraordinário apêndice sobre “As Quatro Nobres Verdades e O Caminho Óctuplo”, resulta num conjunto tão consistente, harmonioso e essencial dos ensinamentos do Buda que pode ser considerada, certamente, como uma “pequena bíblia budista”. Além de uma leitura ideal para os que desejam conhecer os princípios do budismo, este livro é indispensável aos praticantes e estudantes mais experientes, pois a pesquisa nele contida ilumina e revela diversos aspectos do Dhammapada.
A leitura desta obra monumental da humanidade sevirá a todos os que buscam a paz, o discernimento, a felicidade e uma profunda base de inspiração para suas vidas.
Não existe algo como uma “bíblia budista”, pois os ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda, não cabem em um único volume. Reunidos todos juntos, seus discursos ou sutras formariam, na verdade, uma verdadeira biblioteca. Esta versão absolutamente completa do Dhammapada, acrescida, porém, de um extraordinário apêndice sobre “As Quatro Nobres Verdades e O Caminho Óctuplo”, resulta num conjunto tão consistente, harmonioso e essencial dos ensinamentos do Buda que pode ser considerada, certamente, como uma “pequena bíblia budista”. Além de uma leitura ideal para os que desejam conhecer os princípios do budismo, este livro é indispensável aos praticantes e estudantes mais experientes, pois a pesquisa nele contida ilumina e revela diversos aspectos do Dhammapada.
A leitura desta obra monumental da humanidade sevirá a todos os que buscam a paz, o discernimento, a felicidade e uma profunda base de inspiração para suas vidas.
Mais informações: http://bodigaya.com.br/index.php/
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Buda e Mara
Você nunca nasceu
Quando você olha para a folha de papel que está
lendo, pode
pensar que ela não existia antes de ser feita no moinho de papel. Mas há
uma
nuvem flutuando nesta folha de papel. Se não houvesse nuvem, não haveria
chuva
e, portanto, nenhuma árvore poderia crescer para nos dar esse pedaço de
papel.
Mesmo se você não é um poeta, pode ver a nuvem flutuando neste pedaço de
papel
e se você remover a nuvem, o papel entra em colapso. Olhando
profundamente nela, tocando-a profundamente, você pode ver também a
nuvem.
Poderíamos perguntar se este papel existiu antes de nascer?
Ele veio do nada? Não, algo nunca vem do nada. A folha de papel inter-é com o
brilho do sol, com a chuva, com a Terra, com a fábrica de papel, com os
trabalhadores da fábrica, com a comida que eles comem todo dia. Portanto a
natureza do papel é interser. Se você tocar a natureza do papel, toca tudo no
cosmos. Antes do seu nascimento na fábrica, o papel era brilho do sol, era uma
árvore.
Você pode também pensar que quando nasceu, de repente se
tornou algo do nada; de ninguém, de repente se tornou alguém. Mas na verdade, o
momento do seu nascimento no hospital ou em casa foi apenas um momento de
continuação, porque você já existia na sua mãe há nove meses. Isto significa
que sua data na certidão de nascimento não está correta. Você tem que voltar
nove meses para trás.
Portanto agora talvez você acredite que tem a verdade, que o
momento de sua concepção é o momento em que você começou a existir. Mas
deveríamos continuar a olhar profundamente. Antes do momento da concepção, você
era nada, ninguém? Antes disso, metade de você estava no seu pai e a outra
metade na sua mãe, em outra forma. É por isso que mesmo o momento da concepção
é um momento de continuação.
Imagine o oceano com sua multidão de ondas. As ondas são
todas diferentes; algumas são grandes, algumas pequenas, algumas são mais
bonitas que outras. Você pode descrever ondas de muitas maneiras, mas quando
você toca uma onda, está sempre tocando algo mais – água.
Visualize-se como uma onda na superfície do oceano. Assista
enquanto você está sendo criado – você cresce na superfície, permanece um pouco
e então retorna ao oceano. Você sabe que em algum ponto você irá terminar, mas
se você sabe como tocar a base de seu ser – água – todos os seus medos irão
desaparecer. Verá que como onda, divide a vida da água com todas as outras
ondas. Esta é a natureza do interser. Quando você vive apenas a vida de uma
onda e não é capaz de viver a vida da água, sofre muito.
Portanto a realidade é que você nunca nasceu – se você
definir nascimento como se tornar algo de nada, se tornar alguém de ninguém.
Cada momento é um momento de continuação. Você continua a vida sobre novas
formas, isto é tudo.
Quando uma nuvem está prestes a se tornar chuva, não tem
medo, porque embora saiba que ser uma nuvem flutuando no céu é maravilhoso, ser
chuva caindo nos campos ou no oceano é também maravilhoso. É por isso que o
momento que a nuvem se torna chuva não é um momento de morte, mas um momento de
continuação.
Há pessoas que pensam que podem reduzir coisas a nada. Eles
podem eliminar pessoas, podem assassinar alguém como John F. Kennedy, Martin
Luther King Jr. ou Mahatma Gandhi, com a esperança que eles irão desaparecer
para sempre. Mas o fato é que quando você mata alguém, esta pessoa se torna mais
forte que antes. Mesmo esta folha de papel não pode ser reduzida a nada. Você
já viu o que acontece quando colocamos um fósforo aceso em uma folha de papel.
Não pode reduzi-la a nada, ela continua como calor, cinza e fumaça.
Buda e Mara
Quando falamos sobre o que Buda é, temos que falar também
sobre o que Buda não é. O oposto de Buda é Mara. Se Buda é iluminação, então
tem que haver algo que não é iluminação. Mara é a ausência de iluminação. Se o
Buda é entendimento, então Mara é desentendimento, e se o Buda é bondade
amorosa, então Mara é ódio ou raiva e assim por diante. Se não entendermos
Mara, não podemos entender o Buda.
Assim como a rosa é feita de elementos não-rosa, o Buda é
feito de elementos não-Buda, e entre esses elementos está Mara. Se o lixo não
existisse, então a rosa não poderia existir também. Este insight é tão
importante que transformou completamente meu entendimento do Buda.
Quando você olha para uma rosa, pode vê-la como imaculada e
muito bonita. E o oposto da rosa é o lixo, que não é bonito e não cheira muito
bem. Mas se olhar profundamente para a rosa, verá que o lixo está nela, antes dela,
depois dela e também neste momento. Como isso é possível?
Jardineiros não jogam fora o lixo. Eles sabem que com
carinho, em apenas alguns meses, o lixo se tornará composto que pode ser usado
para fazer crescer alfaces, tomates e flores. Jardineiros são capazes de ver
flores ou pepinos no lixo. Além disso, eles sabem que todas as flores se tornam
lixo. Este é o significado da impermanência – todas as flores se tornam lixo.
Embora ele seja fedorento e desagradável, se você sabe como cuidar dele, pode transformá-lo
novamente em flores. Isso é que o Buda descreveu como o modo não dualístico de
ver as coisas. Se olhar as coisas desse modo, entenderá que o lixo é capaz de
se tornar uma flor e a flor é capaz de se tornar lixo.
Cada vez que praticar a plena consciência – quando vive em
plena atenção – você é um Buda. Quando vive no esquecimento, você é Mara. Mas
não pense que Buda e Mara são inimigos e que passam o dia todo lutando entre
si. Não. Eles são amigos. Aqui segue uma história que eu escrevi:
Um dia, o Buda estava em uma caverna, onde estava fresco.
Ananda, seu assistente, estava praticando meditação caminhando perto da
caverna, tentando interceptar as muitas pessoas que sempre vinham visitar o
Buda, de forma que ele não recebesse convidados o dia todo. Neste dia, enquanto
Ananda estava praticando, viu alguém se aproximando. Quando a pessoa chegou
perto, Ananda reconheceu Mara.
Mara tentou o Buda na noite antes dele se tornar iluminado.
Mara disse ao Buda que ele poderia se tornar um homem de grande poder – um
político, um rei, um presidente, um ministro ou um bem sucedido homem de
negócios com dinheiro e lindas mulheres – se ele desistisse de sua prática de
plena consciência. Mara tentou duramente convencer o Buda, mas não funcionou.
Embora Ananda tenha se sentido desconfortável ao ver Mara,
Mara já o tinha visto, portanto não poderia se esconder. Eles se cumprimentaram.
Mara disse: “Eu quero ver o Buda.”
Quando o líder de uma corporação não quer ver alguém, ele
pede para sua secretária dizer: “Desculpe, ele agora está em uma conferência.”
Embora Ananda quisesse dizer algo assim, sabia que estaria mentindo e ele
queria praticar o Quarto Treinamento - não mentir. Portanto ele decidiu dizer o
que estava em seu coração para Mara.
“Mara, porque o Buda deveria vê-lo? Qual o motivo? Você não
lembra que foi derrotado pelo Buda sob a árvore de Bodhi? Como você ousa vê-lo
de novo? Não tem vergonha? Porque ele deveria vê-lo? Você é seu inimigo.”
Mara não foi desencorajado pelas palavras do Venerável
Ananda. Ele apenas riu enquanto ouvia ao jovem. Quando Ananda terminou, Mara
riu e perguntou: “Realmente seu professor diz que tem inimigos?”
Isto fez Ananda ficar muito desconfortável. Não parecia
correto dizer que o Buda tinha inimigos, mas ele disse! O Buda nunca disse que
tinha inimigos. Se você não está concentrando muito profundamente ou plenamente
consciente, pode dizer coisas que são contrárias ao que você sabe e pratica.
Ananda estava confuso. Ele entrou na caverna e anunciou Mara, esperando que seu
professor dissesse, “Diga a ele que não estou em casa!” ou “Diga a ele que
estou em uma conferência.”
Para surpresa de Ananda, o Buda sorriu e disse: “Mara!
Maravilha! Peça a ele para entrar!”
Ananda estava perplexo pela resposta do Buda. Mas ele fez o
que o Buda disse e convidou Mara para entrar. E você sabe o que o Buda fez? Ele
abraçou Mara! Ananda não podia entender isso. Então o Buda convidou Mara para
sentar no melhor lugar da caverna e virando-se para seu amado discípulo disse:
“Ananda, você poderia ir e nos preparar um chá de ervas?”
Como você deve ter adivinhado, Ananda não estava muito feliz
com isso. Fazer chá para o Buda era uma coisa – ele poderia fazer milhares de
vezes ao dia – mas fazer chá para Mara não era algo que ele queria fazer. Mas
como foi o Buda que pediu, ele não poderia recusar.
Buda olhou amavelmente para Mara. “Querido amigo”, ele
disse, “como tem passado? Está tudo bem?”
Mara respondeu: “Não, as coisas não vão bem, elas vão mal.
Estou muito cansado de ser Mara. Quero ser outra pessoa, alguém como você. Onde
quer que você vá é bem vindo e as pessoas te reverenciam. Você tem muitos
monges e monjas com faces amáveis te seguindo e te oferecem bananas, laranjas e
kiwis.”
“Onde quer que eu vá”, Mara continuou, “tenho que vestir a
persona de um demônio – tenho que falar de uma maneira convincente e manter um
exército de pequenos demônios maliciosos. Cada vez que expiro, tenho que
respirar fumaça do meu nariz! Mas eu não ligo muito para essas coisas; o que me
aborrece bastante é que meus discípulos, os pequenos Maras, começaram a falar
sobre transformação e cura. Quando eles falam sobre liberação e budeidade, não
posso suportar. É por isso que eu vim para te pedir se podemos trocar os
papéis. Você pode ser Mara e eu serei Buda.
Quando o Venerável Ananda ouviu, ficou tão aterrorizado que
pensou que seu coração poderia parar. Como ficaria se o Buda decidisse trocar
papéis? Então Ananda seria o assistente de Mara! Ananda esperou que o Buda
recusasse.
O Buda calmamente olhou para Mara e sorriu. “Você acha que é
fácil ser um Buda?” Ele perguntou. “Pessoas estão sempre me entendendo mal,
colocando palavras na minha boca. Eles constroem templos com estátuas minhas
feitas de cobre, gesso, ouro e até mesmo esmeraldas. Grandes multidões me
oferecem bananas, laranjas, doces e outras coisas. Ás vezes sou carregado em
procissão, sentando como um bêbado em cima de flores. Eu não gosto de ser esse
tipo de Buda. Muitas coisas danosas foram feitas em meu nome. Portanto, você
pode ver que ser um Buda é também muito difícil. Ser um professor e ajudar a
prática das pessoas não é uma profissão fácil. Na verdade, eu não penso que
você gostaria muito de ser um Buda. É melhor se ambos continuarmos a fazer o
que estamos fazendo e tentar fazer o nosso melhor.”
Se você estivesse lá com Ananda, e se estivesse plenamente
consciente, poderia ter sentido que Buda e Mara eram amigos. Eles se
complementam como dia e noite, flor e lixo vindo juntos. Este é um profundo
ensinamento do Buda.
Agora você tem uma idéia de que tipo de relação existe entre
Buda e Mara. Buda é como a flor, muito fresca e bonita. Mara é como o lixo –
fedorento, coberto de moscas e desagradável de tocar. Mara não é de forma
nenhuma agradável, mas se você sabe como transformar Mara, Mara se tornará o
Buda. E se você não souber como tomar conta do Buda, ele se tornará Mara.
Olhando as coisas desse modo, sabemos que os elementos
não-rosa, incluindo o lixo, se uniram para tornar a rosa possível. Portanto o
Buda é algo como a rosa. Mas se você olhar profundamente no Buda, verá Mara;
Buda é feito de elementos de Mara. E quando você entende esse ensinamento
budista, pode ver a vacuidade de tudo, porque nada tem sua própria existência
absoluta. Uma rosa é feita de elementos não-rosa, por isso não tem existência
separada; é por isso que é chamada vazia. Uma rosa é vazia de um eu separado,
porque é sempre feita de elementos não rosa.
Interser inclui tudo – não apenas o Buda e Mara, rosas e
lixo – mas também sofrimento e felicidade, bem e mal. Pegue o sofrimento, por
exemplo. Sofrimento é feito de felicidade e felicidade é feita de sofrimento.
Bem é feito do mal, e mal é feito do bem. Direita é feita da esquerda e
esquerda é feita da direita. Isto precisa daquilo para ser.
Removendo isto, aquilo irá desaparecer. O Buda disse, “Isto é
porque aquilo é.” Isto é um ensinamento muito especial do budismo.
Portanto a prática da meditação budista começa com a
aceitação da rosa e do lixo em nós. Quando vemos a rosa em nós, ficamos
felizes, mas estamos conscientes que se não tomarmos cuidado disso,
rapidamente se
tornará um pedaço de lixo. Portanto, aprendemos como tomar conta de
forma que
ficará conosco mais tempo. Quando começa a deteriorar em lixo, não
ficamos com
medo, porque sabemos como transformar o lixo na rosa de novo. Portanto
quando
você testemunhar um sentimento de ansiedade, se você olhar profundamente
para
ele, verá uma semente de felicidade e liberação aí. É assim que a
transformação
acontece.
(Do livro “Under a Rose Apple Tree” – Thich Nhat Hanh –
traduzido por Leonardo Dobbin)
Comente esse texto em http://sangavirtual.blogspot.com
Do que você se alimenta?
Por Thich Nhat Hanh
Os Quatro Nutrientes
O Buda falou dos quarto tipos de nutrientes – alimentos,
impressões sensoriais, volição e consciência. O primeiro tipo, alimento, é o
que você come ou bebe. É responsável por seu bem estar ou mal estar físico e
mental. Diferentes comidas contêm diferentes toxinas e certos tipos de comida
podem ser inapropriadas para seu corpo. É por isso que temos que olhar na
natureza de nosso corpo e da comida que ingerimos para ver se eles são
compatíveis. Inspirando e expirando em plena consciência, perguntamos, “Essa
comida é compatível com meu corpo e minha consciência?” Seguindo a prescrição
da plena consciência você saberá o que consumir.
O primeiro nutriente: alimento
Nos ensinamentos de minha tradição, quando começamos a
comer, meditamos nas Cinco Contemplações. As duas primeiras contemplações são: “Este
alimento é presente de todo Universo, ele veio da terra, do céu, de numerosos
seres vivos e de muito trabalho árduo. Que possamos comê-lo em plena
consciência e com gratidão a fim de sermos dignos de recebê-lo.” Para ser digno
de receber nossa comida, temos que comer em plena consciência. Se não comermos
em plena consciência, não sentiremos gratidão e poderemos estragar nosso corpo
e consciência. Se comermos nossa comida com gratidão e plena consciência, somos
dignos dela.
A terceira contemplação é ser consciente de nossas formações
mentais negativas, especialmente nossa tendência de comer sem moderação. O Buda
sempre lembra a seus discípulos para comer moderadamente. A quarta contemplação
é ver se a comida que você está ingerindo é saudável e manterá seu corpo
saudável. Comida é um tipo de remédio. Deveria ser equilibrada em termos de yin
e yang. Olhando profundamente e em plena consciência para sua comida, você
saberá que tipos de comida pode comer e o que você deve abster de comer. A
quinta contemplação é: “Aceitamos este alimento para que possamos nutrir e
fortalecer nossa Sangha e cultivar nosso ideal de servir a todos os seres.”
Alguns de nós têm um sentimento de vazio, nervosismo e mal-estar
por dentro. Não sabemos como lidar com esses sentimentos desagradáveis, e por
isso há sempre algo na geladeira. Comemos e bebemos para esquecer a dor. Muitos
de nós fazem isso. Os monásticos nos avisam para sempre comermos com nossa
Sangha, a menos que estejamos doentes. Esta prática ajuda muito. Você pode
fazer isso com sua família, que é também sua Sangha. Na hora do jantar, quando
todos os membros da família estiverem sentados em volta da mesa, podemos
praticar as Cinco Contemplações. Podemos convidar as crianças para dizer em voz
alta as Contemplações. Cada um de nós pode olhar profundamente para sua comida
para ver se é apropriada. Deste modo podemos criar uma energia coletiva na
família que nos ajuda a comer apropriadamente e a não contaminar nossos corpos.
O Buda usava a seguinte imagem para ilustrar o primeiro
nutriente. Um casal começou uma viagem através do deserto com seu pequeno
filho. No meio do caminho no deserto, eles perceberam que as provisões tinham
acabado. Eles sabiam que iam morrer antes de terminarem a travessia. Depois de
uma dolorosa discussão, o casal decidiu matar o pequeno menino. Cada dia eles
comeram um pouco da carne do pequeno menino enquanto continuavam a caminhar
pelo deserto. Finalmente, eles conseguiram sair do deserto vivos. O Buda
perguntou aos monges, “Querido amigos, vocês acham que o casal gostou de comer
a carne do próprio filho?” Os monges responderam, “não.” Se não comermos
apropriadamente, se destruirmos a nossa saúde, se comermos e bebermos de tal
modo que seja tirada dos outros seres vivos a chance de viver, então estaremos
comendo a carne de nossos pais e filhos em nós e ao nosso redor.
O segundo nutriente: impressões sensoriais
O segundo tipo de nutriente são as impressões sensoriais.
Consumimos comida através de nossos olhos, nariz, ouvidos e corpo. Quando
dirigimos pela cidade, ouvimos sons, vemos imagens e sentimos odores, todos
estes considerados comida. Quando vemos um filme, estamos consumindo certo tipo
de comida. Muitos dos itens que consumimos contêm toxinas. Um programa de TV ou
novela podem ser altamente tóxicos. As notícias que lemos no jornal podem
trazer toxinas para nossa consciência. Nosso medo, stress e desespero são
nutridos por tais notícias, informações, visões e sons. Propaganda também promete
que se você comprar certo produto será mais feliz. “Felicidade é fácil – apenas
compre isso.” As visões e sons usados para capturar nossa atenção e que nos são
empurrados contêm toxinas. Temos que nos proteger e guardar nossos seis
sentidos contra essas toxinas enquanto dirigimos pela cidade.
O Buda disse que os olhos são um oceano profundo – ele
falava como um poeta – com ondas escondidas e monstros marinhos sob a
superfície. Se você não é plenamente consciente e não sabe como proteger e
guardar as portas dos seus sentidos, afundará no oceano das formas – às vezes
várias vezes ao dia. Com o barco da plena consciência, navegamos através do
oceano das formas e nos seguraremos firmemente para que nosso barco não afunde.
O Buda também disse que o ouvido é um oceano profundo com muitas ondas
escondidas e monstros marinhos. Se você não está plenamente consciente, pode
afundar no oceano dos sons.
Depressão também é nutrida pelas visões e sons. Não acontece
sozinha. É criada e nutrida diariamente pelo nosso modo de consumir. Andando
conscientemente através do aeroporto de Paris, vi muitos anúncios de perfumes
chamados “Samsara”, “Scorpion” (Escorpião) e “Poison” (Veneno). Eles ousam
chamá-los por seus verdadeiros nomes. Sabemos que perfume é um item de consumo
e uma isca. Em uma isca há o anzol, e nos somos os peixes inocentes. Os
produtos são anunciados, tão habilmente e a isca é tão atrativa que com uma
mordida, somos pegos. O que temos para nos defendermos? Nada exceto a nossa
plena consciência.
Plena consciência é o único agente que pode guardar a porta
dos nossos seis sentidos e nos proteger. Os Cinco Treinamentos de Plena
Consciência são insights daqueles que praticam plena consciência. Eles são
prescrições concretas para nossa proteção diária. Se vivermos baseados nos
Cinco Treinamentos nos protegeremos, e também nossas famílias e nossa
sociedade. Os Cinco Treinamentos não foram criados por um deus ou são impostos
a nós. Eles são fruto da nossa visão profunda. Estando conscientes do
sofrimento causado pelo consumo não consciente, estamos determinados a não
consumir itens que tragam toxinas, desarmonia, dor e tristeza para dentro de
nós, destruindo nosso bem-estar físico e mental. Os Cinco Treinamentos não são
um conjunto de regras, mas guias para prática de plena consciência. Precisamos
nos treinar para viver de acordo. Esta é a sabedoria da auto-proteção.
O Buda usou a imagem de uma vaca com doença que destruiu a
maioria da sua pele para representar o segundo tipo de nutriente: impressões
sensoriais. Se a vaca ficar perto de uma parede velha ou árvore velha, todos os
insetos da parede ou árvore sairão e se fixarão no seu corpo e sugarão seu
sangue. Sem plena consciência, as impressões sensoriais a que somos expostos,
nos destruirão um pouco a cada dia e as toxinas penetrarão no nosso corpo e
consciência. Assim como a vaca precisa de uma pele saudável para se proteger,
precisamos da prática da plena consciência para guardar nossos seis sentidos.
O terceiro nutriente: volição
O terceiro tipo de nutriente é a volição – nosso desejo mais
profundo. Este tipo de energia nos empurra para fazermos as coisas em nossa
vida diária. Temos que olhar profundamente para dentro de nós para ver que tipo
de energia motiva nossas ações diárias. Estamos constantemente trabalhando duro
de forma a ir a algum lugar ou fazer algo. Qual é o objetivo deste tipo de atividade?
O terceiro nutriente nos motiva e pode nos trazer muita felicidade ou
sofrimento.
Que tipo de energia Madre Teresa tinha em sua vida diária?
Ela tinha o desejo de ajudar as pessoas pobres, sem recursos, apoio ou
proteção. O desejo de aliviar o sofrimento de muitas pessoas é uma tremenda
fonte de energia. Se você tem a mesma intenção – volição – dentro de você, sua
vida será preenchida com felicidade. Quando compaixão – o desejo de aliviar o
sofrimento dos outros – está dentro de você e te motiva, você pode se
relacionar com as pessoas facilmente e ter uma vida simples. O alívio e
felicidade que você leva para as pessoas pode ser sua recompensa. Quando você pode
fazer uma pessoa sorrir, se sente maravilhoso. Não quer a recompensa, mas ela
chega a você de qualquer forma. Há pessoas cheias de ódio que querem viver de
forma a punir a pessoa que odeiam. Tal pessoa não pode ser feliz por que sua
única intenção e fonte de energia é o ódio. Se estivermos motivados por uma energia
negativa, nossa vida será cheia de sofrimento.
Sidarta Gautama tinha uma fonte vital de energia dentro
dele. É por isso que durante 45 anos ele trabalhou diligentemente e ajudou
muitas pessoas – reis, ministros, mendigos e prostitutas. Ele ajudou a todos
porque era motivado pelo desejo de aliviar o sofrimento deles. Todos nós
precisamos estar conscientes da natureza da nossa fonte de energia, porque ela
determina a qualidade de nossa vida. Se esta energia é somente desejo – por
fama, riqueza ou sexo – então ela nos fará sofrer.
O Buda usou a seguinte imagem para ilustrar o terceiro tipo
de nutriente. Ele descreveu uma pessoa que quer viver e não quer sofrer, mas
que é carregada por dois homens fortes e jogada em uma fogueira. Os dois homens
fortes representam a volição, uma energia que nos empurra em direção ao
sofrimento e morte. Como meditadores, devemos gastar tempo sentando e olhando
para dentro de nós mesmos diariamente para identificar a fonte de energia que
nos está empurrando e a direção em que estamos indo. Devemos ver se nossa
intenção está nos trazendo sofrimento e desespero. Se for assim, devemos
liberá-la e achar outra fonte de energia.
O quarto nutriente: consciência
O quarto tipo de nutriente é a consciência, a base para a
manifestação de nosso corpo, nossos estados mentais e nosso ambiente. A
consciência representa a soma de todas as ações que foram feitas: pensamentos,
falas e atos do corpo. A maturidade da consciência traz a tona a manifestação
do nosso corpo atual, nossos estados mentais atuais, e nosso ambiente atual. A
consciência aqui é descrita em termos da mente iludida, a mente caracterizada
por visões errôneas e aflições que resultam de volições não saudáveis. O sofrimento
dos três reinos (desejo, forma e não forma) é a retribuição de nossas ações que
determina a natureza e qualidade de nossa consciência. Se a consciência se
alimenta de um tipo de comida saudável (Visão Correta, Pensamento Correto,
Plena Consciência Correta, Fala Correta, Concentração Correta, etc.) ela
experimentará transformação e se tornará mente verdadeira, que servirá como
base para manifestação de um corpo saudável, estados mentais felizes e
benéficos e um ambiente são e bonito.
O Buda usou a seguinte imagem para ilustrar o quarto
nutriente. Um criminoso foi preso. O rei deu a ordem de esfaqueá-lo com cem
facadas. O criminoso não morreu. A mesma punição foi repetida ao meio dia e a
tarde. Ainda assim ele não morreu. A punição foi repetida no dia seguinte e no
próximo.
Permitimos que nossa consciência seja alimentada todo dia
com o veneno da ignorância, ganância, fala não benéfica e desejos não
saudáveis. Nossa consciência continua a crescer na direção da mente iludida e
traz a tona muito sofrimento. Poderíamos mudar o alimento de nossa consciência
e ajudá-la a crescer na direção oposta, a direção da mente verdadeira. À luz
dos ensinamentos relativos aos Doze Elos da Origem Interdependente, consciência
resulta da ignorância e dos impulsos não benéficos.
Sabemos que entendimento e compaixão são fontes de energia
que podem trazer às pessoas à nossa volta muita felicidade, de forma que
praticamos o seu cultivo. O Buda disse, “se você olhar para dentro do mal-estar
e identificar a origem do nutriente que o trouxe até você, já estará no caminho
da emancipação.” Você já começou a ser liberado. Precisa apenas de cortar a
fonte desses nutrientes para se libertar deles. Poucas semanas depois, você
notará a diferença. Nada pode sobreviver sem comida; se você cortar a sua
fonte, sua depressão, tristeza ou desespero irão morrer.
Identificando a origem dos nutrientes, você percebe a
Segunda Nobre Verdade: samudaya, a criação do mal-estar. Você sabe que o
oposto de samudaya – bem-estar – é possível. Sabe que para alcançar
bem-estar, precisa cortar a origem dos nutrientes errados e achar os corretos –
Visão Correta, Entendimento Correto, Fala Correta, Modo de Vida Correto,
Concentração Correta e assim por diante. O Nobre Caminho Óctuplo pode trazer
bem-estar e por fim ao mal-estar. O outro caminho é o ignóbil caminho do
consumo sem plena consciência. Das Quatro Nobres Verdades, duas falam do
mal-estar e da sua criação, enquanto que as outras duas falam do bem-estar e o
caminho que leva à restauração. Este é o conteúdo da primeira palestra de
Dharma que o recém iluminado Buda ofereceu a cinco monges em Deer Park.
(Do livro “The Path of Emancipation” – Thich Nhat Hanh –
traduzido por Leonardo Dobbin)
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quinta-feira, 5 de junho de 2014
Não ser enganado pelas palavras e ideias
Por
Tich Nhat Hanh
Mestre
Linji avisava a seus amigos no caminho para que aqueles que sinceramente
estavam tentando viver o Dharma não fossem enganados pelos demônios, as pessoas
carecas vestindo robes de monges, vivendo nos templos e prostrando em frente do
Buda, enquanto ainda desejavam riqueza e ganho pessoal.
As
palavras do século nono são um pouco deferentes daquelas do século vinte e um,
mas têm o mesmo significado. Dizemos: “Seja você mesmo. Não tente ser ninguém
mais. Ser uma pessoa comum já é maravilhoso.”
Prática
não é trabalho duro. Quando trabalhamos duro em alguma coisa, sejam negócios ou
iluminação, então não podemos parar de forma a ver todas as maravilhas da vida
dentro de nós e à nossa volta. O Sutra do Coração (Prajna Paramita) diz isso
claramente: “Sem ganho, sem realização.” Porque você já é o que deseja ser. Não
há nada a se obter. Pare. Não faça nada. Pode parecer que não vamos a nenhum
lugar, mas de fato estamos profundamente no momento presente e somos capazes de
tocar a dimensão última.
Nossa
mente comum já está no caminho. Se nós continuarmos pensando sobre ir lá fora e
achar algo na vizinhança de nossa casa, então já estamos errando. Sabemos quem
o Buda é? Sabemos quem somos? Podemos ter uma idéia sobre nós mesmos, mas nossa
idéia não é ainda quem realmente somos. Não achamos ainda nosso verdadeiro ser.
A
palavra “Buda” é só uma palavra. O mestre Linji disse “Não procure o Buda, Buda
é apenas um termo vazio. Você conhece aquele que está buscando? Os mestres e os
Budas das três eras apenas buscaram o Dharma. No presente você olha para dentro
do Zen e estuda o caminho de forma a buscar o Dharma. Se você perceber o Dharma
então tudo está resolvido. Se você não percebeu isso, continuará a renascer nos
cinco destinos.”
Podemos
pensar que o mestre Linji está dizendo: “Não busque o Buda, ao invés disso
procure o Dharma.” Mas isso também é perigoso porque também temos nomes e
palavras que carregam uma imagem do Dharma e não sua verdadeira natureza.
Dharma é o Dharma da mente. Mente não tem forma, é difundida nas dez direções,
e está manifestando sua atividade bem em frente de nós. O que estamos
procurando é tão diferente da realidade, assim como a terra é do céu. Nossa
mente é como um pintor criando uma versão da realidade.
A
realidade última apenas parece difícil porque logo que tentamos explicá-la, já
estamos discriminando e, portanto perdemos a essência da dimensão última que é
não discriminação. Nossas mentes têm a tendência a discriminar. Nossa mente
divide o mundo entre sujeito e objeto. Eu sou diferente de você, o pai é
diferente do filho, as nuvens são diferentes dos rios.
A
mente é como uma faca afiada que corta a realidade em pedaços separados.
Dizemos: “Eu amo isso, odeio aquilo; gosto disso, desgosto daquilo. Eu amo o
Buda, odeio Mara.” Amamos a beleza, odiamos a feiúra, amamos a vida e odiamos a
morte. Mas morte e vida intersão. Em cada minuto, cada segundo, muitas de nossas
células estão morrendo e muitas outras estão nascendo.
Portanto
morte e nascimento são apenas dois lados da mesma realidade. Quando o
pensamento dualista não está presente, tudo se torna claro. Isto é expresso nas
linhas de um poema atribuído ao Terceiro Patriarca, Sengcan:
O
grande caminho, a verdade absoluta não é difícil.
Apenas
fica difícil porque há discriminação.
Nós
apenas precisamos não amar ou odiar,
Então
naturalmente ele se tornará muito claro.
Palestras
de Dharma não são a verdade. O Dharma verdadeiro existe na mente dos estudantes
como sementes e as palestras de Dharma são apenas como pequenas nuvens que
liberam chuva e fazem com que as sementes nas mentes dos praticantes brotem e
se manifestem. Os professores de Dharma não podem transmitir a verdade mais que
um pai pode transmitir totalmente suas experiências aos filhos. Quanto mais um
pai persiste com o filho, mas ele se torna bloqueado. O melhor que o pai pode
fazer é ser como a nuvem de chuva e nutrir as semente de sabedoria no filho.
Quando o filho crescer e passar por dificuldades e tiver suas próprias
experiências; então a sabedoria que foi regada se manifestará.
Mestre
Linji ensinou: “Eu falo do Dharma da Mente-Terra para ajudar as pessoas a
penetrarem no sagrado e no profano; no puro e no corrupto; na verdade e na
prática estabelecida. Contudo a verdade e a prática estabelecida, o sagrado e o
profano dentro de você não podem ser descritos em termos e conceitos de
sagrado, profano, verdade e convencional. O profano, o sagrado, a verdade e a
prática estabelecida nunca se referem a elas mesmas como profano, sagrado,
convencional e verdadeiro.”
Mesmo
que tenhamos a dimensão última, o comum, o santo e o profano dentro de nós, não
deveríamos usar essas palavras porque sua verdade é algo diferente. Quando
pensamos em Paris, temos uma idéia, uma visão sobre Paris e palavras para
descrever Paris. Mas Paris é muito diferente da visão e das palavras que temos.
Talvez tenhamos ido fazer compras em Paris por alguns dias e por isso pensamos que
a conhecemos. Há aqueles que viveram dez, vinte anos em Paris e não descobriram
toda a verdade sobre a cidade. Não deveríamos confundir a palavra e a idéia com
a verdade.
Se
pudermos agarrar firmemente esta chave, esta essência, então deveríamos
aplicá-la imediatamente na nossa vida diária. Nós somos pobres, mas pensamos
que somos prósperos. Somos escravos, mas pensamos que somos mestres. Somos a
continuação de nossos ancestrais, mas pensamos que estamos sozinhos. Não
deveríamos ser capturados por palavras e terminologias.
Mestre
Linji ensinou: “O Dharma deste monge-montanha é muito diferente do Dharma de
pessoas que estão apegadas ao mundo. Mesmo se Manjushri e Samantabhadra
aparecessem diante de mim nas suas diferentes manifestações e perguntassem
sobre o Dharma, tão logo eles abrissem suas bocas e dissessem “Mestre”, eu iria
ser capaz de farejá-los.”
Ele
está dizendo que pode olhar para alguém e saber quem ele é. Baseado nas
aparências externas, eu não discrimino entre comum e santo. Só porque um monge
tem o nome de Manjushri, o nome do bodisatva da grande sabedoria, não significa
que ele é santo. Apenas porque uma mulher tem um nome comum, eu não penso que
ela não é santa.
Comumente,
mesmo antes das pessoas abrirem suas bocas, discriminamos. Um francês sentando
a nossa frente e imediatamente temos alguma idéia do que significa ser francês.
Não permitimos que a realidade daquela pessoa se revele para nós. Se sabemos
que alguém é um padre católico ou um monge budista, imediatamente temos uma
idéia do que significa essa pessoa. Muitas pessoas se disfarçam como o
Bodisatva Manjushri ou o Bodisatva Samantabhadra. Se nos livramos da
discriminação, então não poderemos ser enganados.
Quando
estudamos budismo, procuramos por um professor e acreditamos que o professor
tem a sabedoria. Temos que acreditar que aquele professor é sagrado e outras
pessoas são comuns de forma que possamos seguir esse professor. O professor
coloca o robe da santidade e acreditamos que imediatamente ele se torna santo.
Este é o lugar que nos mata. É um tipo de morte quando fugimos do comum em
direção ao que pensamos ser sagrado. Nós fugimos de nós mesmos.
Mestre
Linji não podia mais ser enganado porque não mais discriminava entre o sagrado
e o profano. Uma pessoa aparecia diante dele e se a pessoa dissesse ser um
bodisatva ou uma pessoa comum, mestre Linji veria sua natureza verdadeira.
(Traduzido
do livro “Nothing to do Nowhere to go” – Thich Nhat Hanh por Leonardo Dobbin)
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