A Associação Meditar é uma sociedade civil com personalidade jurídica, sem fins lucrativos, não religiosa ou doutrinária. O primeiro núcleo surgiu em Porto Alegre-RS, e, atualmente, possui núcleos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Lajeado, Novo Hambugo, Santa Maria, São Francisco de Paula, Capão da Canoa, Florianópolis, Chapecó e Cuiabá.

A Associação Meditar se propõe a: Difundir a prática da meditação; Congregar os praticantes da meditação; Coletar e divulgar os benefícios à saúde física e mental promovidos pela prática adequada da meditação; Criar, apoiar e promover a difusão de locais adequados para a prática de meditação (Núcleo ou Centros Meditar) no Brasil e no exterior; inclusive, com sedes rurais para abrigar seus membros em vida comunitária voltada à meditação, ao estudo, ao trabalho natural na terra, à contemplação da natureza.

Dedica-se a orientar a iniciação e o desenvolvimento das pessoas (empresa, escolas, associações) na meditação de forma clara, simples, objetiva e segura; Promover cursos, palestras, workshops, retiros e atividades voltadas à prática da meditação; Incentivar e promover a atitude mediativa, altruísta e pacífica, que implique na paz interna e externa, na não-violência, no respeito pela natureza, alimentação natural, bons valores humanos, no conhecimento e na sabedoria.

A Associação Meditar de Cuiabá se reúne sempre aos Sábados, às 08h00, no Espaço Ligia Prieto. Endereço: Rua Min.João Alberto, 137 – Araés - Cuiabá. Informações pelo tel. (65)3052-6634.

sábado, 28 de maio de 2011

Jesus e Buda, irmãos



Por Thich Nhat Hanh

Entrando em contato com a origem de ser

No cristianismo e no budismo, tanto no Oriente quanto no Ocidente, existe o conceito do Todo, a realidade suprema, a origem de ser. Nossos amigos cristãos tendem a pensar que os budistas não gostam de imaginar o Todo, ou a origem de ser, como uma pessoa. É a isso que resistem mais. Alguns cristãos acreditam que, para os budistas, o Todo, ou a origem de ser, é uma não-pessoa. Mas isso não é verdade de forma alguma. Talvez vocês já tenham tido esta percepção na vida cotidiana. Todas as vezes em que contemplam uma árvore, embora saibam que aquilo não é uma pessoa, seu relacionamento com a árvore não é o de uma pessoa com uma não-pessoa.

Quando toco uma rocha, jamais a toco como inanimada. A árvore é espírito, mente; a rocha é espírito, mente; o ar, as estrelas, a lua, tudo é consciência. Eles são objeto de sua consciência. Quando vocês dizem "o vento está soprando", o que estão tentando dizer? Vocês têm a percepção de que o vento está soprando, então dizem: "Sei que o vento está soprando." Isto é uma percepção. O vento pode estar soprando, mas a pessoa perto de vocês talvez não o perceba. Como vocês o perceberam, tentam dizer-lhe isso.

Dizer "o vento está soprando" é muito estranho. O vento precisa estar soprando; caso contrário, não é o vento. Então vocês não precisam pronunciar a palavra soprando. Podem simplesmente dizer vento. O que é vento? É a sua percepção, a sua consciência. Conforme a sua percepção, assim é o vento. A única coisa da qual tem certeza é que o vento é o objeto da sua percepção. Ela consiste na substância e no objeto, naquele que percebe e no que é percebido. O vento é parte da sua consciência. É o objeto da sua percepção.

Algumas vezes vocês criam o objeto da sua percepção sem qualquer fundamento. Imaginam que outra pessoa está tentando destruí-los, quando, na verdade, tal coisa nem lhe passa pela mente. A mente cria muitas coisas. Nos ensinamentos da escola Dharmalakshana, aprende-se a olhar para as coisas como objetos da consciência e não como entidades separadas, independentes. Se olharem atentamente para o céu, não verão o céu azul como algo separado de vocês, algo inanimado. Perceberão o céu como a sua consciência. Também é o consciente coletivo.

Em Princeton há uma escola de pensamento que afirma que existe pensamento no céu azul. Existe pensamento na nuvem, nas estrelas. Vocês vêem o céu como consciência. O céu é consciência. O mesmo se pode dizer quanto às nuvens e às estrelas. Não são objetos inanimados, separados da consciência de vocês. É o objeto da sua consciência; então treinem isso para que não vejam mais os objetos da sua percepção como algo independente das percepções. A grande consciência está, ela mesma, se manifestando. Tudo é visto como consciência.

Nas esferas não-budistas é muito comum seus integrantes chegarem à mesma compreensão, como ocorreu com o Buda. Na minha experiência, quanto toco uma árvore, quando olho para um pássaro, quando contemplo a água no riacho, admiro-os, não porque foram criados por Deus, nem porque possuem a natureza do Buda. Admiro-os porque são árvores, são rochas, são água. Eu me curvo para uma rocha porque ela é uma rocha. Não me curvo perante uma rocha porque um espírito mora ali. Também não a considero uma coisa inanimada. Porque a rocha, no meu entender, nada mais é do que consciência, o próprio espírito.

Muitos dos nossos amigos cristãos se aborrecem quando os budistas dão outros nomes àquele espírito, sem usar a palavra Deus. Teilhard de Chardin ficou sentido ao ouvir o Espírito Santo sendo chamado de "o Todo", ou "espírito", e não Deus. Mas é correto empregar a palavra Deus quando muitos pensam em Deus como uma pessoa no sentido fenomenal? Se as pessoas sabem que Deus não é uma pessoa, mas também não menos do que uma pessoa, como disse Paul Tillich, então não será tão difícil usar a palavra Deus.

O Buda tem muitos corpos, Ele tem um corpo físico e também um corpo Dharma. Antes de falecer, disse aos discípulos: "Meu corpo físico não é tão importante. Toquem meu corpo Dharma. Este estará com vocês."

O que é o Dharma? Não é um grupo de leis e práticas ou uma pilha de sutras, videoteipes ou cassetes. O Dharma é compreensão, é a prática da bondade amorosa como expresso pela vida. Não se pode ver o Dharma a não ser quando se observa alguém praticando-o, tornando-o aparente a todos, como uma monja andando atentamente, tocando profundamente a terra, irradiando paz e felicidade. Esta monja não está pregando ou apresentando um videoteipe, mas expressando o Dharma ativo. Ela pode expressar o Dharma ativo porque ela é uma pessoa. Em nosso corpo físico podemos tocar o corpo de Dharma. O Buda tem um corpo de Dharma e este corpo continuará a ser visto e tocado por nós enquanto pessoas continuarem a praticar o Dharma. Tudo isso apenas é possível com não-ser, com impermanência.

Quando falamos sobre amar Buda, o que queremos dizer com isso? Precisamos amar Buda? Buda precisa ser amado por nós? Invocamos o nome de Buda e a recordação de Buda para fazê-lo presente nas nossas mentes, para torná-lo parte dos momentos da vida cotidiana. Buda precisa que o amemos, que nos lembremos dele, que o glorifiquemos? Não creio. Não penso que Buda necessite de amor. Podemos sentir amor por Buda, do mesmo modo que sentimos amor por nossos pais e mestres. Buda é nosso mestre. É claro que sentimos admiração pelo mestre, o Buda. Ele praticou bem, ele tem coragem. Tem muita compaixão, compreensão e é uma pessoa livre. Não sofre tanto quanto nós por causa do seu elevado nível de compreensão, compaixão e bondade amorosa.

Vocês amam alguém quando este alguém necessita de vocês. Quando aquele alguém sofre, o amor de vocês alivia o sofrimento. Seu amor contribui para trazer felicidade. Este é o significado do amor. É fácil entender que os seres que nos cercam, sofrendo, necessitam do nosso amor. Mas será que a salvação, a liberação de vocês depende do seu amor por Buda? Não penso assim. Se o louvarem, não é porque ele ou ela o deseja.

Contudo, enquanto o louvam, vocês estão tocando e irrigando as benfazejas sementes dentro de vocês. Segundo tal linha de conduta, Buda tem conscientização, é compreensivo e amoroso. Tocar a semente da compreensão, conscientização e bondade amorosa dentro de vocês contribui para que estas qualidades se tornem mais fortes para a sua própria felicidade e das outras pessoas e seres vivos que estão próximos. Quando queimam incenso, não é para Buda. Ele não precisa do incenso. Mas quando vocês fazem isso, curvando-se profundamente e louvando Buda, irrigam as benfazejas sementes dentro de vocês. Esta é a atitude. Quando se tornam conscientes, compreensivos e amorosos, sofrem muito menos, começam a se sentir felizes e as pessoas ao redor começam a se beneficiar por vocês estarem ali.

Quando um cristão diz que está fazendo algo de determinada maneira porque ama Deus, o que ele quer dizer com isso? Como ele ama Deus? Do mesmo modo que ama o pai, a mãe ou o professor? Todos eles devem ter problemas. Talvez estejam sofrendo e necessitem de amor e apoio. Não creio que Deus precise desse amor e apoio. No cristianismo, quando se ama Deus, é preciso amar o próximo; caso contrário, não podem dizer que amam a Deus. Então terão que ir ainda mais longe. Terão que amar os seus inimigos.

Por que temos que amar os nossos inimigos? Como você pode amar o seu inimigo? Nos ensinamentos budistas, isso está bem claro. O budismo ensina que a compreensão é a base do amor. Quando se tem consciência, compreende-se que a outra pessoa está sofrendo. Consegue-se ver aquele sofrimento e repentinamente não se quer mais que o outro sofra. Vocês sabem que podem deixar de fazer determinadas coisas para que o outro pare de sofrer e que há outras que lhe trazem alívio.

Quando vocês começam a ver o sofrimento na outra pessoa, nasce a compaixão e vocês não mais a consideram um inimigo. Vocês podem amar o seu inimigo. No momento em que compreendem que o assim considerado inimigo sofre e desejam que ele pare de sofrer, ele deixa de ser inimigo.

Quando odiamos alguém, estamos zangados com ele, porque não o entendemos ou não entendemos o seu ambiente. O hábito de olhar profundamente faz com que cheguemos à seguinte conclusão: se crescêssemos como ele, sob as suas circunstâncias e tendo vivido no seu ambiente, seríamos exatamente iguais a ele. Esta espécie de compreensão elimina a sua raiva, a sua discriminação e subitamente aquela pessoa não é mais sua inimiga. Então você consegue amá-la.

Enquanto continuar a considerá-la sua inimiga, o amor será impossível. Amar seu inimigo só é possível quando ele ou ela não for mais visto desta maneira, e o único modo de conseguir isso é praticando a observação profunda. Aquela pessoa fez com que você sofresse bastante no passado. A conduta correta é perguntar o motivo.

Quando você está infeliz, a sua infelicidade se espalha por todos à sua volta. Se tiver aprendido a arte da compreensão e tolerância, você sofrerá muito menos. Olhar para os seres vivos com olhos compassivos proporciona-lhe uma sensação maravilhosa. Você não altera coisa alguma. Apenas põe em prática olhar com os olhos da compaixão e, repentinamente, o seu sofrimento diminui. O que são os olhos da compaixão? A função dos olhos é ver e entender. "Os olhos da compaixão" são os olhos que vêem e entendem. Se existe compreensão, a compaixão chegará por uma via bastante natural. "Os olhos da compaixão" são os olhos da atenção profunda, os olhos da compreensão.

No budismo aprendemos que a compreensão é a verdadeira base do amor. Sem compreensão, independentemente de quanto você se esforce, não poderá amar. Se disser: "Tenho que tentar amá-lo", estará cometendo uma tolice. É preciso compreendê-lo e, ao fazer isso, irá amá-lo. Uma das coisas que aprendi dos ensinamentos de Buda é que sem a compreensão o amor não é possível. Se o marido e a esposa não se compreendem, não podem se amar. Se um pai e um filho não se compreendem, causarão sofrimento um ao outro. Então a compreensão é a chave que abre a porta do amor.

Compreensão é o processo de observar atentamente. Meditar significa observar atentamente as coisas, tocá-las com extrema atenção. Uma onda precisa entender que existem outras ondas à sua volta. Cada uma tem o seu próprio sofrimento. Você não é a única pessoa que sofre. Suas irmãs e seus irmãos também sofrem. No momento em que você for capaz de ver o sofrimento deles, irá parar de censurá-los e também parar com o seu próprio sofrimento. Se você está sofrendo e acredita que isto é criado pelas pessoas ao seu redor, é conveniente olhar outra vez. A maior parte do seu sofrimento vem da falta de compreensão de si mesmo e dos outros.

No budismo, não creio que a compaixão e a bondade amorosa sejam praticadas visando à salvação individual. A verdade ensinada pelo Buda é que o sofrimento existe. Com a atenta observação do sofrimento em você mesmo e na outra pessoa, advirá o entendimento. Quando isso acontecer, o amor e a aceitação também surgirão, o que levará ao término do sofrimento.

Você talvez imagine que o seu sofrimento é maior do que o de qualquer outra pessoa ou que é o único a sofrer. Não é verdade. Quando você reconhecer o sofrimento à sua volta, ajudará a si mesmo a sofrer menos. Saia de dentro de você e observe. A época do Natal é uma excelente oportunidade para isso. O sofrimento está em mim, é evidente, mas também está em você. Está no mundo.

Houve uma pessoa que nasceu há quase dois mil anos. Tinha consciência de que o sofrimento estava nela e na sua sociedade, e não se escondeu do sofrimento. Em vez disso, pôs-se a investigar atentamente a natureza do sofrimento, as suas causas. Como teve a coragem de se manifestar, tornou-se o mestre de muitas gerações. Talvez a melhor maneira de celebrar o Natal seja habituar-se a andar com atenção, a sentar com atenção e observar tudo atentamente para descobrir que o sofrimento ainda continua ali em todos nós e no mundo. Reconhecendo o sofrimento, aliviamos nossos corações daquilo que nos vem afligindo durante tantos dias e meses.

Segundo os ensinamentos budistas, quando se presta bastante atenção ao sofrimento, compreende-se a sua natureza; então, o caminho para a felicidade se revelará. No budismo, o nirvana é descrito como paz, estabilidade e liberdade. O processo é entender que paz, estabilidade e liberdade estão à nossa disposição aqui e agora, durante vinte e quatro horas por dia. Só precisamos saber como alcançá-las e termos a vontade, a determinação para consegui-lo. É como a água, sempre disponível para a onda. Nada mais é do que a onda tocando a água e compreendendo que ela está lá.

(Do livro Jesus e Buda Irmãos – Thich Nhat Hanh)

sábado, 21 de maio de 2011

Irmão Sol - Irmã Lua | Fratello Sole, Sorella Luna Legendado

Ensinamentos: A Importância de Plantar e Proteger Árvores



Por Dalai Lama

Em diversas ocasiões, tenho comentado a importância de plantar árvores tanto na Índia, o nosso lar atual, como no Tibet. Hoje, como um gesto simbólico, estamos realizando uma cerimônia de plantio de árvores aqui no assentamento. Afortunadamente, o movimento para um compromisso mais profundo com a proteção ambiental através do plantio de árvores novas e de cuidar das existentes, está crescendo rapidamente em todo o mundo. No nível global, árvores e florestas estão muito ligadas aos padrões climáticos e também à manutenção de um equilíbrio crucial na natureza. Portanto, a tarefa da proteção ambiental é uma responsabilidade universal de todos nós. Penso que é extremamente importante para os tibetanos que vivem nos assentamentos não só ter um grande interesse pela causa da proteção ambiental, mas também para implementar este ideal em ações de plantio de novas árvores. Assim, estaremos fazendo um gesto importante para o mundo em demonstrar as nossas preocupações globais e, ao mesmo tempo, fazer a nossa própria pequena, mas significativa contribuição à causa.

Se olharmos ao redor, podemos agora ver que aquelas casas nos monastérios e em vários assentamentos onde as pessoas plantaram árvores frutíferas, agora apreciam um grande benefício como conseqüência de seus atos. Em primeiro lugar, se houver uma árvore em seu quintal, isto cria uma ambiente de beleza natural e serenidade. É óbvio que também podemos comer as frutas da árvore e sentarmos sob a árvore, apreciando sua sombra agradável. De sua parte, o que se esperava é um pouco de paciência para dar tempo para a árvore crescer.

Finalmente, gostaria de fazer uma sugestão a respeito do uso de suas terras no assentamento. Neste assentamento vocês já iniciaram um projeto de plantio de árvores. Penso que este é um ótimo plano. Ao plantar árvores frutíferas em suas terras, não só asseguramos que a terra permaneça produtiva, mas também que vocês terão frutas para comer. Em suma, gostaria de enfatizar mais uma vez que é extremamente importante plantar árvores novas e protegeras que já crescem ao seu redor.

(Discurso de 6 de dezembro de 1990, em uma cerimônia especial realizada no Assentamento Tibetano Doeguling, em Mundgod, no sul da Índia. Adaptado de Boletim Informativo Tecnologia Apropriada para Tibetanos - ApTibet, Boletim Informativo nº 5, setembro de 1991. Traduzido por Marly Ferreira.)

domingo, 15 de maio de 2011

Música Instrumental


Sugestão: enquanto lê, aproveite para ouvir e relaxar.
Seja bem vindo, Ben venido, namastê, haribol, gasho!
Feliz Autoencontro. Muita paz!

sábado, 14 de maio de 2011

Ensinamentos: Ecologia e o Coração Humano



Por Dalai Lama


Segundo os ensinamentos budistas, há uma interdependência muito próxima entre o meio ambiente natural e os seres sencientes que nele habitam. Alguns de meus amigos me disseram que a natureza humana básica é um tanto violenta, mas eu disse que não concordo. Se examinarmos os diferentes tipos de animais, por exemplo, aqueles cuja própria sobrevivência depende de tirar outras vidas, como tigres ou leões, aprendemos que a sua natureza básica dota-lhes com dentes e garras afiadas. Animais pacíficos, como corças, que são totalmente vegetarianas, são mais gentis, possuem dentes menores e não têm garras. Desse ponto de vista, nós seres humanos temos uma natureza não violenta. Quanto à questão da sobrevivência humana, os seres humanos são animais sociais. Para sobreviver, precisamos de companheiros. Sem outros seres humanos não há possibilidade alguma de sobrevivência; esta é a lei da natureza.

Como acredito profundamente que os seres humanos são basicamente gentis por natureza, sinto que devemos não só manter relações gentis e pacíficas com a comunidade de seres humanos, mas também que é muito importante estender a mesma atitude gentil para com o meio ambiente natural. Do ponto de vista moral, devemos nos preocupar com todo o nosso meio ambiente.

Além disso, há um outro ponto de vista, não é só uma questão de ética, mas uma questão de nossa própria sobrevivência. O meio ambiente é muito importante não só para esta geração, mas também para as gerações futuras. Se explorarmos o meio ambiente de maneira extrema, embora possamos conseguir algum dinheiro ou outro benefício com isso agora, em longo prazo nós próprios sofreremos e as gerações futuras também sofrerão. Quando o meio ambiente muda, as condições climáticas também mudam. Quando elas mudam dramaticamente, a economia e muitas outras coisas também mudam. Até a nossa saúde física será fortemente afetada. Então, isto não é só uma questão moral, mas também uma questão de nossa própria sobrevivência.

Portanto, para o sucesso da proteção e conservação do meio ambiente natural, penso que é importante primeiro de tudo fazer com que um equilíbrio interno aconteça dentro dos próprios seres humanos. O abuso do meio ambiente, que resultou em tais danos à comunidade humana, surgiu da ignorância quanto à importância do meio ambiente. Penso que é essencial ajudar as pessoas a compreender isto. Precisamos ensinar às pessoas que o meio ambiente tem uma relação direta com o nosso próprio benefício.

Eu estou sempre falando da importância do pensamento compassivo. Como disse antes, até do seu próprio ponto de vista egoísta, você precisa de outras pessoas. Então, se desenvolver a preocupação pelo bem estar de outras pessoas, compartilhar o sofrimento dos outros, e ajudá-los, no fim você se beneficiará. Se pensar só em si mesmo e se esquecer dos outros, no fim você perderá. Isso também é como a lei da natureza.

É muito simples: se você não sorrir para as pessoas, mas olhar de forma carrancuda, eles vão responder de maneira similar, não vão? Se lidar com outras pessoas de uma maneira muito sincera e aberta, eles se comportarão de forma similar. Todo mundo quer ter amigo e não quer ter inimigo. A forma correta de fazer amizades é ter um coração caloroso e não só dinheiro ou poder. Amigos do poder e amigos do dinheiro são coisas diferentes: eles não são amigos verdadeiros. Amigos verdadeiros devem ser verdadeiros amigos do peito, concordam? Eu estou sempre dizendo às pessoas que os amigos que aparecem quando você tem dinheiro e poder não são seus verdadeiros amigos, mas amigos do dinheiro e do poder, porque assim que o dinheiro e o poder desaparecerem, estes amigos também estão prontos para partir. Eles não são confiáveis.

Amigos humanos autênticos ficam ao seu lado quer você tenha sucesso ou esteja sem sorte e sempre dividem as suas dores e cargas. A maneira de fazer tais amizades não é tendo raiva, nem tendo boa educação ou inteligência, mas tendo um bom coração.

Para aprofundar o pensamento, se você precisa ser egoísta, então que seja sabiamente egoísta, e não tacanhamente egoísta. A chave é o senso de responsabilidade universal; esta é a verdadeira fonte da força, a verdadeira fonte da felicidade. Se a nossa geração explora tudo que há disponível — as árvores, a água, e os minerais — sem qualquer cuidado com as próximas gerações ou o futuro, então estamos errados, não estamos? Mas se tivermos um senso genuíno de responsabilidade universal como nossa motivação central, então as nossas relações com nossos vizinhos, tanto os nacionais quanto os internacionais serão promissoras.

Uma outra questão importante é: O que é consciência e o que é a mente? No mundo ocidental, durante os últimos um ou dois séculos, houve grande ênfase em ciência e tecnologia, que trata principalmente da matéria. Atualmente alguns físicos nucleares e neurologistas dizem que quando investigamos partículas de uma forma muito detalhada, há algum tipo de influência do lado do observador, o sabedor. O que é este sabedor? Uma resposta simples é: um ser humano, o cientista. Como este cientista sabe? Com o cérebro, os cientistas ocidentais identificaram até agora apenas umas centenas. Agora, quer chame isto de mente, cérebro, ou consciência, há uma relação entre cérebro e mente e também entre mente e matéria. Penso que isto é importante, Acredito que é possível manter algum tipo de diálogo entre a Filosofia Oriental e a Ciência Ocidental com base neste relacionamento.

Em qualquer caso, atualmente nós seres humanos estamos muito envolvidos com o mundo externo, enquanto negligenciamos o mundo interno. Precisamos de desenvolvimento científico e desenvolvimento material para sobreviver e para aumentar o benefício e a prosperidade geral, mas precisamos igualmente de paz mental. No entanto, nenhum médico pode aplicar uma injeção de paz mental, e nenhum mercado pode vendê-la. Se você for até um supermercado com milhões e milhões de dólares, você pode comprar qualquer coisa, mas se for até lá e pedir paz mental, as pessoas vão rir. É se pedir a um médico a paz mental autêntica, não a simples sedação que consegue tomando algum tipo de pílula ou injeção, o médico não poderá ajudá-lo.

Até os atuais computadores sofisticados não podem dar paz mental. A paz mental deve vir da mente. Todo mundo quer felicidade e prazer, mas se compararmos prazer físico e dor física com prazer mental e dor mental, chegamos à conclusão de que a mente é mais efetiva, predominante e superior. Assim, vale a pena adotar certos métodos para aumentar a paz mental, e para fazer isto é importante saber mais a respeito da mente. Quando falamos de preservação do meio ambiente, isso está relacionado a muitas outras coisas. O ponto chave é ter um senso autêntico de responsabilidade universal, baseado em amor e compaixão, e consciência clara.

(Extraído de My Tibet, Thames and Hudson Ltd., London, 1990, pág. 53-54. Traduzido por Marly Ferreira.)

domingo, 8 de maio de 2011

Inspire The Soul - THE MOST RELAXING MUSIC -


- Inspire, expire, conscientemente. O audio acima, é uma sugestão para ouvir enquanto lê os textos publicados no blog. Boa leitura, aproveite e relaxe. Muita paz.

Nature Sound 1 - THE MOST RELAXING SOUNDS -


_ Aproveite, enquanto lê, ouça e relaxe. O Buda, o Cristo, o Divino, está dentro de nós.

THE POWER OF NOW (O Poder do Agora)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Recesso das Atividades

Queridos amigos, irmãos e irmãs,

informamos a todos que estaremos de recesso nas próxima semanas, ficando, assim, "suspensas" temporáriamente todas as atividades da Associação Meditar de Cuiabá. Por hora, permancem as atividades do blog, do yahoo grupo e demais veículos de integração (telefone, emails, msn, etc).


A sanga permance, invariavelmente...

Aos praticantes, velhos e novos, a sugestão de praticarem mente atenta, respirando conscientemente.


Quando do retorno das atividades, enviaremos mensagem a todos, além de divulgar aqui no blog.


Informamos ainda, que estaremos organizando para o segundo semestre um retiro. Todos aqueles que desejarem ajudar são muito bem vindos. Os interessados em deixar o nome e o telefone para reservar sua participação, favor enviar através do email - ivandeus3@hotmail.com.


Em caso de dúvida basta entrar em contato pelos telefones abaixo.

Mãos unidas em prece.

Informações:
Ligia - (65) 3052-6634

Ivan - (65) 9202-9925

Ensinamento para crianças



Por Thich Nhat Hanh



Sidarta quietamente fez um gesto para que as crianças sentassem e disse: “Vocês todas são crianças inteligentes e eu estou certo que serão capazes de entender e praticar as coisas que eu partilharei com vocês. O Grande Caminho que eu descobri é profundo e sutil, mas qualquer um desejando aplicar seu coração e mente pode entendê-lo e segui-lo.”

“Quando você, criança, descasca uma tangerina, pode comê-la com consciência ou sem consciência. O que significa comer uma tangerina com consciência? Quando você está comendo uma tangerina está consciente que está comendo uma tangerina. Você experimenta totalmente sua adorável fragrância e gosto doce. Quando você descasca a tangerina, sabe que está descascando a tangerina; quando remove um gomo e o coloca em sua boca, sabe que está removendo um gomo e o colocando na boca. Quando experimenta sua adorável fragrância e gosto doce, está consciente que está experimentando seu gosto doce e adorável fragrância.”

“A tangerina que Nandabala me ofereceu tem nove gomos. Eu comi cada gomo em plena consciência e vi o quão preciosos e maravilhosos eram. Eu não esqueci a tangerina, e portanto a tangerina era real, a pessoa comendo a tangerina era real. Isto é que é comer uma tangerina de forma consciente.”

“Crianças o que significa comer uma tangerina sem plena consciência? Quando você está comendo uma tangerina, não sabe que está comendo uma tangerina. Não experimenta a adorável fragrância e o gosto doce da tangerina. Quando você descasca a tangerina, não sabe que está descascando uma tangerina. Quando remove um gomo e põe na sua boca, não sabe que está removendo um gomo e o colocando em sua boca. Quando sente o cheiro da fragrância ou o gosto de uma tangerina, não sabe que está sentindo o cheiro da fragrância ou o gosto da tangerina. Ao comer uma tangerina deste modo, você não pode apreciar sua preciosa e maravilhosa natureza. Se você não está consciente que está comendo uma tangerina, a tangerina não é real. Se a tangerina não é real, a pessoa que a está comendo também não é real. Crianças, isto é comer uma tangerina sem plena consciência.”

“Crianças, comer uma tangerina em plena consciência significa que enquanto você come está verdadeiramente em contato com ela. Sua mente não está correndo atrás dos pensamentos de ontem ou de amanhã, mas está habitando totalmente no momento presente. A tangerina está verdadeiramente presente. Vivendo com plena consciência da mente significa morar no momento presente, sua mente e corpo habitando realmente no aqui e agora.”

“Uma pessoa que pratica a plena atenção pode ver coisas na tangerina que outros não são capazes de ver. Uma pessoa consciente pode ver a árvore de tangerina, o florescer da tangerina na primavera, os raios de sol e chuva que nutriram a tangerina. Olhando profundamente, a pessoa pode ver dez mil coisas que fizeram a tangerina possível. Olhando para a tangerina, uma pessoa que pratica plena atenção pode ver as maravilhas do universo e como todas as coisas interagem umas com as outras. “

“Crianças, nossa vida diária é justamente como a tangerina. Como a tangerina é dividida em gomos, cada dia é dividido em 24 h. Uma hora é como um gomo da tangerina. Viver todas as 24hs do dia é como comer todos os gomos da tangerina. O caminho que eu encontrei, é o caminho de viver cada hora do dia em plena atenção, mente e corpo sempre habitando no momento presente. O oposto é viver no esquecimento, não saber que estamos vivos. Não experimentamos totalmente a vida porque nossa mente e corpo não estão habitando no aqui e agora.”

Gautama olhou para Sujata e disse seu nome.

“Sim, Mestre?” Sujata juntou as palmas das mãos.

“Você acha que uma pessoa que vive em plena atenção fará muitos erros ou poucos?”

“Respeitável Mestre, uma pessoa que vive em plena atenção fará menos erros. Minha mãe sempre me diz que uma menina deveria prestar atenção à maneira como anda, fica em pé, fala, ri e trabalha de forma a evitar pensamentos, palavras e ações que possam causar lamento para ela mesma e para os outros.”

“Isso mesmo, Sujata. Uma pessoa que vive em plena atenção sabe o que está pensando, dizendo e fazendo. Tal pessoa pode evitar pensamentos, palavras e ações que causam sofrimento para ela mesma e para os outros.”

“Crianças, viver em plena atenção significa viver no momento presente. Uma pessoa é consciente do que está acontecendo dentro dela e ao seu redor. A pessoa está em contato direto com a vida. Se a pessoa continua a viver desse modo, será capaz de profundamente entender a si mesma e ao que está a sua volta. Entendimento leva à tolerância e ao amor. Quando todos os seres se entenderem, eles se aceitarão e se amarão. Então não haverá tanto sofrimento no mundo. O que você pensa Svasti? As pessoas podem amar se elas são incapazes de se entender?”

“Respeitável Mestre, sem entendimento, o amor é bem difícil. Me lembra algo que aconteceu com minha irmã Bhima. Uma vez ela chorou a noite toda até que minha irmã Bala perdeu a paciência e deu umas palmadas nela. Isso apenas fez Bhima chorar mais. Eu peguei Bhima e percebi que ela estava com febre. Tinha certeza que sua cabeça deveria estar doendo por causa da febre. Chamei Bala e disse a ela que colocasse a mão na testa de Bhima. Quando ela fez isso entendeu de uma vez porque Bhima estava chorando.Seu olhos amoleceram e ela pegou Bhima nos seus braços e cantou para ela com amor. Bhima parou de chorar mesmo ainda com febre. Respeitável mestre, penso que isto aconteceu porque Bala entendeu o porque de Bhima estar chateada. E assim penso que sem entendimento, o amor não é possível.”

“Isso mesmo Svasti! O amor só é possível quando há entendimento. E somente com amor pode haver aceitação. Pratiquem viver em plena atenção crianças e vocês aprofundarão seu entendimento. Serão capazes de entender a vocês mesmos, às outras pessoas e todas as coisas. E vocês terão corações de amor. Este é o caminho que eu descobri.”

Svasti juntou as palmas das mãos. “Respeitável Mestre, podemos chamar este caminho do ‘Caminho da Plena Atenção’?”

Sidarta sorriu “Claro. Podemos chamá-lo de o Caminho da Plena Atenção. Eu gosto muito. O Caminho da Plena Atenção leva ao perfeito Despertar.”

Sujata juntou as palmas das mãos e pediu permissão para falar. “Você é aquele que despertou, aquele que mostra como viver em plena atenção. Podemos chama-lo de ‘O Desperto’?”

Sidarta fez que sim com a cabeça. “Isto me agradaria muito.”

Os olhos de Sujata brilharam. Ela continuou “Desperto em Magadhi é pronunciado como budh. Uma pessoa desperta deveria ser chamada Buda em Magadhi. Podemos chamá-lo de Buda?”

Sidarta fez que sim com a cabeça. Todas as crianças estavam extasiadas. Nalaka, um menino de 14 anos, o mais velho do grupo falou: “Respeitável Buda, estamos muito felizes de receber seus ensinamentos sobre o Caminho da Plena Atenção. Sujata me disse como você meditou sobre esta árvore nos últimos 6 meses e como na última noite obteve o Grande Despertar. Respeitável Buda, esta árvore é a mais bonita da floresta. Podemos chama-la de ‘Árvore do Despertar’, a ‘Árvore Bodhi’? A palavra bodhi divide a mesma raiz da palavra Buda e também significa despertar.”

Gautama fez que sim com a cabeça. Ele também estava deleitado. Ele não tinha adivinhado que durante seu encontro com as crianças o caminho e mesmo a grande árvore receberiam nomes especiais.

(Traduzido do livro “Old Path White Clouds” sobre a vida do Buda – Thich Nhat Hanh)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Meditação Amorosa




Por Thich Nhat Hanh


Meditação adaptada pelo Ven. Nhat Hanh do texto Visuddhimagga, escrito por Buddhagosa em 430 d.C. - texto tradicional theravada.


Esta meditação deve ser praticada da seguinte maneira: primeiro, a recitação na primeira pessoa, referindo-se a si mesmo; segundo, a recitação em terceira pessoa, referindo-se à pessoas que lhe são indiferentes (se possível substituir o "ele/ela" pelo nome); terceiro, a recitação em terceira pessoa, referindo-se à pessoas amadas e bem quistas (se possível substituir o "ele/ela" pelo nome); quarto, a recitação em terceira pessoa, referindo-se à pessoas que lhe tenham causado sofrimento (se possível substituir o "ele/ela" pelo nome); quinto, recitar em segunda pessoa, referindo-se a todos.


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Meditação amorosa

Que eu possa estar em paz, feliz e leve de corpo e de espírito

Que possa viver em segurança e livre de males

Que eu possa estar livre da raiva, das aflições, medos e ansiedades

Que eu possa aprender a me olhar com olhos de compreensão e amor

Que eu possa reconhcer e tocar as sementes de alegria e felicidade que existem em mim

Que eu possa aprender a identificar as fontes de raiva, cobiça e ilusão que existem em mim

Que eu possa alimentar as sementes de alegria em mim todos os dias

Que eu possa ser sereno, firme e livre

Que eu possa estar livre do apego e da aversão sem me tornar indiferente

Que ele/ela possa estar em paz, feliz e leve de corpo e de espírito

Que ele/ela possa viver em segurança e livre de males

Que ele/ela possa estar livre da raiva, das aflições, medos e ansiedades

Que ele/ela possa aprender a se olhar com olhos de compreensão e amor

Que ele/ela possa reconhecer e tocar as sementes de alegria e felicidade que existem em si mesmo(a)

Que ele/ela possa aprender a identificar as fontes de raiva, cobiça e ilusão que existem em si mesmo(a)

Que ele/ela possa alimentar as sementes de alegria em si mesmo(a) todos os dias

Que ele/ela possa ser sereno, firme e livre

Que ele/ela possa estar livre do apego e da aversão sem se tornar indiferente

terça-feira, 19 de abril de 2011

Recesso de Páscoa - Agenda




Queridos amigos,

informamos a todos que estaremos de recesso neste feriado. Para tanto, não haverá estudo na quinta-feira (21.04) e no sábado (23.04). Retornaremos na próxima semana, com a programação normal.


Muita paz! Renovação! Enfim, Feliz Páscoa!!!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ouça, Reflita, Pratique e Realize sua Vida como Paz


Por Taizan Maezumi Roshi


"Este ensinamento de Maezumi Roshi sobre a prática do dharma foi dado originalmente em Los Angeles, 1994.Tradução ao português de Tam Huyen Van (Claudio Miklos)"
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Em nossa prática, há um padrão básico que consiste em três processos. Em japonês dizemos “mom”, “shi” e “shu”. O primeiro estágio é mon, “ouvir”. A audição não está restrita ao ato físico de ouvir com os ouvidos o que alguém fala, mas também ouvir com o olhos quando estivermos lendo um documento escrito. O que você está ouvindo? Ao dharma: ouvindo o dharma, percebendo o dharma. O processo seguinte é shi ou “refletir”. Não tome algo escrito ou falado cegamente como certo. Pense sobre o que está ouvindo ou lendo. Então, se você concorda, e se realmente pensa que aquilo é verdadeiro, passe ao próximo estágio, shu, que significa “praticar”. Estes três estágios são muito importantes.

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Qual é a parte mais importante da prática? Há muitas espécies de prática relacionadas ao dharma. Mesmo se você concordar em quê praticar, talvez o ponto de prática realmente importante não estará ainda muito claro. Sendo assim, nós temos outro processo que denominamos sho – “esclarecer, verificar ou confirmar através de nossa prática”. Dogen Zenji usa este sho muito frequentemente. Você está praticando adequadamente ou apropriadamente ou não? Certifique-se disso. Sho é muito frequentemente traduzido como “realização”, às vezes como “iluminação” ou “despertar”. Isso conduz a um forte senso de verificação ou confirmação – não de forma cerebral, mas de forma do ser total. Então, em primeiro lugar, audição; em segundo lugar, reflexão ou consideração sobre o dharma; em terceiro lugar, prática do dharma; e em quarto, verificação ou confirmação do dharma como [parte de] sua vida. Estas são as bases da prática.

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Estas coisas parecem muito simples, mas considere apenas o primeiro ponto – “ouvir”. Como nós ouvimos? A maior parte do tempo as coisas entram e saem de minha cabeça em menos de um segundo. Talvez em devesse pensar mais, mas este pensar é algo muito ardiloso. Muito embora nós pensemos sobre o dharma, estaremos realmente praticando ou não? Assim mesmo este aparentemente simples processo de prática – ouvir o dharma, refletir sobre ele, colocá-lo em prática – não é fácil. Talvez seja por isso que esta prática esteja se estendendo por mais de 2.500 anos.

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Este processo básico não se limita necessariamente à tradição Budista; ele é aplicável também ao Cristianismo e ao Judaísmo. Por exemplo, no Cristianismo, ouvimos a bíblia; no Judaísmo, ouvimos a Torah. Se você é cristão ou judeu, como está ouvindo, confirmando e praticando os ensinamentos da Bíblia ou da Torah? O quanto você tem conseguido entender? O que há ali para ser realmente ouvido e praticado? E afinal o quanto disso você está praticando?Eu me recordo quando certa vez visitei Tetsugen Sensei e Yuho Glassman em Nova York. Era uma noite de sexta e eles estavam celebrando o Shabbat. Em algum momento da visita, Tetsugen Sensei me disse, “Roshi, em certo sentido, o que estava me escapando em relação à tradição judaica na qual fui criado era a verdadeira prática”. Quando ouvi aquilo – muito embora eu não conhecesse a prática judaica – eu me perguntei, “O quê é realmente uma prática apropriada?”Percebo que uma das razões para que muitos de voces sejam atraídos para a tradição Zen é a prática – o tipo de prática, a quantidade e qualidade de prática que nós enfatizamos. No Zen, prática é o aspecto mais enfatizado. Mas se o dharma não é praticado corretamente, então a prática não significa muito.

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Em nossa tradição Zen, enfatizamos o discernimento conscientizador pelo qual nós vemos o plano interno e externo como um só. E afortunadamente, nós temos todos os tipos de upaya, ou meios adequados, através dos quais podemos praticar e realmente ver o que o dharma é. Como a prática pode ser apreciada? Eu desejo que vocês prestem muita atenção ao que verdadeiramente é o dharma. Vocês estão realmente praticando bem, em relação ao que vocês pensavam sobre isso e sobre o que ouviram ou leram? De acordo com o que vocês percebem, examinem o dharma, renovando e encorajando a si mesmos, desta forma fazendo sua prática melhor.

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O que podemos esperar ao praticar o dharma? No Zen, temos um dito: “Não espere nada”. O que isso significa? Dizemos, “Nenhum ganho e nenhuma expectativa sobre a iluminação intrinsecamente falando. Sente-se em uma posição de corpo ereta e firme – apenas sente! Este é o caminho dos ancestrais.” Quando dizemos ancestrais, não estamos restringindo a prática a certos tipos de pessoas. Qualquer um – homem ou mulher, de qualquer classe ou raça e assim por diante – que realizou corretamente o Caminho é chamado de ancestral. Portanto a qualidade de nossa prática é muito importante. Que tipo de prática fazemos e qual espécie de despertar temos? Qual espécie de consciência? Samadhi? Quais são os efeitos que experimentamos? Mesmo não esperando nada, a prática tem certos efeitos.

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Um dos mais importantes ensinamentos de dharma é o de causa e efeito. Podemos afirmar que o ensinamento de Buddha versa sobre [o fenômeno d]a Causação. Não é a questão de [existir] apenas uma causa ou algumas causas – todas as coisas são a causa de alguma outra coisa. Tudo está conectado de um modo ou de outro. Existem causas diretas e indiretas, todas trabalhando juntas. Dizemos, “Causa e efeito não são coisas separadas; causa e efeito são uma só”. Normalmente não temos este tipo de entendimento sobre a prática ou os ensinamentos. Como você entende causação? Algumas pessoas pensam que, quando fazem uma coisa ruim, esta ação não é realmente uma coisa ruim até o momento em que elas são flagradas – talvez amanhã ou um ano depois ou quando forem presas pela polícia. Em relação a isso, Yasutani Roshi dizia repetidamente, “quando você rouba algo, naquele mesmo momento você se torna um ladrão”. Isso é verdade?

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Como viver é uma questão primária para todos nós. Não é uma questão apenas [de existirem] regras ou regulamentos feitos pelo Homem que são sustentadas sob certas circunstâncias ou ambientes, ou por sociedades, grupos e países. Evidentemente, estas regras são importantes. Mas há muito mais do que isso. Mesmo para decidir o quê é bom e o quê é mau, o que é correto ou errado, o que é verdadeiro ou o que é falso – como iremos julgar? Por sorte, esta questão é enfocada nos mais fundamentais ensinamentos dos Buddhas.

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O ensinamento fundamental de Buddha é o dos quatro Selos do Dharma: Impermanência, Não-eu, Sofrimento e Nirvana, ou Paz. Vocês compreendem o fato simples da vida que é a impermanência, e o que afirma não haver [qualquer] coisa imutável [cristalizada], não-eu? Especialmente esta questão do não-eu ou não imutabilidade: porque isto é um tesouro do dharma? Por que isto é chamado de Prajna, sabedoria? Se você tem algumas idéias na cabeça, não poderá compreender muito o significado de “tudo é impermanente”. Constante mudança. O Abhidharma (o sistema budista de psicologia) descreve quantas mudanças ocorrem em apenas 24 houras, em um dia e uma noite. Eu adoro falar sobre este importante tópico, e eu mais e mais fico convencido do quão verdadeiro ele é. Em apenas um segundo nossa vida muda mais de 5.000 vezes. Em um segundo! Uma vez que a mudança é tão rápida, nossa atenção consciente simplesmente é incapaz de segui-la. E todavia nosso corpo e mente estão mudando nesta velocidade. Vivemos uma vida e tanto, percebem? E vivendo tão rápidas mudanças, o que podemos esperar? Que espécie de pensamentos temos? Com que tipo de coisas gastamos nosso tempo pensando?

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Falamos sobre o agora, mas o que é isto? O passado já se foi; mas nos prendemos a ele. Tudo o que falamos tem a ver com o passado ou o futuro. Embora falemos sobre o “agora”, não existe tal coisa. O fato é, “agora” já se foi. Nós confundimos isso. Esteja eu atentamente consciente desta vida de rápidas mudanças ou não, ela está se manifestando. Mas o que fazemos com esta vida? Fazemos isso e aquilo – é tudo sobre algo já acontecido ou ainda por ocorrer. O pensamento, a idéia [de vida] com a qual brincamos em nossa cabeça, não é a existência real que lidamos aqui, exatamente agora. Não deveríamos confundir estas coisas. Este é um ponto muito, muito importante.

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Não estou desvalorizando o pensamento. Apenas estou mencionando que nós não deveríamos confundir o fato de nossa vida com as idéias sobre nossa vida. O que pensamos e o que realmente existe – isto é o que Buddha fala sobre mudança constante. Tudo e qualquer coisa, mudando constantemente. Esta é a vida real a qual é, em certo sentido, incognoscível. E este não-eu incognoscível, impessoal – desprendido de qualquer tipo de valor, apegos, desapegos – funciona perfeitamente. Nada sabendo, ele funciona plenamente. É isso que esta vida é. É isso que se expressa como não-eu. Quando você não vê isto, sofrimento está esperando por você. Quando você percebe isso, há o nirvana, ou paz.

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Ouça o dharma, reflita sobre ele, pratique e realize-o. Realize sua vida como a paz em si mesma. Realize sua vida como você é, como ela é agora, e não como você pensa ou analisa. Nós não necessitamos esperar nada; nós não precisamos tentar fazer algo. A razão é simples: ele [o dharma] já está aqui como sua vida. Não é fascinante? Realmente ouça, reflita, pratique, verifique. Juntas, estas [ações] são parte da prática também. Juntas, isto é o que estamos fazendo. A coisa importante é estar em paz ou em nirvana. Isto é o que o Buddha afirma. Então estando em nirvana, o que você estará fazendo? O que você estará fazendo?!


Taizan Maezumi Roshi foi uma figura fundamental na transmissão do Zen Buddhismo ao ocidente. Ordenado como monge zen aos 11 anos, ele se mudou para os Estados Unidos do Japão em 1956. Maezumi Roshi foi o fundador e abade do Zen Center de Los Angeles, e fundou cinco outros templos Soto Zen nos Estados Unidos e Europa. Ele transmitiu o dharma para doze sucessores e estabeleceu o White Plum Asanga, para levar adiante sua linhagem.


Listen, Think, Practice and Realize Your Life As Peace, Taizan Maezumi Roshi, Shambhala Sun, March 2004.

domingo, 10 de abril de 2011

Poema Sina


Por Paulo Wagner Moura


A senda do peregrino

é buscar o segredo do sol

subir a montanha do coração

encontrar no simples o sagrado

destino do homem, do velho e do menino

ver o passado caindo

indo embora

sentir os passos do caminho

aqui e agora

terça-feira, 5 de abril de 2011

"Meditação no Parque: paz a cada passo - Sábado (09.04)



Queridos amigos,

informamos que no próximo sábado, 09.04.2011, haverá prática de meditação andando no parque Mãe Bonifácia. Início da caminhada às 08 h (pontualmente).

Local: Parque Mãe Bonifácia

Horário: 08:00

Ponto de encontro: entrada principal (estacionamento de pedrinhas)

Percurso: trilha interativa - 40 min.

Atenção: Se chover, haverá prática normalmente. Então, recomendamos, levem guarda-chuva!

** A atividade é gratuita e aberta a todos os interessados!

Muita paz.

Informações:

Ligia - (65) 3052-6634

Ivan - (65) 9202-9925

domingo, 3 de abril de 2011

Mensagem da Monja Coen sobre o Japão de agora


Japão, por Monja Coen

Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: kokoro. Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência. Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada? Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las. Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras. A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima. A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas. Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros. Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado. Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos- mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água. Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte. Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão. Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo. Sumimasem. Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas. O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto. Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais. Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”. Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo. Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente. Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto. Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução. Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março. Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar. Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

Mãos em prece (gassho)

Monja Coen

sábado, 2 de abril de 2011

Canção pra Quando Você Voltar e mantra Om mani padme hum



Faixa do disco Áudio-retrato (2003) de Leoni: No final da faixa, o mantra Om mani padme hum entoado por Herbert e Leoni e dois lamas do mosteiro tibetano de Vargem Grande também recitam, ajudando a reforçar o clima de amizade, tolerância e paz. Ao fim da música Herbert dá uma declaração surpreendente.

A História do Monge Asanga


Asanga, um grande praticante buddhista indiano, retirou-se em uma caverna para meditar dia e noite no Buddha Maitreya. Depois de seis anos, não tinha tido um único sonho auspicioso, uma única visão — nenhum sinal de realização. Então, concluiu que sua meditação era inútil. Deixou a caverna e, ao seguir pela estrada, passou por um homem que esfregava um lenço de seda numa coluna de ferro. Asanga perguntou ao homem, "O que o senhor está fazendo?"

"Estou fazendo uma agulha", respondeu o homem.

Asanga pensou, "Mas que perseverança! Ele está esfregando uma coluna de ferro com um lenço de seda para fazer uma agulha, e eu sequer tenho paciência suficiente para permanecer em retiro." Caminhou de volta para sua caverna e começou a meditar, dia e noite, sobre o Buddha Maitreya.

Depois de mais três anos de meditação, ela ainda não havia recebido sinal algum de realização. Nenhum sonho, nenhuma visão, nada. Novamente, muito desanimado, deixou o retiro. Ao seguir pela estrada, viu um homem que mergulhava uma pena num balde d'água e a passava sobre a superfície de um enorme rochedo. Asanga perguntou ao homem o que fazia.

"Este rochedo está fazendo sombra sobre a minha casa," respondeu, "então eu o estou removendo."

Asanga pensou, "Eis aqui alguém que, para ter apenas um pouco de Sol sobre seu telhado, se dispõe a ficar em pé interminavelmente, removendo um rochedo com uma pena. E eu não consigo sequer meditar até que obtenha um sinal." Então, voltou para a caverna e sentou-se em meditação.

Após um total de doze anos em retiro, ele ainda não havia recebido sinal algum. De novo, desencorajado e decepcionado, partiu. Ao seguir pela estrada, desta vez encontrou um cachorro muito doente. A parte inferior de seu corpo estava apodrecida por gangrena e cheia de larvas de moscas varejeiras. Sem as duas pernas de trás, ele conseguia apenas se arrastar pela estrada. Ainda assim, voltava-se para todos os lados, tentando morder quem estivesse em volta. O coração de Asanga se comoveu. "Este pobre cachorro", pensou, "O que posso fazer para ajudá-lo? Tenho que limpar a ferida, mas com isso posso matar as larvas. Não posso tirar a vida de um para preservar a de outro; toda vida tem valor."

Por fim, decidiu que, se usasse sua língua com cuidado para retirar as larvas da ferida, poderia salvar tanto os insetos quanto o cachorro. A idéia era repugnante, mas fechou os olhos e se abaixou. Quando abriu sua boca, sua língua tocou não o animal, mas o chão. Abriu os olhos. O cão havia sumido e ali estava o Buddha Maitreya.

"Faz anos e anos que estou rezando a você", exclamou Asanga, "e esta é a primeira vez que você aparece!"

O Buddha respondeu muito suave, "Desde o primeiro em dia que você começou sua meditação, tenho estado a seu lado. Mas, por causa do dos venenos da sua mente e dos enganos e ilusões criados por sua não-virtude, você não conseguia me ver. Era eu o homem que esfregava a coluna, era eu o homem que passava a pena no rochedo. Somente quando apareci como esse cachorro apodrecido é que você teve compaixão e altruísmo suficientes para purificar o karma que o impedia de me ver".

(Chagdud Tulku Rinpoche. Portões da Prática Budista.Traduzido por Manoel Vidal, revisado por Cinthia Sabbado, Marta Rocha e Maurício Sabaddo.Três Coroas: Rigdzin, 2000. Pág. 85-87. )

sábado, 26 de março de 2011

Plena Atenção na Alimentação


Por Thich Nhat Hanh

Os Quatro Nutrientes

O Buda falou dos quarto tipos de nutrientes – alimentos, impressões sensoriais, volição e consciência. O primeiro tipo, alimento, é o que você come ou bebe. É responsável por seu bem estar ou mal estar físico e mental. Diferentes comidas contêm diferentes toxinas e certos tipos de comida podem ser inapropriadas para seu corpo. É por isso que temos que olhar na natureza de nosso corpo e da comida que ingerimos para ver se eles são compatíveis. Inspirando e expirando em plena consciência, perguntamos, “Essa comida é compatível com meu corpo e minha consciência?” Seguindo a prescrição da plena consciência você saberá o que consumir.

O primeiro nutriente: alimento

Nos ensinamentos de minha tradição, quando começamos a comer, meditamos nas Cinco Contemplações. As duas primeiras contemplações são: “Este alimento é presente de todo Universo, ele veio da terra, do céu, de numerosos seres vivos e de muito trabalho árduo. Que possamos comê-lo em plena consciência e com gratidão a fim de sermos dignos de recebê-lo.” Para ser digno de receber nossa comida, temos que comer em plena consciência. Se não comermos em plena consciência, não sentiremos gratidão e poderemos estragar nosso corpo e consciência. Se comermos nossa comida com gratidão e plena consciência, somos dignos dela.

A terceira contemplação é ser consciente de nossas formações mentais negativas, especialmente nossa tendência de comer sem moderação. O Buda sempre lembra a seus discípulos para comer moderadamente. A quarta contemplação é ver se a comida que você está ingerindo é saudável e manterá seu corpo saudável. Comida é um tipo de remédio. Deveria ser equilibrada em termos de yin e yang. Olhando profundamente e em plena consciência para sua comida, você saberá que tipos de comida pode comer e o que você deve abster de comer. A quinta contemplação é: “Aceitamos este alimento para que possamos nutrir e fortalecer nossa Sangha e cultivar nosso ideal de servir a todos os seres.”

Alguns de nós têm um sentimento de vazio, nervosismo e mal-estar por dentro. Não sabemos como lidar com esses sentimentos desagradáveis, e por isso há sempre algo na geladeira. Comemos e bebemos para esquecer a dor. Muitos de nós fazem isso. Os monásticos nos avisam para sempre comermos com nossa Sangha, a menos que estejamos doentes. Esta prática ajuda muito. Você pode fazer isso com sua família, que é também sua Sangha. Na hora do jantar, quando todos os membros da família estiverem sentados em volta da mesa, podemos praticar as Cinco Contemplações. Podemos convidar as crianças para dizer em voz alta as Contemplações. Cada um de nós pode olhar profundamente para sua comida para ver se é apropriada. Deste modo podemos criar uma energia coletiva na família que nos ajuda a comer apropriadamente e a não contaminar nossos corpos.

O Buda usava a seguinte imagem para ilustrar o primeiro nutriente. Um casal começou uma viagem através do deserto com seu pequeno filho. No meio do caminho no deserto, eles perceberam que as provisões tinham acabado. Eles sabiam que iam morrer antes de terminarem a travessia. Depois de uma dolorosa discussão, o casal decidiu matar o pequeno menino. Cada dia eles comeram um pouco da carne do pequeno menino enquanto continuavam a caminhar pelo deserto. Finalmente, eles conseguiram sair do deserto vivos. O Buda perguntou aos monges, “Querido amigos, vocês acham que o casal gostou de comer a carne do próprio filho?” Os monges responderam, “não.” Se não comermos apropriadamente, se destruirmos a nossa saúde, se comermos e bebermos de tal modo que seja tirada dos outros seres vivos a chance de viver, então estaremos comendo a carne de nossos pais e filhos em nós e ao nosso redor.

O segundo nutriente: impressões sensoriais

O segundo tipo de nutriente são as impressões sensoriais. Consumimos comida através de nossos olhos, nariz, ouvidos e corpo. Quando dirigimos pela cidade, ouvimos sons, vemos imagens e sentimos odores, todos estes considerados comida. Quando vemos um filme, estamos consumindo certo tipo de comida. Muitos dos itens que consumimos contêm toxinas. Um programa de TV ou novela podem ser altamente tóxicos. As notícias que lemos no jornal podem trazer toxinas para nossa consciência. Nosso medo, stress e desespero são nutridos por tais notícias, informações, visões e sons. Propaganda também promete que se você comprar certo produto será mais feliz. “Felicidade é fácil – apenas compre isso.” As visões e sons usados para capturar nossa atenção e que nos são empurrados contêm toxinas. Temos que nos proteger e guardar nossos seis sentidos contra essas toxinas enquanto dirigimos pela cidade.

O Buda disse que os olhos são um oceano profundo – ele falava como um poeta – com ondas escondidas e monstros marinhos sob a superfície. Se você não é plenamente consciente e não sabe como proteger e guardar as portas dos seus sentidos, afundará no oceano das formas – às vezes várias vezes ao dia. Com o barco da plena consciência, navegamos através do oceano das formas e nos seguraremos firmemente para que nosso barco não afunde. O Buda também disse que o ouvido é um oceano profundo com muitas ondas escondidas e monstros marinhos. Se você não está plenamente consciente, pode afundar no oceano dos sons.

Depressão também é nutrida pelas visões e sons. Não acontece sozinha. É criada e nutrida diariamente pelo nosso modo de consumir. Andando conscientemente através do aeroporto de Paris, vi muitos anúncios de perfumes chamados “Samsara”, “Scorpion” (Escorpião) e “Poison” (Veneno). Eles ousam chamá-los por seus verdadeiros nomes. Sabemos que perfume é um item de consumo e uma isca. Em uma isca há o anzol, e nos somos os peixes inocentes. Os produtos são anunciados, tão habilmente e a isca é tão atrativa que com uma mordida, somos pegos. O que temos para nos defendermos? Nada exceto a nossa plena consciência.

Plena consciência é o único agente que pode guardar a porta dos nossos seis sentidos e nos proteger. Os Cinco Treinamentos de Plena Consciência são insights daqueles que praticam plena consciência. Eles são prescrições concretas para nossa proteção diária. Se vivermos baseados nos Cinco Treinamentos nos protegeremos, e também nossas famílias e nossa sociedade. Os Cinco Treinamentos não foram criados por um deus ou são impostos a nós. Eles são fruto da nossa visão profunda. Estando conscientes do sofrimento causado pelo consumo não consciente, estamos determinados a não consumir itens que tragam toxinas, desarmonia, dor e tristeza para dentro de nós, destruindo nosso bem-estar físico e mental. Os Cinco Treinamentos não são um conjunto de regras, mas guias para prática de plena consciência. Precisamos nos treinar para viver de acordo. Esta é a sabedoria da auto-proteção.

O Buda usou a imagem de uma vaca com doença que destruiu a maioria da sua pele para representar o segundo tipo de nutriente: impressões sensoriais. Se a vaca ficar perto de uma parede velha ou árvore velha, todos os insetos da parede ou árvore sairão e se fixarão no seu corpo e sugarão seu sangue. Sem plena consciência, as impressões sensoriais a que somos expostos, nos destruirão um pouco a cada dia e as toxinas penetrarão no nosso corpo e consciência. Assim como a vaca precisa de uma pele saudável para se proteger, precisamos da prática da plena consciência para guardar nossos seis sentidos.

O terceiro nutriente: volição

O terceiro tipo de nutriente é a volição – nosso desejo mais profundo. Este tipo de energia nos empurra para fazermos as coisas em nossa vida diária. Temos que olhar profundamente para dentro de nós para ver que tipo de energia motiva nossas ações diárias. Estamos constantemente trabalhando duro de forma a ir a algum lugar ou fazer algo. Qual é o objetivo deste tipo de atividade? O terceiro nutriente nos motiva e pode nos trazer muita felicidade ou sofrimento.

Que tipo de energia Madre Teresa tinha em sua vida diária? Ela tinha o desejo de ajudar as pessoas pobres, sem recursos, apoio ou proteção. O desejo de aliviar o sofrimento de muitas pessoas é uma tremenda fonte de energia. Se você tem a mesma intenção – volição – dentro de você, sua vida será preenchida com felicidade. Quando compaixão – o desejo de aliviar o sofrimento dos outros – está dentro de você e te motiva, você pode se relacionar com as pessoas facilmente e ter uma vida simples. O alívio e felicidade que você leva para as pessoas pode ser sua recompensa. Quando você pode fazer uma pessoa sorrir, se sente maravilhoso. Não quer a recompensa, mas ela chega a você de qualquer forma. Há pessoas cheias de ódio que querem viver de forma a punir a pessoa que odeiam. Tal pessoa não pode ser feliz por que sua única intenção e fonte de energia é o ódio. Se estivermos motivados por uma energia negativa, nossa vida será cheia de sofrimento.

Sidarta Gautama tinha uma fonte vital de energia dentro dele. É por isso que durante 45 anos ele trabalhou diligentemente e ajudou muitas pessoas – reis, ministros, mendigos e prostitutas. Ele ajudou a todos porque era motivado pelo desejo de aliviar o sofrimento deles. Todos nós precisamos estar conscientes da natureza da nossa fonte de energia, porque ela determina a qualidade de nossa vida. Se esta energia é somente desejo – por fama, riqueza ou sexo – então ela nos fará sofrer.

O Buda usou a seguinte imagem para ilustrar o terceiro tipo de nutriente. Ele descreveu uma pessoa que quer viver e não quer sofrer, mas que é carregada por dois homens fortes e jogada em uma fogueira. Os dois homens fortes representam a volição, uma energia que nos empurra em direção ao sofrimento e morte. Como meditadores, devemos gastar tempo sentando e olhando para dentro de nós mesmos diariamente para identificar a fonte de energia que nos está empurrando e a direção em que estamos indo. Devemos ver se nossa intenção está nos trazendo sofrimento e desespero. Se for assim, devemos liberá-la e achar outra fonte de energia.

O quarto nutriente: consciência

O quarto tipo de nutriente é a consciência, a base para a manifestação de nosso corpo, nossos estados mentais e nosso ambiente. A consciência representa a soma de todas as ações que foram feitas: pensamentos, falas e atos do corpo. A maturidade da consciência traz a tona a manifestação do nosso corpo atual, nossos estados mentais atuais, e nosso ambiente atual. A consciência aqui é descrita em termos da mente iludida, a mente caracterizada por visões errôneas e aflições que resultam de volições não saudáveis. O sofrimento dos três reinos (desejo, forma e não forma) é a retribuição de nossas ações que determina a natureza e qualidade de nossa consciência. Se a consciência se alimenta de um tipo de comida saudável (Visão Correta, Pensamento Correto, Plena Consciência Correta, Fala Correta, Concentração Correta, etc.) ela experimentará transformação e se tornará mente verdadeira, que servirá como base para manifestação de um corpo saudável, estados mentais felizes e benéficos e um ambiente são e bonito.

O Buda usou a seguinte imagem para ilustrar o quarto nutriente. Um criminoso foi preso. O rei deu a ordem de esfaqueá-lo com cem facadas. O criminoso não morreu. A mesma punição foi repetida ao meio dia e a tarde. Ainda assim ele não morreu. A punição foi repetida no dia seguinte e no próximo.

Permitimos que nossa consciência seja alimentada todo dia com o veneno da ignorância, ganância, fala não benéfica e desejos não saudáveis. Nossa consciência continua a crescer na direção da mente iludida e traz a tona muito sofrimento. Poderíamos mudar o alimento de nossa consciência e ajudá-la a crescer na direção oposta, a direção da mente verdadeira. À luz dos ensinamentos relativos aos Doze Elos da Origem Interdependente, consciência resulta da ignorância e dos impulsos não benéficos.

Sabemos que entendimento e compaixão são fontes de energia que podem trazer às pessoas à nossa volta muita felicidade, de forma que praticamos o seu cultivo. O Buda disse, “se você olhar para dentro do mal-estar e identificar a origem do nutriente que o trouxe até você, já estará no caminho da emancipação.” Você já começou a ser liberado. Precisa apenas de cortar a fonte desses nutrientes para se libertar deles. Poucas semanas depois, você notará a diferença. Nada pode sobreviver sem comida; se você cortar a sua fonte, sua depressão, tristeza ou desespero irão morrer.

Identificando a origem dos nutrientes, você percebe a Segunda Nobre Verdade: samudaya, a criação do mal-estar. Você sabe que o oposto de samudaya – bem-estar – é possível. Sabe que para alcançar bem-estar, precisa cortar a origem dos nutrientes errados e achar os corretos – Visão Correta, Entendimento Correto, Fala Correta, Modo de Vida Correto, Concentração Correta e assim por diante. O Nobre Caminho Óctuplo pode trazer bem-estar e por fim ao mal-estar. O outro caminho é o ignóbil caminho do consumo sem plena consciência. Das Quatro Nobres Verdades, duas falam do mal-estar e da sua criação, enquanto que as outras duas falam do bem-estar e o caminho que leva à restauração. Este é o conteúdo da primeira palestra de Dharma que o recém iluminado Buda ofereceu a cinco monges em Deer Park.

(Do livro “The Path of Emancipation” – Thich Nhat Hanh – traduzido por Leonardo Dobbin)

Vídeo Oficial da Hora do Planeta 2011



A Hora do Planeta, conhecida globalmente como Earth Hour, é uma iniciativa global da Rede WWF para enfrentar as mudanças climáticas.

Durante a Hora do Planeta, pessoas, empresas, comunidades e governo são convidados a apagar suas luzes pelo período de uma hora para mostrar seu apoio ao combate ao aquecimento global.

Em 26 de março de 2011, as 20:30, junte-se a uma comunidade global em uma única voz para deter as mudanças climáticas.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Poema Portal


Por Paulo Wagner Moura

Num horizonte aberto
Faço meu vôo solitário
em meio a tanta gente
que povoa meu coração

nesse horizonte aberto
posso sentir o sabor da brisa
as montanhas, os objetos e o ar
são meu próprio corpo
eu estou neles e eles em mim

e assim, me essencializo
na dança sem fim dos ciclos
para ser toda pedra e toda gente
o igual e o diferente

domingo, 20 de março de 2011

Prática Semanal


Queridos amigos, irmãos e irmãs,

lembramos a todos que nesta semana haverá prática de meditação na Academia Ligia Prieto. Destacamos que as atividades são gratuitas e abertas a todos os interessados. Assim, sejam todos bem-vindos, bienvenidos, welcome, namastê, haribool, gasshô!

3ª feira - Meditação e leitura - 20:00

5ª feira - Grupo de Estudo Sistematizado dos Ensinamentos do Budismo - 20:00

Sábado - Meditação e leitura - 08:00

Recomendamos roupas leves.

Informações:
(65)3052-6634 - Ligia
(65)9202-9925 - Ivan

sábado, 19 de março de 2011

HOME O Mundo é nossa casa (Trailer)



Primeiro filme - 19.03 - VideoFórum Ecologia

Promovido pelo Centro Burnier Fé e Justiça

Informações e inscrição: http://www.centroburnier.com.br/

VIDEOFORUM - A CRISE ECOLÓGICA e o CINEMA


Caos ambiental é foco de filmes que serão exibidos gratuitamente em vídeofórum


PARTICIPE!

O Centro Burnier Fé e Justiça (CBFJ) está promovendo em Cuiabá, com entrada franca, o vídeofórum “Crise Ecológica e Cinema”. Os filmes serão exibidos, gratuitamente, em dois locais e em datas diferentes. Na Igreja de São Benedito, serão cinco sessões, sempre aos sábados, de 19 de março a 16 de abril, às 17 horas. Na paróquia do CPA 1, os filmes serão exibidos durante uma semana corrida, de 21 a 26 de março, às 19 horas. Os filmes tratam, com excelência, da questão ambiental, um problema que se agrava nas cidades e no mundo. Após cada sessão, haverá um debate, orientado por um convidado.


“Surpreende a qualidade dos filmes, que são muito bons”, avalia o padre João Inácio, coordenador do Centro Burnier.


Este videofórum está dentro da proposta dos jesuítas do Centro Burnier de formação para o exercício crítico da cidadania. Ano passado, o mesmo videofórum foi realizado em Várzea Grande. Confira a programação aqui.


O videofórum começa no próximo sábado, com o filme “Home, o mundo é nossa casa”. Também serão exibidos os filmes “A Era da Estupidez”, “Mudanças de Clima, Mudanças de Vida”, “A Carne é Fraca” e “Avatar”.


Aos participantes, será expedido certificado de participação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), de Porto Alegre (RS).


Se você escolhe participar do videofórum que acontecerá na Paróquia Nossa Senhora do Rosário e São Benedito - Centro, faça a sua inscrição clicando aqui.


Se você escolhe particicipar do videofórum que acontecerá na Paróquia Divino Espírito Santo- CPA1, faça a sua inscrição clicando aqui.


Mais informações (65) 3023-2959.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Que é Mente Atenta


Por Thich Nhat Hanh

Nós praticamos mente atenta para realizarmos a liberação, paz e alegria na vida cotidiana. Liberação e felicidade estão ligadas entre si; se há liberação, há felicidade, e quanto maior a liberação, maior a felicidade. Se há liberação, paz e alegria existem no momento presente. Não precisamos esperar quinze anos para realizá-las. Elas estão disponíveis assim que iniciamos a prática. Por mais que estes elementos possam ser modestos, eles formam a base para maior liberação, paz e alegria no futuro.
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Praticar meditação é olhar profundamente a fim de enxergar profundamente a essência das coisas. Com percepção e compreensão, podemos realizar nossa liberação, paz e alegria. A nossa raiva, ansioedade e medo são as cordas que nos amarram ao sofrimento. Se queremos nos libertar delas, devemos observar sua natureza, que é a ignorância, a falta de uma clara compreensão. Quando interpretamos equivocadamente um amigo, podemos sentir raiva dele e, por causa disso, podemos sofrer. Quando olhamos mais profundamente, entretanto, para o que aconteceu, podemos esclarecer a incompreensão. Quando compreendemos a outra pessoa e sua situação, o nosso sofrimento desaparece e a paz e a alegria afloram. O primeiro passo é a consciência do objeto e, o segundo passo é olhar profundamento para o objeto colocado sob a luz. Por consequinte, mente atenta significa consciência e tambám significa olhar profundamente.
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A palavra Pali sati (sânscrito: smrti) significa “parar e manter consciência do objeto” . A palavra Pali vipassana (Sânscrito: vipashyana) significa “penetrar no objeto para observá-lo”. Enquanto estamos completamente cônscios e observando profundamente um objeto, a ligação entre o sujeito que observa e o objeto observado, gradualmente, dissolve-se: sujeito e objeto tornam-se um. Está é a essência da meditação. Somente quando penetramos um objeto e nos tronamos um com ele é que podemos compreender. Não é suficiente ficar do lado de fora e observar o objeto. É por isso que o Sutra Sobre os Quatro Estabelecimentos da Mente Atenta lembra-nos de estarmos conscientes “do corpo no corpo”, “das sensações nas sensações”, “da mente na mente” e “dos objetos da mente nos objetos da mente”.
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O Buda proferiu o Sutra Sobre os Quatro Estabelecimentos da Mente Atenta para uma audiência de monges e monjas. Isso não quer dizer, contudo, que a prática de mente atenta no âmbito dos quatro estabelecimentos seja limita a monjas e monges. Qualquer um pode praticar mente atenta. Se monges e monjas podem praticar mente atenta andando, estando de pé, deitados e sentados, então, leigos e leigas também podem. Há alguém que não ande, fique em pé, deite e sente diariamente? O mais importante é entender a base fundamental da prática e aplicá-la na vida cotidiana, mesmo que nossas vidas sejam diferentes do modo como Buda e seus monges e monjas viviam a vinte e cinco séculos.
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Ao lermos o Sutra Sobre os Quatro Estabelecimentos da Mente Atenta, devemos ter o olhar de uma pessoa de hoje e descobrir meios apropriados de praticar baseados nos ensinamentos do Sutra.
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Mente atenta é sempre mente atenta a algo. Há quatro áreas de mente atenta, quatro áreas onde a mente atenta deve penetrar a fim de sermos protegidos, nutrirmos alegria, transformarmos a dor e para que a visão possa ser obtida. Esses quatro estabelecimentos, ou fundamentos, são: corpo, sensações, mente e objetos da mente.
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O Primeiro Estabelecimento é o estabelecimento da mente atenta ao corpo no corpo. Isso significa que quando você conduz a mente atenta para o seu corpo, a mente se torna o corpo. A mente atenta não é o observador externo. Ela se torna o corpo e o corpo se torna mente atenta. Quando a mãe abraça a criança ela se torna a criança, e a criança se torna a mãe. Na verdadeira meditação, o sujeito e o objeto da meditação não existem mais com entidades separadas; tal distinção é removida quando você gera energia da mente atenta e abraça a sua respiração e seu corpo, isso é a mente atenta ao corpo no corpo. A mente atenta não é um observador externo, ela é o corpo. O corpo torna-se objeto e o sujeito da mente atenta ao mesmo tempo.
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É como quando cientistas nucleares dizem que, para entender uma partícula elementar e realmente entrar no mundo do infinitamente pequeno, você precisa tornar-se um participante e não mais um mero observador. Na Índia, eles usam o exemplo do grão de sal que deseja saber quão salgado é o oceano. Como pode um grão de sal vir a saber isso? O único modo é pular dentro do oceano... assim o entendimento será completo; a separação entre o objeto do conhecimento e o sujeito do conhecimento não mais existe. Atualmente, os cientistas nucleares começaram a perceber isso. É por tal razão que eles dizem que, para realmente entender o mundo da partícula elementar, você tem de deixar de ser um observador para tornar-se um participante.
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O Segundo Estabelecimento da Mente Atenta diz respeito às sensações. O Terceiro Estabelecimento da Mente Atenta diz respeito à mente, mais exatamente às formações mentais. No Sutra Sobre a Plena Consciência da Respiração, o Buda nos oferece quatro exercícios respiratórios para tomar conta de cada um destes campos da nossa mente atenta.
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O Quarto Estabelecimento da Mente Atenta é o reino da percepção. No sutra, isso é referido como sendo “os objetos da mente”, mas podemos entender isso como percepção. O Buda também propôs quatro exercícios respiratórios conscientes para a contemplação dos objetos da mente nos objetos da mente, de modo que possamos penetrar, abraçar e olhar profundamente para dentro do objeto da nossa percepção. Realizar isso nos dá a visão que irá nos libertar da nossa ilusão e do nosso sofrimento.
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Montanhas, rios, pássaros, o céu azul, casas, fontes, crianças, animais – tudo é o objeto da nossa percepção. E nós temos quatro exercícios de respiração consciente a fim de auxiliar-nos a inquirir sobre a verdadeira natureza de todas estas coisas, incluindo a nós mesmos. O corpo também é um objeto da mente, assim com os sentimentos e as formações mentais. Sempre podemos inquirir a cerca da natureza do nosso corpo, dos nossos sentimentos ou da nossa mente, assim como sobre nossa percepção e outras coisas. Se olhamos profundamente para o corpo no corpo, ele se torna um objeto da mente. Quando estamos olhando os sentimentos, então eles são objeto da mente. Quando estamos observando a mente, ele se torna o objeto da mente. Todos os estabelecimentos da mente atenta são de fato, objetos da mente.
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Um monge, certa vez perguntu-me como a mente pode ser um objeto da mente. Eu disse que se tomarmos os nossos dois dedos e esfregarmos um contra o outro, então o corpo estará em contato com o corpo. Com a mente ocorre o mesmo. Quando olhamos dentro do nosso corpo, nosso corpo é o objeto da nossa mente. Quando olhamos dentro da forma a forma é objeto da mente. Quando olhamos dentro das formações mentais, elas são objeto da mente. Assim podemos ver que o campo de objetos da mente é muito vasto. A divisão, porém, em quatro estabelecimentos é uma ferramenta conveniente para ajudar-nos a aprender como praticar a mente atenta.
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Se você aspira ao estudo da meditação, este Sutra sobre os Quatro Estabelecimentos da Mente Atenta é parte da sua formação. Este é um dos Sutras que você mantém sob o seu travesseiro, sempre com você.
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Extraído do livro Transformação e Cura; escrito por Thich Nhat Hanh, editora Bodigaya.

quinta-feira, 17 de março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

Amongst White Clouds (Entre Nubes Blancas)


Entre Nuvens Brancas é um documentário sobre a relação entre estudantes e mestres que vivem em refúgio em meio a serra de Zhongnan na China. Uma viajem formidável a tradição oculta dos monges eremitas do budismo chines. Estas montanhas possuem a fama de terem sido a casa de ermitões desde a época do Imperador Amarillo, cerca de cinco mil anos atrás.

domingo, 13 de março de 2011

Interser


Por Thich Nhat Hanh
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"Se você for poeta, verá nitidamente uma nuvem passeando nesta folha de papel. Sem a nuvem, não há chuva. Sem a chuva, as árvores não crescem. Sem as árvores, não se pode produzir este papel. A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não está aqui, a folha de papel também não está. Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel intersão.
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Interser é uma palavra que ainda não se encontra no dicionário, mas se combinarmos o radical inter com o verbo ser, teremos um novo verbo: interser. Se examinarmos esta folha com maior profundidade, poderemos ver nela o sol. Sem o sol, não há floresta. Na verdade, sem o sol não há vida. Sabemos, assim, que o sol também está nesta folha de papel. O papel e o sol intersão.
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E se prosseguirmos em nosso exame, veremos o lenhador que cortou a árvore e a levou à fábrica para ser transformada em papel. E vemos o trigo. Sabemos que o lenhador não pode existir sem seu pão de cada dia. Portanto o trigo que se transforma em pão também está nesta folha de papel. O pai e a mãe do lenhador também estão aqui. Quando olhamos desta forma, vemos que, sem todas estas coisas, esta folha de papel não teria condições de existir.
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Ao olharmos ainda mais fundo, vemos também a nós mesmos nesta folha de papel. Isso não é difícil porque, quando observamos algum objeto, ele faz parte de nossa percepção. Sua mente está aqui, assim como a minha. É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel. Não conseguimos indicar uma coisa que não esteja nela- o tempo, o espaço, o sol, a nuvem, o rio, o calor. Tudo coexiste nesta folha de papel.
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É por isso que para mim a palavra interser deveria ser dicionarizada. Ser é interser. Não podemos simplesmente ser sozinhos e isolados. Temos de interser com tudo o mais. Esta folha de papel é, porque tudo o mais é. Imagine que tentemos devolver um dos elementos à sua origem. Imagine tentarmos devolver a luz do sol ao sol.
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Você acha que a folha de papel ainda seria possível? Não, sem o sol, nada pode existir. Se devolvermos o lenhador a sua mãe, tampouco teremos a folha de papel. O fato é que esta folha de papel é composta apenas de elementos não papel. Se devolvermos estes elementos a suas origens, não haverá papel algum. Sem estes elementos não papel, como a mente, o lenhador, o sol e assim por diante, não haverá papel. Por mais fina que esta folha seja, tudo o que há no universo está nela.”
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Thich Nhat Hanh
Extraído do livro Paz a cada passo: como manter a mente desperta em seu dia-a-dia