A Associação Meditar é uma sociedade civil com personalidade jurídica, sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne sempre aos Sábados, às 08h00, no Espaço Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Um Conto

Pelo Monge Ryôtan Tokuda

Havia uma padaria em frente a um templo buddhista. O monge do templo precisou viajar e pediu que o dono da padaria cuidasse do templo, atendesse as visitas etc. Ocorre que chegou um monge viajante à aldeia. Antigamente, os monges viajavam, numa espécie de treinamento monástico, visitando outros monges, mestres e mosteiros. Desafiavam os mais fortes no Dharma e mantinham-se treinando. O recém chegado também praticava assim. Nessas batalhas do Dharma, com perguntas e respostas, quem perdia era obrigado a deixar o templo; quem ganhava podia ficar como responsável. Uma batalha do Dharma era algo muito sério. Não era uma batalha de luta, mas de conhecimento, de experiências, de linguagem.

O monge visitante estava chegando e o dono da padaria, preocupadíssimo, ouvia a sugestão do chefe da aldeia: "Raspe a cabeça, coloque o manto e apenas sente-se diante da parede como se estivesse meditando. Faça como se estivesse em treinamento de silêncio, nada fale, nem escute e nem responda." O dono da padaria se animou: "Ah, é fácil, isso eu posso fazer." Raspou a cabeça, colocou o manto e sentou-se voltado para a parede.

Nisso chegou o monge visitante e começou a fazer perguntas sobre o Dharma. O dono da padaria assumiu um tom grave e fez "Shhh". O monge entendeu, "Ah, ele está fazendo muitos dias de treinamento em silêncio, mas já que estou aqui depois de tão longa caminhada nas montanhas, vou aproveitar e perguntar com gestos, assim ele também pode responder com gestos, sem quebrar o voto de silêncio."

Gesticulando, o monge perguntou, "Como é o seu coração, seu espírito?" O dono da padaria respondeu com um grande gesto para as dez direções, ou seja os quatro pontos cardeais, os quatro pontos médios entre eles, para cima e para baixo: "Meu coração é como o oceano". Veio a segunda pergunta, "Como viver neste mundo?", e o dono da padaria mostrou os cinco dedos da mão, os cinco preceitos: não matar, não roubar, não cometer adultério, não conduzir os outros a erros, não usar intoxicantes. O monge sentiu-se tocado, "Ah, que bonito!" E mostrou três dedos da mão, perguntando, "Onde estão as três jóias, o Buddha, o Dharma, a Sangha?" Ao que o dono da padaria respondeu com o punho, "Não procure longe, está aqui muito perto, perto do olho, está aqui." Impressionado, o monge viajante foi embora.

Vendo isso, o chefe da aldeia correu até o padeiro, "O que aconteceu? Ele foi embora muito impressionado, me conta!" E o dono da padaria explicou, "Aquele monge é muito estúpido. Primeiro, fez um gesto com as mãos, perguntando quanto custava o pão, se o pão da loja era muito pequeno, e eu abri bem os braços, mostrando que meu pão é bem grande. Ele perguntou quanto custam dez pães e eu mostrei-lhe cinco dedos, dizendo cinco moedas, mas ele me mostrou três dedos, pedindo que vendesse por três, e eu pensei, que sem vergonha, e por pouco não lhe acertei um soco no olho!"

Esta é uma história muito engraçada que mostra cada um vendo o que está pensando em sua própria mente, interpretando à sua maneira. [...] O que você vê depende e seu interesse. Aquilo que não lhe interessa, ainda que esteja lá, você não vê. Muitas vezes ocorre o oposto, você vê o que não existe, você cria. Por isso, não confie muito naquilo que esteja vendo. Como podemos ver as coisas verdadeiramente? [...] [A]qui há uma mesa, mas mesa, o que é? Madeira, árvore, pregos e o que mais? Afinal de contas, nada, vazio. Tudo é vazio.

domingo, 16 de setembro de 2012

Informe - Retiro A.Meditar e Visita Monjas de Thay


Prezados Amigos(as) e Irmãos(as) no Darma,
Boa noite.

Devido a coincidência com as eleições, bem como com a visita das Monjas da Comunidade de Thay, em Curitiba (para a qual, com imensa honra, minha presença foi requisitada), peço o favor de, se acharem por bem ajudar-nos, avisarem a todos os seus contatos e possíveis interessados ou pessoas que já haviam efetuados inscrições, que, pedindo desculpas sinceras e apelando, novamente, para sua compreensão, estamos transferindo a data de realização do Retiro da Associação Meditar "Mente Atenta aos Sons e Cores da Primavera" para os dias 20 e 21 de outubro.

Aproveito para divulgar o cartaz que me foi enviado pelo amigo e irmão Vítor Caruso Jr., acerca do evento em Curitiba.

Agradecido do fundo do coração,

Muita paz e sanidade.

Enio Burgos
www;bodigaya.com.br

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Agenda de Atividades

Queridos amigos, irmãos e irmãs,

lembramos a todos que neste final de semana haverá prática de meditação. Destacamos que as atividades são gratuitas e abertas a todos os interessados. Assim, sejam todos bem-vindos, bienvenidos, welcome, namastê, haribool, gasshô!

3ª feira - Meditação e leitura - 20:00

Sábado
- Meditação e leitura - 08:00

Recomendamos roupas leves.

Informações:
(65)3052-6634 - Ligia
(65)8143-4379 - Ivan

EU MAIOR - entrevista com Monja Coen

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Nossa mente distorcida

Por Thich Nhat Hanh              

Buda contou uma estória interessante sobre um mercador que vivia com o filhinho dele. E a mãe do garotinho já não era viva. Portanto o garotinho era muito precioso para o pai. Ele estimava o garotinho, e sentia que não poderia permanecer vivo sem ele – e nós compreendemos isso. Um dia o pai se ausentou numa viagem de negócios. Os bandidos vieram, incendiaram a vila e seqüestraram as crianças, e seqüestraram o garotinho. Então quando o pai chegou a sua casa, ficou desesperado. Ele procurava seu filhinho, mas não conseguia achá-lo em lugar algum. Naquele estado de preocupação e desespero extremados, ele viu o cadáver de uma criança queimada, e tomou como se fosse seu filhinho. Ele acreditou que o seu filho estava morto. Em desespero ele se atirava no chão, batia no peito, puxava os cabelos e se condenava por ter deixado o garotinho sozinho em casa.

Depois de ter chorado por um dia e uma noite, ele se levantou, reuniu o cadáver da criança e organizou uma cerimônia de cremação. Depois, ele pegou as cinzas e as colocou num lindo saquinho de veludo, que ele carregava consigo o tempo todo, porque ele amava tanto o garotinho. Quando você ama muito algo ou alguém, você quer que aquela coisa ou pessoa esteja com você o tempo todo, vinte e quatro horas por dia; e isso nós compreendemos. Agora, porque ele acreditava que o garotinho estava morto e àquelas eram as próprias cinzas dele, ele queria carregar os restos mortais do seu amado com ele. Seja dormindo, comendo ou trabalhando ele sempre mantinha aquele saquinho com ele.

Uma noite, por volta das duas horas da manhã, o filho, que tinha conseguido escapar, conseguiu ir para casa. Ele bateu na porta do seu pai. Você pode imaginar o pobre pai deitado na cama, sem conseguir dormir, ainda chorando com o saco de cinzas.
“Quem está batendo na minha porta?” gritou o pai.
“Sou eu, paizinho, é o seu filho.”
O jovem pai acreditava que isso era alguém tentando enganá-lo, porque ele tinha certeza que seu filho já estava morto. Ele disse, “Vá-se embora, criança perversa. Não perturbe as pessoas a esta hora da noite. Vá pra casa. O meu filho está morto.” E o garoto insistia, mas ele continuava a se recusar a reconhecer que àquele era o seu próprio filho que estava batendo na porta. Finalmente, o garoto teve que ir embora, e o pai lhe perdeu para sempre.

É claro que nós sabemos que o jovem pai não foi muito sensato. Ele deveria ter sido capaz de reconhecer a voz do seu filho. Mas como ele estava aprisionado numa crença, e a mente dele estava coberta de dor, desespero e convicção, ele não foi capaz de reconhecer que era o seu próprio filho batendo à sua porta. Por isso ele se recusou a abri-la, e perdeu o seu filho para sempre.

Às vezes nós tomamos algo como verdadeiro, como a verdade absoluta. Apegamos-nos àquilo; não conseguimos mais liberá-lo. E por isso ficamos emperrados. Mesmo quando a verdade chega pessoalmente batendo a nossa porta, nós recusamos abri-la. Nosso apego às nossas visões é um dos maiores obstáculos a nossa própria felicidade.

Suponha que você está subindo uma escada. Se você chegar ao quarto degrau e acreditar que este é o mais alto, não terá chance alguma de subir até o quinto, que é, de fato, mais alto. A única maneira de você subir mais alto é deixando o quarto para trás.

Um dia, Buda voltou da floresta para casa com uma mão cheia de folhas. Ele olhou para os monges, sorriu e disse, “Queridos amigos, vocês acham que as folhas na minha mão são tão numerosas quanto às folhas na floresta?” E é claro que os monges disseram, “Querido professor, você está segurando somente dez ou doze folhas, e na floresta existem milhões e milhões delas.” E Buda disse, “É verdade, meus amigos, eu tenho muitas idéias, mas eu não lhes digo. Porque o que vocês precisam é trabalhar para a sua própria transformação e cura. Se eu lhes der muitas e muitas idéias, vocês ficam aprisionados nelas, e assim não têm chance alguma de receptar os seus próprios insights.

Então como perceber o mundo sem idéias preconcebidas? Como olhar para o mundo com verdadeira consciência? Existem três naturezas que descrevem como nós percebemos o mundo em graus de consciência variados: parikalpita, paratantra e parinishpana. A primeira natureza é parikalpita, a nossa construção mental coletiva. Nossa tendência é acreditar em um mundo sólido, objetivo. Nós vemos coisas existindo fora uma das outras. Você está do lado de fora de mim, e eu estou do lado de fora de você. O brilho do sol está do lado de fora da folha e a folha não é a nuvem. As coisas estão foras umas das outras. Esta é a maneira como a maioria de nós vê as coisas. Mas o que tocamos, vemos e ouvimos é apenas uma construção mental coletiva. O que a maioria de nós considera a natureza do mundo é apenas a natureza de parikalpita. A pessoa do seu lado diz que vê e ouve a mesma coisa que você. Isso não se dá porque tais coisas são as únicas e objetivas formas de ver o mundo, mas sim porque aquela pessoa está muitíssimo constituída como você e percebe quase a mesma coisa.

Nós sabemos que não vemos apenas com os nossos olhos. Os nossos olhos apenas recebem a imagem que será traduzida na linguagem dos sinais elétricos. Os sons que ouvimos também são recebidos e traduzidos em sinais elétricos. Som, imagem, toque e cheiro, são todos traduzidos em sinais elétricos que a mente consegue receber e processar.

No Sutra do Diamante, Buda disse, “Todos os darmas (seres) se assemelham a um sonho, a objetos mágicos, a bolhas de água, a meras imagens, uma gota de orvalho, um relâmpago...” Aquilo que concebemos como sendo personalidades, pessoas, o que concebemos como sendo entidades, darmas, são apenas construções mentais, evoluindo de várias maneiras, mas todas elas são manifestações vindas da consciência. ** Cientes de que o mundo em que vivemos é parikalpita, nós olhamos profundamente para dentro do mundo da consciência mental e tocamos o segundo tipo de percepção: paratantra.

Paratantra significa “recostando-se um no outro, dependendo um do outro para se manifestar.” Você sozinho não consegue ser você mesmo, você tem que inter-existir com tudo o mais. Olhando para dentro de uma folha, você pode ver a nuvem e o raio do sol; a unidade contém a totalidade. Se retirarmos estes elementos da folha, não restará folha alguma.

Uma flor jamais conseguiria ser ela mesma sozinha. Uma flor conta com muitos elementos que não são flor para poder se manifestar. Se olharmos para a flor e virmos uma entidade separada, nós ainda estamos no reino de parikalpita. Quando olhamos para uma pessoa, como o nosso pai, nossa mãe, nossa irmã, nosso companheiro, se os virmos como um “eu” separado, atma, então ainda estamos no mundo de parikalpita.

Para descobrir a natureza vazia das pessoas e das coisas, você precisa da energia da consciência e da concentração. Você passa o seu dia em estado de plena consciência. Qualquer coisa que você entra em contato com, você olha para aquilo profundamente, e não é mais enganado pela aparência daquilo. Olhando para o sol, você vê o pai, a mãe e os ancestrais, e você vê que o filho não é uma entidade separada. Você se vê como uma continuação – isto é, você ver tudo à luz da interdependência e da interexistência. Tudo está baseado em tudo o mais para se manifestar. Se continuar praticando, a noção de “um” e “muitos” desaparecerá.

O cientista nuclear David Bohm disse que um elétron não é uma entidade em si mesma, mas está constituído de todos os outros elétrons. Esta é uma manifestação da natureza de paratantra, a natureza da interexistência. Não existem entidades separadas, existem somente manifestações que se apóiam umas nas outras para serem possíveis. É como a direita e a esquerda. A direita não é uma entidade separada que pode existir sozinha apenas. Sem a esquerda, a direita não consegue existir. Tudo é assim.

Um dia o Buda disse ao seu querido discípulo Ananda, “Qualquer pessoa que vê a interexistência, vê Buda”. Se tocarmos a natureza da interdependência, tocamos  Buda. Este é um processo de treinamento. Durante o dia, enquanto estiver andando, sentando, comendo, asseando, você pode se treinar a ver as coisas como elas são. Finalmente quando o treino estiver concluído, a natureza de parinishpana, realidade, se revelará inteiramente e o que você toca não mais é um mundo de ilusão, mas o mundo da própria coisa.
                                                                                
Primeiro, nos tornamos cientes de que o mundo dentro do qual vivemos está sendo construído por nós, pela nossa mente, coletivamente. Em segundo lugar, estamos cientes de que se olharmos profundamente, se nós soubermos usar a consciência plena e a concentração, poderemos começar a tocar a natureza da interexistência. E, finalmente, quando a prática da mente atenta tiver se aprofundado, a realidade absoluta da verdadeira natureza, desnuda de noções, conceitos e idéias, até mesmo as idéias da “interexistência” e “inexistência do eu”, pode ser revelada.

Os praticantes espirituais não usam instrumentos de pesquisa sofisticados. Eles usam a sabedoria interior deles, a luminosidade deles. Uma vez que estejamos livres do agarramento, de noções e conceitos, uma vez que estejamos livres do nosso medo e da nossa raiva, então teremos um instrumento muito brilhante com o qual podemos experimentar a realidade como ela é: livre de todas as noções, noções de nascimento e morte, existência e inexistência, vir e ir, igual e diferente. A prática da consciência plena, concentração e sabedoria podem purificar a nossa mente e torná-la um instrumento poderoso com o qual podemos olhar profundamente dentro da natureza da realidade.

No budismo, falamos em pares de opostos, como nascimento e morte, vir e ir, existir e inexistir, igualdade e diversidade. Suponha que você tem uma vela acesa, e sopra até apagar a chama. Ai você acende a vela novamente e faz esta pergunta à chama: “Minha querida chamazinha, você é a mesma chama que se manifestou antes ou você é uma chama totalmente diferente?” E ela dirá: “Eu nem sou a mesma chama, nem sou uma chama diferente.” Nos ensinamentos de Buda, isto é chamado de madhyamaka, o caminho do meio ou caminho intermediário. O caminho do meio é extremamente importante, porque o caminho do meio elimina os extremos, como existir e inexistir, nascimento e morte, vir e ir, igual e diferente. E as descobertas da ciência já comprovam este tipo de visão.

Quando você abre o álbum de família e vê um retrato da criança de cinco anos que você era, você vê que está bem diferente daquele garoto ou garota no álbum. Se a chama fosse lhe perguntar: “Querido amigo, você é o mesmo garotinho do álbum?” você responderia tal como ela lhe respondeu, “Querida chama, eu não sou o mesmo garotinho, mas eu também não sou uma pessoa totalmente diferente.”

(Do livro Buddha Mind, Buddha Body: Walking toward Enlightenment, de Thich Nhat Hanh)
(Tradução para o português: Tâm Vân Lang)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

De onde viemos? Para onde vamos?


Por Thich Nhat Hanh

No meu eremitério na França há um arbusto de japônica, marmelo japonês. O arbusto usualmente floresce na primavera, mas em um inverno que foi muito quente os brotos vieram antes. Durante a noite uma frente fria veio e trouxe com ela gelo. No dia seguinte enquanto fazia meditação caminhando, notei que todos os brotos no arbusto tinham morrido. Reconheci isto e pensei: “Neste ano novo não teremos flores suficientes para decorar o altar do Buda”.

Poucas semanas depois o tempo esquentou novamente. Enquanto andava em meu jardim, vi os novos brotos na japônica manifestando uma outra geração de flores: “Vocês são as mesmas flores que morreram no frio ou são diferentes?” As flores responderam para mim: “Thay, não somos as mesmas nem somos diferentes. Quando as condições são suficientes nos manifestamos e quando as condições não são suficientes nos escondemos. É tão simples quanto isso.”

Isto é o que o Buda ensinou. Quando as condições são suficientes as coisas se manifestam. Quando as condições não são mais suficientes as coisas se retiram. Elas esperam até o momento certo para elas se manifestarem novamente.

Antes de dar a luz a mim, minha mãe havia ficado grávida de outro bebê. Ela o perdeu e aquela pessoa não nasceu. Quando eu era pequeno costumava perguntar: era meu irmão ou era eu? Quem estava tentando se manifestar naquela época? Se um bebê foi perdido significa que as condições não eram suficientes para ele se manifestar e a criança decidiu se retirar de forma a esperar por melhores condições. “É melhor eu me esconder, voltarei em breve, meu querido.” Temos que respeitar sua vontade. Se você vê o mundo com estes olhos, sofrerá muito menos. Foi meu irmão que minha mãe perdeu? Ou talvez eu estava quase por vir mas eu disse: “Não é a hora ainda.” Portanto me retirei.

Nosso grande medo é que quando morrermos nos tornaremos nada. Muitos de nós acreditam que nossa existência inteira é apenas o nosso tempo de vida, começando no momento que nascemos ou fomos concebidos e termina no momento que morremos. Acreditamos que nascemos do nada e que quando morremos nos tornaremos nada. E, portanto, estamos cheios do medo da aniquilação.

O Buda tem um entendimento muito diferente de nossa existência. É o entendimento que nascimento e morte são noções. Elas não são reais. O fato de pensarrmos que são verdadeiras cria uma poderosa ilusão que causa nosso sofrimento. O Buda ensinou que não há nascimento nem morte; não há vinda nem ida; não há igual, e não há diferente; não há eu permanente, não há aniquilação. Apenas achamos que há. Quando entendemos que não podemos ser destruídos, estamos libertos do medo. É um grande alívio. Podemos desfrutar da vida e apreciá-la de uma nova maneira.

O mesmo ocorre quando perdemos nossos entes queridos. Quando as condições não estão certas para suportar a vida, eles se retiram. Quando perdi minha mãe, sofri muito. Quando temos apenas 7 ou 8 anos de idade é difícil pensar que um dia perderemos nossa mãe. Ao final crescemos e todos perderemos nossas mães, mas se soubermos como praticar, quando a hora da separação chegar você não sofrerá muito. Rapidamente você perceberá que sua mãe está sempre viva dentro de você.

No dia que minha mãe faleceu, escrevi no meu diário. “Um sério infortúnio da minha vida chegou.” Sofri por mais de um ano depois de sua passagem. Mas uma noite, nas terras altas do Vietnã, estava dormindo na cabana de meu eremitério. Sonhei com minha mãe. Vi-me sentado com ela e estávamos tendo uma conversa maravilhosa. Ela parecia jovem e bonita, seu cabelo esvoaçante. Era muito prazeroso sentar lá e conversar com ela como se nunca tivesse morrido.

Quando acordei eram duas da manhã e eu senti fortemente que nunca havia perdido minha mãe. A impressão que ela estava ainda em mim era muito clara. Entendi então que a idéia de tê-la perdido era apenas uma idéia. Era óbvio naquele momento que minha mãe estava viva em mim.

Abri a porta e sai. Toda a colina estava banhada pela luz da lua. Era uma colina coberta com plantações de chá, e minha cabana estava localizada atrás do templo, no meio da colina. Andando devagar na luz da lua através da plantação, percebi que minha mãe estava ainda em mim. Ela era a luz da lua me acariciando assim como fazia frequentemente, muito carinhosa, muito doce...maravilhosa!

Cada vez que meus pés tocavam a terra, sabia que minha mãe estava lá comigo. Sabia que este corpo não era só meu, mas uma continuação viva da minha mãe e do meu pai e dos meus avós. Todos os meus ancestrais. Estes pés que eu via como meus eram na verdade nossos pés. Juntos minha mãe e eu estávamos deixando pegadas no solo.úmido.

Daquele momento em diante, a idéia que eu tinha perdido minha mãe nunca mais existiu. Tudo que eu tenho que fazer é olhar para a palma da minha mão, sentir a brisa no meu rosto ou a terra sob meus pés para me lembrar que minha mãe está sempre comigo, disponível a qualquer momento.

Quando você perde um ente querido, você sofre. Mas se souber como olhar em profundidade, tem a chance de perceber que a natureza dele é a do não nascimento e não morte. Há manifestação e há a cessação da manifestação. Você tem que ser muito perspicaz e muito alerta para reconhecer as novas manifestações de uma pessoa. Mas com a prática e com esforço você pode fazer.

Portanto, pegando na mão de alguém que conheça a prática, faça uma meditação caminhando com ela. Preste atenção em todas as folhas, as flores, os pássaros e gotas de orvalho. Se puder parar e olhar profundamente, será capaz de reconhecer seu amado se manifestando novamente e novamente em muitas formas. Você novamente abraçará a alegria da vida.

Um cientista francês, cujo nome era Lavoisier, declarou, “Nada se perde, nada se cria”. “Nada nasce, nada morre.” Embora ele não praticasse como um budista, mas como um cientista, ele descobriu a mesma verdade que o Buda. Nossa natureza verdadeira é de não nascimento e não morte. Apenas quando tocamos nossa verdadeira natureza podemos transcender o medo de não ser, o medo da aniquilação.

O Buda disse que quando as condições são suficientes, algo manifesta e dizemos que existe. Quando uma ou duas condições falham e a coisa não se manifesta do mesmo modo, então dizemos que não existe. De acordo com o Buda, para qualificar algo como existente ou não é errado. Na realidade, não existe uma coisa que exista totalmente ou não exista totalmente.

Podemos ver isso muito facilmente com a televisão e o rádio. Podemos estar em uma sala que não tem televisão ou rádio. E enquanto estamos nesta sala podemos pensar que os programas de rádio ou TV não existem naquela sala. Mas todos sabemos que o espaço da sala está cheio de sinais. Os sinais desses programas estão em todo lugar. Precisamos apenas de uma condição a mais, um aparelho de TV ou rádio, e muitas formas, cores e sons aparecerão.

Seria errado dizer que os sinais não existem porque não temos um aparelho para receber os sinais e manifestá-los. Eles apenas parecem não existir porque as causas e condições não eram suficientes para fazer os programas se manifestarem. Portanto naquele momento, naquela sala, dizemos que eles não existem. Não é porque não percebemos algo que podemos dizer que ele não existe. É apenas nossa noção de ser e não ser que nos faz pensar que algo existe ou não. Noções de ser ou não ser não podem ser aplicadas a realidade.
É como a noção de abaixo e acima. Dizer que elas existem é também errado. O que está abaixo de nós está acima de outro, em algum lugar. Estamos sentados aqui e dizemos que acima é a direção acima de nossas cabeças e pensamos que a direção oposta é abaixo.

Pessoas praticando meditação sentada no outro lado do mundo não concordariam que o que chamamos acima seja assim porque para eles é abaixo. Eles não estão sentados sob suas cabeças. As idéias de abaixo e acima também significam estar acima de algo ou abaixo de algo, e essas idéias não podem ser aplicadas a realidade do cosmos. Estes são apenas conceitos para nos ajudar a nos relacionar com nosso ambiente. Elas são conceitos que nos dão um ponto de referência, mas elas não são reais. A realidade é livre de todos os conceitos e idéias.

(Do livro “No death, no fear” – Thich Nhat Hanh)
(Traduzido por Leonardo Dobbin)

Texto extraído do blog: http://sangavirtual.blogspot.com

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Buda foi ao inferno. E os demônios ao nirvana.

Por Monja Coen Sensei

Dizem que certa feita um Buda foi parar no inferno e que os diabos fizeram de tudo para atentá-lo. Queriam vê-lo infeliz e sofrendo. Não conseguindo foram perguntar a ele: "Como você consegue ficar bem no inferno?". Buda respondeu apenas: "Ah! Aqui é o inferno?" E esses diabinhos ficaram com ele. Mais tarde um chefe diabo veio ver o que estava acontecendo e encontrou todos os diabinhos silenciosamente sentados em meditação, junto ao Buda. Ele conseguira transformar o inferno na Terra Pura. Buda não tentou destruir os demônios, não tentou acabar com o inferno. Apenas manteve a mente quieta e tranqüila. Nirvana é percebermos a transitoriedade de tudo que existe e sermos capazes de tranqüilamente agirmos para transformar as coisas de maneira que o bem seja comum a todos os seres.



Na tradição Soto Zen existem seis mundos ou planos espirituais. São eles: o mundo dos infernos, dos animais, dos espíritos revoltados e briguentos, dos espíritos insaciáveis, dos seres humanos e dos seres celestiais. Esses mundos formam uma roda que gira sem parar. Algumas pessoas pensam que isso se refere a diferentes encarnações, vidas sucessivas, mas no Budismo sabemos que em um mesmo dia, talvez até mesmo apenas em uma hora, podemos passar pelos seis mundos.


Eles seriam a Roda de Samsara, o transmigrar incessante de um mundo a outro. Ora feliz e angelical, ora sofrendo terríveis torturas, ora brigando e reclamando, ora insatisfeita, ora seguindo apenas os instintos animais, ora como humanos entre o ir e vir do saber e não saber.


Mestre Dogen (1200-1253) fundador da tradição Soto Zen no Japão, escreveu que Samsara é Nirvana. Muitos pensam que para entrar no estado de Nirvana, de paz e tranqüilidade sábias, de harmonioso extinguir das paixões e apegos é preciso morrer ou afastar-se do mundo, da família, do trabalho, de suas atividades e relacionamentos, ir morar nas cavernas nos montes remotos.


Mestre Dogen, entretanto, nos diz que a própria roda de samsara é o Nirvana. Se percebermos esse constante transmigrar, não estaremos apenas sofrendo ou regozijando, mas aprendendo, compreendendo, transcendendo, transformando e crescendo. Nirvana não está separado de nossa vida, de nossos relacionamentos, de nosso trabalho, do trânsito, dos problemas e dificuldades. Nirvana é um estado de espírito. É perceber tudo isso e conseguir não entrar em nenhum dos seis mundos. É ficar acima de tudo.

Texto extraído do site: http://www.monjacoen.com.br/inicio

sábado, 14 de julho de 2012

domingo, 8 de julho de 2012

Reconhecimento

Alguém poderá perguntar: é então o relaxamento o único objetivo da meditação? Na verdade a meditação vai muito mais além. O relaxamento, entretanto, é necessário como ponto de partida, já que só após obtê-lo é que a pessoa consegue tranqüilizar o coração e clarear a mente. Ter o coração tranqüilo e mente clara já é avançar bastante no caminho da meditação.

Não devemos nos esquecer de que alertar a mente para a respiração é um método maravilhoso que pode ser usado sempre e não apenas no início da prática. No século III, assim escreveu o mestre zen Tang Hoi em seu comentário sobre o Sutra Anapanasati: "Manter a mente alerta à respiração é o grande veículo usado por Buda para salvar todos os seres presos no ciclo de nascimento e morte". Medir, seguir e controlar a respiração são, portanto, instrumentos poderosos que nos habilitam ao controle da mente.

E, para obter controle da mente e aquietá-la, temos que estar alertas também para os nossos sentimentos e percepções, observando e reconhecendo cada sentimento ou pensamento que surge. Assim se referiu a respeito o mestre zen Thoung Chien, ao fim da dinastia de Ly. "Se o praticante for capaz de enxergar claramente como funciona sua mente, poderá obter resultados com pouco esforço. Do contrário, todo seu esforço será perdido". Só há uma forma de se conhecer a mente: observar e reconhecer tudo sobre ela. E isto deve ser feito todo o tempo, não só nos momentos de meditação como também no dia-a-dia.

Inúmeros pensamentos e sentimentos surgem durante a meditação. E se não estivermos atentos à respiração, seremos arrastados por eles. Mas a respiração não é apenas um meio através do qual podemos nos tomar imunes a tais pensamentos e sentimentos. A meditação é o veículo que, unindo o corpo à mente, abre as portas da sabedoria.

Nossa intenção, ao surgir um sentimento ou pensamento, não deve ser de afugentá-los, pois, continuando nós concentrados na respiração, eles se afastarão naturalmente. Tampouco deve ser de odiá-los, espantar-se ou preocupar-se com eles. O que deve então ser feito? Simplesmente reconhecer a presença deles. Se surge, por exemplo, um sentimento de tristeza, reconheça-o imediatamente: "Um sentimento de tristeza está surgindo em mim". Se o mesmo sentimento continuar, continue a reconhecê-lo: "Um sentimento de tristeza continua existindo em mim". Se surge um pensamento como: "É tarde, mas os vizinhos ainda estão fazendo barulho", reconheça-o da mesma forma e se o mesmo continuar, reconheça que ele está continuando a existir. Reconheço, enfim, qualquer espécie de sentimento ou pensamento que surja. O essencial é não deixar que eles surjam sem que os reconheça prontamente, tal como a sentinela que, à porta do palácio, observa cada fisionomia que entra ou sai.

Não havendo nenhum sentimento ou pensamento, reconheça não estar havendo nem um nem outro. Esse treino nos faz tomar consciência dos nossos sentimentos e pensamentos. E, através dele, você poderá manter o controle da mente. Pode-se, pois, juntar o método de alertar a mente à respiração ao de tomar consciência dos pensamentos e sentimentos ao mesmo tempo.  

Sem ilusões, a mente torna-se verdadeira. Ao praticar o exercício de alertar a mente, não se deixe dominar pela distinção entre bom e mau, criando assim uma luta em seu interior. Sempre que um pensamento positivo surja, reconheça isso: "Um pensamento positivo acaba de surgir". Não se apegue ao pensamento, mesmo que este lhe seja agradável, assim como não tente repeli-Ia mesmo que ele lhe seja desagradável. Reconhecê-lo é o suficiente. Se você tiver se distraído, deve saber que se distraiu, e, se estiver presente, deve reconhecer que está presente. Uma vez alcançada essa consciência, nada mais o perturbará.  

Quando me referi à sentinela do palácio, você deve ter imaginado um corredor com duas portas, uma de entrada e outra de saída e sua mente qual sentinela registrando cada sentimento ou pensamento que entra ou sai. Mas a imagem tem uma falha, isto é, a idéia de que o que entra e sai é diferente da sentinela, pois os nossos pensamentos e sentimentos são nós mesmos. São partes de nós. Existe a tentação de considerá-los todos ou alguns deles como forças inimigas que tentam perturbar-nos.

Mas, na verdade, quando estamos com raiva, nós mesmos somos a raiva. Quando estamos felizes, nós mesmos somos a felicidade! Nós somos a sentinela e o visitante ao mesmo tempo. Somos ambos: o observador da mente e a mente ao mesmo tempo. Por conseguinte, tentar segurar ou repelir qualquer pensamento não é o importante. O importante é estar consciente dele. Esta observação não é uma objetificação da mente, não estabelece distinção entre sujeito e objeto. A mente não segura a mente, a mente não repele a mente, a mente pode apenas observar-se a si mesma. Esta observação não é a observação de um objeto exterior, independente do observador.

O koan do mestre zen Bach An ilustra bem isso:

"Qual o som de uma mão batendo palma?" Ou, outro exemplo: "O que separa o paladar e a papila gustativa?" A mente percebe a si própria, em si própria. Isto é de grande importância, tanto que, no Surra da Mente Desperta, Buda usa várias vezes a frase: "Conscientizar-se do sentimento no próprio sentimento, conscientizar-se da consciência na própria consciência". A consciência do sentimento no próprio sentimento é a consciência direta do sentimento enquanto ele está sendo experimentado e não a contemplação de uma imagem do sentimento, criada para objetificá-lo como existência externa separada daquele que contempla.

A consciência do sentimento no sentimento é a mente experimentando a consciência da mente na mente. A objetificação de um observador de fora para examinar algo é método da ciência, não da meditação. Por isso, a imagem da sentinela e dos visitantes (pensamentos e sentimentos) entrando e saindo pelo portão da mente é falha para ilustrar adequadamente a observação da mente na mente.

A mente, diz o Sutra, é como um macaco na floresta, saltando de galho em galho. Para não perder o macaco de vista, em algum rápido movimento, temos que observá-lo constantemente e nos tornarmos unos com ele. Mente contemplando a mente, é como um objeto e sua sombra - o objeto não pode afastar sua sombra. Os dois são um só. Onde quer que vá, a mente está sempre subordinada a si própria. O Sutra usa, algumas vezes, a expressão "Amarre o macaco" para significar "Tenha controle da mente". Mas a imagem do macaco é apenas um meio de expressão. Não há duas mentes, uma que pula de galho em galho e outra que segue atrás para amarrá-lo com uma corda.

Geralmente, a pessoa que medita espera "ver dentro de sua própria natureza" e, assim, poder despertar. Mas, se você está apenas começando, não espere "ver dentro de sua própria natureza". Ou melhor, não espere nada. Não espere especialmente ver Buda ou qualquer versão da "realidade última" enquanto está meditando.

Nos primeiros seis meses, procure apenas estabelecer e desenvolver seu poder de concentração, criar calma interior e contentamento sereno. Você afastará a ansiedade, terá real descanso e aquietará sua mente. Você se renovará e adquirirá uma ampla, clara visão das coisas, aprofundando e reforçando o amor existente em si.

Meditar é alimento para o espírito e para o corpo. Através da meditação nosso corpo adquire harmonia, leveza e paz. O caminho a percorrer entre observar sua mente e "ver dentro de sua própria natureza" não será muito áspero. Uma vez capaz de acalmar sua mente, uma vez que seus sentimentos e pensamentos não mais o perturbem, terá chegado ao ponto em que sua mente se estabelecerá na mente. Ela terá controle direto de si mesma, não mais diferenciando o sujeito do objeto.

Ao tomar uma xícara de chá, a aparente distinção entre o que toma o chá e o chá desaparece. O simples ato de tomar uma xícara de chá, então, pode-se tomar uma experiência direta e maravilhosa, na qual a separação entre sujeito e objeto não mais existe.

A mente dispersa também é mente, da mesma forma que as ondas que se movem na água também são água. Quando a mente tiver obtido controle de si própria, quando ela não mais se alimentar de ilusões se , tomará mente verdadeira. Mente verdadeira é o nosso verdadeiro eu, é unidade absoluta que não pode ser dividida pela ilusória separatividade das coisas, criadas pelos conceitos e pela linguagem.

(Do livro “Para Viver em Paz” – Thich Nhat Hanh)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Como meditar

Por Thich Nhat Hanh

“A respiração está alinhada com corpo e mente e ela sozinha é a ferramenta que pode uni-los, iluminando e trazendo ambos para a paz e a tranquilidade…
Mantenha sua coluna ereta. Isso é muito importante. O pescoço e a cabeça devem estar alinhados com sua coluna vertebral; eles devem estar eretos mas nem duros nem tensos. Mantenha seus olhos focados um ou dois metros à sua frente. Se você puder, mantenha um leve sorriso.
Agora comece a seguir sua respiração e a relaxar os músculos. Concentre-se em manter sua coluna ereta e seguir sua respiração. Em relação a todo o resto, deixe ir. Deixe absolutamente tudo ir”. (“let go of everything”)

quinta-feira, 28 de junho de 2012


Olhe novamente para este ponto. Este é o lar. Isto somos nós. Nele todos que você ama, todos que você conhece, todos que você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram sua vida. O conjunto de nossa alegria e sofrimento, milhares de religiões confiantes, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, todo casal jovem apaixonado, cada pai e mãe e criança esperançosa, inventor e explorador, cada professor de moral, cada político corrupto, cada superstar, cada líder supremo, cada santo e pecador na história de nossa espécie viveu aqui - num grão de poeira suspenso em um raio de sol.

-Carl Sagan (essa imagem foi tirada pela nave Voyager 1 assim que saiu do sistem solar em 1990. A Terra estava aproximadamente a 4 milhões de milhas distante da nave)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mente simples


 

Por Charlotte Joko Beck


A única mente que pode enxergar a vida de maneira transformada é a simples. O dicionário define simples como "tendo ou sendo composto por apenas uma parte". A percepção consciente pode absorver uma multiplicidade de coisas, da mesma forma como o olho consegue captar muitos detalhes ao mesmo tempo. Mas em si mesma a percepção consciente é uma coisa só. Ela permanece inalterada, sem acréscimos ou modificações. A percepção consciente é completamente simples; não temos de acrescentar nada, nem de modificá-la. É despretensiosa e isenta de arrogância. Não pode evitar de ser assim, a percepção consciente não é uma coisa, para ser afetada por isto ou aquilo. Quando vivemos a partir da pura percepção consciente, não somos afetados por nosso passado, nem pelo presente, nem pelo futuro. Uma vez que a percepção consciente nada tem que possa servir-lhe de fingimento, é humilde. É modesta. Simples.
  

Extraído do livro "Nada Especial" de Charlotte Joko Beck

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Reconhecimento

Por Thich Nhat Hanh

Alguém poderá perguntar: é então o relaxamento o único objetivo da meditação? Na verdade a meditação vai muito mais além. O relaxamento, entretanto, é necessário como ponto de partida, já que só após obtê-lo é que a pessoa consegue tranqüilizar o coração e clarear a mente. Ter o coração tranqüilo e mente clara já é avançar bastante no caminho da meditação.

Não devemos nos esquecer de que alertar a mente para a respiração é um método maravilhoso que pode ser usado sempre e não apenas no início da prática. No século III, assim escreveu o mestre zen Tang Hoi em seu comentário sobre o Sutra Anapanasati: "Manter a mente alerta à respiração é o grande veículo usado por Buda para salvar todos os seres presos no ciclo de nascimento e morte". Medir, seguir e controlar a respiração são, portanto, instrumentos poderosos que nos habilitam ao controle da mente.

E, para obter controle da mente e aquietá-la, temos que estar alertas também para os nossos sentimentos e percepções, observando e reconhecendo cada sentimento ou pensamento que surge. Assim se referiu a respeito o mestre zen Thoung Chien, ao fim da dinastia de Ly. "Se o praticante for capaz de enxergar claramente como funciona sua mente, poderá obter resultados com pouco esforço. Do contrário, todo seu esforço será perdido". Só há uma forma de se conhecer a mente: observar e reconhecer tudo sobre ela. E isto deve ser feito todo o tempo, não só nos momentos de meditação como também no dia-a-dia.

Inúmeros pensamentos e sentimentos surgem durante a meditação. E se não estivermos atentos à respiração, seremos arrastados por eles. Mas a respiração não é apenas um meio através do qual podemos nos tomar imunes a tais pensamentos e sentimentos. A meditação é o veículo que, unindo o corpo à mente, abre as portas da sabedoria.

Nossa intenção, ao surgir um sentimento ou pensamento, não deve ser de afugentá-los, pois, continuando nós concentrados na respiração, eles se afastarão naturalmente. Tampouco deve ser de odiá-los, espantar-se ou preocupar-se com eles. O que deve então ser feito? Simplesmente reconhecer a presença deles. Se surge, por exemplo, um sentimento de tristeza, reconheça-o imediatamente: "Um sentimento de tristeza está surgindo em mim". Se o mesmo sentimento continuar, continue a reconhecê-lo: "Um sentimento de tristeza continua existindo em mim". Se surge um pensamento como: "É tarde, mas os vizinhos ainda estão fazendo barulho", reconheça-o da mesma forma e se o mesmo continuar, reconheça que ele está continuando a existir. Reconheço, enfim, qualquer espécie de sentimento ou pensamento que surja. O essencial é não deixar que eles surjam sem que os reconheça prontamente, tal como a sentinela que, à porta do palácio, observa cada fisionomia que entra ou sai.

Não havendo nenhum sentimento ou pensamento, reconheça não estar havendo nem um nem outro. Esse treino nos faz tomar consciência dos nossos sentimentos e pensamentos. E, através dele, você poderá manter o controle da mente. Pode-se, pois, juntar o método de alertar a mente à respiração ao de tomar consciência dos pensamentos e sentimentos ao mesmo tempo.  

Sem ilusões, a mente torna-se verdadeira. Ao praticar o exercício de alertar a mente, não se deixe dominar pela distinção entre bom e mau, criando assim uma luta em seu interior. Sempre que um pensamento positivo surja, reconheça isso: "Um pensamento positivo acaba de surgir". Não se apegue ao pensamento, mesmo que este lhe seja agradável, assim como não tente repeli-Ia mesmo que ele lhe seja desagradável. Reconhecê-lo é o suficiente. Se você tiver se distraído, deve saber que se distraiu, e, se estiver presente, deve reconhecer que está presente. Uma vez alcançada essa consciência, nada mais o perturbará.  

Quando me referi à sentinela do palácio, você deve ter imaginado um corredor com duas portas, uma de entrada e outra de saída e sua mente qual sentinela registrando cada sentimento ou pensamento que entra ou sai. Mas a imagem tem uma falha, isto é, a idéia de que o que entra e sai é diferente da sentinela, pois os nossos pensamentos e sentimentos são nós mesmos. São partes de nós. Existe a tentação de considerá-los todos ou alguns deles como forças inimigas que tentam perturbar-nos.

Mas, na verdade, quando estamos com raiva, nós mesmos somos a raiva. Quando estamos felizes, nós mesmos somos a felicidade! Nós somos a sentinela e o visitante ao mesmo tempo. Somos ambos: o observador da mente e a mente ao mesmo tempo. Por conseguinte, tentar segurar ou repelir qualquer pensamento não é o importante. O importante é estar consciente dele. Esta observação não é uma objetificação da mente, não estabelece distinção entre sujeito e objeto. A mente não segura a mente, a mente não repele a mente, a mente pode apenas observar-se a si mesma. Esta observação não é a observação de um objeto exterior, independente do observador.

O koan do mestre zen Bach An ilustra bem isso:

"Qual o som de uma mão batendo palma?" Ou, outro exemplo: "O que separa o paladar e a papila gustativa?" A mente percebe a si própria, em si própria. Isto é de grande importância, tanto que, no Surra da Mente Desperta, Buda usa várias vezes a frase: "Conscientizar-se do sentimento no próprio sentimento, conscientizar-se da consciência na própria consciência". A consciência do sentimento no próprio sentimento é a consciência direta do sentimento enquanto ele está sendo experimentado e não a contemplação de uma imagem do sentimento, criada para objetificá-lo como existência externa separada daquele que contempla.

A consciência do sentimento no sentimento é a mente experimentando a consciência da mente na mente. A objetificação de um observador de fora para examinar algo é método da ciência, não da meditação. Por isso, a imagem da sentinela e dos visitantes (pensamentos e sentimentos) entrando e saindo pelo portão da mente é falha para ilustrar adequadamente a observação da mente na mente.

A mente, diz o Sutra, é como um macaco na floresta, saltando de galho em galho. Para não perder o macaco de vista, em algum rápido movimento, temos que observá-lo constantemente e nos tornarmos unos com ele. Mente contemplando a mente, é como um objeto e sua sombra - o objeto não pode afastar sua sombra. Os dois são um só. Onde quer que vá, a mente está sempre subordinada a si própria. O Sutra usa, algumas vezes, a expressão "Amarre o macaco" para significar "Tenha controle da mente". Mas a imagem do macaco é apenas um meio de expressão. Não há duas mentes, uma que pula de galho em galho e outra que segue atrás para amarrá-lo com uma corda.

Geralmente, a pessoa que medita espera "ver dentro de sua própria natureza" e, assim, poder despertar. Mas, se você está apenas começando, não espere "ver dentro de sua própria natureza". Ou melhor, não espere nada. Não espere especialmente ver Buda ou qualquer versão da "realidade última" enquanto está meditando.

Nos primeiros seis meses, procure apenas estabelecer e desenvolver seu poder de concentração, criar calma interior e contentamento sereno. Você afastará a ansiedade, terá real descanso e aquietará sua mente. Você se renovará e adquirirá uma ampla, clara visão das coisas, aprofundando e reforçando o amor existente em si.

Meditar é alimento para o espírito e para o corpo. Através da meditação nosso corpo adquire harmonia, leveza e paz. O caminho a percorrer entre observar sua mente e "ver dentro de sua própria natureza" não será muito áspero. Uma vez capaz de acalmar sua mente, uma vez que seus sentimentos e pensamentos não mais o perturbem, terá chegado ao ponto em que sua mente se estabelecerá na mente. Ela terá controle direto de si mesma, não mais diferenciando o sujeito do objeto.

Ao tomar uma xícara de chá, a aparente distinção entre o que toma o chá e o chá desaparece. O simples ato de tomar uma xícara de chá, então, pode-se tomar uma experiência direta e maravilhosa, na qual a separação entre sujeito e objeto não mais existe.

A mente dispersa também é mente, da mesma forma que as ondas que se movem na água também são água. Quando a mente tiver obtido controle de si própria, quando ela não mais se alimentar de ilusões se , tomará mente verdadeira. Mente verdadeira é o nosso verdadeiro eu, é unidade absoluta que não pode ser dividida pela ilusória separatividade das coisas, criadas pelos conceitos e pela linguagem.

(Do livro “Para Viver em Paz” – Thich Nhat Hanh)
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segunda-feira, 21 de maio de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A tartaruga e o coelho


Por Monja Coen Sensei
A versão japonesa da fábula da tartaruga e do coelho é um tanto quanto diferente daquele da minha infância brasileira. Eu a ouvi há poucos dias do Reverendo Miura, que veio do Japão nos visitar.

Conta-se que a tartaruga e o coelho foram apostar uma corrida. O coelho saiu na frente e quando estava no topo de um morro olhou para trás e viu a tartaruga lá longe, tão longe que ele resolveu deitar e dormir.
Passo a passo a tartaruga passou pelo coelho adormecido e chegou em primeiro lugar.

No Japão essa fábula é ensinada para enfatizar a importância da persistência, paciência, continuidade.
No entanto, quando essa história foi contada na Índia houve quem dissesse:

“A tartaruga foi má. Sabe por que? Porque ela não acordou o coelho.”

São maneiras diferentes de se interpretar a mesma história. Talvez a tartaruga devesse ter parado e verificado se o coelho estava bem antes de continuar caminhando lenta e continuamente.

A história do Brasil era diferente. A tartaruga enganava o coelho e chegava primeiro.
Talvez por isso temos tantas pessoas envolvidas na corrupção. Não paramos para ajudar como na Índia, país pobre e sofredor. Nem vamos passo a passo até nossos objetivos, como no Japão, país próspero.

Como seria a versão de Buda?
Saíram juntos o coelho e a tartaruga.

Não se preocupariam em ganhar, mas em criar harmonia com sua passagem. Ofereceriam o prêmio um ao outro, pois não haveria perdedor. Um ganharia pela velocidade. Outro pela persistência.

A tartaruga veria o coelho sair rapidamente. Da poeira levantada onde nem suas patinhas poderiam ser encontradas, a tartaruga apreciando, cada passo, flor, estrada se apiedaria do amigo que na grande correria se esquecia de ver cada detalhe sagrado.

O coelho por sua vez, pernas fortes e longas, se preocupava com a amiga tartaruga, de casco pesado e pernas curtas. Estaria sendo absurda essa competição?

Olhava para trás e a via caminhando, lenta e decididamente. Parava o coelho e a esperava. Perguntava como estava. Juntos descansavam na sombra das árvores. E o melhor é que não havia gol a obter, não havia corrida a ganhar. Tudo que havia era o prazer de viver. Cada um com seu passo, seu estilo, sem competir, caminhando o Caminho, sendo o Caminho iluminado.

E nessa caminhada iam encontrando pessoas e animais, árvores e minerais, água, terra, ar, fogo, tudo que existe e sempre se prontificando a ajudar e a procurar a maneira correta de fazer com que todos percebessem a beleza de caminhar o caminho sem começo e sem fim.

No budismo ambos seriam bodisatvas, seres iluminados disfarçados a mostrar o Caminho verdadeiro a todos os seres.

Essa versão me apetece e se parece sonho, fantasia, ilusão, utopia – é dessa matéria prima sagrada que a vida é celebrada.

Somos um com o mundo. O mundo é uno em nós.

Quando inspiramos o mundo inspira. Além da dualidade o que resta é a unidade.
A diversidade não é rival da unidade. Pelo contrário: no uno tudo está incluído. Cada parte, como um corpo de coração e pulmões, rins e fígado.

Outro monge, Reverendo Saikawa, bebeu de um copo de água. Era a água e eu. Agora a água sou eu. Eu sou a água .

Interconectados. Intersendo.

Olhar capaz de ver com clareza luminosa como espelho de cristal.
Audição de ouvir com clareza sonora como
Espelho de cristal

Assim com todos os sentidos. Tudo vendo, tudo ouvindo, todos os odores sentindo, todos os sabores, na pele o frio, o calor, as texturas.

Mas a mente precisa estar luminosa e aberta, pois se estiver cheia de si mesma não é capaz de se tornar flexível e sensível.

Tartaruga e coelho não se opõem. São. Intersendo.

Cada um é como é. Tem sua função e ação. Se tartaruga quiser ser coelho terá problemas dores, sofrimentos. Não aceitará a si mesma. Estará o tempo todo reclamando, se rejeitando, julgando, se rebaixando. Triste sina.

Se o coelho pensasse ser tartaruga, com uma casa nas costas a se proteger dos caçadores, seria triste seu fim.

Cada um é cada um. Tem valor e tem lugar. Nada é fixo. Não há melhor nem pior. Há o que é correto em sua função e posição.

Ser humano, estrela, cão.

Somos todos apenas você.

E você sou eu.

Texto extraído do site: http://www.monjacoen.com.br/inicio

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Atletas da Mente


Os incríveis efeitos da meditação no cérebro e na psique


Pesquisas científicas estão comprovando aquilo que os iogues e monges já sabiam há milênios – a meditação é muito mais do que uma simples técnica de relaxamento; a prática regular da meditação altera as estruturas neuronais do cérebro, estimulando as emoções e sentimentos positivos e incrementando as capacidades da mente.



Por Inês Castilho

A meditação é objeto de interesse crescente na medicina. Sua indicação está se tornando cada vez mais comum no tratamento e prevenção de doenças imunológicas, do sistema cardiorrespiratório, dos distúrbios do sono, do estresse, da dor. Médicos começam a adotá-la como técnica complementar no controle da hipertensão e arritmias cardíacas. Desde que foi capa da Time, em 2003, o assunto tem sido freqüentemente veiculado pela mídia – como o recente Globo Repórter que mostrou a prática de meditação por médicos e enfermeiros do Hospital de Apoio de Brasília.

A monja Coen Sensei, da tradição zen-budista, diz ter perdido a conta de quantas pessoas ensinou a meditar, no Japão e no Brasil. “Foram centenas, talvez milhares. O interesse pela meditação é internacional e cresce também entre empresários”, diz ela, que começou a praticar durante o boom da meditação nos Estados Unidos pós-guerra do Vietnã. Foi assim também com Susan Andrews, monja do tantra ioga que fundou o Instituto Visão Futuro em Porangaba (SP) e calcula já ter treinado mais de dez mil pessoas em seus 35 anos como instrutora de meditação, em vários países.

Mais de cinco mil pessoas já passaram pelos cursos ministrados por Lia Diskin na Associação Palas Athena, em São Paulo. A psicopedagoga Vivi Tuppy, formada pela Palas, levou para Araçatuba e Birigüi (SP) o programa Educadores da Paz, com práticas de atenção com foco na respiração que já alcançaram cerca de 17 mil alunos e professores das redes estadual e municipal de ensino. O resultado foi o aumento nos índices de aprendizagem e redução da violência na escola e comunidade. Essas são apenas algumas experiências.

Neuroplasticidade

Os estudos publicados em revistas científicas também se multiplicaram nas últimas décadas. Particularmente nos Estados Unidos, mas também no Brasil – em instituições respeitadas como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do Hospital Albert Einstein e a Universidade de São Paulo (USP).

Neuroplasticidade é palavra-chave das pesquisas mais atuais. O termo refere-se
à capacidade de o cérebro mudar sua estrutura e função – os circuitos neuronais mais usados se expandem e fortalecem, ao passo que aqueles não usados, ou usados raramente, se encurtam e enfraquecem. “Espera-se que, aprendendo a fomentar e controlar a neuroplasticidade, ela possa trazer benefícios em casos de doenças degenerativas e imunológicas, e lesões por trauma e vasculares”, observa João Radvany,neurologista, psiquiatra e neurorradiologista do Hospital Albert Einstein.

Radvany prepara-se para dar início a uma pesquisa, financiada pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do Einstein, que tem como objetivo verificar os efeitos da meditação na atenção e concentração de um grupo de médicos. O estudo será feito em colaboração com Edson Amaro Jr., coordenador de pesquisa em neuroimagem no IEP, e Elisa Kozasa, pesquisadora em técnicas de meditação da Unidade de Medicina Comportamental da Unifesp, com o uso da técnica de ressonância magnética funcional, que permite verificar as áreas ativadas no cérebro durante a prática.

Diálogos Mind and Life

O impulso para o desenvolvimento dessas pesquisas deve-se principalmente à associação entre o líder espiritual tibetano Dalai Lama e o biólogo chileno Francisco Varela (1950-2001), então chefe da Unidade de Neurodinâmica do Hospital Salpetrière, em Paris. Nasceu daí o Mind and Life Institute, que desde 1987 realiza encontros anuais – um ano no Ocidente, e outro, informal, em Dharamsala, na Índia, onde Sua Santidade vive exilado – para um diálogo entre homens e mulheres de ciência e monges budistas sobre a natureza do universo e da mente.

Os encontros do Mind and Life reúnem cientistas dos mais respeitados centros de pesquisa dos Estados Unidos, tais como Harvard, Princeton, Duke, Califórnia. Com o objetivo de responder a um desafio – Como criar e manter uma mente saudável? –, a partir de 1990 cientistas filiados à instituição começaram a investigar os efeitos neurobiológicos da meditação.

Embora divulgados, eles só foram abertos ao público em 2003. O segundo diálogo aberto aconteceu em novembro passado em Washington (EUA), com o tema Investigando a Mente 2005: Aplicações Clínicas e Científicas da Meditação. Em sua passagem por São Paulo, Sua Santidade falou sobre essas experiências no seminário Compaixão e Sabedoria– a construção da saúde pessoal e coletiva, realizado dia 28 de abril no Palácio de Convenções do Anhembi, com a participação da Unifesp/Escola Paulista de Medicina.

Participação brasileira

Em 2004, o Mind and Life deu início a um programa de verão anual de uma semana, o Summer Research Institute, em que a apresentação e debate dos temas científicos eram alternados com períodos de meditação que somavam cerca de três horas diárias. Entre os pesquisadores selecionados encontrava-se a bióloga e pesquisadora brasileira Elisa Kozasa, que participou também do Summer Research de 2005.

Autora de uma tese de doutorado sobre os efeitos – positivos – da meditação e da respiração da ioga na ansiedade, depressão e atenção, Kozasa é co-orientadora de vários projetos de mestrado em meditação na Unifesp e se prepara para fazer pós-doutorado avaliando as áreas cerebrais relacionadas à meditação, através da técnica de neuroimagem funcional. Seu interesse foi despertado aos 12 anos pela prática de aikidô, e mais tarde pela leitura de livros como Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda, e Diálogos Entre Cientistas e Sábios, de René Weber.

Também o interesse do neurologista João Radvany pela meditação, estranhamente, foi despertado por um esporte – a natação. Hoje, além de nadar ele pratica tai chi chuan e meditação zen. “Todos os estímulos do mundo externo e interno são levados ao tronco cerebral, onde uma rede de neurônios mantém o estado acordado e de atenção como se fosse uma luz, de intensidade variável e direção itinerante, para iluminar a experiência que a gerou”, explica Radvany. “As áreas frontais do cérebro fixam o foco dessa luz, gerando concentração no estímulo que a consciência escolhe. A meditação orienta o farol para que incida num determinado aspecto da experiência, excluindo todo o resto.”

Estudos do cérebro

Tanto Radvany como Kozasa ressaltam, entre os estudos realizados por pesquisadores que participam do Mind and Life, os experimentos de Sara Lazar, doutora em biologia molecular pela Universidade de Harvard e praticante de ioga e meditação por aproximadamente dez anos. Em um trabalho publicado em 2000, ela e sua equipe de pesquisadores mostraram que é possível verificar variações da atividade cerebral mesmo em pessoas com pouca prática de meditação, com o uso de ressonância magnética funcional.

Outro estudo de imagem da mesma pesquisadora, publicado em 2005, mostrou que áreas específicas do córtex cerebral, a camada externa do cérebro, eram mais espessas em praticantes pouco experientes de um tipo de meditação conhecida como mindfulness, comumente praticada nos Estados Unidos. “Ela mostrou que não é preciso meditar o dia inteiro para produzir alterações estruturais no cérebro. E que é possível retardar a atrofia de certas áreas cerebrais relacionadas à idade”, observa Radvany.

O neurocientista Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, em Madison, colaborador do Dalai Lama desde 1992, é um dos principais pesquisadores da neuroplasticidade. “Os neurocientistas acreditavam que nascemos com determinado número de neurônios, e que as mudanças ocorridas com o desenvolvimento seriam apenas nas conexões entre essas células e as células moribundas. Nos últimos dois anos, descobrimos que isso não é verdade. Já foi demonstrado nos humanos que crescem neurônios novos durante a vida inteira. É uma descoberta fantástica” – disse ele no diálogo ocorrido em 2000 em Dharamsala, relatado no livro Como Lidar com Emoções Destrutivas – Para Viver em Paz com Você e os Outros (Editora Campus), de autoria do Dalai Lama e de Daniel Goleman.

Outro pesquisador importante é Jon Kabat-Zinn, diretor da Clínica de Redução do Estresse, professor de medicina da Universidade de Massachusetts e um dos autores do livro A Mente Alerta (Editora Objetiva). Para Radvany, o mérito de Kabat-Zinn, criador do método de meditação conhecido como mindfulness behavior stress reduction (MBSR), ”foi chamar a atenção para o fato de que é possível transformar todas as atividades diárias em meditação, no sentido de baixar o tônus vegetativo – que é o antídoto do estresse”.

Em outras palavras: “Como você pensa, você se torna. Se diariamente, durante a profunda concentração da meditação, redirecionamos o nosso estado mental para longe dos estreitos e negativos padrões de pensamento, em direção a um sentimento de compaixão e tranqüilidade interior, nossas mentes gradualmente se tornam repletas de amor e paz” – como diz Susan Andrews e, na qualidade de aprendiz, posso testemunhar.

Extraído do site: http://www.terra.com.br/revistaplaneta/mat_405.htm